Talmud Bavli · Massechet Shabbat · Perek Alef
אִסְקוּפָּה מְשַׁמֶּשֶׁת שְׁתֵּי רְשׁוּיוֹת

A conclusão da objeção a Rava a partir do objeto que pousa na soleira, a opinião de Acherim sobre a soleira que serve dois domínios, a exigência de Rav Chama bar Guria de um poste lateral próprio, as explicações de Rav Yehuda e Rav Ashi, e a soleira alta dez e larga quatro como domínio próprio

Shabbat 9a — a resposta que fecha a objeção a Rava (o objeto pousou na soleira, não no ar), a baraita de Acherim sobre a soleira que serve como dentro quando a porta está aberta e como fora quando está trancada, a dificuldade de Rav Chama bar Guria sobre a necessidade de um poste lateral próprio dentro da porta mesmo sem quatro por quatro, as duas resoluções sucessivas de Rav Yehuda (soleira de beco) e Rav Ashi (soleira de casa, com duas vigas), e a conclusão de que a soleira alta dez tefachim e larga quatro é domínio por si só — confirmada pelo ensinamento de Rabi Meir sobre a coluna no domínio privado e o decreto por causa do monte no domínio público.

O daf abre concluindo a objeção a Rava deixada em aberto ao final de 8b: alguém poderia objetar que, segundo a regra de Rava sobre quem transporta um objeto no domínio público de início a fim de quatro amot, mesmo passando por cima da soleira ele deveria ser responsável — mas a Guemará responde que ali o objeto pousou (nach) sobre a soleira, na mão de quem está de pé ali, e não apenas passou pelo ar sobre um lugar isento sem pousar, distinguindo os dois casos. Em seguida, a Guemará cita a opinião de Acherim: a soleira serve dois domínios — quando a porta está aberta, é como dentro de casa (domínio privado); quando está trancada, é como fora (domínio público). A Guemará questiona essa baraita a partir do ensinamento de Rav Chama bar Guria em nome de Rav, de que o espaço dentro da porta de um beco precisa de um poste lateral (lechi) próprio para ser permitido — mesmo quando não tem quatro por quatro tefachim de largura — e propõe duas resoluções sucessivas: Rav Yehuda explica que se trata da soleira de um beco cujo teto cobre apenas a metade interna; Rav Ashi explica, de modo mais abrangente, que se trata da soleira de uma casa comum, coberta por duas vigas separadas, cada uma com menos de quatro tefachim e menos de três tefachim de distância entre si, com a porta batendo no meio. O daf fecha estabelecendo que, se a soleira for alta dez tefachim e larga quatro, ela é domínio por si só — nem privado nem público —, o que é corroborado pelo ensinamento de Rabi Meir (transmitido por Rav Yitzchak bar Avdimi): onde quer que se encontrem dois domínios que na prática funcionam como um só, como uma coluna no domínio privado alta dez e larga quatro, é proibido descarregar cargas sobre ela a partir do domínio público, por decreto, por causa do monte que se encontra no domínio público.

A conclusão da objeção a Rava · לָא נָח, הָכָא נָח

01A objeção: quem passa por cima dela é responsável — mas ali o objeto não pousou, e aqui pousou
A Guemará
דֶּרֶךְ עָלָיו, חַיָּיב! הָתָם לָא נָח, הָכָא נָח.

"(Quem o transporta) por cima dela (a soleira, no domínio público, de início a fim de quatro amot) é responsável!" (Responde a Guemará:) ali (no caso de Rava, o objeto) não pousou (sobre o lugar isento no caminho); aqui (no caso do intermediário na soleira, o objeto) pousou.

