Talmud Bavli · Massechet Shabat · Perek Tet (Amar Rabi Akiva)
בִּתְלָתָא אֲמַר לְהוּ מִצְוַת הַגְבָּלָה

No terceiro dia disse-lhes o preceito de delimitar o monte: a baraita dos três dias em que Moshe agiu por conta própria e o Eterno concordou com ele; a disputa sobre o dia do preceito de "estai prontos"; e o início da resposta de Rava sobre o sexto dia do mês

Shabbat 87a — completa, logo no início, a frase interrompida em 86b sobre a sequência de ordens que Moshe deu ao povo dia após dia, na semana anterior à entrega da Torá; traz a baraita de que Moshe fez três coisas por conta própria e o Santo, bendito seja, concordou com ele — acrescentar um dia de abstinência, separar-se por completo de sua esposa e quebrar as tábuas —, com a demonstração bíblica de cada concordância; a objeção de "e estai prontos para o terceiro dia" contra Rabi Yosi, respondida pela explicação de que Moshe acrescentou um dia por conta própria; a disputa sobre se "terceiro" no verso se refere ao terceiro dia do mês ou ao terceiro dia da semana; a pergunta sobre para que serviu esse terceiro dia, respondida pela baraita de que Moshe devolveu ao Eterno a resposta do povo; a disputa entre Rabi Yosi bar Yehuda e Rabi sobre se Moshe expôs primeiro a punição ou primeiro a recompensa do preceito da delimitação; e retoma a objeção de que "sexto" no verso se refere ao sexto dia do mês e ao sexto da semana, contra os sábios — terminando em aberto, na resposta de Rava, que só se completa em 87b.

86b terminara no meio de uma frase, dentro da baraita sobre em que dia do mês de Sivan foram dados os Dez Mandamentos: a explicação de Rabi Yosi sobre a fixação do mês num domingo, o silêncio de Moshe nesse mesmo dia por causa do cansaço da viagem, e o início do que ele disse na segunda-feira — "e vós sereis para mim um reino de sacerdotes" —, cortada exatamente aí. 87a abre completando essa mesma frase: no terceiro dia (terça-feira) Moshe disse-lhes o preceito de delimitar o monte; no quarto dia (quarta-feira) fizeram a abstinência de relações conjugais; e a Guemará observa que, segundo os sábios (que discordam de Rabi Yosi quanto ao dia da fixação do mês), o mês se fixou na segunda-feira, o silêncio ocorreu na segunda, "e vós sereis para mim" foi dito na terça, o preceito de delimitação na quarta, e a abstinência começou na quinta. A Guemará então objeta contra Rabi Yosi a partir do verso "e santificai-os hoje e amanhã" (Êxodo 19:10), que, somado a um terceiro dia de preparação, perfaz apenas dois dias de aviso prévio mais o terceiro dia em que a Torá foi dada — o que não bate com a contagem de Rabi Yosi. A resposta: Rabi Yosi concorda que Moshe, por conta própria, acrescentou mais um dia de abstinência além do que fora ordenado, e o Santo, bendito seja, concordou com essa iniciativa. Isso introduz uma baraita mais ampla: três coisas fez Moshe por conta própria, e o Santo, bendito seja, concordou com ele — acrescentar um dia, separar-se por completo de sua esposa, e quebrar as tábuas da aliança —, cada uma demonstrada por um argumento a fortiori do próprio Moshe e confirmada por um verso que revela a concordância Divina. A Guemará então traz e resolve duas objeções textuais: a primeira, de que "estai prontos para o terceiro dia" contradiria a posição de Rabi Yosi, respondida pelo dia acrescentado por iniciativa de Moshe; a segunda, sobre se a palavra "terceiro" (numa baraita distinta) se refere ao terceiro dia do mês ou ao terceiro dia da semana, com a disputa entre essa leitura e a posição dos sábios. Segue a pergunta sobre para que serviria esse terceiro dia adicional, respondida por uma baraita que descreve como Moshe subiu e desceu o monte levando as palavras do povo de volta ao Eterno, e a disputa entre Rabi Yosi bar Yehuda (que identifica esse relato com o preceito de delimitação) e Rabi (que o identifica com a ordem em que Moshe expôs a punição e a recompensa do preceito). A folha então retoma o padrão de objeção, agora sobre a palavra "sexto", também contra os sábios — e se encerra em aberto, na resposta de Rava, que só se completa no início de 87b.

Nota — a folha completa, no início, a frase interrompida em 86b

86b terminara cortada no meio da explicação de Rabi Yosi: "בִּתְרֵי בְּשַׁבָּא אֲמַר לְהוּ: ׳וְאַתֶּם תִּהְיוּ לִי מַמְלֶכֶת כֹּהֲנִים׳" ("no segundo dia da semana disse-lhes: 'e vós sereis para mim um reino de sacerdotes'"). 87a abre em continuação direta dessa mesma frase, sem qualquer novo raciocínio independente: "בִּתְלָתָא אֲמַר לְהוּ מִצְוַת הַגְבָּלָה" ("no terceiro dia disse-lhes o preceito de delimitar o monte"). A baraita prossegue então, dia após dia, até completar a semana inteira que precedeu a entrega da Torá, e só depois passa à posição dos sábios sobre a mesma cronologia, que discordam de Rabi Yosi quanto ao dia em que o mês se fixou.

