86b terminara no meio de uma frase, dentro da baraita sobre em que dia do mês de Sivan foram dados os Dez Mandamentos: a explicação de Rabi Yosi sobre a fixação do mês num domingo, o silêncio de Moshe nesse mesmo dia por causa do cansaço da viagem, e o início do que ele disse na segunda-feira — "e vós sereis para mim um reino de sacerdotes" —, cortada exatamente aí. 87a abre completando essa mesma frase: no terceiro dia (terça-feira) Moshe disse-lhes o preceito de delimitar o monte; no quarto dia (quarta-feira) fizeram a abstinência de relações conjugais; e a Guemará observa que, segundo os sábios (que discordam de Rabi Yosi quanto ao dia da fixação do mês), o mês se fixou na segunda-feira, o silêncio ocorreu na segunda, "e vós sereis para mim" foi dito na terça, o preceito de delimitação na quarta, e a abstinência começou na quinta. A Guemará então objeta contra Rabi Yosi a partir do verso "e santificai-os hoje e amanhã" (Êxodo 19:10), que, somado a um terceiro dia de preparação, perfaz apenas dois dias de aviso prévio mais o terceiro dia em que a Torá foi dada — o que não bate com a contagem de Rabi Yosi. A resposta: Rabi Yosi concorda que Moshe, por conta própria, acrescentou mais um dia de abstinência além do que fora ordenado, e o Santo, bendito seja, concordou com essa iniciativa. Isso introduz uma baraita mais ampla: três coisas fez Moshe por conta própria, e o Santo, bendito seja, concordou com ele — acrescentar um dia, separar-se por completo de sua esposa, e quebrar as tábuas da aliança —, cada uma demonstrada por um argumento a fortiori do próprio Moshe e confirmada por um verso que revela a concordância Divina. A Guemará então traz e resolve duas objeções textuais: a primeira, de que "estai prontos para o terceiro dia" contradiria a posição de Rabi Yosi, respondida pelo dia acrescentado por iniciativa de Moshe; a segunda, sobre se a palavra "terceiro" (numa baraita distinta) se refere ao terceiro dia do mês ou ao terceiro dia da semana, com a disputa entre essa leitura e a posição dos sábios. Segue a pergunta sobre para que serviria esse terceiro dia adicional, respondida por uma baraita que descreve como Moshe subiu e desceu o monte levando as palavras do povo de volta ao Eterno, e a disputa entre Rabi Yosi bar Yehuda (que identifica esse relato com o preceito de delimitação) e Rabi (que o identifica com a ordem em que Moshe expôs a punição e a recompensa do preceito). A folha então retoma o padrão de objeção, agora sobre a palavra "sexto", também contra os sábios — e se encerra em aberto, na resposta de Rava, que só se completa no início de 87b.
86b terminara cortada no meio da explicação de Rabi Yosi: "בִּתְרֵי בְּשַׁבָּא אֲמַר לְהוּ: ׳וְאַתֶּם תִּהְיוּ לִי מַמְלֶכֶת כֹּהֲנִים׳" ("no segundo dia da semana disse-lhes: 'e vós sereis para mim um reino de sacerdotes'"). 87a abre em continuação direta dessa mesma frase, sem qualquer novo raciocínio independente: "בִּתְלָתָא אֲמַר לְהוּ מִצְוַת הַגְבָּלָה" ("no terceiro dia disse-lhes o preceito de delimitar o monte"). A baraita prossegue então, dia após dia, até completar a semana inteira que precedeu a entrega da Torá, e só depois passa à posição dos sábios sobre a mesma cronologia, que discordam de Rabi Yosi quanto ao dia em que o mês se fixou.
Continuando a baraita de Rabi Yosi, interrompida ao final de 86b: no terceiro dia da semana (terça-feira) disse-lhes o preceito de delimitar o monte; no quarto dia (quarta-feira) fizeram a abstinência de relações conjugais. E os sábios (chachamim, que discordam de Rabi Yosi quanto ao dia do mês em que a Torá foi dada) entendem: no primeiro dia da semana (domingo) se fixou o mês, mas, segundo eles, no primeiro dia da semana Moshe não lhes disse absolutamente nada, por causa do cansaço da viagem; no terceiro dia (terça-feira, um dia mais tarde do que segundo Rabi Yosi) disse-lhes: "e vós sereis para mim"; no quarto dia (quarta-feira) disse-lhes o preceito de delimitar; no quinto dia (quinta-feira) fizeram a abstinência. Objeta a Guemará: "e santificai-os hoje e amanhã" (Êxodo 19:10, que junto com o terceiro dia de "estai prontos" soma apenas dois dias de aviso mais o terceiro da revelação) — isso é difícil para Rabi Yosi!
