Talmud Bavli · Massechet Shabbat · Perek Zayin (Klal Gadol)
הִכִּיר וּלְבַסּוֹף שָׁכַח

Quem conheceu o Shabat e não o esqueceu; a baraita do bebê capturado contra Rabi Yochanan e Reish Lakish; o debate de Monbaz com Rabi Akiva; e a fonte de "torá achat" que os sábios reservam para outro ensino

Shabbat 68b — pergunta nova: quem conheceu o Shabat e não o esqueceu é responsável por cada trabalho separadamente? A Guemará reformula a mishná como tratando de quem conheceu e depois esqueceu, e explica que, segundo Rav e Shmuel, até o bebê capturado e o convertido contam como "conheceu e depois esqueceu"; Rabi Yochanan e Reish Lakish discordam, isentando-os por completo, seguindo Monbaz — cuja posição é contestada por uma baraita, debatida por Monbaz perante Rabi Akiva, e cuja fonte bíblica ("torá achat") permanece em aberto quanto ao uso que dela fazem os sábios, resposta que se completa apenas em 69a.

A folha abre com uma pergunta distinta da que fechou 68a: se quem esqueceu o princípio do Shabat depois de tê-lo conhecido é responsável por cada Shabat separadamente, o que se diz de quem conheceu o Shabat e nunca o esqueceu — seria responsável por cada trabalho e trabalho individualmente, já que não há sequer o elemento "esquecimento" para agrupar as transgressões? A Guemará resolve a questão reformulando toda a leitura da mishná: ela não fala de quem "sabe" o princípio do Shabat, mas de quem "conheceu e depois esqueceu" — e, segundo Rav e Shmuel, essa mesma categoria inclui até o bebê capturado entre os gentios e o convertido, que também "contam" como tendo conhecido e esquecido. Rabi Yochanan e Reish Lakish discordam: apenas quem realmente conheceu e esqueceu se enquadra nessa regra; o bebê capturado e o convertido são isentos por completo, sem nenhuma oferenda — posição que atribuem a Monbaz. Uma baraita, porém, parece contradizê-los, ao tratar explicitamente do bebê capturado como caso exemplar da regra que exige uma única oferenda; a Guemará responde que Rabi Yochanan e Reish Lakish adotam a posição minoritária de Monbaz contra os sábios daquela mesma baraita. Em seguida, reproduz-se o debate original entre Monbaz e Rabi Akiva sobre se "pecador" (chotê) aplicado tanto ao transgressor doloso quanto ao inadvertido implica que este também precisa ter tido algum tipo de conhecimento — debate que termina com Rabi Akiva virando o argumento de Monbaz contra ele mesmo. A Guemará então busca a fonte bíblica da posição de Monbaz (a comparação de "torá achat" com a transgressão dolosa) e pergunta o que os sábios, que discordam de Monbaz, fazem desse mesmo versículo — pergunta que fica em aberto, pois a resposta (a leitura de Rabi Yehoshua ben Levi a seu filho) é citada apenas em seu início, sendo concluída já na folha seguinte, 69a.

Quem conheceu o Shabat e não o esqueceu · אֲבָל לֹא שְׁכֵחָהּ

01A pergunta nova; a reformulação da mishná; Rav e Shmuel
Guemará; Rav e Shmuel
אֲבָל לֹא שְׁכֵחָהּ, מַאי — חַיָּיב עַל כׇּל מְלָאכָה וּמְלָאכָה? אַדְּתָנֵי הַיּוֹדֵעַ שֶׁהוּא שַׁבָּת וְעָשָׂה מְלָאכוֹת הַרְבֵּה בְּשַׁבָּתוֹת הַרְבֵּה חַיָּיב עַל כׇּל מְלָאכָה וּמְלָאכָה, לִיתְנֵי ״הַיּוֹדֵעַ עִיקַּר שַׁבָּת״, וְכׇל שֶׁכֵּן הָא! אֶלָּא, מַתְנִיתִין כְּשֶׁהִכִּיר וּלְבַסּוֹף שָׁכַח, וּדְרַב וּשְׁמוּאֵל נָמֵי כְּהִכִּיר וּלְבַסּוֹף שָׁכַח דָּמֵי. וְהָכִי אִיתְּמַר: רַב וּשְׁמוּאֵל דְּאָמְרִי תַּרְוַיְיהוּ אֲפִילּוּ תִּינוֹק שֶׁנִּשְׁבָּה בֵּין הַגּוֹיִם וְגֵר שֶׁנִּתְגַּיֵּיר לְבֵין הַגּוֹיִם — כְּהִכִּיר וּלְבַסּוֹף שָׁכַח דָּמֵי, וְחַיָּיב.