A baraita completa: dia após dia, da fixação do mês à entrega da Torá · בְּאַרְבָּעָה עֲבוּד פְּרִישָׁה

64Continuação de Rabi Yosi: terça-feira, o preceito de delimitação; quarta-feira, a abstinência. Os sábios: a fixação foi na segunda-feira, e cada ordem se desloca um dia
A baraita; Rabi Yosi; os sábios (chachamim)
בִּתְלָתָא אֲמַר לְהוּ מִצְוַת הַגְבָּלָה; בְּאַרְבְּעָה עֲבוּד פְּרִישָׁה. וְרַבָּנַן סָבְרִי — בִּתְרֵי בְּשַׁבָּא אִיקְּבַע יַרְחָא, בִּתְרֵי בְּשַׁבָּא לָא אֲמַר לְהוּ וְלָא מִידֵּי מִשּׁוּם חוּלְשָׁא דְאוֹרְחָא; בִּתְלָתָא אֲמַר לְהוּ: ״וְאַתֶּם תִּהְיוּ לִי״; בְּאַרְבְּעָה אֲמַר לְהוּ מִצְוַת הַגְבָּלָה; בְּחַמְשָׁא עֲבוּד פְּרִישָׁה. מֵיתִיבִי: ״וְקִדַּשְׁתָּם הַיּוֹם וּמָחָר״, קַשְׁיָא לְרַבִּי יוֹסֵי!

Continuando a baraita de Rabi Yosi, interrompida ao final de 86b: no terceiro dia da semana (terça-feira) disse-lhes o preceito de delimitar o monte; no quarto dia (quarta-feira) fizeram a abstinência de relações conjugais. E os sábios (chachamim, que discordam de Rabi Yosi quanto ao dia do mês em que a Torá foi dada) entendem: no primeiro dia da semana (domingo) se fixou o mês, mas, segundo eles, no primeiro dia da semana Moshe não lhes disse absolutamente nada, por causa do cansaço da viagem; no terceiro dia (terça-feira, um dia mais tarde do que segundo Rabi Yosi) disse-lhes: "e vós sereis para mim"; no quarto dia (quarta-feira) disse-lhes o preceito de delimitar; no quinto dia (quinta-feira) fizeram a abstinência. Objeta a Guemará: "e santificai-os hoje e amanhã" (Êxodo 19:10, que junto com o terceiro dia de "estai prontos" soma apenas dois dias de aviso mais o terceiro da revelação) — isso é difícil para Rabi Yosi!

Nota

A baraita, interrompida em 86b, é retomada e completada aqui: segundo Rabi Yosi, o mês se fixou num domingo; nesse domingo Moshe nada disse por causa do cansaço da viagem; na segunda-feira disse "e vós sereis para mim um reino de sacerdotes"; na terça-feira, o preceito de delimitar o monte (proibindo o povo de subi-lo ou tocar em seus limites); e na quarta-feira o povo iniciou a abstinência de relações conjugais que duraria três dias completos até o Shabat. Os sábios, que discordam de Rabi Yosi sobre em que dia da semana caiu o primeiro dia do mês, deslocam toda essa sequência em um dia: para eles, o mês se fixou na segunda-feira, o silêncio de Moshe ocorreu nesse mesmo dia, "e vós sereis para mim" foi dito na terça, o preceito de delimitação na quarta, e a abstinência começou apenas na quinta-feira. A Guemará então levanta uma objeção contra a posição de Rabi Yosi a partir do verso "e santificai-os hoje e amanhã, e lavem as suas vestes; e estejam prontos para o terceiro dia" (Êxodo 19:10-11): esse verso menciona apenas dois dias de preparação ("hoje e amanhã") antes do terceiro dia da revelação — mas, segundo a contagem de Rabi Yosi, a abstinência começou na quarta-feira e a Torá só foi dada no Shabat, um intervalo de três dias completos (quarta, quinta e sexta), não dois.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "bitlata amar lehu mitzvat hagbalah"
בתלתא אמר להו מצות הגבלה - שהדברים שנאמרו לו בשני ירד לערב ואמרן לישראל כדכתיב ויבא משה ויקרא לזקני העם וגו' ולמחרת השכים ועלה וישב משה את דברי העם וגו' כדאמר כל עליותיו בהשכמה היו ובו ביום נאמר לו הנה אנכי בא אליך בעב וגו' ומצות הגבלתם דהשמרו לכם עלות בהר אע"פ שהיא כתובה אחר וקדשתם היום ומחר שהיא מצות פרישה קודם לכן נאמרה דכתיב בההיא עלייה שעלה בשלישי להשיב להקב"ה דברי העם דנעשה (ונשמע) הנה אנכי בא אליך וסיפא דקרא ויגד משה את דברי העם וגו' וכי מה דברי העם יש כאן אלא מצות הגבלה נאמר לו בו ביום ולקמן תניא לה הכי ולערב אמרה לישראל ולמחרת בד' השכים ועלה והגיד שקבלו עליהם מצות הגבלה ונאמרה לו מצות פרישה וקדשתם היום ומחר ואע"פ שיש עוד ג' ימים עד יום שבת האמרינן לקמן לר"י דמשה הוסיף יום אחד מדעתו:

"'No terceiro dia disse-lhes o preceito de delimitar'" — pois as palavras que lhe foram ditas na segunda-feira ele desceu à tarde e as disse a Israel, conforme está escrito: "e veio Moshe e chamou os anciãos do povo, etc." (Êxodo 19:7); e no dia seguinte se levantou de madrugada e subiu, e ali recebeu novas ordens, conforme dizemos que todas as suas subidas eram de madrugada; e nesse mesmo dia da segunda subida lhe foi dito "eis que venho a ti numa nuvem espessa, etc." (Êxodo 19:9); e o preceito de delimitação, "guardai-vos de subir ao monte" (Êxodo 19:12), embora esteja escrito depois de "e santificai-os hoje e amanhã", que é o preceito da abstinência, foi dito antes disso — pois está escrito, naquela subida que fez na terça-feira para devolver ao Santo, bendito seja, a resposta do povo de "faremos (e ouviremos)", "eis que venho a ti", e o fim do verso, "e disse (vaiaguêd) Moshe as palavras do povo, etc." (Êxodo 19:8) — e que palavras do povo há aqui, senão o preceito de delimitação, que lhe foi dito nesse mesmo dia; e adiante a Guemará ensina isso assim: e à tarde disse-o a Israel, e no dia seguinte, na quarta-feira, levantou-se de madrugada e subiu e relatou que aceitaram sobre si o preceito de delimitação, e lhe foi dito o preceito de abstinência, "e santificai-os hoje e amanhã"; e embora ainda faltem três dias até o Shabat, dizemos adiante, segundo Rabi Yosi, que Moshe acrescentou um dia por conta própria.

65Resposta: Moshe acrescentou um dia por conta própria — baraita: três coisas fez Moshe por conta própria e o Santo, bendito seja, concordou com ele
A Guemará; a baraita
אָמַר לְךָ רַבִּי יוֹסֵי: יוֹם אֶחָד הוֹסִיף מֹשֶׁה מִדַּעְתּוֹ. דְּתַנְיָא: שְׁלֹשָׁה דְּבָרִים עָשָׂה מֹשֶׁה מִדַּעְתּוֹ, וְהִסְכִּים הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא עִמּוֹ. הוֹסִיף יוֹם אֶחָד מִדַּעְתּוֹ, וּפֵירַשׁ מִן הָאִשָּׁה, וְשָׁבַר אֶת הַלּוּחוֹת.

Diria-te Rabi Yosi: um dia acrescentou Moshe por conta própria , além do que lhe fora ordenado. Pois foi ensinado numa baraita: três coisas fez Moshe por conta própria, e o Santo, bendito seja, concordou com ele: acrescentou um dia por conta própria, separou-se por completo de sua esposa, e quebrou as tábuas da aliança.

Nota

A Guemará resolve a objeção anterior explicando que Rabi Yosi concorda que o texto ordenou apenas dois dias de preparação ("hoje e amanhã") antes do terceiro dia da revelação — mas Moshe, por sua própria iniciativa, acrescentou um dia adicional de abstinência, além do que fora explicitamente ordenado, e assim a contagem real chegou a três dias completos até o Shabat. Isso introduz uma baraita mais ampla, que lista três decisões tomadas por Moshe por conta própria, sem ordem explícita — o dia acrescentado à abstinência antes da entrega da Torá, a separação completa e permanente de sua esposa Tzipora depois da entrega da Torá, e a quebra das tábuas da aliança ao descer do monte e ver o bezerro de ouro —, todas as quais o próprio Santo, bendito seja, veio a confirmar e aprovar retroativamente.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "amar lecha Rabi Yosi" e "uferash min haisha"
אמר לך ר' יוסי - לעולם ברביעי נאמר לו לפרוש ד' וה' והוא הוסיף יום אחד והסכים הקב"ה לדעתו: ופירש מן האשה - לגמרי לאחר מתן תורה מיד משפירש עם חביריו שוב לא חזר לתשמיש:

"'Diria-te Rabi Yosi'" — de fato, na quarta-feira lhe foi dito para se absterem por dois dias, quarta e quinta-feira, e ele , Moshe, acrescentou um dia por conta própria, e o Santo, bendito seja, concordou com sua decisão. "'E separou-se da esposa'" — completamente, depois da entrega da Torá; assim que se separou de sua esposa junto com seus companheiros , o povo, antes da revelação, não voltou mais a ter relações conjugais.

66O que Moshe derivou para acrescentar o dia: a noite pertence ao dia seguinte, e a noite atual já havia passado — logo, faltavam dois dias além do presente; e como sabemos que o Eterno concordou: a Presença Divina só desceu na manhã de Shabat
A Guemará
הוֹסִיף יוֹם אֶחָד מִדַּעְתּוֹ, מַאי דְּרַשׁ? ״הַיּוֹם וּמָחָר״ — הַיּוֹם כְּמָחָר. מָה לְמָחָר לֵילוֹ עִמּוֹ, אַף הַיּוֹם לֵילוֹ עִמּוֹ. וְלַיְלָה דְּהָאִידָּנָא נְפַק לֵיהּ, שְׁמַע מִינַּהּ תְּרֵי יוֹמֵי לְבַר מֵהָאִידָּנָא. וּמְנָלַן דְּהִסְכִּים הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא עַל יָדוֹ — דְּלָא שְׁרַאי שְׁכִינָה עַד צַפְרָא דְשַׁבְּתָא.

"Acrescentou um dia por conta própria" — que argumento derivou Moshe para chegar a essa conclusão? "Hoje e amanhã" (Êxodo 19:10)ensina que hoje é como amanhã: assim como amanhã tem sua noite anterior junto com ele, também hoje tem sua noite junto com ele. E a noite de agora (a que precede "hoje") já se fora , pois a ordem foi dada de manhã; aprende-se daí que restavam dois dias completos, com suas respectivas noites, além do dia de agora , totalizando três dias além do momento da ordem. E de onde sabemos que o Santo, bendito seja, concordou com ele? Do fato de que a Presença Divina não repousou sobre o monte para dar a Torá até a manhã de Shabat , confirmando que era necessário esse dia adicional.