A baraita, interrompida em 86b, é retomada e completada aqui: segundo Rabi Yosi, o mês se fixou num domingo; nesse domingo Moshe nada disse por causa do cansaço da viagem; na segunda-feira disse "e vós sereis para mim um reino de sacerdotes"; na terça-feira, o preceito de delimitar o monte (proibindo o povo de subi-lo ou tocar em seus limites); e na quarta-feira o povo iniciou a abstinência de relações conjugais que duraria três dias completos até o Shabat. Os sábios, que discordam de Rabi Yosi sobre em que dia da semana caiu o primeiro dia do mês, deslocam toda essa sequência em um dia: para eles, o mês se fixou na segunda-feira, o silêncio de Moshe ocorreu nesse mesmo dia, "e vós sereis para mim" foi dito na terça, o preceito de delimitação na quarta, e a abstinência começou apenas na quinta-feira. A Guemará então levanta uma objeção contra a posição de Rabi Yosi a partir do verso "e santificai-os hoje e amanhã, e lavem as suas vestes; e estejam prontos para o terceiro dia" (Êxodo 19:10-11): esse verso menciona apenas dois dias de preparação ("hoje e amanhã") antes do terceiro dia da revelação — mas, segundo a contagem de Rabi Yosi, a abstinência começou na quarta-feira e a Torá só foi dada no Shabat, um intervalo de três dias completos (quarta, quinta e sexta), não dois.
"'No terceiro dia disse-lhes o preceito de delimitar'" — pois as palavras que lhe foram ditas na segunda-feira ele desceu à tarde e as disse a Israel, conforme está escrito: "e veio Moshe e chamou os anciãos do povo, etc." (Êxodo 19:7); e no dia seguinte se levantou de madrugada e subiu, e ali recebeu novas ordens, conforme dizemos que todas as suas subidas eram de madrugada; e nesse mesmo dia da segunda subida lhe foi dito "eis que venho a ti numa nuvem espessa, etc." (Êxodo 19:9); e o preceito de delimitação, "guardai-vos de subir ao monte" (Êxodo 19:12), embora esteja escrito depois de "e santificai-os hoje e amanhã", que é o preceito da abstinência, foi dito antes disso — pois está escrito, naquela subida que fez na terça-feira para devolver ao Santo, bendito seja, a resposta do povo de "faremos (e ouviremos)", "eis que venho a ti", e o fim do verso, "e disse (vaiaguêd) Moshe as palavras do povo, etc." (Êxodo 19:8) — e que palavras do povo há aqui, senão o preceito de delimitação, que lhe foi dito nesse mesmo dia; e adiante a Guemará ensina isso assim: e à tarde disse-o a Israel, e no dia seguinte, na quarta-feira, levantou-se de madrugada e subiu e relatou que aceitaram sobre si o preceito de delimitação, e lhe foi dito o preceito de abstinência, "e santificai-os hoje e amanhã"; e embora ainda faltem três dias até o Shabat, dizemos adiante, segundo Rabi Yosi, que Moshe acrescentou um dia por conta própria.
Diria-te Rabi Yosi: um dia acrescentou Moshe por conta própria , além do que lhe fora ordenado. Pois foi ensinado numa baraita: três coisas fez Moshe por conta própria, e o Santo, bendito seja, concordou com ele: acrescentou um dia por conta própria, separou-se por completo de sua esposa, e quebrou as tábuas da aliança.
