94b abre completando, sem qualquer interrupção, a frase deixada suspensa no fim de 94a: a isenção de Rabi Shimon, quanto a quem transporta um morto sobre uma cama, estende-se também a quem o transporta para sepultá-lo. Rava acrescenta que Rabi Shimon concorda que quem transporta uma enxada para escavar com ela, ou um rolo da Torá para ler nele, é responsável — o que parece óbvio, pois esse é exatamente um trabalho necessário para o seu próprio fim; a novidade é que basta um único uso, e não é preciso que o objeto sirva a dois propósitos ao mesmo tempo, como fazer da enxada uma lâmina e também escavar com ela. A Guemará relata então o caso de um cadáver na cidade de Drokeret, que Rav Nachman bar Yitzchak permitiu transportar para uma carmelit; questionado por Rabi Yochanan, irmão de Mar filho de Rabana, sobre se essa permissão dependeria da opinião discutida de Rabi Shimon, Rav Nachman bar Yitzchak responde que ela vale mesmo segundo Rabi Yehuda, pois nunca se tratou do domínio público, e que, quanto a uma proibição meramente rabínica, grande é a honra das criaturas, que afasta até mesmo um "não farás" da Torá. A Guemará recorda então uma Mishná de outro lugar sobre quem arranca sinais de impureza de lepra, e traz a disputa entre Rav Nachman e Rav Sheshet sobre quem arranca um pelo de três pelos brancos: Rav Nachman responsabiliza, pois o ato foi eficaz, aproximando a purificação; Rav Sheshet isenta, pois a impureza permanece intacta mesmo depois do ato. Rav Sheshet traz então uma prova para sua posição a partir da Mishná de 93b sobre a azeitona de um morto, contra uma baraita aparentemente contraditória sobre a meia-azeitona — resolvida distinguindo-se se a meia-azeitona foi retirada de uma azeitona inteira ou de uma azeitona e meia; Rav Nachman propõe uma resolução diferente, distinguindo antes se o morto do qual se retirou a meia-azeitona era pequeno ou grande. Encerrada essa questão, chega uma nova Mishná: quem corta as próprias unhas, uma com a outra ou com os dentes, e do mesmo modo quem arranca o cabelo, o bigode ou a barba, e do mesmo modo a mulher que trança o cabelo, pinta os olhos de azul ou talha o rosto — Rabi Eliezer responsabiliza por uma oferenda pelo pecado, e os Sábios proíbem apenas por decreto rabínico. A Guemará traz duas precisões de Rabi Elazar: a disputa vale apenas para quem corta com a mão, pois com um utensílio todos concordam que há responsabilidade; e vale apenas para quem corta as próprias unhas, pois, para as do próximo, todos concordam que é isento. Segue-se a medida do cabelo — o suficiente para encher a boca da tesoura, que Rav Yehuda fixa em dois pelos, igualada à medida da calvície proibida pela Torá; uma baraita paralela acrescenta que Rabi Eliezer responsabiliza já por um só pelo, e que os Sábios concordam com ele quanto a quem arranca pelos brancos dentre pretos, prática proibida ao homem mesmo em dia de semana, por vestir-se como mulher. Rabi Shimon ben Elazar então distingue, quanto a uma unha ou a filamentos de pele já quase soltos, entre removê-los com a mão, permitido, e com um utensílio, sujeito a uma oferenda pelo pecado — halachá fixada por Rav Yehuda, e precisada por Rabi Yochanan como valendo apenas quando os filamentos se soltaram para o lado da unha e incomodam. Por fim, a Guemará pergunta sob qual trabalho respondem a que trança, a que pinta os olhos e a que talha o rosto: Rabi Avin, em nome de Rabi Yossei bei Rabi Chanina, responde que trançar assemelha-se a tecer, pintar a escrever e talhar a fiar — mas os rabinos objetam a Rabi Avahu que nenhuma dessas três é o modo costumeiro do trabalho respectivo, e Rabi Avahu começa a responder que a ele mesmo Rabi Yossei bei Rabi Chanina explicara a questão de outro modo — e a folha termina exatamente aqui, no meio da explicação, sem qualquer "הדרן", prosseguindo diretamente em 95a, onde se revela que Rabi Avahu atribui o pintar dos olhos ao tingir, e o trançar e o talhar ao construir, com o apoio do verso sobre a criação de Eva.
