O daf abre concluindo a baraita iniciada ao final de 59b: quanto ao gancho de comerciante, segue-se seus pregos; quanto à escada, seus degraus; quanto à balança, suas correntes; e os sábios resumem tudo numa regra geral — tudo segue o suporte, isto é, a peça que fixa e sustenta o conjunto define sua condição. A Guemará então retoma a contradição, já apontada ao final de 59b, entre a Mishná (que trata o anel com selo como fardo) e a baraita (que lista o anel, com ou sem selo, entre os enfeites impuros das mulheres); depois da resolução de Rabi Zeira, seguem-se duas resoluções alternativas: Rava lê a baraita de modo disjuntivo — um dos ramos refere-se ao enfeite de homem, o outro ao de mulher —; e Rav Nachman bar Yitzchak separa por completo a lei da impureza (que segue a definição de "utensílio de trabalho", cumprida pelo anel com ou sem selo) da lei do Shabat (que segue o temor do fardo, presente apenas quando há selo). Discute-se então a cláusula da Mishná sobre a agulha sem furo, já citada em 57a: Rav Yossef explica que serve para a mulher prender o cabelo solto; Abaye desafia, comparando-a à birit, pura e permitida; e Rav Adda Narshaá responde diante de Rav Yossef que ela serve para repartir o cabelo, ao que Rava acrescenta que, no Shabat, ela é usada como uma placa de ouro colocada contra a testa. O daf traz então uma nova Mishná, que passa a tratar dos enfeites e apetrechos que o homem não deve usar no Shabat: sandália pregada; sandália avulsa, quando não há ferida no pé; filactérios; amuleto, quando não é de um especialista reconhecido; couraça; capacete; e botas de guerra — com isenção de sacrifício para quem saiu com qualquer um deles. A Guemará pergunta o motivo do decreto contra a sandália pregada, e narra, em três versões — de Shmuel, de Rabi Ilai ben Elazar e de Rami bar Yechezkel —, a história de um grupo de fugitivos de uma perseguição religiosa, escondidos numa caverna ou numa sinagoga, que, por um mal-entendido sobre um ruído ou uma sandália virada, entraram em pânico, pensando que inimigos os cercavam, e se mataram uns aos outros no tumulto, em número maior do que os próprios inimigos haviam matado. Diante disso, decretou-se contra a sandália pregada; o daf termina com a pergunta se o decreto vale também no dia de semana e no Yom Tov, introduzindo uma citação que prossegue no início do daf seguinte.
Quanto ao kolav — um suporte de comerciante —, segue-se seus pregos. Quanto à escada, segue-se seus degraus. Quanto à arsa — uma grande balança —, segue-se suas correntes. E os sábios dizem: tudo segue o suporte.
Conclui-se aqui a baraita iniciada ao final de 59b, que já havia estabelecido, quanto ao anel, que se segue o selo, e quanto ao jugo, que se segue seus pinos de fixação. Agora se acrescentam mais três exemplos: o gancho de comerciante, cujo material determinante é o dos pregos nele fincados; a escada, cujo material determinante é o dos degraus; e a balança, cujo material determinante é o das correntes de que pendem os pratos. Os sábios resumem essa regra casuística numa formulação geral: em qualquer utensílio composto, segue-se sempre o material daquilo que sustenta e fixa as demais partes, e não o da estrutura maior.
"Quanto ao kolav" — é como um poste, largo embaixo e fino em cima, que se pode mover, e o comerciante o coloca diante da vitrine de sua loja, e há pregos fincados nele, e nele se penduram cintos e tiras para vender. "Quanto à arsa" — "eixterreída" em francês antigo; e é uma grande balança para pesar lã, cera e cobre, e é de madeira. "Segue-se suas correntes" — pois o prato está pendurado nelas, e, se forem de metal, são impuras. "O suporte" — o corpo do anel sustenta o selo; o jugo sustenta seus pinos; o gancho sustenta seus pregos; a escada sustenta seus degraus, pois é neles que estão fixados; e a arsa é uma vara comprida de madeira, a haste que se chama "íisha", e a língua da balança se enfia nela, e as correntes se prendem à haste, e todas essas peças são sustentadas pela vara comprida de madeira, que se chama "fleíl", da qual os dois pratos da balança ficam pendurados por duas pontas.
Rava disse: a baraita ensina de modo disjuntivo: se o anel tem selo, é enfeite de homem; se não tem selo, é enfeite de mulher.