Mas, se não a esqueceu, o quê — é responsável por cada trabalho e trabalho separadamente? Em vez de ensinar "aquele que sabe que é Shabat, e realiza muitos trabalhos em muitos Shabatot, é responsável por cada trabalho e trabalho", deveria ter ensinado "aquele que conhece o princípio do Shabat" — e, com muito mais razão, isto se aplicaria! Mas, na verdade, a mishná trata do caso em que ele conheceu e depois esqueceu, e também a opinião de Rav e Shmuel é como quem conheceu e depois esqueceu. E assim se transmitiu: Rav e Shmuel, ambos disseram: até mesmo o bebê capturado entre os gentios, e o convertido que se converteu vivendo entre os gentios — é como quem conheceu e depois esqueceu, e é responsável.

Nota

68a fechou o caso de quem conheceu o Shabat e depois o esqueceu, responsável por cada Shabat separadamente. Agora se pergunta o caso oposto: quem conheceu o Shabat e jamais o esqueceu — seria responsável por cada trabalho individual, já que nem sequer há um "esquecimento" que agrupe as transgressões sob um único período de inadvertência? A Guemará aplica aqui o mesmo raciocínio usado em 68a: se essa fosse a intenção, a mishná deveria ter formulado diretamente "aquele que sabe que é Shabat", e com muito mais razão a regra se aplicaria a "aquele que conhece o princípio do Shabat" (o caso mais brando de esquecimento intermitente). Como a mishná não formula assim, conclui-se que ela trata apenas do caso de quem conheceu e depois esqueceu — e é a esse caso que se aplica também a opinião de Rav e Shmuel, citada em 68a: eles não pretendiam dizer que o bebê capturado e o convertido são uma categoria à parte, isenta com uma única oferenda por definição; antes, sustentam que esses dois casos são tratados, para efeitos legais, como se tivessem "conhecido e depois esquecido" o Shabat — e por isso são responsáveis (com uma única oferenda, dado o esquecimento contínuo, mas responsáveis).

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "aval lo shechachah" e "chayav al kol av melachá"
אבל לא שכחה - לעיקר שבת אלא ששכח שהיום שבת מאי: חייב על כל אב מלאכה - דע"כ אי הוה סבירא ליה דאינו חייב אלא אחת לכל שבת ושבת הוה ליה למיכרך ולמיתני הכי מי שידע עיקר שבת ושכחה וכן היודע עיקר שבת ועשה מלאכות הרבה בשבתות הרבה חייב על כל שבת ושבת: ליתני היודע עיקר שבת - דהוה שגגת שבת וזדון מלאכות הרבה חייב על כל מלאכה אע"ג דבכל שבת ליכא אלא חדא שגגה וכ"ש שגגת מלאכות וזדון שבת דאיכא שגגות הרבה: כהכיר ולבסוף שכח דמי - ומתניתין איצטריך למינקט הכיר ולבסוף שכח דלא תימא חייב על כל שבת ושבת:

"Mas se não a esqueceu" — refere-se ao princípio do Shabat, mas se esqueceu que hoje é Shabat, o quê se diz? "É responsável por cada categoria principal de trabalho" — pois, com certeza, se a mishná sustentasse que ele não é responsável senão por uma oferenda para cada Shabat, deveria ter reunido e ensinado assim: "aquele que sabia o princípio do Shabat e o esqueceu"; e do mesmo modo, "aquele que conhece o princípio do Shabat, e realiza muitos trabalhos em muitos Shabatot, é responsável por cada Shabat e Shabat". "Deveria ter ensinado 'aquele que conhece o princípio do Shabat'" — pois então haveria erro quanto ao Shabat e dolo quanto aos muitos trabalhos, e ainda assim seria responsável por cada trabalho, ainda que em cada Shabat não haja senão um único erro; e com muito mais razão se aplicaria isso ao erro quanto aos trabalhos e dolo quanto ao Shabat, onde há muitos erros. "É como quem conheceu e depois esqueceu" — e a mishná precisou mencionar "conheceu e depois esqueceu", para que não se pensasse que tal pessoa é responsável por cada Shabat e Shabat.