94a terminara no meio da citação transmitida por Rabah bar bar Chana em nome de Rabi Yochanan, e por Rav Yosef em nome de Rabi Shimon ben Lakish: "Rabi Shimon costumava isentar —". Confirmado via Sefaria, 94b abre completando exatamente essa frase: a isenção vale também para quem transporta o morto com o propósito de sepultá-lo.
Rabi Shimon isenta também quem transporta o morto para sepultá-lo. Disse Rava: e Rabi Shimon concorda quanto a uma enxada, para escavar com ela, e um rolo da Torá, para ler nele — que é responsável , pois aqui o próprio objeto transportado é necessário para o fim ao qual se destina. Pergunta a Guemará: é óbvio, pois isso é exatamente um trabalho necessário para o seu próprio fim; senão, segundo Rabi Shimon, onde encontrarias um trabalho necessário para o seu próprio fim , se não aqui? Poderias pensar que só se considera necessário para o seu próprio fim quando há dupla utilidade, até que haja necessidade tanto para o próprio corpo do objeto quanto para o próprio corpo dele, isto é, um segundo uso — como uma enxada, para fazer dela uma lâmina e também para escavar com ela, ou um rolo da Torá, para corrigi-lo e também para ler nele — por isso Rava vem nos ensinar que basta um único uso, sem que sejam necessários os dois, para que seja considerado trabalho necessário para o seu próprio fim.
Rava completa a isenção de Rabi Shimon deixada em aberto no fim de 94a: mesmo quando o propósito de transportar o morto é o mais nobre possível — dar-lhe sepultura —, ainda assim se trata de um trabalho que não é necessário para o seu próprio fim, pois o corpo em si não é o que se deseja, mas apenas removê-lo. Rava contrasta esse caso com o de quem transporta uma enxada para escavar com ela, ou um rolo da Torá para ler nele: ali, o próprio objeto transportado é o que se precisa usar, tornando o trabalho necessário para o seu próprio fim e gerando responsabilidade mesmo segundo Rabi Shimon. A Guemará nota que isso parece óbvio — mas explica que a novidade está em afastar a suposição de que Rabi Shimon exigiria uma dupla utilidade (por exemplo, consertar a enxada e também escavar com ela) para considerar um trabalho necessário para o seu próprio fim; Rava ensina que um único uso já basta.
"'Também quem transporta o morto para sepultá-lo'" — e não digas que Rabi Shimon isentou apenas quando o morto é simplesmente deixado do lado de fora, um caso em que não há necessidade nem para o próprio corpo de quem o transporta, nem para o próprio ato de transportá-lo; pois, mesmo quando o propósito é a necessidade do morto , isto é, sepultá-lo, um benefício real, ainda assim ele é isento. "'Uma enxada, para escavar com ela'" — pois essa escavação é para a necessidade de quem a transporta. "'Uma enxada, para fazer dela uma lâmina e para escavar'" — uma enxada cuja boca está corroída, e é preciso fixar sobre ela uma espécie de lâmina fina, para que fique apta a escavar. "'Para corrigi-lo e para ler nele'" — do mesmo modo se aplica ao rolo da Torá.
Certo cadáver que estava numa cidade chamada Drokeret — Rav Nachman bar Yitzchak permitiu transportá-lo para uma carmelit (o domínio intermediário), pois não podia ali permanecer. Disse-lhe Rabi Yochanan, irmão de Mar filho de Rabana, a Rav Nachman bar Yitzchak: permitiste isso segundo qual opinião — segundo Rabi Shimon? Ainda que digas que Rabi Shimon isenta nesse caso da obrigação da oferenda pelo pecado, ao menos uma proibição rabínica de transportar até a carmelit há! Disse-lhe: por Deus, achas mesmo que entraste a fundo nisso, tu? Pois essa permissão vale mesmo segundo Rabi Yehuda , mais rigoroso quanto à carmelit. Ora, acaso eu disse que era permitido transportá-lo para o domínio público? Para a carmelit eu disse que é permitido — e, quanto a essa proibição, que é apenas rabínica, grande é a honra das criaturas, que afasta um "não farás" da Torá.