Nota

O daf abre no meio da objeção iniciada ao final de 8b. Alguém havia proposto que a regra do intermediário na soleira (que recebe do dono da casa e do pobre, permanecendo isento mesmo se os objetos passarem apenas pelo lugar isento da soleira, sem pousar de fato) contradiria a posição de Rava, segundo a qual quem transporta um objeto inteiramente dentro do domínio público — do início de quatro amot até o final de quatro amot — é responsável mesmo que, no caminho, o objeto tenha passado por cima de um lugar isento, contanto que não tenha pousado ali. A objeção dizia: se o objeto simplesmente passa por cima da soleira (lugar isento) sem pousar, segundo Rava a pessoa ainda seria responsável, pois nunca houve verdadeira "retirada" (akirá) do lugar isento. A Guemará resolve a dificuldade distinguindo os dois casos: no caso de Rava, o objeto nunca pousa sobre o lugar isento — apenas passa por cima dele no ar, a caminho de outro ponto do próprio domínio público; já no caso do intermediário na soleira, o objeto efetivamente pousa ali, na mão da pessoa que está de pé sobre o lugar isento, constituindo uma verdadeira deposição (hanachá) e retirada dali. Por isso, não há contradição entre as duas regras.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "por cima dela", "responsável", "ali não pousou" e "aqui pousou"
דרך עליו - שהגביהו למעלה מי' דלא שליט ביה אויר רה"ר והוי מקום פטור:

"Por cima dela" — que (a pessoa) o ergueu acima de dez (tefachim), de modo que o ar do domínio público não domina ali, sendo (aquele espaço) um lugar isento.

חייב - כי הדר אנחיה ואע"ג דדרך מקום פטור אזל:

"É responsável" — quando (a pessoa) volta a depositá-lo (no domínio público, ao final de quatro amot), ainda que (o objeto) tenha passado por um lugar isento no caminho.

לא נח - במקום פטור והויא ליה עקירה מרה"ר והנחה ברה"ר:

"Ali não pousou" — no lugar isento; e há, portanto, retirada do domínio público e deposição no domínio público (sem que o lugar isento intervenha de fato).

הכא נח - במקום פטור ביד העומד על האסקופה:

"Aqui pousou" — no lugar isento, na mão de quem está de pé sobre a soleira.

A soleira que serve dois domínios · מְשַׁמֶּשֶׁת שְׁתֵּי רְשׁוּיוֹת

02Acherim: quando a porta está aberta, a soleira é como dentro; quando trancada, como fora
Acherim
אֲחֵרִים אוֹמְרִים: אִסְקוּפָּה מְשַׁמֶּשֶׁת שְׁתֵּי רְשׁוּיוֹת: בִּזְמַן שֶׁהַפֶּתַח פָּתוּחַ — כְּלִפְנִים. פֶּתַח נָעוּל — כְּלַחוּץ.

Acherim (Outros) dizem: a soleira serve (a) dois domínios: no momento em que a porta está aberta — (a soleira é considerada) como (estando) dentro; (quando) a porta está trancada — como (estando) fora.

Nota

A Guemará traz agora uma baraita paralela, transmitida em nome de Acherim ("Outros" — designação para Rabi Meir, segundo Rashi, conforme se explicará adiante), que apresenta uma visão diferente sobre a natureza da soleira: em vez de ser sempre um lugar isento fixo, ela muda de estatuto conforme o estado da porta. Quando a porta da casa está aberta, a soleira se anexa ao domínio privado da casa, sendo tratada "como dentro"; quando a porta está trancada, a soleira se anexa ao domínio público externo, sendo tratada "como fora". A Guemará examinará essa opinião à luz de outra regra sobre postes laterais (lechi) de becos.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "quando a porta está aberta, etc."
פתח פתוח כו' - קס"ד במבוי שהכשירו בלחי ולחיו לפנים מן האסקופה והיינו דקא מתמה ואע"ג דלית ליה לחי מבחוץ והא אמר רב חמא כו':

"Quando a porta está aberta, etc." — pensa-se (a princípio que se trata) de um beco que foi habilitado por meio de um poste lateral (lechi), e seu poste lateral está para dentro da soleira; e é isso que (a Guemará) questiona: ainda que não tenha poste lateral por fora, e eis que disse Rav Chama, etc.

03A dificuldade: mas não tem poste lateral! E Rav Chama bar Guria disse que dentro da porta é necessário outro poste para permiti-lo
A Guemará; Rav Chama bar Guria; Rav
וְאַף עַל גַּב דְּלֵית לֵיהּ לֶחִי?! וְהָאָמַר רַב חָמָא בַּר גּוּרְיָא אָמַר רַב: תּוֹךְ הַפֶּתַח צָרִיךְ לֶחִי אַחֵר לְהַתִּירוֹ!