02Rabi Yochanan e Reish Lakish discordam: isenção completa, seguindo Monbaz
Rabi Yochanan e Reish Lakish; Baraita
וְרַבִּי יוֹחָנָן וְרַבִּי שִׁמְעוֹן בֶּן לָקִישׁ דְּאָמְרִי תַּרְוַיְיהוּ: דַּוְקָא הִכִּיר וּלְבַסּוֹף שָׁכַח — אֲבָל תִּינוֹק שֶׁנִּשְׁבָּה בֵּין הַגּוֹיִם וְגֵר שֶׁנִּתְגַּיֵּיר לְבֵין הַגּוֹיִם — פָּטוּר. מֵיתִיבִי: כְּלָל גָּדוֹל אָמְרוּ בַּשַּׁבָּת: כׇּל הַשּׁוֹכֵחַ עִיקַּר שַׁבָּת, וְעָשָׂה מְלָאכוֹת הַרְבֵּה בְּשַׁבָּתוֹת הַרְבֵּה — אֵינוֹ חַיָּיב אֶלָּא אַחַת. כֵּיצַד? — תִּינוֹק שֶׁנִּשְׁבָּה לְבֵין הַגּוֹיִם, וְגֵר שֶׁנִּתְגַּיֵּיר בֵּין הַגּוֹיִם, וְעָשָׂה מְלָאכוֹת הַרְבֵּה בְּשַׁבָּתוֹת הַרְבֵּה — אֵינוֹ חַיָּיב אֶלָּא חַטָּאת אַחַת. וְחַיָּיב עַל הַדָּם אַחַת, וְעַל הַחֵלֶב אַחַת, וְעַל עֲבוֹדָה זָרָה אַחַת, וּמוֹנְבַּז פּוֹטֵר.

Já Rabi Yochanan e Rabi Shimon ben Lakish, ambos disseram: especificamente quem conheceu e depois esqueceu é responsável; mas o bebê capturado entre os gentios e o convertido que se converteu vivendo entre os gentios são isentos. Objeta-se: ensinaram uma grande regra a respeito do Shabat: todo aquele que esquece o princípio do Shabat, e realiza muitos trabalhos em muitos Shabatot, não é responsável senão por uma oferenda. Como assim? O bebê capturado entre os gentios, e o convertido que se converteu entre os gentios, e realizou muitos trabalhos em muitos Shabatot — não é responsável senão por uma única oferenda pelo pecado. E é responsável por comer sangue, uma única oferenda; e por comer gordura proibida, uma única oferenda; e por idolatria, uma única oferenda; mas Monbaz isenta.

Nota

Rabi Yochanan e Reish Lakish restringem ainda mais a regra: apenas quem realmente conheceu o Shabat e depois esqueceu é responsável (com uma única oferenda); o bebê capturado e o convertido, que nunca tiveram conhecimento algum, são isentos por completo — nem sequer uma oferenda, pois lhes falta o requisito mínimo de terem alguma vez sabido o que era proibido. A Guemará traz uma baraita que parece contradizê-los: ela lista expressamente o bebê capturado e o convertido como exemplo padrão de quem é responsável por uma única oferenda pelo Shabat — e, por analogia, também por comer sangue, gordura proibida e praticar idolatria, uma única oferenda para cada uma dessas transgressões, apesar da repetição em muitas ocasiões — mas acrescenta que Monbaz os isenta por completo, revelando que a posição da isenção total é a de uma minoria explícita.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "patur" e "chayav al hadam"
פטור - דקסברי רבי יוחנן ור"ל אומר מותר אנוס הוא ולא שגגה היא: וחייב על הדם - שאכל כל ימיו אחת וכן על כל דבר כרת שבתורה:

"É isento" — pois Rabi Yochanan e Reish Lakish sustentam que quem age pensando que lhe é permitido é como um coagido, e não se enquadra em erro propriamente dito. "E é responsável por comer sangue" — durante toda a sua vida, uma única oferenda; e o mesmo vale para qualquer transgressão sujeita a karet na Torá.