Rabi Yochanan questiona se a permissão de Rav Nachman bar Yitzchak dependeria da opinião discutida de Rabi Shimon — e, mesmo assim, restaria uma proibição rabínica de transportar até a carmelit. Rav Nachman bar Yitzchak responde que a questão não se coloca: sua permissão nunca dependeu de Rabi Shimon, pois ele jamais autorizou transportar o cadáver ao domínio público (o que seria uma transgressão bíblica plena), mas apenas até a carmelit — um domínio de proibição meramente rabínica. E, quanto a essa proibição rabínica, aplica-se o princípio de largo alcance de que grande é a honra das criaturas, capaz de afastar até mesmo um "não farás" da própria Torá, quanto mais um decreto dos Sábios.
"'Transportá-lo para a carmelit'" — pois o cadáver estava exposto em desonra, ou em risco de incêndio, ou ao sol escaldante; e, quanto à proibição de transportá-lo por si só, sem essa necessidade, coloca-se sobre ele um pão ou uma criança , tornando-o um transporte incidental permitido. "'Um "não farás"'" — o "não farás" de "não te desviarás" (Deuteronômio 17:11), como aqui.
Ensinamos ali , numa Mishná sobre as leis da lepra: quem arranca sinais de impureza, e quem cauteriza a carne viva numa chaga leprosa, para tentar purificar-se, transgride um "não farás" , pois está escrito "Toma cuidado com a praga da lepra" (Deuteronômio 24:8), e "toma cuidado" indica uma proibição. Foi dito a respeito disso: quem arranca um pelo de dois pelos brancos que tornam a chaga impura é responsável por todos, pois basta um pelo a menos que dois para que a impureza cesse; quanto a quem arranca um pelo de três — Rav Nachman disse: é responsável. Rav Sheshet disse: é isento. Rav Nachman disse que é responsável — pois seus atos foram eficazes, já que, se fosse retirado mais um pelo, a impureza cessaria , e ele assim adiantou sua purificação. Rav Sheshet disse que é isento — pois, mesmo depois do que ele fez, agora, de qualquer modo, a impureza ainda está presente , e seu ato não teve efeito real.
A Guemará traz um debate paralelo, de outro tratado, para iluminar a disputa entre Rav Nachman e Rav Sheshet sobre atos parcialmente eficazes: um sinal de lepra exige, para se manter impuro, ao menos dois pelos brancos. Todos concordam que arrancar um pelo de apenas dois torna a pessoa responsável, pois a impureza desaparece por completo. A disputa é sobre arrancar um pelo de três: Rav Nachman considera o ato eficaz, pois aproxima a purificação, ainda que dois pelos continuem tornando a chaga impura; Rav Sheshet considera o ato ineficaz, pois a impureza, no momento presente, permanece exatamente como estava.
"'Quem arranca sinais de impureza'" — os dois pelos brancos pelos quais a mancha leprosa torna impuro. "'E quem cauteriza a carne viva'" — a carne viva dentro da chaga é também um sinal de impureza numa tumefação (שְׂאֵת), e quem a cauteriza faz isso para anulá-la como carne viva e assim purificar-se. "'Transgride um "não farás"'" — pois está escrito "Toma cuidado com a praga da lepra" (Deuteronômio 24). "'Um pelo de dois'" — quando não havia na chaga senão dois pelos brancos, e ele arrancou um deles. "'É responsável'" — pois ele removeu o sinal de impureza, já que a chaga não torna impuro com menos de dois pelos, como se deriva disso no Torat Kohanim, que fala de "pelo" no plural , indicando dois; e é responsável por açoites.
Disse Rav Sheshet: de onde eu digo minha opinião, de que um ato sem efeito real não gera responsabilidade? Pois ensinamos na Mishná, em 93b: e do mesmo modo quem transporta o tamanho de uma azeitona de um morto e o tamanho de uma azeitona de uma carcaça é responsável — donde se infere que quem transporta apenas meia azeitona é isento; mas não foi ensinado numa baraita: "meia azeitona — é responsável"! Pergunta a Guemará: não é que se resolve assim: aquilo que a baraita ensina "é responsável" trata de quem transportou meia azeitona a partir de um monte de uma azeitona inteira, deixando menos de uma azeitona no corpo — o que elimina ali a fonte de impureza; e aquilo que a Mishná ensina "é isento" trata de quem transportou meia azeitona a partir de um monte de uma azeitona e meia , restando ainda uma azeitona inteira no corpo, de modo que a fonte de impureza permanece intacta? E Rav Nachman resolve de outro modo: tanto este caso quanto aquele são responsáveis, e aquilo que a Mishná ensina "é isento" trata de quem transportou meia azeitona a partir de um morto grande , onde retirar meia azeitona não afeta em nada a quantidade de impureza que resta.
