Talmud Bavli · Massechet Shabbat · Perek Vav · Bameh Isha Yotzah
כַּמָּה לְנוֹי

O decreto contra a sandália pregada vale também em Yom Tov; quantos pregos configuram reforço, e quantos configuram adorno

Shabbat 60b — conclusão da citação da Mishná de Beitzá e a extensão do decreto a Yom Tov, por causa da reunião; a distinção entre pregos de reforço (proibidos) e pregos de adorno (permitidos), com Rav Yehuda em nome de Shmuel, Rabi Yochanan, Rabi Chanina e a baraita da sandália inclinada; perguntas avulsas sobre números-limite, costura por dentro, prego em gancho e cobertura total da sola; a baraita completa sobre a sandália pregada, com a opinião de Rabi Elazar filho de Rabi Shimon; e a confissão de Rabi Chiya.

O daf abre concluindo a citação iniciada ao final de 60a: a Mishná de Beitzá ensina que se envia utensílios em Yom Tov, costurados ou não, mas não a sandália pregada nem o sapato sem costura — mostrando que ela não é própria para se calçar nem mesmo em Yom Tov. A Guemará explica: no Shabat, o motivo do decreto é a "reunião" (kinnufya), presente também em Yom Tov; mas não num jejum público, cuja reunião é de natureza permitida, e não como aquela do incidente original, que se deu numa reunião de prática religiosa proibida sob perseguição. Confirma-se isso mesmo segundo Rabi Chanina ben Akiva, que limita decretos motivados por incidente ao caso exato — pois, quanto ao Jordão, ele é distinto dos demais rios, mas Shabat e Yom Tov são substancialmente iguais. A Guemará passa então a discutir quantos pregos tornam a sandália proibida: Rav Yehuda, em nome de Shmuel, ensina que só se proibiu quando os pregos servem para reforçar, mas para adorno é permitido — e Rabi Yochanan fala de cinco pregos de cada lado, Rabi Chanina de sete; Rabi Yochanan detalha a distribuição a Rav Shemen bar Abba. Uma baraita sobre a sandália inclinada, cujo solado é desnivelado, traz outros números — sete segundo Rabi Natan, treze segundo Rabi —, e a Guemará reconcilia essas opiniões com as de Rabi Chanina e Rabi Yochanan, este último alinhado a Rabi Nehorai. Eifah aconselha que cada discípulo siga seu próprio mestre. Seguem-se perguntas avulsas: Rav Huna a Rav Ashi, sobre cinco e nove pregos; um sapateiro a Rabi Ami, sobre costurar a sandália por dentro, tornando-a um sapato comum, ao qual o decreto não se aplica; e duas perguntas sobre o prego em forma de gancho e sobre cobrir a sola inteira de pregos, ambas resolvidas como permitidas, por já não corresponderem ao caso original do decreto — como ensina Rav Sheshet. Uma baraita completa é então citada, reunindo todas essas leis, com a dissidência de Rabi Elazar filho de Rabi Shimon quanto a mover a sandália pregada; a Guemará nota uma contradição interna na própria baraita, entre "a maioria dos pregos caiu" e "restaram quatro ou cinco", resolvida por Rav Sheshet distinguindo pregos raspados de pregos arrancados, e por Rav Chisda distinguindo sandália pequena de grande; a diferença entre sete e treze pregos permitidos é atribuída à sandália inclinada, que exige mais pregos para se nivelar. Rejeita-se a opinião de Rabi Elazar, e o daf se encerra com a confissão bem-humorada de Rabi Chiya, que, não fosse seu apelido de "o babilônio que permite proibições", teria permitido vinte e dois ou vinte e quatro pregos — introduzindo, ao final, a próxima cláusula da Mishná, sobre a sandália avulsa, cuja discussão prossegue no daf seguinte.

O decreto vale também em Yom Tov, mas não no jejum público · מְשַׁלְּחִין כֵּלִים בְּיוֹם טוֹב

01A Mishná de Beitzá: não se envia sandália pregada nem sapato sem costura em Yom Tov
Mishná (Beitzá, citada)
מְשַׁלְּחִין כֵּלִים בְּיוֹם טוֹב בֵּין תְּפוּרִין בֵּין שֶׁאֵינָן תְּפוּרִין — אֲבָל לֹא סַנְדָּל הַמְסוּמָּר וְלֹא מִנְעָל שֶׁאֵינוֹ תָּפוּר בְּיוֹם טוֹב!

Envia-se utensílios em Yom Tov, sejam costurados, sejam não costurados — mas não se envia sandália pregada, nem sapato que não é costurado, em Yom Tov!

Nota

Completa-se aqui a citação deixada em aberto ao final de 60a, que perguntava se a sandália pregada deveria ser permitida em Yom Tov. A Mishná de Beitzá, que trata do envio de utensílios como presente em Yom Tov, ensina que se pode enviar qualquer objeto que sirva para uso nesse dia, costurado ou não — mas exclui explicitamente a sandália pregada e o sapato sem costura. Isso prova que nenhum dos dois é considerado próprio para se calçar em Yom Tov, e portanto confirma que o decreto contra a sandália pregada vale também nesse dia, e não apenas no Shabat.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "meshalchin kelim be-Yom Tov... aval lo sandal ha-mesumar"
משלחין כלים ביו"ט בין תפורין בין שאינן תפורין אבל לא סנדל המסומר - אלמא לאו בר מנעלי' ביו"ט הוא דהא קתני התם כל שנאותין בו ביו"ט משלחין אותו:

"Envia-se utensílios em Yom Tov, sejam costurados, sejam não costurados, mas não a sandália pregada" — logo, ela não é própria para se calçar em Yom Tov, pois ali se ensina: tudo o que se pode usar em Yom Tov, pode-se enviar.