Rava propõe uma segunda resolução para a contradição já resolvida por Rabi Zeira ao final de 59b. Segundo Rava, a baraita, ao listar "o anel, seja com selo, seja sem selo", entre os enfeites impuros, não trata de um único enfeite feminino visto sob dois ângulos, mas de dois enfeites distintos, cada qual pertencente a um gênero: o anel com selo é um enfeite de homem, e por isso é impuro como tal; o anel sem selo é um enfeite de mulher. Não há, então, contradição alguma com a Mishná, que trata o anel com selo, para a mulher, como um fardo.
"Rava disse" — a baraita, que ensina que o anel é enfeite, seja com selo, seja sem selo, não se refere, em ambos os ramos, à abertura que trata dos enfeites das mulheres; antes, um ramo é enfeite de homem, e o outro é enfeite de mulher, e ela ensina de modo disjuntivo.
Rav Nachman bar Yitzchak disse: estás sobrepondo a lei da impureza à do Shabat?! Quanto à impureza, a Torá disse "utensílio de trabalho" — e o anel é um utensílio, com ou sem selo. Quanto ao Shabat, a Torá falou por causa do fardo: se não tem selo, é enfeite; se tem selo, é fardo.
Rav Nachman bar Yitzchak propõe uma terceira resolução, negando que a contradição exija sequer a distinção entre opiniões (Rabi Zeira) ou entre gêneros (Rava): para ele, as duas leis simplesmente respondem a critérios diferentes, e por isso não há contradição alguma. A impureza de utensílios de metal exige apenas que o objeto seja um "utensílio de trabalho" — condição que o anel cumpre tanto com selo quanto sem selo, sendo por isso sempre suscetível de impureza. Já a proibição de sair no Shabat depende do temor de que a mulher o retire para exibi-lo; esse temor só existe quando o anel tem selo, pois só então ele deixa de ser um mero enfeite. As duas leis, portanto, operam com definições próprias, e a baraita da impureza não contradiz a Mishná do Shabat.
"Estás sobrepondo a impureza ao Shabat" — o que se ensina, "e o anel, seja com selo, etc.", não se refere à abertura da lista, que o chama de enfeite das mulheres em ambos os ramos; antes, quer dizer o seguinte: e o anel de que se falou que se contamina — seja com selo, que não é enfeite, mas é, ainda assim, um utensílio de trabalho; seja sem selo, que é enfeite —; e, quando a abertura ensina "enfeites das mulheres", refere-se ao anel sem selo.
... e nem com agulha que não é perfurada. A Guemará pergunta: para que ela serve como enfeite? Disse Rav Yossef: pois a mulher prende com ela o cabelo solto.
A Guemará chega, enfim, à última cláusula da lista de enfeites femininos aberta na Mishná de 57a: a agulha sem furo, cuja proibição de saída pressupõe que ela seja, de fato, um enfeite, e não um mero utensílio de costura esquecido no cabelo. Rav Yossef explica sua função: o cabelo que escapa das tocas e prendedores é enrolado ao redor da agulha, e esta é então fincada na touca, por baixo, para que o cabelo não apareça.
"Para que ela serve" — como enfeite, de que ensina a Mishná que quem sai com ela não está obrigada a um sacrifício pelo pecado. "Prende com ela o cabelo" — o cabelo que sai para fora de seus prendedores, ela o enrola ao redor da agulha, e finca a agulha na touca, por baixo, para que seu cabelo não apareça.
Disse-lhe Abaye: então que a agulha seja como a birit — uma espécie de braçadeira usada nas pernas —, pura, e seja permitida!
A birit é um adorno preso às pernas, sobre as ataduras que fixam as calças, para que estas não caiam; a Mishná adiante (63a) a declara pura e permite sair com ela, pois, sendo usada por discrição, a mulher não a retira para exibi-la. Abaye argumenta que a agulha sem furo, servindo a uma função igualmente discreta e necessária — prender o cabelo, que é uma parte íntima da mulher —, deveria receber o mesmo tratamento e ser permitida de antemão.