Rav Sheshet ancora sua posição — de que um ato ineficaz não gera responsabilidade — numa aparente contradição entre a Mishná de 93b e uma baraita: a Mishná, ao responsabilizar por transportar uma azeitona inteira de um morto, sugere que meia azeitona seria isenta; mas uma baraita ensina explicitamente que meia azeitona é responsável. A Guemará propõe uma primeira resolução: tudo depende de quanto restava no corpo antes do transporte — se restava só uma azeitona inteira, retirar metade dela elimina a fonte de impureza, e por isso a baraita responsabiliza; se restava uma azeitona e meia, retirar metade ainda deixa uma azeitona inteira, fonte de impureza intacta, e por isso a Mishná isenta. Rav Nachman propõe uma resolução alternativa, baseada não na quantidade que resta, mas no tamanho do morto de origem: de um morto pequeno, mesmo a metade de uma azeitona e meia é responsável (pois, nesse caso, o efeito é notável); de um morto grande, retirar meia azeitona não afeta perceptivelmente a impureza restante, e por isso é isento.
"'Não é que se resolve assim: aquilo que a baraita ensina "é responsável" trata de quem transportou meia azeitona a partir de uma azeitona inteira'" — pois ele a tomou e, com isso, diminuiu a medida mínima de impureza que restava no corpo. "'E aquilo que a Mishná ensina "é isento" trata de quem transportou meia azeitona a partir de uma azeitona e meia'" — pois, ainda que com isso ele reduza o que resta exatamente à medida mínima, isso não é considerado um ato eficaz, e não dizemos que seus atos foram eficazes só porque, se dele se tomasse um pouco mais, já não haveria mais a medida mínima. "'De um morto grande'" — pois seu ato não teve efeito algum.
Quem corta as unhas, uma com a outra, ou com os dentes, e do mesmo modo quem arranca o cabelo com as mãos, e do mesmo modo o bigode, e do mesmo modo a barba, e do mesmo modo a mulher que trança o cabelo, e do mesmo modo a que pinta os olhos de azul, e do mesmo modo a que talha o rosto — Rabi Eliezer responsabiliza, e os Sábios proíbem por decreto rabínico.
Uma nova Mishná, ainda dentro do Perek Yud, reúne uma série de atos de corte e embelezamento pessoal: cortar as unhas sem tesoura (uma com a outra ou com os dentes), arrancar o cabelo, aparar o bigode ou a barba com as mãos, e três práticas femininas — trançar o cabelo, pintar os olhos de azul (כּוֹחֶלֶת) e talhar o rosto com uma pasta de embelezamento (פּוֹקֶסֶת). Rabi Eliezer considera todos esses atos trabalhos proibidos por lei bíblica, sujeitos a uma oferenda pelo pecado quando feitos por erro; os Sábios os proíbem apenas por decreto rabínico, não os considerando trabalhos no sentido pleno da lei.
"'E do mesmo modo o cabelo'" — quem arranca o cabelo da própria cabeça com as mãos. "'E do mesmo modo a que trança'" — o próprio cabelo. "'E do mesmo modo a que pinta'" — os próprios olhos. "'E do mesmo modo a que talha'" — há, entre meus mestres, os que dizem que trata de quem arruma o próprio cabelo com um pente ou com as mãos; e há os que explicam que ela passa uma espécie de massa sobre o rosto, e, quando a retira, a pele fica avermelhada. "'Rabi Eliezer responsabiliza'" — com uma oferenda pelo pecado, em todos esses casos; e os Sábios proíbem por mero decreto rabínico; e o fundamento de Rabi Eliezer se explica na Guemará, ao perguntar por qual trabalho ele responsabiliza.