02O motivo é a "reunião", presente também em Yom Tov, mas não no jejum público
Guemará
בְּשַׁבָּת מַאי טַעְמָא — דְּאִיכָּא כִּינּוּפְיָא, בְּיוֹם טוֹב נָמֵי אִיכָּא כִּינּוּפְיָא. תַּעֲנִית צִבּוּר אִיכָּא כִּינּוּפְיָא, לִיתְּסַר? מַעֲשֶׂה כִּי הֲוָה בְּכִינּוּפְיָא דְאִיסּוּרָא, הָכָא כִּינּוּפְיָא דְהֶתֵּירָא הֲוָה.

No Shabat, qual é o motivo do decreto? Porque há reunião de pessoas. Em Yom Tov também há reunião. Objeção: num jejum público há reunião — deveria ser proibido também ali? Resposta: o incidente ocorreu numa reunião de proibição; aqui, é uma reunião de permissão.

Nota

A Guemará explica o fundamento do decreto: tanto no Shabat quanto em Yom Tov, as pessoas se reúnem em multidão nas sinagogas e casas de estudo, e por isso o mesmo temor de confusão e pânico que motivou o decreto original permanece válido em ambos os dias. Levanta-se então a possibilidade de estendê-lo também a um jejum público, quando também há grande reunião de pessoas — mas a Guemará responde que o incidente original se deu numa reunião de natureza proibida, isto é, um ajuntamento clandestino para a prática religiosa sob um decreto de perseguição, enquanto a reunião de um jejum público é inteiramente permitida e pública, sem o mesmo pano de fundo de medo e clandestinidade.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "ika kinnufya" e "de-issura"
איכא כינופיא - שאין עושין מלאכה ונקבצין לבתי כנסיות ולבתי מדרשות כי ההיא מעשה דהוה כינופיא: דאיסורא - בעשיית מלאכה:

"Há reunião" — pois não se realiza trabalho, e as pessoas se reúnem nas sinagogas e nas casas de estudo, como naquele incidente, em que havia reunião. "De proibição" — na realização de um trabalho proibido, isto é, no exercício clandestino da religião sob o decreto de perseguição.

03Mesmo segundo Rabi Chanina ben Akiva: o Jordão é distinto dos demais rios, mas Shabat e Yom Tov são semelhantes
Guemará; Rabi Chanina ben Akiva
וַאֲפִילּוּ לְרַבִּי חֲנִינָא בֶּן עֲקִיבָא, דְּאָמַר: לֹא אָסְרוּ אֶלָּא בְּיַרְדֵּן וּבִסְפִינָה וּכְמַעֲשֶׂה שֶׁהָיָה. הָנֵי מִילֵּי יַרְדֵּן דְּשָׁאנֵי מִשְּׁאָר נְהָרוֹת. אֲבָל יוֹם טוֹב וְשַׁבָּת כִּי הֲדָדֵי נִינְהוּ, דִּתְנַן: אֵין בֵּין יוֹם טוֹב לַשַּׁבָּת אֶלָּא אוֹכֶל נֶפֶשׁ בִּלְבַד.

E mesmo segundo Rabi Chanina ben Akiva, que disse: só proibiram no Jordão e num barco, e conforme o incidente que ocorreu — isso se aplica apenas ao Jordão, que é diferente dos demais rios. Mas Yom Tov e Shabat são semelhantes um ao outro, pois ensinamos: não há diferença entre Yom Tov e Shabat, senão apenas quanto à preparação de alimento.

Nota

A Guemará antecipa uma possível objeção: Rabi Chanina ben Akiva, numa outra sugya, sustenta o princípio de que um decreto motivado por um incidente específico deve limitar-se estritamente às circunstâncias exatas desse incidente, sem se estender por analogia. Se assim fosse, o decreto da sandália pregada, tendo ocorrido em Shabat, não deveria se estender a Yom Tov. A Guemará responde que o princípio de Rabi Chanina se aplica a distinções substanciais, como a que há entre o rio Jordão e os demais rios; mas Shabat e Yom Tov não têm essa distância entre si — são, para praticamente todos os efeitos, o mesmo tipo de dia, diferindo apenas quanto à permissão de preparar alimento em Yom Tov. Por isso, mesmo segundo o princípio restritivo de Rabi Chanina, o decreto se estende naturalmente de um para o outro.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "ve-afilu le-Rabi Chanina ben Akiva" e "de-shani mi-she'ar neharot"
ואפילו לרבי חנינא בן עקיבא - בפרק חומר בקדש גבי נושא מי חטאת ואפר חטאת בירדן ובספינה שנמצא כזית מן המת תחוב בקרקעית' של ספינה ונטמאו וקאמרי רבנן דגזרו שלא יעביר אדם מי חטאת בספינה ולא על הגשר ולא ישיטם על פני המים אחד ירדן ואחד שאר נהרות ופליג ר' חנינא ואמר לא אסרו אלא בירדן ובספינה ולא גשר ושאר נהרות דגזירה שגזרו מחמת מאורע אין להם לגזור אלא מעין המאורע: דשאני משאר נהרות - ברוחב או בעומק:

"E mesmo segundo Rabi Chanina ben Akiva" — no capítulo "Chomer ba-Kodesh", de Chagigá, a propósito de quem carrega as águas da purificação e as cinzas da vaca vermelha num barco no Jordão, e se encontrou um keZait de um cadáver preso no fundo do barco, e as águas se contaminaram; e os sábios disseram que decretaram que ninguém transporte as águas da purificação num barco, nem sobre uma ponte, nem as faça flutuar sobre as águas, tanto no Jordão quanto nos demais rios; e Rabi Chanina discorda, e diz: só proibiram no Jordão e no barco, e não sobre pontes e nos demais rios, pois um decreto motivado por um incidente só deve ser decretado conforme o próprio incidente. "Que é diferente dos demais rios" — em largura ou em profundidade.