"Que seja como a birit" — pois ensina a Mishná (adiante, 63a) que a birit é pura, isenta de contrair impureza, e se pode sair com ela; e é como uma espécie de braçadeira que se faz para as pernas, por cima das ataduras das calças, para ajustá-las, de modo que não caiam sobre o pé. "Pura" — pois não é um enfeite, mas um utensílio a serviço das ataduras das calças, e é como o anel dos utensílios, do qual dissemos, no capítulo anterior, que são puros, e se pode sair com eles, pois são necessários junto com as ataduras, e não constituem fardo; e se pode sair com ela, pois, sendo usada por discrição, ela não a retira para mostrá-la. E também esta agulha é usada por discrição, pois o cabelo da mulher é como nudez, e ela não o mostra; por que, então, não deveria ser permitido sair com ela de antemão?
Mas Rav Adda Narshaá explicou diante de Rav Yossef: pois a mulher reparte com ela o cabelo. E, se assim é, no Shabat, para que ela serve? Disse Rava: ela tem uma placa de ouro sobre a cabeça; no dia de semana, reparte com a agulha o cabelo; no Shabat, coloca-a contra sua testa.
Rav Adda Narshaá substitui a explicação de Rav Yossef por outra: a agulha não serve para prender o cabelo solto, mas para repartir o cabelo ao meio, de um lado e de outro da cabeça. Isso, porém, levanta uma nova dificuldade: se a agulha serve para repartir o cabelo apenas em dias comuns, para que serviria no Shabat, quando a mulher não penteia o cabelo? Rava responde que a mulher possui uma placa de ouro fixada à cabeça, com uma ponta que serve, no dia de semana, para repartir o cabelo, e que, no Shabat, é simplesmente colocada de encontro à testa, como um adorno — função que já lhe é própria também nos dias comuns, quando não está sendo usada para repartir o cabelo.
"Reparte" — para um lado e para outro, no meio de sua cabeça, o que se chama, em francês antigo, "greve"; uma divisão, "chevil" em francês antigo. "E no Shabat, para que ela serve" — já que no Shabat ela não reparte o cabelo. "Ela tem uma placa de ouro sobre a cabeça" — a agulha tem duas pontas: uma delas, e a segunda é a ponta fina. "No dia de semana reparte o cabelo" — com a ponta fina. "E no Shabat" — finca a ponta fina na touca, e a placa que está na outra ponta de sua cabeça fica colocada sobre sua testa.
Mishná: o homem não sai com sandália pregada. E nem com uma única sandália, quando não há ferida em seu pé. E nem com filactérios, e nem com amuleto, quando este não é de um especialista reconhecido. E nem com couraça, nem com capacete, nem com botas de guerra. E, se saiu, não está obrigado a um sacrifício pelo pecado.
Mishná: "Sandália pregada" — é de madeira, e nela se fincam pregos por cima, para reforçar a parte de baixo com a de cima — a madeira com o couro que fica sobre ela —, e tem duas aberturas, e nela se enfia o pé; e na Guemará se explica por que motivo decretaram sobre ela. "E nem com uma única" — nem com uma única sandália. "Quando não há ferida em seu pé" — no Talmude Yerushalmi explica-se que é para que não o suspeitem de estar carregando o companheiro sob sua asa; e, segundo a explicação de meus mestres, é para que não zombem dele, e ele a retire e a carregue na mão, esquecendo-se do Shabat; mas, quando há ferida em seu pé, é permitido, e na Guemará se pergunta em qual dos dois pés ele a coloca. "E nem com filactérios" — como se explica o motivo na Guemará (adiante, 61a). "E nem com amuleto" — que se escreve e se carrega para cura. "Que não é de um especialista reconhecido" — mas com amuleto de especialista reconhecido é permitido, pois é um enfeite para o doente, como uma de suas vestimentas. "Couraça, capacete e botas de guerra" — explica-se na Guemará. "Não está obrigado a um sacrifício pelo pecado" — pois todos estes são tipos de vestimenta usados no dia de semana para a guerra.
Guemará: a sandália pregada — qual é o motivo de sua proibição?
Disse Shmuel: eram fugitivos de uma perseguição religiosa, e estavam escondidos numa caverna, e disseram: quem quiser entrar, que entre; mas quem quiser sair, que não saia.
Shmuel narra o contexto histórico do decreto: num período de perseguição religiosa, um grupo de judeus se escondia numa caverna, e estabeleceu a regra de que só se poderia entrar — pois quem entra pode verificar antes se não é visto —, mas nunca sair, pois quem saísse arriscaria ser avistado por inimigos do lado de fora, sem que os que ficavam dentro soubessem do perigo.