Disse Rabi Elazar: a disputa vale apenas para quem corta as unhas com a mão; mas com um utensílio , todos concordam que é responsável. Pergunta a Guemará: é óbvio, pois "uma com a outra" ensinamos na Mishná, o que já indica que se trata da mão! Poderias pensar que também os Sábios , quanto a quem usa um utensílio, isentam igualmente, e que aquilo que a Mishná ensina "uma com a outra" é apenas para te informar do alcance da opinião de Rabi Eliezer , que responsabiliza mesmo nesse caso mais leve — por isso Rabi Elazar vem nos ensinar que não é assim, e que com um utensílio todos concordam que há responsabilidade.
Rabi Elazar precisa o alcance exato da disputa da Mishná quanto às unhas: ela vale apenas para quem as corta com a própria mão (uma unha usada para cortar a outra, ou os dentes), onde Rabi Eliezer responsabiliza e os Sábios isentam por não ser esse o modo costumeiro de tosquiar. Mas, quanto a cortar as unhas com um utensílio — uma tesoura, por exemplo —, todos concordam que há responsabilidade plena, pois esse é o modo pleno e costumeiro do trabalho de tosquiar.
"'A disputa vale apenas para a mão'" — é somente nesse caso, em que ele as corta com a mão e não com um utensílio, que os Sábios isentam, pois não é esse o modo costumeiro de tosquiar, mesmo em dia de semana. "'Poderias pensar que também com um utensílio os Sábios isentam'" — pois poderias supor que aqui não há o trabalho de tosquiar, que só se aplica à lã de um animal.
E disse Rabi Elazar: a disputa vale apenas quando alguém corta as próprias unhas, para si mesmo; mas quando as corta para o próximo — segundo as palavras de todos, é isento. Pergunta a Guemará: é óbvio, pois "suas unhas" ensinamos na Mishná, o que já indica as próprias! Poderias pensar que Rabi Eliezer responsabiliza também quem as corta para o próximo, e que aquilo que a Mishná ensina "suas unhas" é apenas para te informar do alcance da opinião dos Sábios , que isentam mesmo nesse caso mais grave, quanto mais para o próximo — por isso Rabi Elazar vem nos ensinar que todos concordam em isentar quem corta as unhas do próximo.
Uma segunda precisão de Rabi Elazar: a disputa entre Rabi Eliezer e os Sábios vale apenas quando alguém corta as próprias unhas — caso em que Rabi Eliezer responsabiliza, pois a pessoa consegue adestrar a mão para cortar bem sem um utensílio. Mas cortar as unhas do próximo exige um cuidado que a mão sozinha não alcança satisfatoriamente; por isso, mesmo Rabi Eliezer concorda que, sem um utensílio, o resultado é tão imperfeito que não constitui o trabalho pleno de tosquiar, e todos isentam.
"'A disputa vale apenas para si mesmo'" — é somente nesse caso que Rabi Eliezer responsabiliza, pois a pessoa consegue adestrar a própria mão para arrumar-se sem um utensílio. "'Mas quanto a o próximo'" — a pessoa não consegue adestrar a mão para cortar bem sem um utensílio. "'É óbvio, "suas unhas" ensinamos'" — as unhas dele, de si mesmo.
Ensinamos na Mishná: "e do mesmo modo o cabelo etc." Foi ensinado numa baraita: quem arranca o suficiente para encher a boca da tesoura é responsável. E quanto é o suficiente para encher a boca da tesoura? Disse Rav Yehuda: dois pelos. Mas não foi ensinado na continuação dessa mesma baraita: "e quanto à calvície, dois"! Isso sugeriria que encher a boca da tesoura é uma medida diferente de dois. Responde a Guemará: diz assim: "e do mesmo modo quanto à calvície, dois" — isto é, a mesma medida de dois pelos vale tanto para encher a boca da tesoura quanto para a calvície proibida pela Torá.
A Guemará busca a medida mínima de cabelo cuja remoção gera responsabilidade: "o suficiente para encher a boca da tesoura", que Rav Yehuda fixa em dois pelos. Surge uma dificuldade a partir da continuação da mesma baraita, que trata da calvície proibida pela Torá ("não fareis calvície entre vossos olhos", Deuteronômio 14:1) e também fixa sua medida em dois — sugerindo, à primeira leitura, que se trata de duas medidas diferentes de dois cada uma, e não da mesma medida repetida. A Guemará resolve lendo a baraita como uma única cláusula contínua: a mesma medida de dois pelos que enche a boca da tesoura é a medida da calvície.