Mas (como pode a soleira ser "como dentro" quando a porta está aberta), ainda que (o beco) não tenha poste lateral (por fora, junto à soleira)?! Eis que disse Rav Chama bar Guria, disse Rav: dentro da porta, é necessário outro poste lateral para permiti-lo!

Nota

A Guemará levanta uma dificuldade contra a baraita de Acherim, entendida inicialmente como referindo-se à soleira de um beco habilitado por um poste lateral (lechi) colocado para dentro da soleira (isto é, mais próximo do interior do beco, não junto à abertura externa). Rav Chama bar Guria, em nome de Rav, havia ensinado que o espaço dentro da porta de um beco — correspondente à largura da própria soleira — precisa de um poste lateral adicional, próprio, para ser permitido para uso; não basta o poste lateral que já habilita o beco como um todo, situado mais para dentro. Isso pareceria contradizer a ideia de que a soleira, quando a porta está aberta, seria simplesmente "como dentro" (parte do domínio privado do beco), sem necessidade de nenhuma habilitação adicional.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "dentro da porta" e "é necessário outro poste lateral para permiti-lo"
תוך הפתח - של מבוי דהיינו רחב האסקופה:

"Dentro da porta" — do beco, isto é, a largura da soleira.

צריך לחי אחר להתירו - שהלחי המתיר את המבוי סתמיה נגד האסקופה וזקוף עליה וקסבר אסור להשתמש נגד הלחי אלא מחודו הפנימי ולפנים הוי היכר המחיצה:

"É necessário outro poste lateral para permiti-lo" — pois o poste lateral que permite o beco, em geral, (está) diante da soleira, e ereto junto a ela; e (Rav Chama bar Guria) entende que é proibido usar (o espaço) diante do poste lateral, senão a partir de sua ponta interna e para dentro — (pois é essa ponta interna que) constitui o sinal da divisória.

04E se dirias que não tem quatro por quatro? Ainda assim, mesmo sem essa medida, precisa de outro poste
A Guemará; Rav Chama bar Guria; Rav
וְכִי תֵימָא דְּלֵית בֵּיהּ אַרְבָּעָה עַל אַרְבָּעָה — וְהָאָמַר רַב חָמָא בַּר גּוּרְיָא אָמַר רַב: תּוֹךְ הַפֶּתַח, אַף עַל פִּי שֶׁאֵין בּוֹ אַרְבָּעָה עַל אַרְבָּעָה, צָרִיךְ לֶחִי אַחֵר לְהַתִּירוֹ!

E se dirias que (esse espaço dentro da porta) não tem quatro por quatro (tefachim, e por isso não seria domínio distinto que precisasse de habilitação própria) — eis que disse Rav Chama bar Guria, disse Rav: dentro da porta, ainda que não tenha quatro por quatro, é necessário outro poste lateral para permiti-lo!

Nota

A Guemará antecipa e refuta uma possível defesa: talvez o espaço "dentro da porta" mencionado por Rav Chama bar Guria não tivesse a medida mínima de quatro tefachim por quatro tefachim, sendo por isso irrelevante à discussão sobre a soleira (que, na leitura em curso, também poderia carecer dessa medida). Mas a própria formulação de Rav Chama bar Guria já antecipa e descarta essa distinção: mesmo quando esse espaço não tem quatro por quatro, ainda assim é necessário um poste lateral adicional para permiti-lo — contrariando a ideia de que a soleira, aberta a porta, seria automaticamente "como dentro" sem necessidade de qualquer habilitação.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "e se dirias que não tem largura de quatro"
וכ"ת דלית ביה רחב ד' - במשך עובי החומה לפיכך אינה רשות לעצמה ומותר להשתמש כנגד הלחי מחודו החיצון שהוא שוה לאסקופה אצל רה"ר ואין לך לחי גדול מעובי החומה שמכאן ומכאן שבהם המבוי ניתר:

"E se dirias que não tem largura de quatro" — ao longo da espessura da parede, e por isso não é domínio por si só, sendo permitido usar diante do poste lateral a partir de sua ponta externa, que é rente à soleira, junto ao domínio público — pois não há poste lateral maior que a espessura da parede (que forma o vão) de um lado e de outro, pelos quais o beco é habilitado.