Quantos pregos configuram reforço, e quantos configuram adorno · לֹא שָׁנוּ אֶלָּא לְחַזֵּק

04Rav Yehuda em nome de Shmuel: só se proibiu para reforçar; para adorno, é permitido
Rav Yehuda em nome de Shmuel; Rabi Yochanan; Rabi Chanina
אָמַר רַב יְהוּדָה אָמַר שְׁמוּאֵל: לֹא שָׁנוּ אֶלָּא לְחַזֵּק, אֲבָל לְנוֹי — מוּתָּר. וְכַמָּה לְנוֹי? רַבִּי יוֹחָנָן אָמַר: חָמֵשׁ בָּזֶה וְחָמֵשׁ בָּזֶה. וְרַבִּי חֲנִינָא אָמַר: שֶׁבַע בָּזֶה וְשֶׁבַע בָּזֶה.

Disse Rav Yehuda em nome de Shmuel: só ensinaram a proibição quando os pregos servem para reforçar; mas, para adorno, é permitido. E quantos pregos configuram adorno? Rabi Yochanan disse: cinco de um lado e cinco do outro. E Rabi Chanina disse: sete de um lado e sete do outro.

Nota

Introduz-se aqui uma distinção fundamental: o decreto contra a sandália pregada não visa qualquer prego, mas apenas aqueles cuja função é reforçar a estrutura da sandália — exatamente como os pregos da sandália do incidente original. Quando os pregos servem apenas de adorno, sem função estrutural, a sandália não se enquadra na proibição. A questão que resta é quantificar esse limite: a partir de quantos pregos presume-se que eles servem para reforçar, e não apenas para enfeitar. Rabi Yochanan fixa o limite em cinco de cada lado; Rabi Chanina, em sete de cada lado.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "ela le-chazek"
אלא לחזק - שמסמרותיו נעשו לחזק העקב שקורין שול"א עם הפנתא שקורין אינפייל"א אבל לנוי מותר דלא גזרו אלא מעין המאורע והנהו לחזק היו כסתם מסמרים דסנדל:

"Só ensinaram a proibição quando é para reforçar" — quando seus pregos servem para reforçar o salto, que se chama "sola" em francês antigo, junto com a ponta, que se chama "enfila" em francês antigo; mas, para adorno, é permitido, pois só decretaram conforme o próprio incidente, e aqueles pregos da história original eram para reforçar, como os pregos comuns de uma sandália.

05Rabi Yochanan detalha a Rav Shemen bar Abba a distribuição dos pregos
Rabi Yochanan
אֲמַר לֵיהּ רַבִּי יוֹחָנָן לְרַב שֶׁמֶן בַּר אַבָּא, אַסְבְּרַהּ לָךְ: לְדִידִי, שְׁתַּיִם מִכָּאן וּשְׁתַּיִם מִכָּאן וְאַחַת בִּתְרֵסִיּוֹתָיו. לְרַבִּי חֲנִינָא, שָׁלֹשׁ מִכָּאן וְשָׁלֹשׁ מִכָּאן וְאַחַת בִּתְרֵסִיּוֹתָיו.

Disse-lhe Rabi Yochanan a Rav Shemen bar Abba: vou te explicar melhor: segundo minha opinião, dois pregos de um lado e dois do outro, e um em suas tiras; segundo Rabi Chanina, três de um lado e três do outro, e um em suas tiras.

Nota

Rabi Yochanan detalha como se distribuem os cinco pregos de sua própria opinião: dois do lado externo da sandália, dois do lado interno, e um nas tiras que a prendem ao pé — totalizando cinco. Segundo Rabi Chanina, que permite sete, a distribuição é de três de cada lado, mais um nas tiras.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "shtayim mikan" e "tarsiyotav"
שתים מכאן - לצד חיצון אחד בראשו לצד האצבעות ואחד לצד עקיבו ושתים מכאן לצד פנימי לעבר בין הרגלים: תרסיותיו - רצועותיו:

"Dois de um lado" — do lado externo, um na ponta, do lado dos dedos, e um do lado do calcanhar; e dois do outro, do lado interno, do lado que passa entre os pés. "Suas tiras" — suas correias.

06Objeção da baraita da sandália inclinada: sete segundo Rabi Natan, treze segundo Rabi
Baraita
מֵיתִיבִי: סַנְדָּל הַנּוֹטֶה עוֹשֶׂה לוֹ שֶׁבַע, דִּבְרֵי רַבִּי נָתָן. וְרַבִּי מַתִּיר בִּשְׁלֹשׁ עֶשְׂרֵה.

Levantou-se uma objeção: quanto à sandália inclinada, faz-se para ela sete pregos, palavras de Rabi Natan; e Rabi permite até treze.