Nota

A Guemará explica o raciocínio exegético de Moshe: o verso "santificai-os hoje e amanhã" usa a palavra "hoje" de um modo que, por analogia com "amanhã" (que inclui a noite que o precede), também deveria incluir sua própria noite precedente. Mas essa noite precedente já havia se passado no momento em que a ordem foi dada (de manhã). Logo, Moshe concluiu que, além do dia em que a ordem foi dada, ainda restavam dois dias inteiros de abstinência antes da revelação — não apenas um, como uma leitura simples do verso sugeriria. A confirmação de que essa iniciativa foi correta e aprovada por Deus está no próprio fato histórico de que a Presença Divina não desceu sobre o Sinai para entregar a Torá até a manhã do Shabat, exatamente quando a contagem estendida de Moshe indicava que o povo estaria pronto.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "af hayom lelo imo"
אף היום - צריך להיות לילו עמו והא לא אפשר:

"'Também hoje'" — precisa ter sua noite junto com ele, e isso , quanto à noite que já passou, não é possível , e por isso a noite subsequente é que se conta em seu lugar, resultando em um dia adicional.

67A separação da esposa: o argumento a fortiori de Moshe a partir do povo, que só ouviu a Presença Divina uma vez; e a confirmação — "vai, diz-lhes: voltai às vossas tendas... e tu, fica aqui comigo"
A Guemará
וּפֵירַשׁ מִן הָאִשָּׁה, מַאי דְּרַשׁ? נָשָׂא קַל וָחוֹמֶר בְּעַצְמוֹ, אָמַר: וּמָה יִשְׂרָאֵל שֶׁלֹּא דִּבְּרָה שְׁכִינָה עִמָּהֶן אֶלָּא שָׁעָה אַחַת, וְקָבַע לָהֶן זְמַן, אָמְרָה תּוֹרָה: ״וְהָיוּ נְכֹנִים וְגוֹ׳ אַל תִּגְּשׁוּ״. אֲנִי, שֶׁכׇּל שָׁעָה וְשָׁעָה שְׁכִינָה מְדַבֶּרֶת עִמִּי, וְאֵינוֹ קוֹבֵעַ לִי זְמַן — עַל אַחַת כַּמָּה וְכַמָּה. וּמְנָלַן דְּהִסְכִּים הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא עַל יָדוֹ? — דִּכְתִיב: ״לֵךְ אֱמֹר לָהֶם שׁוּבוּ לָכֶם לְאׇהֳלֵיכֶם״, וּכְתִיב בָּתְרֵיהּ: ״וְאַתָּה פֹּה עֲמֹד עִמָּדִי״. וְאִית דְּאָמְרִי: ״פֶּה אֶל פֶּה אֲדַבֶּר בּוֹ״.

"E separou-se da esposa" — que argumento derivou Moshe? Fez um argumento a fortiori (kal vachomer) por conta própria, disse: se Israel, com quem a Presença Divina falou apenas uma vez , na revelação do Sinai, e ainda assim lhes fixou um prazo de abstinência, disse a Torá: "e estejam prontos... não vos aproximeis de mulher" (Êxodo 19:15) — eu, com quem a Presença Divina fala a cada hora, e não me fixa prazo algum para isso — quanto mais razão há para eu me abster permanentemente! E de onde sabemos que o Santo, bendito seja, concordou com ele? Pois está escrito: "vai, dize-lhes: voltai às vossas tendas" (Deuteronômio 5:27), e está escrito depois disso: "e tu, fica aqui comigo" (Deuteronômio 5:28). E há os que dizem que a prova vem de outro verso: "boca a boca falarei com ele" (Números 12:8).

Nota

Moshe raciocinou que, se o povo inteiro de Israel — que teve o privilégio de ouvir a voz Divina apenas naquela única ocasião da revelação no Sinai — precisou se abster de relações conjugais por um prazo fixo antes disso, ele, que falava com a Presença Divina constantemente, a qualquer hora, sem nenhum prazo determinado entre uma comunicação e outra, deveria se separar de sua esposa permanentemente, para estar sempre pronto. A confirmação de que Deus concordou com essa decisão vem do verso em que, depois da revelação, Deus ordena que o povo volte às suas tendas conjugais, mas diz especificamente a Moshe: "e tu, fica aqui comigo" — mantendo-o à parte, no estado de santidade e prontidão que ele mesmo havia adotado. Uma segunda versão localiza essa confirmação no verso que descreve a comunicação exclusiva e direta de Deus com Moshe, "boca a boca", implicando uma relação contínua incompatível com a vida conjugal comum.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "vekava lahem zeman", "amra Torah vehaiu nechonim" e "lahalichem"
וקבע להם זמן - אימתי ידבר עמהם: אמרה תורה והיו נכונים וגו' - פירשו מנשותיהן: ולא קבע לי זמן - לדבורו שאוכל לפרוש קודם לכן: לאהליכם - להתיר נשותיכם לתשמיש שאסרתי לכם:

"'E lhes fixou um prazo'" — isto é, um prazo para saber quando Deus falaria com eles. "'Disse a Torá: e estejam prontos, etc.'" — isto é, ordenou que se separassem de suas esposas. "'E não me fixou prazo'" — para saber quando ocorreria Sua fala comigo, de modo que eu pudesse me abster antes disso , com antecedência suficiente. "'Às vossas tendas'" — isto é, para permitir a vossas esposas as relações conjugais que eu vos havia proibido.