O debate de Monbaz com Rabi Akiva · מוֹנְבַּז דָּן לִפְנֵי רַבִּי עֲקִיבָא

03Monbaz argumenta: "chotê" para o doloso implica conhecimento também no inadvertido
Monbaz; Rabi Akiva
וְכָךְ הָיָה מוֹנְבַּז דָּן לִפְנֵי רַבִּי עֲקִיבָא: הוֹאִיל וּמֵזִיד קָרוּי ״חוֹטֵא״ וְשׁוֹגֵג קָרוּי ״חוֹטֵא״, מָה מֵזִיד שֶׁהָיְתָה לוֹ יְדִיעָה — אַף שׁוֹגֵג שֶׁהָיְתָה לוֹ יְדִיעָה. אָמַר לוֹ רַבִּי עֲקִיבָא, הֲרֵינִי מוֹסִיף עַל דְּבָרֶיךָ: אִי מָה מֵזִיד שֶׁהָיְתָה הַיְּדִיעָה בִּשְׁעַת מַעֲשֶׂה — אַף שׁוֹגֵג שֶׁהָיְתָה לוֹ יְדִיעָה בִּשְׁעַת מַעֲשֶׂה!

E assim argumentava Monbaz perante Rabi Akiva: uma vez que o transgressor doloso é chamado "pecador", e o transgressor inadvertido é chamado "pecador" — assim como o doloso precisa ter tido conhecimento, também o inadvertido precisa ter tido conhecimento. Disse-lhe Rabi Akiva: eis que acrescento a teus dizeres: se assim é, então, assim como o doloso precisa ter tido o conhecimento no momento do ato, também o inadvertido precisa ter tido conhecimento no momento do ato!

Nota

A Guemará traz a fonte do debate por trás da posição de Monbaz. Ele argumentava perante Rabi Akiva a partir de uma analogia verbal (guezerá shavá implícita): tanto o transgressor doloso quanto o inadvertido são chamados, na Torá, de "chotê" (pecador) — por exemplo, a respeito do juramento de testemunho, que fala em "nefesh ki techeta" tanto para o caso doloso quanto para o inadvertido. Já que o termo é o mesmo, Monbaz infere que, assim como o transgressor doloso precisa ter tido conhecimento da proibição (para ser considerado "doloso" e não coagido), também o inadvertido precisa ter tido, em algum momento, conhecimento da proibição — daí sua conclusão de que o bebê capturado e o convertido, que nunca tiveram esse conhecimento, são isentos por completo. Rabi Akiva responde virando o argumento contra o próprio Monbaz: se a comparação com o doloso for levada a sério até esse ponto, dever-se-ia exigir que o conhecimento estivesse presente no próprio momento do ato — o que descaracterizaria por completo a noção de erro (shegagá), pois quem tem conhecimento no momento do ato é, por definição, um transgressor doloso, não inadvertido.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "mezid karui chotê" e "harei mosif"
מזיד קרוי חוטא - דכתיב (ויקרא ה:א) בשבועת העדות נפש כי תחטא ושמעה וגומר ולא כתיב ביה ונעלם: הריני מוסיף על דבריך - כלומר אם כך באת לדרוש ג"ש ללמד שוגג ממזיד בא ואוסיף גם אני על דבריך עוד ובה תראה אם יעמדו דבריך: אף שוגג שהיתה לו ידיעה בשעת מעשה - תחייבהו גם בזו חטאת:

"O doloso é chamado pecador" — pois está escrito, a respeito do juramento de testemunho (Levítico 5:1): "se alguém pecar, e ouvir a voz do juramento", etc., e não está escrito ali "e lhe for oculto". "Eis que acrescento a teus dizeres" — isto é: se assim vieste expor uma analogia verbal, para deduzir o caso inadvertido a partir do doloso, venho eu também acrescentar aos teus dizeres mais um passo, e por ele verás se teus dizeres se sustentam. "Também o inadvertido que teve conhecimento no momento do ato" — torna-o também responsável, nesse caso, por uma oferenda pelo pecado.

04Monbaz concorda com o acréscimo — e Rabi Akiva vira o argumento contra ele
Monbaz; Rabi Akiva
אָמַר לוֹ: הֵן, וְכׇל שֶׁכֵּן שֶׁהוֹסַפְתָּ. אָמַר לוֹ: לִדְבָרֶיךָ, אֵין זֶה קָרוּי שׁוֹגֵג אֶלָּא מֵזִיד.

Disse-lhe Monbaz: sim, e com muito mais razão o que acrescentaste se aplicaria. Disse-lhe Rabi Akiva: mas então, segundo teus dizeres, isto não se chama inadvertido, mas doloso!