Nota

Uma baraita traz números bem maiores do que os mencionados até aqui, aparentemente contradizendo tanto Rabi Yochanan (cinco) quanto Rabi Chanina (sete). Mas ela trata especificamente da sandália inclinada, cujo solado é desnivelado — um caso particular que a Guemará examinará em seguida.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "sandal ha-noteh"
סנדל הנוטה - שתחתון שלו אינו שוה שעב מצד זה ודק מצד זה וכשדורס נוטה לצד הדק וצריך להגביהו שיהא שוה לצד שכנגדו:

"Sandália inclinada" — cuja sola não é uniforme, sendo grossa de um lado e fina do outro; e, ao pisar, ela se inclina para o lado fino, sendo necessário levantá-lo, para que fique nivelado com o lado oposto.

07Reconciliação: Rabi Chanina segue Rabi Natan; Rabi Yochanan segue Rabi Nehorai
Guemará; Rabi Nehorai
בִּשְׁלָמָא לְרַבִּי חֲנִינָא, הוּא דְּאָמַר כְּרַבִּי נָתָן. אֶלָּא רַבִּי יוֹחָנָן, דְּאָמַר כְּמַאן? הוּא דְּאָמַר כְּרַבִּי נְהוֹרַאי, דְּתַנְיָא: רַבִּי נְהוֹרַאי אוֹמֵר, חָמֵשׁ מוּתָּר וְשֶׁבַע אָסוּר.

Está bem, segundo Rabi Chanina, que com seu número de sete concorda com Rabi Natan. Mas Rabi Yochanan, com quem concorda ao dizer cinco? Ele concorda com Rabi Nehorai, pois foi ensinado: Rabi Nehorai diz: cinco é permitido, e sete é proibido.

Nota

A Guemará busca uma fonte tannaítica para cada uma das duas opiniões amoraicas. O número de Rabi Chanina (sete) coincide exatamente com o de Rabi Natan na baraita recém-citada. Já o número de Rabi Yochanan (cinco) não aparece ali, mas encontra respaldo numa baraita paralela, em nome de Rabi Nehorai, que estabelece precisamente esse limite: cinco permitido, sete proibido.

08Eifah: cada discípulo siga seu próprio mestre
Eifah
אֲמַר לֵיהּ אֵיפָה לְרַבָּה בַּר בַּר חַנָּה: אַתּוּן תַּלְמִידֵי רַבִּי יוֹחָנָן עֲבִידוּ כְּרַבִּי יוֹחָנָן, אֲנַן נַעֲבֵיד כְּרַבִּי חֲנִינָא.

Disse-lhe Eifah a Rabá bar bar Chaná: vós, discípulos de Rabi Yochanan, agi conforme Rabi Yochanan; nós agiremos conforme Rabi Chanina.

Nota

Diante das duas opiniões, Eifah propõe uma resolução prática, e não teórica: cada comunidade deve seguir seu próprio mestre local — os discípulos da academia de Rabi Yochanan seguem seu número de cinco, e os da academia de Rabi Chanina seguem o número de sete, sem que se declare uma delas definitivamente vencedora.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "Eifah"
איפה - שם חכם ובנו של ר' רחבה דפומבדיתא הוה:

"Eifah" — nome de um sábio, filho de Rabi Rechavah, e era de Pumbedita.

Perguntas avulsas: números-limite, costura por dentro, gancho e cobertura total · בְּעָא מִינֵּיהּ

09Rav Huna pergunta a Rav Ashi: cinco? nove?
Rav Huna; Rav Ashi
בְּעָא מִינֵּיהּ רַב הוּנָא מֵרַב אָשֵׁי: חָמֵשׁ מַהוּ? אֲמַר לֵיהּ: אֲפִילּוּ שֶׁבַע מֻתָּר. תֵּשַׁע מַאי? אֲמַר לֵיהּ: אֲפִילּוּ שְׁמוֹנֶה אָסוּר.

Rav Huna perguntou a Rav Ashi: cinco, qual é a lei? Disse-lhe: até sete é permitido. E nove, qual é a lei? Disse-lhe: até oito é proibido.

Nota

Rav Ashi resume a lei prática adotando a opinião mais permissiva entre as citadas (a de Rabi Chanina, sete): até sete pregos, incluindo cinco, é permitido; a partir de oito, incluindo nove, é proibido.

10Um sapateiro pergunta a Rabi Ami: costurar por dentro?
Um sapateiro; Rabi Ami
בְּעָא מִינֵּיהּ הָהוּא רַצְעָנָא מֵרַבִּי אַמֵּי: תְּפָרוֹ מִבִּפְנִים — מַהוּ? אֲמַר לֵיהּ: מוּתָּר, וְלָא יָדַעְנָא מַאי טַעְמָא.

Um certo sapateiro perguntou a Rabi Ami: se alguém a costurou por dentro, qual é a lei? Disse-lhe: é permitido, mas não sei qual é o motivo.

Nota

O sapateiro pergunta sobre uma sandália de madeira em cujo interior se costurou um forro de couro, à maneira de um sapato comum. Rabi Ami responde que é permitido — tendo ouvido essa lei de Rabi Yochanan —, mas confessa não saber, ele mesmo, qual é o raciocínio por trás dela.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "teforo mibifnim" e "mutar"
תפרו מבפנים - שנתן מנעל של עור לפנים מן הסנדל תפרו פורדרי"ץ בלע"ז: מותר - שמעתי מרבי יוחנן וטעמא לא ידענא: מותר - לקבוע בו מסמרים מבחוץ:

"Costurou-o por dentro" — que colocou um sapato de couro por dentro da sandália, e o costurou; "fordrits" em francês antigo. "É permitido" — ouvi isso de Rabi Yochanan, mas não sei o motivo. "É permitido" — fincar nele pregos por fora.