05Rav Yehuda resolve: trata-se da soleira de um beco, coberta apenas até a metade interna
Rav Yehuda; Rav
אָמַר רַב יְהוּדָה אָמַר רַב: הָכָא בְּאִיסְקוּפַּת מָבוֹי עָסְקִינַן, חֶצְיוֹ מְקוֹרֶה וְחֶצְיוֹ שֶׁאֵינוֹ מְקוֹרֶה, וְקֵירוּיוֹ כְּלַפֵּי פְנִים. פֶּתַח פָּתוּחַ, כְּלִפְנִים. פֶּתַח נָעוּל, כְּלַחוּץ.

Disse Rav Yehuda, disse Rav: aqui (nesta baraita de Acherim) tratamos da soleira de um beco, (cuja) metade é coberta e (cuja) metade não é coberta, e sua cobertura (está voltada) para dentro. (Quando) a porta está aberta — (a soleira é considerada) como (estando) dentro. (Quando) a porta está trancada — como (estando) fora.

Nota

Rav Yehuda, em nome de Rav, resolve a dificuldade explicando que a baraita de Acherim não trata de um beco habilitado por poste lateral (lechi), mas por viga (korá) — cuja medida mínima de largura é um tefach. Como a soleira e a espessura da porta costumam ser mais largas que isso, a viga cobre apenas a metade interna da espessura da porta (voltada para dentro do beco), deixando a metade externa (voltada para o domínio público) descoberta. Assim: quando a porta está aberta, a parte coberta da soleira (a partir da ponta externa da viga para dentro) é tratada como domínio privado, "como dentro" — pois há uma cobertura reconhecível que serve de divisória; quando a porta está trancada, encostando-se contra a parte interna da soleira, a cobertura da viga perde sua função de divisória (pois o beco já está fisicamente fechado pela própria porta), e toda a soleira do lado de fora da porta é tratada "como fora", equiparada ao domínio público.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "aqui tratamos da soleira de um beco" e "porta trancada"
הכא באסקופת מבוי עסקינן - כדקאמרת אבל לא במבוי שהכשרו בלחי אלא במבוי שהכשרו בקורה וקורת המבוי שיעור רחבה טפח בפ"ק דעירובין (דף יג:) והאסקופה ועובי הפתח מסתמא רחבים הם נמצא חציו של עובי הפתח מקורה וחציו אינו מקורה וכגון שהניח הקורה כלפי פנים לצד המבוי הלכך פתח פתוח כלפנים מחוד החיצון של קורה ולפנים וסבר לה כמ"ד מותר להשתמש תחת הקורה או משום טעם ההיכרא מלבר כדמפרש פלוגתייהו בעירובין (דף ח:) אי משום דקורה משום מחיצה דאמרינן חודה החיצון יורד וסותם:

"Aqui tratamos da soleira de um beco" — como disseste, mas não de um beco habilitado por poste lateral, senão de um beco habilitado por viga; e a medida da largura da viga do beco é um tefach, (conforme ensinado) no primeiro capítulo de Eruvin (13b). E a soleira e a espessura da porta, presumivelmente, são largas; constata-se, pois, que a metade da espessura da porta é coberta, e a metade não é coberta — quando (a pessoa) colocou a viga voltada para dentro, do lado do beco. Por isso, (quando) a porta (está) aberta, (a soleira é) como dentro, a partir da ponta externa da viga e para dentro; e (Rav segue) a opinião de quem diz que é permitido usar sob a viga, ou por causa da razão do sinal (reconhecível) por fora — conforme se explica sua disputa em Eruvin (8b) — se (a permissão da viga se dá) porque a viga serve de divisória, pois se diz (que) sua ponta externa desce e fecha.