A Guemará resolve a objeção anterior explicando que Rabi Yosi concorda que o texto ordenou apenas dois dias de preparação ("hoje e amanhã") antes do terceiro dia da revelação — mas Moshe, por sua própria iniciativa, acrescentou um dia adicional de abstinência, além do que fora explicitamente ordenado, e assim a contagem real chegou a três dias completos até o Shabat. Isso introduz uma baraita mais ampla, que lista três decisões tomadas por Moshe por conta própria, sem ordem explícita — o dia acrescentado à abstinência antes da entrega da Torá, a separação completa e permanente de sua esposa Tzipora depois da entrega da Torá, e a quebra das tábuas da aliança ao descer do monte e ver o bezerro de ouro —, todas as quais o próprio Santo, bendito seja, veio a confirmar e aprovar retroativamente.
"'Diria-te Rabi Yosi'" — de fato, na quarta-feira lhe foi dito para se absterem por dois dias, quarta e quinta-feira, e ele , Moshe, acrescentou um dia por conta própria, e o Santo, bendito seja, concordou com sua decisão. "'E separou-se da esposa'" — completamente, depois da entrega da Torá; assim que se separou de sua esposa junto com seus companheiros , o povo, antes da revelação, não voltou mais a ter relações conjugais.
"Acrescentou um dia por conta própria" — que argumento derivou Moshe para chegar a essa conclusão? "Hoje e amanhã" (Êxodo 19:10) — ensina que hoje é como amanhã: assim como amanhã tem sua noite anterior junto com ele, também hoje tem sua noite junto com ele. E a noite de agora (a que precede "hoje") já se fora , pois a ordem foi dada de manhã; aprende-se daí que restavam dois dias completos, com suas respectivas noites, além do dia de agora , totalizando três dias além do momento da ordem. E de onde sabemos que o Santo, bendito seja, concordou com ele? Do fato de que a Presença Divina não repousou sobre o monte para dar a Torá até a manhã de Shabat , confirmando que era necessário esse dia adicional.
A Guemará explica o raciocínio exegético de Moshe: o verso "santificai-os hoje e amanhã" usa a palavra "hoje" de um modo que, por analogia com "amanhã" (que inclui a noite que o precede), também deveria incluir sua própria noite precedente. Mas essa noite precedente já havia se passado no momento em que a ordem foi dada (de manhã). Logo, Moshe concluiu que, além do dia em que a ordem foi dada, ainda restavam dois dias inteiros de abstinência antes da revelação — não apenas um, como uma leitura simples do verso sugeriria. A confirmação de que essa iniciativa foi correta e aprovada por Deus está no próprio fato histórico de que a Presença Divina não desceu sobre o Sinai para entregar a Torá até a manhã do Shabat, exatamente quando a contagem estendida de Moshe indicava que o povo estaria pronto.
"'Também hoje'" — precisa ter sua noite junto com ele, e isso , quanto à noite que já passou, não é possível , e por isso a noite subsequente é que se conta em seu lugar, resultando em um dia adicional.
"E separou-se da esposa" — que argumento derivou Moshe? Fez um argumento a fortiori (kal vachomer) por conta própria, disse: se Israel, com quem a Presença Divina falou apenas uma vez , na revelação do Sinai, e ainda assim lhes fixou um prazo de abstinência, disse a Torá: "e estejam prontos... não vos aproximeis de mulher" (Êxodo 19:15) — eu, com quem a Presença Divina fala a cada hora, e não me fixa prazo algum para isso — quanto mais razão há para eu me abster permanentemente! E de onde sabemos que o Santo, bendito seja, concordou com ele? Pois está escrito: "vai, dize-lhes: voltai às vossas tendas" (Deuteronômio 5:27), e está escrito depois disso: "e tu, fica aqui comigo" (Deuteronômio 5:28). E há os que dizem que a prova vem de outro verso: "boca a boca falarei com ele" (Números 12:8).
Moshe raciocinou que, se o povo inteiro de Israel — que teve o privilégio de ouvir a voz Divina apenas naquela única ocasião da revelação no Sinai — precisou se abster de relações conjugais por um prazo fixo antes disso, ele, que falava com a Presença Divina constantemente, a qualquer hora, sem nenhum prazo determinado entre uma comunicação e outra, deveria se separar de sua esposa permanentemente, para estar sempre pronto. A confirmação de que Deus concordou com essa decisão vem do verso em que, depois da revelação, Deus ordena que o povo volte às suas tendas conjugais, mas diz especificamente a Moshe: "e tu, fica aqui comigo" — mantendo-o à parte, no estado de santidade e prontidão que ele mesmo havia adotado. Uma segunda versão localiza essa confirmação no verso que descreve a comunicação exclusiva e direta de Deus com Moshe, "boca a boca", implicando uma relação contínua incompatível com a vida conjugal comum.