11Rav Ashi explica: costurada por dentro, ela se torna um sapato, ao qual não se decretou
Rav Ashi
אָמַר רַב אָשֵׁי: וְלָא יָדַע מָר מַאי טַעְמָא?! כֵּיוָן דִּתְפָרוֹ מִבִּפְנִים הָוֵי לֵיהּ מִנְעָל. בְּסַנְדָּל גְּזַרוּ בֵּיהּ רַבָּנַן, בְּמִנְעָל לָא גְזַרוּ בֵּיהּ רַבָּנַן.

Disse Rav Ashi: e o mestre não sabia o motivo?! Já que a costurou por dentro, ela se torna um sapato. Sobre a sandália, os sábios decretaram; sobre o sapato, os sábios não decretaram.

Nota

Rav Ashi fornece o raciocínio que faltava a Rabi Ami: o decreto original recaiu especificamente sobre a sandália de madeira com pregos, tal como no incidente da caverna. Uma vez que se costura um forro de couro por dentro, o objeto deixa de se enquadrar na categoria de "sandália" e passa a se enquadrar na de "sapato" — categoria à qual o decreto nunca se estendeu, mesmo que a Mishná mencione, à parte, o sapato sem costura como um caso distinto.

12O prego em forma de gancho é permitido, por já não corresponder ao caso original
Rabi Abba bar Zavda; Rabi Abba bar Avina; Rabi Yossei filho de Rabi Chanina
בְּעָא מִינֵּיהּ רַבִּי אַבָּא בַּר זַבְדָּא מֵרַבִּי אַבָּא בַּר אֲבִינָא: עֲשָׂאוֹ כְּמִין כַּלְבּוֹס, מַהוּ? אֲמַר לֵיהּ: מוּתָּר. אִיתְּמַר נָמֵי, אָמַר רַבִּי יוֹסֵי בְּרַבִּי חֲנִינָא: עֲשָׂאוֹ כְּמִין כַּלְבּוֹס — מוּתָּר.

Rabi Abba bar Zavda perguntou a Rabi Abba bar Avina: se o prego foi feito como uma espécie de gancho, qual é a lei? Disse-lhe: é permitido. Também se transmitiu: disse Rabi Yossei, filho de Rabi Chanina: se o fez como uma espécie de gancho, é permitido.

Nota

O prego em forma de gancho — duas pontas afiadas e curvadas, cravadas na madeira, sem cabeça saliente por fora — difere visivelmente dos pregos comuns de reforço do incidente original, e por isso não se inclui na proibição, ainda que cumpra a mesma função estrutural.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "asa'o ke-min kalbos" e "mutar"
עשאו - למסמר כמין כלבוס בלע"ז טינפיילו"ן שני ראשין חדין וכפופין ונועץ שני ראשים בעץ כדאמרי' בסוטה (יט:) כלבוס של ברזל מטילין לה לתוך פיה: מותר - הואיל ונשתנה משאר מסמרים דלא גזרו אלא מעין המאורע:

"Se fez" — o prego em forma de gancho; "tenaillon" em francês antigo: duas pontas afiadas e curvadas, e finca-se as duas pontas na madeira, como se diz em Sotá (19b): um gancho de ferro se lança dentro de sua boca. "É permitido" — pois, sendo diferente dos demais pregos, não se inclui na proibição, já que só decretaram conforme o próprio incidente.

13Rav Sheshet: cobrir a sola inteira de pregos, para o chão não a consumir, é permitido
Rav Sheshet
אָמַר רַב שֵׁשֶׁת: חִיפָּהוּ כֻּלּוֹ בְּמַסְמְרוֹת כְּדֵי שֶׁלֹּא תְּהֵא קַרְקַע אוֹכַלְתּוֹ — מוּתָּר.

Disse Rav Sheshet: se a cobriu inteiramente com pregos, para que o chão não a consuma, é permitido.

Nota

Quando os pregos cobrem toda a sola, lado a lado, formando uma espécie de blindagem contra o desgaste do solo, seu propósito e sua aparência já não correspondem aos poucos pregos de reforço do incidente original, e por isso essa sandália também é permitida.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "chipahu"
חיפהו - מלמטה:

"Cobriu-a" — por baixo.

A baraita completa sobre a sandália pregada · לֹא יֵצֵא הָאִישׁ בְּסַנְדָּל הַמְסוּמָּר

14A baraita reúne todas essas leis, com a dissidência de Rabi Elazar filho de Rabi Shimon
Baraita (conforme Rav Sheshet); Rabi Elazar filho de Rabi Shimon; Rabi
תַּנְיָא כְּווֹתֵיהּ דְּרַב שֵׁשֶׁת: לֹא יֵצֵא הָאִישׁ בְּסַנְדָּל הַמְסוּמָּר, וְלֹא יְטַיֵּיל מִבַּיִת לְבַיִת, אֲפִלּוּ מִמִּטָּה לְמִטָּה. אֲבָל מְטַלְטְלִין אוֹתוֹ לְכַסּוֹת בּוֹ אֶת הַכְּלִי וְלִסְמוֹךְ בּוֹ כַּרְעֵי הַמִּטָּה. וְרַבִּי אֶלְעָזָר בְּרַבִּי שִׁמְעוֹן אוֹסֵר. נָשְׁרוּ רוֹב מַסְמְרוֹתָיו וְנִשְׁתַּיְּירוּ בּוֹ אַרְבַּע אוֹ חָמֵשׁ — מוּתָּר. וְרַבִּי מַתִּיר עַד שֶׁבַע. חִיפָּהוּ בְּעוֹר מִלְּמַטָּה וְקָבַע לוֹ מַסְמְרוֹת מִלְּמַעְלָה — מוּתָּר. עֲשָׂאוֹ כְּמִין כַּלְבּוֹס אוֹ כְּמִין טַס אוֹ כְּמִין יָתֵד, אוֹ שֶׁחִיפָּהוּ כּוּלּוֹ בְּמַסְמְרוֹת כְּדֵי שֶׁלֹּא תְּהֵא קַרְקַע אוֹכַלְתּוֹ — מוּתָּר.