Nota

Monbaz, sem perceber a armadilha, aceita o acréscimo de Rabi Akiva como um reforço natural de seu próprio raciocínio: se o inadvertido precisa ter tido conhecimento em algum momento anterior, com muito mais razão precisaria tê-lo no próprio momento do ato. Mas é exatamente aí que Rabi Akiva fecha sua refutação: quem tem conhecimento da proibição no momento em que realiza o ato não é, por definição, um transgressor inadvertido — é um transgressor doloso. Levada a extremo, a lógica de Monbaz destrói a própria categoria de "erro" que ele pretendia definir, reduzindo ao absurdo sua posição.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "kol shekhen shehosafta"
כ"ש שהוספת - על דברי והרי אתה מסייעני וגם בזו אני אומר שהוא חייב ולקמן מפרש במאי שגג:

"Com muito mais razão o que acrescentaste" — aos meus dizeres, e eis que me apoias; e também nesse caso eu digo que ele é responsável — e mais adiante a Guemará explica em que então ele erra.

05A baraita fala do bebê capturado — Rabi Yochanan e Reish Lakish seguem Monbaz
Guemará
קָתָנֵי מִיהָא ״כֵּיצַד תִּינוֹק״. בִּשְׁלָמָא לְרַב וּשְׁמוּאֵל נִיחָא. אֶלָּא לְרַבִּי יוֹחָנָן וּלְרַבִּי שִׁמְעוֹן בֶּן לָקִישׁ, קַשְׁיָא! אָמְרִי לָךְ רַבִּי יוֹחָנָן וְרֵישׁ לָקִישׁ: לָא מִי אִיכָּא מוֹנְבַּז דְּפָטַר? אֲנַן דְּאָמְרִינַן כְּמוֹנְבַּז.

Ensina-se, de todo modo, "como assim, o bebê..." Isso está bem, segundo Rav e Shmuel; mas, segundo Rabi Yochanan e Rabi Shimon ben Lakish, é difícil! Dir-te-iam Rabi Yochanan e Reish Lakish: acaso não há Monbaz, que isenta? Nós dizemos a lei conforme Monbaz.

Nota

A Guemará volta à objeção original: a baraita citada usa expressamente o bebê capturado como o caso exemplar de "quem esquece o princípio do Shabat", responsável por uma única oferenda — o que se ajusta perfeitamente à posição de Rav e Shmuel, para quem o bebê capturado é responsável (por analogia a quem conheceu e esqueceu). Mas contradiz Rabi Yochanan e Reish Lakish, que o isentam por completo. A resposta é que Rabi Yochanan e Reish Lakish não seguem a maioria anônima daquela baraita, mas sim a posição explícita e minoritária de Monbaz, citada no final da própria baraita — encerrando essa contradição sem forçar uma reinterpretação do texto.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "katani miha keitzad tinok" e "bishlama"
קתני מיהא - רישא תינוק שנשבה לבין הנכרים חייב: בשלמא לרב ושמואל ניחא - דאינהו נמי מחייבי ואיכא לאוקמי דהוא הדין להכיר ולבסוף שכח כי מתניתין וברייתא דקתני תינוק היא גופא איצטריך לאשמעינן פלוגתא דמונבז ורבנן:

"Ensina-se, de todo modo" — na primeira cláusula, que o bebê capturado entre os não judeus é responsável. "Isso está bem, segundo Rav e Shmuel" — pois eles também consideram tal pessoa responsável, e é possível estabelecer que o mesmo vale para "conheceu e depois esqueceu", como a mishná; e a baraita, que ensina especificamente o bebê capturado, é necessária, ela mesma, para nos ensinar a controvérsia entre Monbaz e os sábios.

A fonte de Monbaz: "torá achat" · מַאי טַעְמָא דְמוֹנְבַּז

06A fonte bíblica de Monbaz: a comparação com o transgressor doloso
Guemará
מַאי טַעְמָא דְמוֹנְבַּז? דִּכְתִיב: ״תּוֹרָה אַחַת יִהְיֶה לָכֶם לָעֹשֶׂה בִּשְׁגָגָה״, וּסְמִיךְ לֵיהּ ״וְהַנֶּפֶשׁ אֲשֶׁר תַּעֲשֶׂה בְּיָד רָמָה״ — הִקִּישׁ שׁוֹגֵג לְמֵזִיד. מָה מֵזִיד שֶׁהָיְתָה לוֹ יְדִיעָה, אַף שׁוֹגֵג שֶׁהָיְתָה לוֹ יְדִיעָה.