פתח נעול - והדלת שוקף בפני האסקופה הפנימית וכל האסקופה חוץ לדלת כלחוץ ואפילו תחת הקורה דכיון דנסתם המבוי בטלה לה קורה וליכא למימר יורד וסותם דכל מחיצה שאין בין חלל המחיצות ד' אינן מחיצות ולא שייכא בהו תורת גוד אחית ולהכי לא אוקמא באסקופת בית דסתם בית פתח שלו יש לו משקוף מלמעלה ונמצא עובי הפתח כולו מקורה ואפילו פתח נעול אמרינן יורד וסותם שהרי יש בחלל עביו ד' מן הדלת לסתימת פי התקרה וה"ה דמצי לאוקמא כולו מקורה אלא שאין ברחב עביו ד' אלא משום דסתם עובי החומה אינו פחות מד':

"Porta trancada" — e a porta bate diante da soleira interna, e toda a soleira do lado de fora da porta é (tratada) como fora, mesmo sob a viga — pois, uma vez que o beco está fechado, a viga perde sua função, e não se pode dizer (que) "desce e fecha", pois toda divisória em que não há quatro (tefachim) entre o espaço vazio das divisórias não são divisórias, e não se aplica a elas a regra de gud achit (estender para baixo). E por isso (a Guemará) não a estabeleceu como soleira de casa, pois a porta de uma casa comum tem uma verga por cima, e constata-se que a espessura toda da porta é coberta; e mesmo com a porta trancada, dizemos "desce e fecha", pois há no espaço vazio de sua espessura quatro (tefachim), da porta até o fechamento da boca do teto. E o mesmo se poderia estabelecer (o caso) como totalmente coberto, senão que não há em sua largura de espessura quatro (tefachim, no caso do beco), pois a espessura comum da parede não é menor que quatro.

06Rav Ashi resolve de outro modo: soleira de casa, coberta por duas vigas, com a porta batendo no meio
Rav Ashi
רַב אָשֵׁי אָמַר: לְעוֹלָם בְּאִיסְקוּפַּת בַּיִת עָסְקִינַן, וּכְגוֹן שֶׁקֵּירָהּ בִּשְׁתֵּי קוֹרוֹת שֶׁאֵין בָּזוֹ אַרְבָּעָה וְאֵין בָּזוֹ אַרְבָּעָה, וְאֵין בֵּין זוֹ לָזוֹ שְׁלֹשָׁה, וְדֶלֶת בָּאֶמְצַע. פֶּתַח פָּתוּחַ, כְּלִפְנִים. פֶּתַח נָעוּל, כְּלַחוּץ.

Rav Ashi disse: na verdade, tratamos da soleira de uma casa (comum), e por exemplo, quando (a pessoa) a cobriu com duas vigas, (de modo que) não há nesta quatro (tefachim), e não há naquela quatro (tefachim), e não há entre esta e aquela três (tefachim de distância), e a porta (bate) no meio. (Quando) a porta está aberta — (a soleira é considerada) como (estando) dentro. (Quando) a porta está trancada — como (estando) fora.

Nota

Rav Ashi propõe uma segunda resolução, mais geral, que dispensa a distinção entre beco e casa: trata-se, na verdade, da soleira comum de uma casa qualquer, mas coberta de um modo peculiar — não por uma única viga contínua e larga (que teria pelo menos quatro tefachim, tornando toda a espessura da porta coberta e, portanto, sempre "dentro" mesmo com a porta trancada, pela regra de gud achit), mas por duas vigas distintas, cada uma com menos de quatro tefachim de largura, e com menos de três tefachim de distância entre elas — de modo que, unidas pelo princípio de lavud (considerar contínuo o que está a menos de três tefachim de distância), formam juntas uma cobertura válida enquanto a porta está aberta. A porta bate exatamente no meio, entre as duas vigas: quando aberta, a soleira toda (unificada por lavud) é tratada como coberta e "como dentro"; quando trancada, a porta, situada no meio, separa fisicamente as duas metades, de modo que já não se pode aplicar lavud entre elas — e a parte externa da soleira, isolada da parte coberta pela viga interna, passa a ser tratada "como fora".