Foi ensinado de acordo com Rav Sheshet: o homem não sai com sandália pregada, nem deve passear com ela de uma casa para outra, nem mesmo de uma cama para outra dentro da mesma casa; mas pode-se movê-la, para cobrir com ela um utensílio, e para apoiar com ela os pés da cama. E Rabi Elazar, filho de Rabi Shimon, proíbe até mesmo movê-la. Se a maior parte de seus pregos caiu, e restaram nela quatro ou cinco, é permitido; e Rabi permite até sete. Se a cobriu com couro por baixo, e fincou pregos nela por cima, é permitido. Se a fez como uma espécie de gancho, ou como uma espécie de placa, ou como uma espécie de estaca, ou se a cobriu inteiramente com pregos, para que o chão não a consuma, é permitido.

Nota

Esta baraita reúne, num só bloco, todas as leis já discutidas: a proibição de sair e mesmo de passear com a sandália pregada dentro de casa; a permissão de movê-la para fins utilitários, como cobrir um utensílio ou escorar os pés da cama — permissão que Rabi Elazar filho de Rabi Shimon nega, temendo que seu dono venha a calçá-la; a permissão quando a maioria dos pregos caiu, restando poucos; a leniência adicional de Rabi, que permite até sete; e as permissões já vistas quanto ao forro de couro por dentro, ao prego em gancho ou em forma de placa ou estaca, e à cobertura total da sola.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "aval metaltelin oto", "oser", "nashru rov masmerotav" e "asa'o"
אבל מטלטלין אותו - דתורת כלי עליו: אוסר - דילמא אתי לנועלו: נשרו רוב מסמרותיו כו' - לקמן מפרש לה: מותר - הואיל ונשתנה מכמו שהיה דמעין המאורע גזרו: עשאו - לראש מסמר רחב כמין טס או שעשאו חד כמין יתד:

"Mas pode-se movê-la" — pois tem sobre si a condição de utensílio. "Proíbe" — pois teme-se que venha a calçá-la. "Se a maior parte de seus pregos caiu, etc." — adiante se explica isso. "É permitido" — pois, tendo se alterado do que era, já não se inclui na proibição, pois só decretaram conforme o próprio incidente. "Se a fez" — a cabeça do prego larga, como uma espécie de placa, ou a fez pontiaguda, como uma espécie de estaca.

A baraita é examinada: a contradição interna sobre quatro ou cinco pregos · הָא גּוּפַהּ קַשְׁיָא

15Contradição: "a maioria caiu" versus "restaram quatro ou cinco"
Guemará
הָא גּוּפַהּ קַשְׁיָא. אָמְרַתְּ נָשְׁרוּ רוֹב מַסְמְרוֹתָיו — אַף עַל גַּב דְּנִשְׁתַּיְּירוּ בֵּיהּ טוּבָא, וַהֲדַר תָּנֵי: אַרְבַּע אוֹ חָמֵשׁ — אִין, טְפֵי — לָא!

Isso, em si mesmo, é uma dificuldade: disseste que é permitido quando a maioria de seus pregos caiu — ainda que tenha restado nela muitos, seria permitido — e depois ensina: quatro ou cinco, sim; mais do que isso, não!

Nota

A Guemará aponta uma tensão interna na própria baraita: a primeira formulação ("a maioria dos pregos caiu") sugere que basta que menos da metade permaneça, ainda que esse resto seja numeroso; mas a formulação seguinte ("restaram quatro ou cinco, é permitido") sugere um limite numérico absoluto, incompatível com "a maioria", pois pode haver casos em que a maioria caiu e ainda assim restam mais de cinco pregos.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "af al gav de-ishtaayru tuva"
אע"ג דאישתאר טובא - ובלבד שיהיו מעוט:

"Ainda que tenha restado muitos" — desde que sejam a minoria em relação ao total original.

16Rav Sheshet resolve: pregos raspados versus pregos arrancados
Rav Sheshet
אָמַר רַב שֵׁשֶׁת: לָא קַשְׁיָא — כָּאן שֶׁנִּגְמְמוּ, כָּאן שֶׁנֶּעֶקְרוּ.

Disse Rav Sheshet: não há dificuldade: aqui, trata-se de pregos que foram raspados; ali, trata-se de pregos que foram arrancados.