"'E lhes fixou um prazo'" — isto é, um prazo para saber quando Deus falaria com eles. "'Disse a Torá: e estejam prontos, etc.'" — isto é, ordenou que se separassem de suas esposas. "'E não me fixou prazo'" — para saber quando ocorreria Sua fala comigo, de modo que eu pudesse me abster antes disso , com antecedência suficiente. "'Às vossas tendas'" — isto é, para permitir a vossas esposas as relações conjugais que eu vos havia proibido.
"Quebrou as tábuas" — que argumento derivou Moshe? Disse: se o sacrifício de Pêssach, que é apenas um dos 613 mandamentos, e ainda assim disse a Torá: "e nenhum filho de estrangeiro comerá dele" (Êxodo 12:43) — quanto mais deveria ser proibida a Torá inteira, estando Israel apóstata , adorando o bezerro de ouro! E de onde sabemos que o Santo, bendito seja, concordou com ele? Pois está dito: "que quebraste" (Êxodo 34:1) — e disse Reish Lakish: que tua força se fortaleça (yishar kochacha) por teres quebrado!
Ao descer do monte e ver o povo adorando o bezerro de ouro, Moshe raciocinou por analogia: se até o sacrifício de Pêssach — apenas um entre os 613 mandamentos — é proibido a um estrangeiro não circuncidado que não professa a fé de Israel, quanto mais a Torá inteira deveria ser retida de um povo que, naquele momento, se comportava como apóstata, tendo acabado de fabricar e adorar um ídolo. Por essa lógica, Moshe quebrou as tábuas em vez de entregá-las ao povo naquele estado. A confirmação de que Deus aprovou essa decisão está no próprio texto — "as tábuas que quebraste" — interpretado por Reish Lakish não como uma repreensão, mas como um elogio: "que tua força se fortaleça por teres quebrado", reconhecendo que a quebra foi um ato de julgamento correto, e não de fraqueza ou raiva descontrolada.
"'Filho de estrangeiro'" — refere-se também ao apóstata, cujos atos se tornaram estranhos (nitnakru) ao seu Pai que está nos céus. "'A Torá inteira'" — que depende destas tábuas, e Israel estando apóstata, quanto mais razão há para dizer que não são dignos dela. "'Asher' (que)" — é uma expressão de aprovação (ishur), com que Deus aprovou e elogiou Moshe por tê-las quebrado.
Vem e ouve: "e estejam prontos para o terceiro dia" (Êxodo 19:11) — isso parece difícil para Rabi Yosi , pois indicaria apenas três dias ao todo, não a contagem estendida que ele propõe. Mas já dissemos que um dia acrescentou Moshe por conta própria , de modo que "terceiro dia" no verso ainda se refere à ordem original, à qual Moshe somou mais um dia. Vem e ouve outra fonte: "terceiro" — terceiro dia do mês e também terceiro dia da semana — coincidindo no mesmo dia — isso parece difícil para os sábios , pois segundo eles o mês se fixou numa segunda-feira, e o terceiro dia do mês não coincidiria com o terceiro dia da semana! Diriam-te os sábios: esta baraita, de quem é — é de Rabi Yosi , não dos sábios, e por isso não os contradiz.
A Guemará traz duas objeções em sequência, ambas resolvidas. A primeira: o verso "e estejam prontos para o terceiro dia" parece implicar uma contagem de apenas três dias ao todo, o que contradiria a posição de Rabi Yosi de que Moshe acrescentou um dia extra — mas a Guemará responde que isso já foi explicado: o "terceiro dia" do verso refere-se à ordem original transmitida por Moshe, à qual ele mesmo, por iniciativa própria, acrescentou mais um dia de abstinência, sem que isso contradiga o texto do verso. A segunda objeção vem de outra baraita, que identifica um determinado "terceiro dia" simultaneamente como o terceiro dia do mês e o terceiro dia da semana — uma coincidência que só funciona se o mês se fixou num domingo (posição de Rabi Yosi), mas não se fixou numa segunda-feira (posição dos sábios). A Guemará responde que essa segunda baraita, com sua referência dupla ao "terceiro", reflete apenas a opinião de Rabi Yosi, não a dos sábios — de modo que não há contradição real com a posição destes últimos.