Qual é a razão de Monbaz? Pois está escrito: "uma só torá haverá para vós, para quem age por erro" — e, logo em seguida, "e a pessoa que agir com mão altiva" — o versículo comparou o inadvertido ao doloso. Assim como o doloso precisa ter tido conhecimento, também o inadvertido precisa ter tido conhecimento.

Nota

A Guemará busca a fonte bíblica da posição de Monbaz: o versículo fala em "uma só torá" (mesma lei) para quem age por erro, e imediatamente a seguir menciona quem age "com mão altiva" (o transgressor doloso, ver Números 15:29-30) — a justaposição serve de comparação (hekesh), igualando as condições de um e outro. Já que o transgressor doloso precisa ter tido conhecimento da proibição para ser considerado como tal, o mesmo se exige do transgressor inadvertido: também ele precisa ter tido, em algum momento, conhecimento da proibição — daí a isenção de Monbaz para o bebê capturado e o convertido, que nunca a tiveram.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "avinyan av" e "makish shogeg"
מאי טעמא דמונבז - אבנין אב ודאי לא סמיך למיעבד שוגג דומיא דמזיד דהאי שוגג חילוף דמזיד וליכא לדמויינהו דהאי חייב והאי פטור: מקיש שוגג - לענין חטאת למזיד לענין כרת ואף על גב דלא דמי ע"כ הקישן הכתוב:

"Qual é a razão de Monbaz" — pois certamente ele não se apoia numa construção lógica (binyan av) para tornar o inadvertido semelhante ao doloso, já que este inadvertido é o oposto do doloso, e não há como igualá-los, sendo este responsável e aquele isento; por isso, Monbaz apoia-se num versículo. "Comparou o inadvertido" — quanto à oferenda pelo pecado, ao doloso, quanto ao karet; e, ainda que não se assemelhem, o versículo os comparou de todo modo.

07E os sábios? O que fazem de "torá achat" — pergunta que se completa em 69a
Guemará
וְרַבָּנַן, הַאי ״תּוֹרָה אַחַת״ מַאי עָבְדִי לֵיהּ? מִיבְּעֵי לְהוּ לְכִדְמַקְרֵי לֵיהּ רַבִּי יְהוֹשֻׁעַ בֶּן לֵוִי לִבְרֵיהּ: ״תּוֹרָה אַחַת יִהְיֶה לָכֶם לָעֹשֶׂה בִּשְׁגָגָה״, וּכְתִיב:

E os sábios, este versículo "uma só torá", o que fazem dele? É-lhes necessário para o que Rabi Yehoshua ben Levi lia a seu filho: "uma só torá haverá para vós, para quem age por erro" — e está escrito:

Nota

Se os sábios (que discordam de Monbaz) não leem "torá achat" como uma comparação entre o inadvertido e o doloso quanto à exigência de conhecimento prévio, o que fazem desse mesmo versículo? A Guemará começa a responder citando o costume de Rabi Yehoshua ben Levi de ler o versículo a seu filho, unindo-o ao versículo seguinte — mas a citação da continuação bíblica, e a explicação completa de para que serve "torá achat" segundo os sábios, é interrompida no meio, retomando apenas na abertura de Shabat 69a: ali se explica que os sábios usam a justaposição para comparar, por meio de uma analogia (hekesh) com a idolatria, todas as transgressões da Torá — de modo que a oferenda pelo pecado só se aplica onde o ato doloso é punido com karet.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "verabanan" e "torá achat yihyeh lachem"
ורבנן - הך הקישא בעיא לכדרבי יהושע ב"ל: תורה אחת יהיה לכם - גבי קרבן ע"ז כתיב בפרשת שלח לך אנשים:

"E os sábios" — essa mesma comparação lhes é necessária para o que segue, conforme a leitura de Rabi Yehoshua ben Levi. "Uma só torá haverá para vós" — está escrito a respeito da oferenda pela idolatria, na seção "Shelach Lechá Anashim" (Números 15).

Este último segmento fica em aberto: a citação bíblica "וּכְתִיב" ("e está escrito") é interrompida no meio, antes de trazer o versículo seguinte ("וְכִי תִשְׁגּוּ וְלֹא תַעֲשׂוּ..."). A resposta sobre o que os sábios fazem de "torá achat" só se completa já em Shabat 69a, que retoma exatamente esta citação e conclui a comparação com a idolatria.