68A quebra das tábuas: o argumento a fortiori do Pêssach, que é um só entre 613 mandamentos e ainda assim se proíbe ao estrangeiro; e a confirmação — "que quebraste", e Reish Lakish: que tua força se fortaleça por teres quebrado!
A Guemará; Reish Lakish
שָׁבַר אֶת הַלּוּחוֹת, מַאי דְּרַשׁ? אָמַר: וּמָה פֶּסַח שֶׁהוּא אֶחָד מִתַּרְיָ״ג מִצְוֹת, אָמְרָה תּוֹרָה: ״וְכׇל בֶּן נֵכָר לֹא יֹאכַל בּוֹ״. הַתּוֹרָה כּוּלָּהּ וְיִשְׂרָאֵל מְשׁוּמָּדִים — עַל אַחַת כַּמָּה וְכַמָּה. וּמְנָלַן דְּהִסְכִּים הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא עַל יָדוֹ? — שֶׁנֶּאֱמַר: ״אֲשֶׁר שִׁבַּרְתָּ״, וְאָמַר רֵישׁ לָקִישׁ: יִישַׁר כֹּחֲךָ שֶׁשִּׁבַּרְתָּ.

"Quebrou as tábuas" — que argumento derivou Moshe? Disse: se o sacrifício de Pêssach, que é apenas um dos 613 mandamentos, e ainda assim disse a Torá: "e nenhum filho de estrangeiro comerá dele" (Êxodo 12:43) — quanto mais deveria ser proibida a Torá inteira, estando Israel apóstata , adorando o bezerro de ouro! E de onde sabemos que o Santo, bendito seja, concordou com ele? Pois está dito: "que quebraste" (Êxodo 34:1) — e disse Reish Lakish: que tua força se fortaleça (yishar kochacha) por teres quebrado!

Nota

Ao descer do monte e ver o povo adorando o bezerro de ouro, Moshe raciocinou por analogia: se até o sacrifício de Pêssach — apenas um entre os 613 mandamentos — é proibido a um estrangeiro não circuncidado que não professa a fé de Israel, quanto mais a Torá inteira deveria ser retida de um povo que, naquele momento, se comportava como apóstata, tendo acabado de fabricar e adorar um ídolo. Por essa lógica, Moshe quebrou as tábuas em vez de entregá-las ao povo naquele estado. A confirmação de que Deus aprovou essa decisão está no próprio texto — "as tábuas que quebraste" — interpretado por Reish Lakish não como uma repreensão, mas como um elogio: "que tua força se fortaleça por teres quebrado", reconhecendo que a quebra foi um ato de julgamento correto, e não de fraqueza ou raiva descontrolada.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "ben nechar", "haTorah kulah" e "asher"
בן נכר - מומר שנתנכרו מעשיו לאביו שבשמים: התורה כולה - תלויה בלוחות הללו וישראל מומרים על אחת כמה וכמה שאינם כדי לה: אשר - אישור שאישרו ושיבחו על שבירתן:

"'Filho de estrangeiro'" — refere-se também ao apóstata, cujos atos se tornaram estranhos (nitnakru) ao seu Pai que está nos céus. "'A Torá inteira'" — que depende destas tábuas, e Israel estando apóstata, quanto mais razão há para dizer que não são dignos dela. "'Asher' (que)" — é uma expressão de aprovação (ishur), com que Deus aprovou e elogiou Moshe por tê-las quebrado.

Duas objeções resolvidas: "estejam prontos para o terceiro dia" e o sentido de "terceiro" · וְהָיוּ נְכֹנִים לַיּוֹם הַשְּׁלִישִׁי

69Objeção: "estejam prontos para o terceiro dia" é difícil para Rabi Yosi — respondida pelo dia acrescentado. Segunda objeção: "terceiro" — terceiro do mês e terceiro da semana — é difícil para os sábios; resposta: essa baraita é de Rabi Yosi
A Guemará
תָּא שְׁמַע: ״וְהָיוּ נְכֹנִים לַיּוֹם הַשְּׁלִישִׁי״, קַשְׁיָא לְרַבִּי יוֹסֵי. הָא אָמְרִינַן יוֹם אֶחָד הוֹסִיף מֹשֶׁה מִדַּעְתּוֹ. תָּא שְׁמַע: ״שְׁלִישִׁי״ — שְׁלִישִׁי בַּחֹדֶשׁ וּשְׁלִישִׁי בַּשַּׁבָּת, קַשְׁיָא לְרַבָּנַן! אָמְרִי לָךְ רַבָּנַן: הָא מַנִּי — רַבִּי יוֹסֵי הִיא.

Vem e ouve: "e estejam prontos para o terceiro dia" (Êxodo 19:11) — isso parece difícil para Rabi Yosi , pois indicaria apenas três dias ao todo, não a contagem estendida que ele propõe. Mas já dissemos que um dia acrescentou Moshe por conta própria , de modo que "terceiro dia" no verso ainda se refere à ordem original, à qual Moshe somou mais um dia. Vem e ouve outra fonte: "terceiro" — terceiro dia do mês e também terceiro dia da semana — coincidindo no mesmo diaisso parece difícil para os sábios , pois segundo eles o mês se fixou numa segunda-feira, e o terceiro dia do mês não coincidiria com o terceiro dia da semana! Diriam-te os sábios: esta baraita, de quem é — é de Rabi Yosi , não dos sábios, e por isso não os contradiz.