"'Quem arranca o suficiente para encher a boca da tesoura'" — o suficiente para encher a ponta da tesoura. "'É responsável'" — em Shabat, segundo os Sábios, quando arrancado com um utensílio; segundo Rabi Eliezer, mesmo com a mão; e esta é a sua medida mínima. "'Mas não foi ensinado'" — nessa mesma baraita, no seu final: "e quanto à calvície", a respeito da qual a Torá advertiu "não fareis calvície" (Deuteronômio 14:1), a medida é de dois pelos, que já constituem calvície — donde se infere que encher a boca da tesoura não são dois pelos , mas uma quantidade diferente.
Foi ensinado também assim , noutra baraita: quem arranca o suficiente para encher a boca da tesoura em Shabat é responsável. E quanto é o suficiente para encher a boca da tesoura? Dois pelos. Rabi Eliezer diz: um só já basta para responsabilizar. E os Sábios concordam com Rabi Eliezer quanto a quem seleciona e arranca pelos brancos dentre pelos pretos, que, mesmo removendo um só, é responsável , pois nesse caso já lhe importa um único pelo. E esta prática , de um homem arrancar pelos brancos para não parecer velho, é proibida mesmo em dia de semana, pois está dito: "não vestirá o homem roupa de mulher" (Deuteronômio 22:5, do qual se aprende que todo hábito próprio das mulheres, feito para embelezar-se, é proibido ao homem).
Uma baraita paralela confirma a medida de Rav Yehuda — dois pelos — e acrescenta a posição de Rabi Eliezer, que responsabiliza já por um único pelo removido, sem exigir a medida completa de "encher a boca da tesoura". Interessante é que os Sábios, que normalmente exigem a medida de dois pelos para responsabilizar, concordam com Rabi Eliezer num caso específico: quando se selecionam e arrancam pelos brancos dentre pelos pretos, ali já um único pelo importa à pessoa (por vaidade, para não parecer velha), tornando o ato significativo o bastante para gerar responsabilidade plena. A baraita acrescenta, por fim, que essa prática — um homem arrancar os próprios pelos brancos por vaidade — é proibida mesmo fora de Shabat, pois se enquadra na proibição bíblica de o homem adotar hábitos de embelezamento próprios da mulher.
"'Foi ensinado também assim'" — de acordo com Rav Yehuda, que disse dois. "'Rabi Eliezer diz'" — que já com um pelo é responsável, e não precisamos que seja o suficiente para encher a boca da tesoura. "'Com um só é responsável'" — pois já com um pelo ele se importa, para não parecer velho. "'Roupa de mulher'" — e é costume das mulheres se importarem com isso e se embelezarem assim, arrancando os pelos brancos — o que torna esse ato proibido ao homem, por imitar um costume feminino.
Foi ensinado numa baraita: Rabi Shimon ben Elazar diz: uma unha cuja maior parte já se soltou , presa ao dedo apenas por um pedacinho, e filamentos de pele cuja maior parte já se soltou — com a mão, é permitido removê-los por completo; com um utensílio, é responsável por uma oferenda pelo pecado. Pergunta a Guemará: há algo em que, com um utensílio, se é responsável por uma oferenda pelo pecado, e, com a mão, é permitido de antemão?! Responde a Guemará: isto é o que a baraita quer dizer: se a maior parte já se soltou, com a mão é permitido; com um utensílio, é isento, mas é proibido fazê-lo de antemão. Se a maior parte ainda não se soltou, com a mão é isento, mas é proibido de antemão; com um utensílio, é responsável por uma oferenda pelo pecado. Disse Rav Yehuda: a lei segue Rabi Shimon ben Elazar. Disse Rabah bar bar Chana, transmitindo o que disse Rabi Yochanan: e isso vale apenas quando os filamentos se soltaram voltados para cima , do lado da unha, e o incomodam.