Nota

Rav Sheshet resolve a contradição distinguindo dois modos de os pregos se perderem. Quando os pregos são raspados por cima, sua marca original permanece visível dentro da madeira, de modo que a sandália continua reconhecivelmente alterada de seu estado original, ainda que reste uma quantidade grande — e por isso basta que a maioria tenha sido raspada. Já quando os pregos são completamente arrancados, sem deixar marca, a sandália parece intacta, e por isso a permissão exige o limite numérico mais estrito de quatro ou cinco remanescentes.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "she-nigemu" e "she-ne'ekru"
שנגממו - מלמעלה ורשומו ניכר בתוך העץ אפילו טובא דהא מינכר שאינו כברייתו: שנעקרו - לגמרי שאין ניכר שהיה בו יותר ד' או ה' [אין] טפי לא לוי"ה ולשון חבירו איפכא:

"Foram raspados" — por cima, e sua marca fica visível dentro da madeira, mesmo que sejam muitos, pois se reconhece que já não está em seu estado original. "Foram arrancados" — completamente, de modo que não se reconhece que havia mais pregos; quatro ou cinco, sim; mais do que isso, não — segundo esta versão; e a versão de meu colega é o inverso.

17Rav Chisda: quatro para sandália pequena, cinco para sandália grande
Guemará; Rav Chisda
אַרְבַּע אוֹ חָמֵשׁ מוּתָּר. הַשְׁתָּא חָמֵשׁ שְׁרֵי, אַרְבַּע מִיבַּעְיָא?! אָמַר רַב חִסְדָּא: אַרְבַּע מִסַּנְדָּל קָטָן, וְחָמֵשׁ מִסַּנְדָּל גָּדוֹל.

"Quatro ou cinco é permitido": ora, se cinco é permitido, quatro seria necessário dizer?! Disse Rav Chisda: quatro se refere a uma sandália pequena, e cinco a uma sandália grande.

Nota

A Guemará questiona a redundância aparente da baraita: se já se permite até cinco pregos, por que mencionar também quatro, que é obviamente incluído no permitido? Rav Chisda explica que os dois números não se sobrepõem, mas se aplicam a sandálias de tamanhos diferentes: numa sandália pequena, mesmo quatro pregos remanescentes já bastam para dar a impressão de reforço, sendo esse o limite do permitido; numa sandália grande, o limite sobe para cinco.

18Sete ou treze? A sandália inclinada é diferente, pois todos os pregos servem para nivelá-la
Guemará
וְרַבִּי מַתִּיר עַד שֶׁבַע. וְהָתַנְיָא: רַבִּי מַתִּיר עַד שְׁלֹשׁ עֶשְׂרֵה! נוֹטֶה שָׁאנֵי.

"E Rabi permite até sete" — mas não foi ensinado alhures: Rabi permite até treze? A sandália inclinada é diferente.

Nota

A Guemará observa outra tensão: a mesma autoridade, Rabi, é citada permitindo sete pregos aqui, mas treze na baraita anterior sobre a sandália inclinada. A resolução é que a sandália inclinada, cujo solado desnivelado exige mais pregos apenas para corrigir o desnível — e não para reforçar —, admite naturalmente um número maior, já que nenhum desses pregos adicionais serve à função que o decreto visa proibir.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "noteh shani"
נוטה שאני - שכולן צריכין לו להשוותו ואין אחד מהן לחזק:

"A inclinada é diferente" — pois todos os pregos lhe são necessários para nivelá-la, e nenhum deles serve para reforçar.

19A mesma resolução se aplica também a Rabi Yochanan
Guemará
הַשְׁתָּא דַּאֲתֵית לְהָכִי, לְרַבִּי יוֹחָנָן נָמֵי לָא קַשְׁיָא: נוֹטֶה שָׁאנֵי.

Agora que chegaste a essa distinção, também para Rabi Yochanan não há dificuldade: a inclinada é diferente.

Nota

A mesma distinção resolve retroativamente a dúvida anterior sobre com quem Rabi Yochanan concordava: na verdade, ele também concorda com Rabi Natan, que permite sete para a sandália inclinada, mas apenas cinco para a sandália comum — pois, no caso inclinado, o próprio Rabi Natan permite mais pregos, já que todos servem para nivelar, e não para reforçar.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "hashta da-atit le-hachi" e "le-Rabi Yochanan nami"
השתא דאתית להכי - לחלק בין נוטה לשאין נוטה: לרבי יוחנן נמי - דקפרכת לעיל מינה ואמרי דאמר כמאן איכא נמי לתרוצי לעולם כרבי נתן ונוטה שאני דהתם מתיר עד שבע אבל אין נוטה ה' ותו לא:

"Agora que chegaste a isso" — a distinguir entre a inclinada e a que não é inclinada. "Também para Rabi Yochanan" — sobre quem se objetou acima, perguntando com quem ele concorda, também se pode resolver: na verdade, ele concorda com Rabi Natan, e a inclinada é diferente, pois ali o próprio Rabi Natan permite até sete, mas, quando não é inclinada, cinco, e não mais do que isso.

Rejeita-se Rabi Elazar; a confissão de Rabi Chiya · אֵין הֲלָכָה כְּרַבִּי אֶלְעָזָר בְּרַבִּי שִׁמְעוֹן

20Rav Matna: a lei não segue Rabi Elazar filho de Rabi Shimon
Rav Matna (ou Rav Achadvoy bar Matna, em nome de Rav Matna)
אָמַר רַב מַתְנָה, וְאָמְרִי לַהּ אָמַר רַב אַחָדְבוּי בַּר מַתְנָה אָמַר רַב מַתְנָה: אֵין הֲלָכָה כְּרַבִּי אֶלְעָזָר בְּרַבִּי שִׁמְעוֹן. פְּשִׁיטָא, יָחִיד וְרַבִּים הֲלָכָה כְּרַבִּים! מַהוּ דְּתֵימָא: מִסְתַּבְּרָא טַעְמָא דְּרַבִּי אֶלְעָזָר בְּרַבִּי שִׁמְעוֹן בְּהָא, קָא מַשְׁמַע לַן.