Nota

A Guemará traz duas objeções em sequência, ambas resolvidas. A primeira: o verso "e estejam prontos para o terceiro dia" parece implicar uma contagem de apenas três dias ao todo, o que contradiria a posição de Rabi Yosi de que Moshe acrescentou um dia extra — mas a Guemará responde que isso já foi explicado: o "terceiro dia" do verso refere-se à ordem original transmitida por Moshe, à qual ele mesmo, por iniciativa própria, acrescentou mais um dia de abstinência, sem que isso contradiga o texto do verso. A segunda objeção vem de outra baraita, que identifica um determinado "terceiro dia" simultaneamente como o terceiro dia do mês e o terceiro dia da semana — uma coincidência que só funciona se o mês se fixou num domingo (posição de Rabi Yosi), mas não se fixou numa segunda-feira (posição dos sábios). A Guemará responde que essa segunda baraita, com sua referência dupla ao "terceiro", reflete apenas a opinião de Rabi Yosi, não a dos sábios — de modo que não há contradição real com a posição destes últimos.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre a leitura de "vehaiu nechonim" e "kashya lerabanan"
ה"ג והיו נכונים ליום השלישי ול"ג והיו נכונים לשלשת ימים: הא אמרן יום אחד הוסיף - והאי קרא דוהיו נכונים ליום השלישי קודשא בריך הוא אמר ליה ומשה אמר להן היו נכונים לשלשת ימים ולא אמר ליום השלישי אלא פירשו ג' ימים וקרא דכתיב ויהי ביום השלישי בהיות הבקר שלישי לימים שלמים שלילן עמם קאמר: ת"ש - דתניא בברייתא הכי שלישי שלישי בחדש היה שלישי בשבת היה ולקמן בעי שלישי קמא למאי ע"כ במילתא דשלישי קמיירי וקאמר עלה שלישי זה שלישי בחדש: קשיא לרבנן - דשמעינן בחד בשבא איקבע ירחא א"כ על כרחך בתרי בשבת אמר ואתם תהיו בתלתא הגבלה בארבעה פרישה ובשביעי נתנה תורה דהא לכ"ע בשבת נתנה תורה:

Esta é a versão correta: "e estejam prontos para o terceiro dia", e não se lê "e estejam prontos para os três dias". "'Já dissemos que um dia acrescentou'" — e este verso, "e estejam prontos para o terceiro dia", o Santo, bendito seja, o disse a Moshe; e Moshe disse-lhes: "estejam prontos para os três dias" — e não disse "para o terceiro dia", mas ordenou que se abstivessem por três dias; e o verso que está escrito, "e sucedeu, ao terceiro dia, ao amanhecer" (Êxodo 19:16), fala do terceiro dia contado a partir dos dias completos, com suas respectivas noites, que se abstiveram. "'Vem e ouve'" — pois foi ensinado numa baraita assim: "terceiro" — era o terceiro dia do mês, era o terceiro dia da semana; e adiante a Guemará pergunta: o primeiro "terceiro" , para que serviu? Forçosamente essa baraita trata da questão do dia chamado "terceiro", e diz sobre isso que esse terceiro é o terceiro do mês. "'Difícil para os sábios'" — pois ouvimos deles que no primeiro dia da semana se fixou o mês; se assim é, forçosamente no segundo dia da semana Moshe disse "e vós sereis para mim", no terceiro disse a delimitação, no quarto fizeram a abstinência, e no sétimo dia da semana foi dada a Torá — pois, segundo todos, no Shabat foi dada a Torá.

Para que serviu o "terceiro dia": Moshe devolve a resposta do povo ao Eterno · וַיָּשֶׁב מֹשֶׁה אֶת דִּבְרֵי הָעָם

70Pergunta: para que serviu esse "terceiro"? Baraita: "e Moshe devolveu as palavras do povo... e Moshe relatou as palavras do povo" — o que disse Deus a Moshe, o que Moshe disse ao povo, o que o povo respondeu, e o que Moshe devolveu diante do Poderoso
A Guemará; a baraita
שְׁלִישִׁי לְמַאי? לְכִדְתַנְיָא: ״וַיָּשֶׁב מֹשֶׁה אֶת דִּבְרֵי הָעָם אֶל ה׳״, וּכְתִיב: ״וַיַּגֵּד מֹשֶׁה אֶת דִּבְרֵי הָעָם אֶל ה׳״. מָה אָמַר לוֹ הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא לְמֹשֶׁה, וּמָה אָמַר לָהֶם מֹשֶׁה לְיִשְׂרָאֵל, וּמָה אָמְרוּ יִשְׂרָאֵל לְמֹשֶׁה, וּמָה הֵשִׁיב מֹשֶׁה לִפְנֵי הַגְּבוּרָה? זוֹ מִצְוַת הַגְבָּלָה, דִּבְרֵי רַבִּי יוֹסֵי בַּר יְהוּדָה.

O "terceiro" mencionado nessa baraita, para que serve? Serve para o que se ensinou numa baraita: "e Moshe devolveu as palavras do povo ao Eterno" (Êxodo 19:8), e está escrito também: "e Moshe relatou as palavras do povo ao Eterno" (Êxodo 19:9) — dois versos aparentemente redundantes. O que disse o Santo, bendito seja, a Moshe, e o que disse Moshe a Israel, e o que respondeu Israel a Moshe, e o que Moshe devolveu diante do Atributo de Poder (o Eterno)? Este segundo relato é o preceito de delimitação, palavras de Rabi Yosi ben Yehuda.