Guemará: "Eram fugitivos do decreto" — eram pessoas que escapavam do decreto de perseguição. "Quem quiser entrar, que entre" — aquele que quiser entrar, que entre, pois quem entra verá primeiro se ninguém o vê. "Mas quem quiser sair, que não saia" — pois talvez haja inimigos do lado de fora, e ele não saiba, e o vejam, e entendam que estamos aqui.
A sandália de um deles se virou e ficou marcada no chão como se ele tivesse saído; pensaram que um deles havia saído, e que os inimigos o viram, e que agora vinham contra eles. Empurraram-se uns aos outros, e mataram-se uns aos outros mais do que os inimigos os teriam matado.
A tragédia se deu por um mal-entendido: a sandália de um dos fugitivos, que tinha duas aberturas e podia ser calçada de ambos os lados, ficou invertida em seu pé, de modo que sua marcação no chão parecia a de alguém saindo, quando na verdade ele estava entrando. Os demais, vendo essa marca, concluíram que alguém havia desobedecido à regra e saído, e que por isso os inimigos já sabiam de seu esconderijo e viriam atacá-los. No pânico, empurraram-se uns aos outros na tentativa de fugir ou se defender, e acabaram matando-se mutuamente em número maior do que os próprios inimigos teriam feito.
"A sandália se virou" — pois tem duas aberturas e pode-se calçá-la de ambos os lados, mas se distingue qual lado é a frente e qual é a parte de trás; e, quando a calçou invertida, quem entrava parecia estar saindo, e seu lugar se distinguia no chão. "E mataram-se uns aos outros" — no empurrão entre eles, pois suas sandálias eram pregadas como as que se fazem para os pés dos cavalos, com as cabeças dos pregos grossas.
Rabi Ilai ben Elazar diz: estavam sentados numa caverna, e ouviram um som por cima da caverna. Pensaram que os inimigos tinham vindo contra eles. Empurraram-se uns aos outros, e mataram-se uns aos outros mais do que os inimigos os teriam matado.
Rabi Ilai ben Elazar transmite uma versão diferente do mesmo episódio: não foi a marca de uma sandália virada que gerou o pânico, mas um simples ruído ouvido por cima da caverna, interpretado como sinal de que inimigos os haviam encontrado — com o mesmo trágico desfecho.
Rami bar Yechezkel disse: estavam sentados numa sinagoga, e ouviram um som atrás da sinagoga. Pensaram que os inimigos tinham vindo contra eles. Empurraram-se uns aos outros, e mataram-se uns aos outros mais do que os inimigos os teriam matado.
Uma terceira versão, transmitida por Rami bar Yechezkel, situa o episódio numa sinagoga em vez de numa caverna, mas mantém a mesma estrutura: um som mal interpretado como ameaça externa, seguido de pânico coletivo e mortes por empurrão. As três versões concordam no ponto essencial: o decreto contra a sandália pregada nasceu de uma tragédia real, provocada por um mal-entendido em tempo de perseguição.
Naquela hora disseram: que ninguém saia com sandália pregada. Se assim é, também no dia de semana deveria ser proibido! Mas não é assim, pois o incidente ocorreu no Shabat. Então no Yom Tov deveria ser permitido! Mas não ensinamos:
A Guemará examina o alcance do decreto: se ele surgiu de um episódio ocorrido em Shabat, por que se estende também ao dia de semana, quando nada impede sair com essa sandália? A pergunta permanece sem resposta explícita aqui — a lógica é retomada adiante. Já quanto ao Yom Tov, levanta-se a possibilidade de que o decreto não deveria valer, já que em Yom Tov não há a mesma "reunião de multidão" que se teme no Shabat; mas a Guemará interrompe a resposta citando o início de uma mishná — "mas não ensinamos" — cujo texto completo, do tratado Beitzá, sobre o envio de utensílios em Yom Tov, prossegue apenas no início do daf seguinte (60b), confirmado por consulta independente ao texto de Sefaria. O segmento termina, portanto, no meio de uma citação em curso, não de uma frase cortada no interior de uma palavra: é uma transição normal de daf dentro da mesma sugya.
"Que não saia" — o homem, no Shabat, como se explica a seguir, pois o incidente ocorreu no Shabat, e proibiram algo semelhante ao que sucedeu. "Mas não ensinamos" — no tratado Beitzá.