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "soleira de casa" e "porta trancada, como fora"
באסקופת בית - שכולו פתח מקורה והיינו טעמא דפתח נעול כלחוץ כגון שקירה עובי הפתח בשתי קורות דאילו תקרה שיש בה ד' אמרינן בה יורד וסותם ותו לא אתי נעילת דלת ומבטל למחיצה ואפילו הוא שוקף באמצעיתו דלא דמי למבוי דקורת מבוי קצרה היא ולא הוכשרה אלא למבוי הלכך פתח נעול בטלה מתורת קורה דהא אזל ליה מבוי אבל תקרת ד' לא בטלה ירידת סתימתה בנעילת דלת דהלמ"מ מסיני הוא גוד ולבוד ודופן עקומה במקום ד' והכא טעמא משום דשתי קורות הוו שאין בזו ארבע ולא בזו ארבע ולא ביניהן ג' והדלת מתוקן להיות נועל באמצע הלכך פתח פתוח כלפנים דכיון דאין ביניהם ג' אמרינן לבוד והוי כחדא ופיה החיצון יורד וסותם דהא השתא אית בה ד':

"Soleira de casa" — (cuja) porta toda é coberta; e esta é a razão pela qual, com a porta trancada, (a soleira é tratada) como fora — por exemplo, quando (a pessoa) cobriu a espessura da porta com duas vigas; pois, se fosse um teto que tem quatro (tefachim, de uma peça só), diríamos a seu respeito "desce e fecha", e o trancar da porta não viria a anular a divisória, ainda que (a porta) bata no meio dela — pois (esse teto) não se parece com o de um beco, cuja viga é curta e não foi habilitada senão para o beco; por isso, com a porta trancada, (a permissão) se anularia da lei da viga, pois o beco (perderia sua habilitação, já que) se foi. Mas um teto de quatro (tefachim, contínuo) não tem sua descida de fechamento anulada pelo trancar da porta, pois é lei recebida de Moisés no Sinai gud e lavud e dofen akumá (parede curva) quando há quatro (tefachim de teto). E aqui a razão é porque há duas vigas, (sendo que) não há nesta quatro, nem naquela quatro, nem entre elas três, e a porta está feita para trancar no meio; por isso, (com) a porta aberta, (a soleira é tratada) como dentro — pois, uma vez que não há entre elas três (tefachim), dizemos lavud, e (as duas vigas) são como uma só, e sua ponta externa desce e fecha, pois agora há nela (a medida de) quatro.

פתח נעול כלחוץ - כיון דבאמצע הוא נמצא הוא מפסיק ביניהן ומחלקן זו מזו שאינן נראות יחד לומר בהן לבוד וליכא למימר בחיצונה פיה יורד וסותם דהא לית בה ד':

"Porta trancada, como fora" — uma vez que (a porta bate) no meio, constata-se que ela separa entre elas (as duas vigas) e as divide uma da outra, de modo que não se veem juntas para dizer a seu respeito lavud; e não se pode dizer, quanto à (viga) externa, que sua ponta desce e fecha — pois não há nela (a medida de) quatro.

A soleira alta dez e larga quatro é domínio próprio · רְשׁוּת לְעַצְמָהּ

07Conclusão: a soleira alta dez e larga quatro é domínio por si só — apoiada pelo ensinamento de Rabi Meir sobre a coluna e o decreto por causa do monte
A baraita; Rav Yitzchak bar Avdimi; Rabi Meir
וְאִם הָיְתָה אִיסְקוּפָּה גְּבוֹהָה עֲשָׂרָה וּרְחָבָה אַרְבָּעָה, הֲרֵי זוֹ רְשׁוּת לְעַצְמָהּ. מְסַיַּיע לֵיהּ לְרַב יִצְחָק בַּר אַבְדִּימִי. דְּאָמַר רַב יִצְחָק בַּר אַבְדִּימִי אוֹמֵר הָיָה רַבִּי מֵאִיר: כׇּל מָקוֹם שֶׁאַתָּה מוֹצֵא שְׁתֵּי רְשׁוּיוֹת וְהֵן רְשׁוּת אַחַת, כְּגוֹן עַמּוּד בִּרְשׁוּת הַיָּחִיד גָּבוֹהַּ עֲשָׂרָה וְרָחָב אַרְבָּעָה — אָסוּר לְכַתֵּף עָלָיו. גְּזֵירָה מִשּׁוּם תֵּל בִּרְשׁוּת הָרַבִּים.