Nota

A Guemará pergunta qual foi a função do "terceiro dia do mês" mencionado na baraita anterior, e responde citando uma baraita distinta que lida com dois versos aparentemente repetitivos: "e Moshe devolveu as palavras do povo ao Eterno" e, logo depois, "e Moshe relatou as palavras do povo ao Eterno". A baraita explica que há aqui uma sequência completa de quatro comunicações — o que Deus disse a Moshe, o que Moshe transmitiu ao povo, o que o povo respondeu a Moshe (a aceitação de "faremos e ouviremos"), e o que Moshe devolveu a Deus como resposta final do povo. Segundo Rabi Yosi ben Yehuda, esse segundo relato — "e Moshe relatou" — refere-se especificamente ao preceito de delimitação do monte, que Moshe subiu para comunicar a Deus depois de o povo o ter aceitado, e essa subida ocorreu precisamente no terceiro dia do mês.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "lechidtania" e "vayashev vayaged"
לכדתניא כו' - והכי קאמר יום שלישי לדברים שהתחיל משה להמשיך לבם של ישראל ולפרש עונשן ומתן שכרן ואותו יום היה שלישי בחדש שלישי בשבת ורבי יוסי קאמר לה: וישב ויגד וכי מה אמר הקב"ה למשה - בין וישב משה דנעשה (ונשמע) לויגד משה שאמר להן לישראל ומה אמרו ישראל למשה על כך שהוצרך משה להגיד למקום והלא לא נאמר בינתים אלא הנה אנכי בא וגו':

"'Para o que foi ensinado, etc.'" — e assim a Guemará diz: o terceiro dia é o dia das palavras com que Moshe começou a atrair o coração de Israel, e a expor sua punição e sua recompensa, e esse mesmo dia era o terceiro do mês e o terceiro da semana, e é Rabi Yosi quem assim o diz. "'E devolveu... e relatou' — e o que disse o Santo, bendito seja, a Moshe?" — a pergunta é sobre o que se passou entre "e Moshe devolveu", que se refere à aceitação de "faremos (e ouviremos)", e "e Moshe relatou", que Moshe disse a Israel; e o que disseram Israel a Moshe sobre isso, que o levou a precisar relatar de volta ao Onipresente — pois não foi dito entre esses dois versos senão "eis que venho a ti, etc." (Êxodo 19:9)?

71Rabi: primeiro a punição, depois a recompensa — "e devolveu" são coisas que afastam o coração, "e relatou" são coisas que atraem como agadá; outra versão: a ordem inversa
Rabi
רַבִּי אוֹמֵר: בַּתְּחִילָּה פֵּירֵשׁ עוֹנְשָׁהּ, דִּכְתִיב: ״וַיָּשֶׁב מֹשֶׁה״ — דְּבָרִים שֶׁמְּשַׁבְּבִין דַּעְתּוֹ שֶׁל אָדָם, וּלְבַסּוֹף פֵּירֵשׁ מַתַּן שְׂכָרָהּ, דִּכְתִיב: ״וַיַּגֵּד מֹשֶׁה״ — דְּבָרִים שֶׁמּוֹשְׁכִין לִבּוֹ שֶׁל אָדָם כְּאַגָּדָה. וְאִיכָּא דְאָמְרִי: בַּתְּחִילָּה פֵּירֵשׁ מַתַּן שְׂכָרָהּ, דִּכְתִיב: ״וַיָּשֶׁב מֹשֶׁה״ — דְּבָרִים שֶׁמְּשִׁיבִין דַּעְתּוֹ שֶׁל אָדָם, וּלְבַסּוֹף פֵּירֵשׁ עוֹנְשָׁהּ, דִּכְתִיב: ״וַיַּגֵּד מֹשֶׁה״ — דְּבָרִים שֶׁקָּשִׁין לָאָדָם כְּגִידִּין.

Rabi diz , em contraste com Rabi Yosi ben Yehuda: no início Moshe explicou ao povo a punição do preceito de delimitação, pois está escrito "e Moshe devolveu" — palavras que afastam (meshabvin) o entendimento de uma pessoa; e por fim explicou a recompensa desse mesmo preceito, pois está escrito "e Moshe relatou" (vaiaguêd) — palavras que atraem o coração de uma pessoa como uma agadá (narrativa envolvente). E há os que dizem a ordem inversa: no início explicou a recompensa, pois está escrito "e Moshe devolveu" — palavras que restauram (meshivin) o entendimento de uma pessoa; e por fim explicou a punição, pois está escrito "e Moshe relatou" — palavras que são duras para a pessoa como tendões (guidin) , difíceis de digerir.