Rabi Shimon ben Elazar traz um caso de gradação: uma unha ou filamentos de pele já quase totalmente destacados, presos apenas por um resto mínimo. A Guemará questiona a formulação literal da baraita, que pareceria dizer, de modo incongruente, que agir com um utensílio (mais eficaz) gera responsabilidade plena, enquanto agir com a mão (menos eficaz) seria permitido de antemão — o oposto do que se esperaria. A Guemará reformula: quando a maior parte já se soltou, o ato de completar a remoção é leve o bastante para ser permitido com a mão e apenas proibido, sem responsabilidade, com um utensílio; quando a maior parte ainda não se soltou, o ato é mais grave, tornando-se apenas proibido com a mão, mas plenamente responsável com um utensílio. Rav Yehuda fixa a lei segundo Rabi Shimon ben Elazar, e Rabi Yochanan acrescenta uma condição: essa leniência só vale quando os filamentos se soltaram para o lado da unha e causam dor real, justificando a remoção.
"'Filamentos'" — uma espécie de tiras finas que se soltam da pele do dedo em torno da unha. "'Cuja maior parte já se soltou'" — estão prestes a se destacar por completo. "'Há algo etc.'" — pergunta a Guemará: se, com um utensílio, é responsável por uma oferenda pelo pecado, com a mão deveria haver ao menos um mero decreto rabínico, por analogia, em razão do utensílio. "'Voltados para cima'" — isto é, começaram a se soltar do lado da unha, pois assim o incomodam mais.
Ensinamos na Mishná: "e do mesmo modo a que trança etc." Por qual trabalho são responsáveis a mulher que trança, a que pinta os olhos e a que talha o rosto? Disse Rabi Avin, transmitindo o que disse Rabi Yossei bei Rabi Chanina: quem trança — por semelhança com tecer; quem pinta — por semelhança com escrever; quem talha — por semelhança com fiar. Disseram os rabinos diante de Rabi Avahu: mas acaso trançar cabelo é o modo costumeiro de tecer, e acaso pintar os olhos é o modo costumeiro de escrever, e acaso talhar o rosto é o modo costumeiro de fiar?! Rabi Eliezer certamente concordaria que quem realiza um trabalho de modo atípico é isento. Ao que respondeu Rabi Avahu: a mim, essa mesma dificuldade foi explicada por Rabi Yossei bei Rabi Chanina …
A Guemará busca o fundamento exato de Rabi Eliezer para responsabilizar as três práticas femininas da Mishná — trançar o cabelo, pintar os olhos e talhar o rosto — perguntando a qual dos trinta e nove trabalhos proibidos cada uma se assemelha. Rabi Avin, em nome de Rabi Yossei bei Rabi Chanina, propõe uma primeira correspondência: trançar assemelha-se a tecer, pintar a escrever (pois o lápis de pintar percorre o contorno do olho como a pena contorna uma letra) e talhar a fiar (pois a mulher torce o próprio cabelo entre os dedos, ou estica um fio feito da pasta aplicada ao rosto). Os rabinos, diante de Rabi Avahu, objetam que nenhuma dessas três ações se parece, no modo como é executada, com o trabalho respectivo — e um trabalho realizado de modo atípico seria isento até para Rabi Eliezer. Rabi Avahu começa a responder que a ele mesmo Rabi Yossei bei Rabi Chanina explicara a questão de um modo diferente — mas a folha termina exatamente neste ponto, no meio da explicação, sem qualquer "הדרן" (a fórmula que assinalaria o encerramento do Perek Yud, que só ocorre em 96a) em nenhum lugar desta folha. Confirmado via Sefaria, 95a completa a resposta de Rabi Avahu: quem pinta os olhos é responsável por semelhança com tingir (צוֹבַעַת), e quem trança ou talha é responsável por semelhança com construir (בּוֹנָה) — apoiado no verso "e o Eterno Deus construiu a costela" (Gênesis 2:22), do qual se deriva que, nas cidades litorâneas, "construir" e "trançar" partilham a mesma raiz. O Perek Yud prossegue, portanto, sem qualquer interrupção estrutural entre 94b e 95a.
"'Por semelhança com escrever'" — pois ela passa o lápis de pintar em torno do olho, como alguém que passa a pena em torno da letra. "'Fiar'" — pois ela arruma o próprio cabelo entre os dedos e o estica quando está enrolado; e, segundo a segunda explicação , sobre a massa aplicada ao rosto, ela faz daquela massa uma espécie de fio.