Esta é a versão correta: "e estejam prontos para o terceiro dia", e não se lê "e estejam prontos para os três dias". "'Já dissemos que um dia acrescentou'" — e este verso, "e estejam prontos para o terceiro dia", o Santo, bendito seja, o disse a Moshe; e Moshe disse-lhes: "estejam prontos para os três dias" — e não disse "para o terceiro dia", mas ordenou que se abstivessem por três dias; e o verso que está escrito, "e sucedeu, ao terceiro dia, ao amanhecer" (Êxodo 19:16), fala do terceiro dia contado a partir dos dias completos, com suas respectivas noites, que se abstiveram. "'Vem e ouve'" — pois foi ensinado numa baraita assim: "terceiro" — era o terceiro dia do mês, era o terceiro dia da semana; e adiante a Guemará pergunta: o primeiro "terceiro" , para que serviu? Forçosamente essa baraita trata da questão do dia chamado "terceiro", e diz sobre isso que esse terceiro é o terceiro do mês. "'Difícil para os sábios'" — pois ouvimos deles que no primeiro dia da semana se fixou o mês; se assim é, forçosamente no segundo dia da semana Moshe disse "e vós sereis para mim", no terceiro disse a delimitação, no quarto fizeram a abstinência, e no sétimo dia da semana foi dada a Torá — pois, segundo todos, no Shabat foi dada a Torá.
O "terceiro" mencionado nessa baraita, para que serve? Serve para o que se ensinou numa baraita: "e Moshe devolveu as palavras do povo ao Eterno" (Êxodo 19:8), e está escrito também: "e Moshe relatou as palavras do povo ao Eterno" (Êxodo 19:9) — dois versos aparentemente redundantes. O que disse o Santo, bendito seja, a Moshe, e o que disse Moshe a Israel, e o que respondeu Israel a Moshe, e o que Moshe devolveu diante do Atributo de Poder (o Eterno)? Este segundo relato é o preceito de delimitação, palavras de Rabi Yosi ben Yehuda.
A Guemará pergunta qual foi a função do "terceiro dia do mês" mencionado na baraita anterior, e responde citando uma baraita distinta que lida com dois versos aparentemente repetitivos: "e Moshe devolveu as palavras do povo ao Eterno" e, logo depois, "e Moshe relatou as palavras do povo ao Eterno". A baraita explica que há aqui uma sequência completa de quatro comunicações — o que Deus disse a Moshe, o que Moshe transmitiu ao povo, o que o povo respondeu a Moshe (a aceitação de "faremos e ouviremos"), e o que Moshe devolveu a Deus como resposta final do povo. Segundo Rabi Yosi ben Yehuda, esse segundo relato — "e Moshe relatou" — refere-se especificamente ao preceito de delimitação do monte, que Moshe subiu para comunicar a Deus depois de o povo o ter aceitado, e essa subida ocorreu precisamente no terceiro dia do mês.
"'Para o que foi ensinado, etc.'" — e assim a Guemará diz: o terceiro dia é o dia das palavras com que Moshe começou a atrair o coração de Israel, e a expor sua punição e sua recompensa, e esse mesmo dia era o terceiro do mês e o terceiro da semana, e é Rabi Yosi quem assim o diz. "'E devolveu... e relatou' — e o que disse o Santo, bendito seja, a Moshe?" — a pergunta é sobre o que se passou entre "e Moshe devolveu", que se refere à aceitação de "faremos (e ouviremos)", e "e Moshe relatou", que Moshe disse a Israel; e o que disseram Israel a Moshe sobre isso, que o levou a precisar relatar de volta ao Onipresente — pois não foi dito entre esses dois versos senão "eis que venho a ti, etc." (Êxodo 19:9)?
Rabi diz , em contraste com Rabi Yosi ben Yehuda: no início Moshe explicou ao povo a punição do preceito de delimitação, pois está escrito "e Moshe devolveu" — palavras que afastam (meshabvin) o entendimento de uma pessoa; e por fim explicou a recompensa desse mesmo preceito, pois está escrito "e Moshe relatou" (vaiaguêd) — palavras que atraem o coração de uma pessoa como uma agadá (narrativa envolvente). E há os que dizem a ordem inversa: no início explicou a recompensa, pois está escrito "e Moshe devolveu" — palavras que restauram (meshivin) o entendimento de uma pessoa; e por fim explicou a punição, pois está escrito "e Moshe relatou" — palavras que são duras para a pessoa como tendões (guidin) , difíceis de digerir.