Nota

Rabi discorda de Rabi Yosi ben Yehuda sobre o que os dois versos, "e Moshe devolveu" e "e Moshe relatou", realmente descrevem: não a delimitação do monte em si, mas a ordem em que Moshe expôs ao povo a punição e a recompensa associadas ao cumprimento (ou descumprimento) desse preceito. Segundo a primeira versão de Rabi, ele começou pela punição — um discurso mais severo, que "afasta" ou perturba o entendimento, associado à raiz da palavra "vaiashev" (devolveu, relacionada a "meshabev", perturbar) —, e terminou pela recompensa, um discurso envolvente e atraente como uma narrativa (agadá), associado a "vaiaguêd" (relatou, da mesma raiz de "hagadá"). A segunda versão inverte a ordem: começou pela recompensa (associando "vaiashev" a "meshivin", restaurar ou reconfortar o ânimo) e terminou pela punição, descrita como palavras "duras como tendões", difíceis de aceitar mas necessárias.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "zo mitzvat hagbalah", "onshah", "meshabvin" e "kegidin"
זו מצות הגבלה - שאע"פ שכתובה אחר מצות פרישה בשלישי נאמרה לו והוצרך להשיב שקבלו עליהן: עונשה - של תורה: משבבין - כמו וילך שובב (ישעיהו נ"ז:י"ז) שמונעין מלקבל שאם יקבלו יענשו הדברים הללו משבבין את לבם מן המקום ואף על פי כן קיבלו עליהן: כגידין - ירק מר:

"'Este é o preceito de delimitação'" — pois, embora esteja escrito depois do preceito de abstinência, no terceiro dia foi dito a ele, e Moshe precisou devolver a resposta de que o povo o aceitara sobre si. "'Sua punição'" — a punição da Torá , por transgredi-la. "'Meshabvin (que afastam)'" — como em "e andou rebelde (shovav)" (Isaías 57:17) — palavras que impedem de aceitar, pois, se a aceitassem, seriam punidos caso transgredissem; essas palavras afastam o coração deles do Onipresente, e ainda assim a aceitaram sobre si. "'Kegidin (como tendões)'" — amargos como uma erva amarga.

Nova objeção, agora sobre "sexto": e o início da resposta de Rava · שִׁשִּׁי בַּחוֹדֶשׁ שִׁשִּׁי בַּשַּׁבָּת

72Objeção: "sexto" — sexto do mês, sexto da semana — é difícil para os sábios; resposta: também esta é de Rabi Yosi. Pergunta: para que serviu esse "sexto"? Rava começa a responder
A Guemará; Rava
תָּא שְׁמַע: ״שִׁשִּׁי״ — שִׁשִּׁי בַּחוֹדֶשׁ, שִׁשִּׁי בַּשַּׁבָּת, קַשְׁיָא לְרַבָּנַן! הָא נָמֵי רַבִּי יוֹסֵי הִיא. שִׁשִּׁי לְמַאי? רָבָא אָמַר:

Vem e ouve ainda outra fonte: "sexto" — sexto dia do mês, sexto dia da semana — coincidindo no mesmo diaisso parece difícil para os sábios , pelo mesmo motivo de antes! Responde a Guemará: também esta baraita é de Rabi Yosi , não dos sábios. O "sexto" mencionado aqui, para que serve? Rava disse: — a resposta de Rava fica aqui interrompida; completa-se apenas no início de 87b —

Nota — a folha se fecha aqui, em aberto

A Guemará traz uma terceira objeção, no mesmo padrão das duas anteriores: uma baraita que identifica um determinado "sexto dia" como sendo simultaneamente o sexto dia do mês e o sexto dia da semana — o que, segundo a contagem dos sábios (que fixam o início do mês numa segunda-feira, e não num domingo), criaria uma contradição, pois para eles esses dois "sextos" não coincidiriam no mesmo dia. A Guemará resolve isso do mesmo modo que a objeção anterior: também esta baraita reflete apenas a opinião de Rabi Yosi, não a dos sábios, e por isso não os contradiz de fato. A Guemará então pergunta para que serviria esse "sexto dia" mencionado — e Rava começa a responder, mas a frase é cortada exatamente no início de sua resposta, com as palavras "Rava disse". A continuação — o conteúdo da resposta de Rava sobre o sexto dia, que distingue entre o acampamento do povo no Sinai e sua partida dali, segundo a disputa entre ele e Rav Acha bar Yaakov sobre se o preceito da delimitação dos limites do Shabat foi dado em Marah — abre a folha 87b.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "shishi shishi bachodesh" e "kashya lerabanan"
ששי ששי בחדש כו' - לקמיה בעי ששי קמא למאי דהכא ליכא למימר ששי לאותן דברים דבשלמא שלישי דברייתא לעיל איכא למימר דאיירי בהו דהא כל ג' ימים היה משה מדבר באותן הדברים דעל כרחיך ויגד משה בד' כתיב דברים שקבלו בג': קשיא לרבנן - דמשמע דבחד בשבא איקבע ירחא:

"'Sexto, sexto do mês, etc.'" — mais adiante a Guemará pergunta para que serviu esse primeiro "sexto", pois aqui não se pode dizer que "sexto" se refira àquelas mesmas coisas do preceito de delimitação, como se dizia do "terceiro"; pois, quanto ao "terceiro" da baraita anterior, tudo bem, pode-se dizer que trata delas, já que durante três dias completos Moshe estava falando essas coisas, pois forçosamente "e Moshe relatou" está escrito a respeito do quarto dia, sobre as coisas que o povo aceitou no terceiro — mas aqui, quanto ao "sexto", não há um paralelo assim disponível. "'Difícil para os sábios'" — pois o verso dá a entender que no primeiro dia da semana se fixou o mês.

A folha termina aqui, no meio da resposta de Rava à pergunta sobre para que serviu o "sexto dia" mencionado na baraita — interrompida logo após as palavras "Rava disse". A continuação, com o conteúdo dessa resposta e a disputa entre Rava e Rav Acha bar Yaakov sobre o preceito de Shabat dado em Marah, abre a folha 87b.