Disse Rav Matna — e há quem diga que disse Rav Achadvoy bar Matna, em nome de Rav Matna: a lei não segue Rabi Elazar, filho de Rabi Shimon. A Guemará pergunta: isso é óbvio: diante de um sábio individual e vários sábios, a lei segue os vários! Resposta: era necessário dizê-lo, para que não penses: o raciocínio de Rabi Elazar, filho de Rabi Shimon, é plausível neste caso específico, e a lei deveria segui-lo mesmo contra a maioria; por isso ele nos ensina que não é assim.

Nota

Rejeita-se a opinião de Rabi Elazar filho de Rabi Shimon, que proibia até mesmo mover a sandália pregada para fins utilitários. Embora a regra geral de que a lei segue a maioria dos sábios já bastasse para decidir a questão, a Guemará explica por que era necessário afirmá-lo explicitamente aqui: o raciocínio de Rabi Elazar — o temor de que, ao manuseá-la, seu dono acabe por calçá-la — é suficientemente plausível para que se pudesse pensar que a lei deveria segui-lo mesmo contra a maioria; por isso se ensina explicitamente que não é esse o caso.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "mistabra ta'ama"
מסתברא טעמא - דאסור לטלטל שמא ינעלנו:

"O raciocínio é plausível" — que é proibido movê-la, temendo que venha a calçá-la.

21Rabi Chiya confessa: não fosse seu apelido, teria permitido vinte e dois ou vinte e quatro pregos
Rabi Chiya; Rav Nachman bar Yitzchak
אָמַר רַבִּי חִיָּיא: אִי לָאו דְּקָרוּ לִי ״בַּבְלַאי שָׁרֵי אִיסּוּרֵי״ שָׁרֵינָא בֵּיהּ טוּבָא. וְכַמָּה? בְּפוּמְבְּדִיתָא אָמְרִין: עֶשְׂרִין וְאַרְבַּע. בְּסוּרָא אָמְרִין: עֶשְׂרִין וְתַרְתֵּין. אָמַר רַב נַחְמָן בַּר יִצְחָק, וְסִימָנָיךְ: עַד דַּאֲתָא מִפּוּמְבְּדִיתָא לְסוּרָא חֲסַר תַּרְתֵּי.

Disse Rabi Chiya: se não me chamassem "o babilônio que permite proibições", eu teria permitido nele muito mais pregos. E quantos ele teria permitido? Em Pumbedita dizem: vinte e quatro. Em Sura dizem: vinte e dois. Disse Rav Nachman bar Yitzchak: e teu sinal para memorizar isso é: até que a tradição chegasse de Pumbedita a Sura, faltavam dois.

Nota

Rabi Chiya encerra a discussão sobre os números com uma confissão bem-humorada: por ser originário da Babilônia e, por isso, já apelidado, com certa ironia, de "o babilônio que permite proibições" — um comentário sobre sua reputação de leniência —, ele próprio se conteve de propor um número ainda maior de pregos permitidos, para não reforçar essa fama. As duas academias divergem sobre qual seria esse número mais generoso: vinte e quatro, segundo a tradição de Pumbedita; vinte e dois, segundo a de Sura. Rav Nachman bar Yitzchak oferece um trocadilho mnemônico para lembrar a diferença: "até que chegou de Pumbedita a Sura, faltavam dois" — como se dois pregos tivessem se perdido pelo caminho entre as duas cidades, cujos nomes, aliás, soam semelhantes um ao outro.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "bavlai sharei isurei", "ad de-ata Rabi Chiya" e "chasar tartei"
בבלאי שרי איסורי - דר' חייא מבבל הוה כדאמרינן בסוכה עלו ר' חייא ובניו ויסדוה: עד דאתא רבי חייא - כשעלה מבבל לארץ ישראל ובא דרך סוריא מפומבדיתא: חסר תרתי - נפלו שתים ממסמרותיו בדרך: לסורא חסר - (תרתי) דומה אצל דומה:

"O babilônio que permite proibições" — pois Rabi Chiya era da Babilônia, como dizemos em Sucá: Rabi Chiya e seus filhos subiram à Terra de Israel e a restabeleceram ali. "Até que Rabi Chiya chegasse" — quando subiu da Babilônia à Terra de Israel, e veio pelo caminho da Síria, vindo de Pumbedita. "Faltavam dois" — caíram dois de seus pregos pelo caminho. "Chegou a Sura faltando dois" — é um jogo de palavras, semelhante junto de semelhante.

Transição: a próxima cláusula da Mishná, sobre a sandália avulsa · וְלֹא בְּיָחִיד

22A Mishná: nem com uma única sandália, quando não há ferida no pé
Mishná (citada, cláusula já ensinada em 60a)
וְלֹא בְּיָחִיד בִּזְמַן שֶׁאֵין בְּרַגְלוֹ מַכָּה.

E nem com uma única sandália, quando não há ferida em seu pé.

Nota

O daf se encerra citando a próxima cláusula da Mishná ensinada em 60a, sobre o homem que sai com apenas uma sandália calçada, retomando-a para abrir a discussão seguinte. Uma segunda consulta independente ao texto de Shabat 61a confirma que a Guemará prossegue exatamente a partir desta cláusula, perguntando: "mas, se há ferida em seu pé, ele sai com uma só sandália?" — de modo que este segmento termina numa citação fechada em si mesma, e não numa frase interrompida no meio, dando início natural ao daf seguinte.