Rabi discorda de Rabi Yosi ben Yehuda sobre o que os dois versos, "e Moshe devolveu" e "e Moshe relatou", realmente descrevem: não a delimitação do monte em si, mas a ordem em que Moshe expôs ao povo a punição e a recompensa associadas ao cumprimento (ou descumprimento) desse preceito. Segundo a primeira versão de Rabi, ele começou pela punição — um discurso mais severo, que "afasta" ou perturba o entendimento, associado à raiz da palavra "vaiashev" (devolveu, relacionada a "meshabev", perturbar) —, e terminou pela recompensa, um discurso envolvente e atraente como uma narrativa (agadá), associado a "vaiaguêd" (relatou, da mesma raiz de "hagadá"). A segunda versão inverte a ordem: começou pela recompensa (associando "vaiashev" a "meshivin", restaurar ou reconfortar o ânimo) e terminou pela punição, descrita como palavras "duras como tendões", difíceis de aceitar mas necessárias.
"'Este é o preceito de delimitação'" — pois, embora esteja escrito depois do preceito de abstinência, no terceiro dia foi dito a ele, e Moshe precisou devolver a resposta de que o povo o aceitara sobre si. "'Sua punição'" — a punição da Torá , por transgredi-la. "'Meshabvin (que afastam)'" — como em "e andou rebelde (shovav)" (Isaías 57:17) — palavras que impedem de aceitar, pois, se a aceitassem, seriam punidos caso transgredissem; essas palavras afastam o coração deles do Onipresente, e ainda assim a aceitaram sobre si. "'Kegidin (como tendões)'" — amargos como uma erva amarga.
Vem e ouve ainda outra fonte: "sexto" — sexto dia do mês, sexto dia da semana — coincidindo no mesmo dia — isso parece difícil para os sábios , pelo mesmo motivo de antes! Responde a Guemará: também esta baraita é de Rabi Yosi , não dos sábios. O "sexto" mencionado aqui, para que serve? Rava disse: — a resposta de Rava fica aqui interrompida; completa-se apenas no início de 87b —
A Guemará traz uma terceira objeção, no mesmo padrão das duas anteriores: uma baraita que identifica um determinado "sexto dia" como sendo simultaneamente o sexto dia do mês e o sexto dia da semana — o que, segundo a contagem dos sábios (que fixam o início do mês numa segunda-feira, e não num domingo), criaria uma contradição, pois para eles esses dois "sextos" não coincidiriam no mesmo dia. A Guemará resolve isso do mesmo modo que a objeção anterior: também esta baraita reflete apenas a opinião de Rabi Yosi, não a dos sábios, e por isso não os contradiz de fato. A Guemará então pergunta para que serviria esse "sexto dia" mencionado — e Rava começa a responder, mas a frase é cortada exatamente no início de sua resposta, com as palavras "Rava disse". A continuação — o conteúdo da resposta de Rava sobre o sexto dia, que distingue entre o acampamento do povo no Sinai e sua partida dali, segundo a disputa entre ele e Rav Acha bar Yaakov sobre se o preceito da delimitação dos limites do Shabat foi dado em Marah — abre a folha 87b.
"'Sexto, sexto do mês, etc.'" — mais adiante a Guemará pergunta para que serviu esse primeiro "sexto", pois aqui não se pode dizer que "sexto" se refira àquelas mesmas coisas do preceito de delimitação, como se dizia do "terceiro"; pois, quanto ao "terceiro" da baraita anterior, tudo bem, pode-se dizer que trata delas, já que durante três dias completos Moshe estava falando essas coisas, pois forçosamente "e Moshe relatou" está escrito a respeito do quarto dia, sobre as coisas que o povo aceitou no terceiro — mas aqui, quanto ao "sexto", não há um paralelo assim disponível. "'Difícil para os sábios'" — pois o verso dá a entender que no primeiro dia da semana se fixou o mês.