E se a soleira era alta dez (tefachim) e larga quatro, eis que ela é domínio por si só. Isso apoia (a opinião de) Rav Yitzchak bar Avdimi. Pois disse Rav Yitzchak bar Avdimi: Rabi Meir costumava dizer: todo lugar em que encontras dois domínios, e eles (na prática funcionam como) um só domínio — por exemplo, uma coluna no domínio privado, alta dez (tefachim) e larga quatro — é proibido descarregar (cargas dos ombros) sobre ela (a partir do domínio público); (é) decreto por causa do monte no domínio público.

Nota

A baraita conclui a discussão sobre a soleira com uma ressalva final: caso a soleira tenha, de fato, dez tefachim de altura e quatro tefachim de largura — as medidas plenas de um domínio próprio —, ela deixa de ser tratada conforme o estado da porta (aberta ou trancada) e passa a ser, ela mesma, um domínio independente, distinto tanto do domínio privado da casa quanto do domínio público da rua; não se pode transportar objetos livremente entre ela e qualquer um dos dois outros domínios. A Guemará nota que essa conclusão apoia o ensinamento transmitido por Rav Yitzchak bar Avdimi em nome de Rabi Meir: sempre que dois domínios (aqui, a soleira e a casa, ou a soleira e a rua) coincidem na prática — porque um deles tem as medidas de domínio próprio dentro do território do outro —, os Sábios proibiram usá-lo livremente, ainda que tecnicamente permitido, por decreto derivado do caso de uma coluna alta dez e larga quatro situada dentro do domínio privado: seria permitido, em princípio, descarregar cargas dos ombros sobre essa coluna vindo do domínio privado ao redor (pois ambos são domínio privado), mas os Sábios proibiram fazê-lo a partir do domínio público, por temor de que isso levasse a confundir esse caso com o de um monte real de dez tefachim de altura situado no meio do domínio público — que, tendo essas medidas, é genuíno domínio privado, e do qual não se pode descarregar cargas trazidas do domínio público sem verdadeira violação bíblica.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "domínio por si só", "Outros", "e eles são um só domínio" e "por causa do monte no domínio público"
רשות לעצמה - ואין מטלטלין בה אפילו מן הבית ואף על גב דשניהם רה"י:

"Domínio por si só" — e não se transporta (objetos) para dentro dela, mesmo a partir da casa, ainda que ambos (a soleira e a casa) sejam domínio privado.

ואם היתה אסקופה גבוהה י' כו' - סיפא דמילתא דאחרים דברייתא דלעיל והדר נקיט לה לפרושה כמו אמר מר:

"E se a soleira era alta dez, etc." — (esta é) a cláusula final do ensinamento de Acherim, da baraita (citada) acima; e (a Guemará) volta a tomá-la para explicá-la, como (fez com) "disse o Mestre".

אומר היה ר"מ - דהוא אחרים כדאמרינן בהוריות:

"Costumava dizer Rabi Meir" — pois ele é Acherim, conforme dizemos em Horayot.

והן רשות אחת - דשניהן רה"י אלא שזה נמוך וזה גבוה:

"E eles são um só domínio" — pois ambos são domínio privado, senão que um é baixo e o outro é alto.

כגון עמוד ברה"י כו' - אסור לכתף עליו מן החצר:

"Por exemplo, uma coluna no domínio privado, etc." — é proibido descarregar (cargas) sobre ela a partir do pátio.

משום תל ברה"ר - גבוה י' ורחב ד' דהוי רשות היחיד דאיכא חיובא דאורייתא מרשות הרבים לכתף עליו:

"Por causa do monte no domínio público" — alto dez (tefachim) e largo quatro, que é domínio privado, (caso) em que há responsabilidade bíblica por descarregar sobre ele a partir do domínio público.