Talmud Bavli · Massechet Shabbat · Perek Vav · Bameh Isha Yotzah
הַזּוּג וְהָעִינְבָּל חִבּוּר

O sino da porta é puro, a distinção entre sino com e sem batente, e se o sino e seu batente formam uma unidade só

Shabbat 58b — a conclusão da frase interrompida ao final de 58a, sobre o sino da porta; a objeção do sino de animal reaproveitado numa porta; a distinção entre sino com batente (einbal) e sem batente; a nova dificuldade da baraita do escravo; a baraita sobre sinos do pilão, do berço e dos panos; e a discussão sobre se o sino e o batente são uma unidade só — numa resposta de Rava interrompida ao final, continuada em 59a.

O daf abre concluindo a frase deixada em suspenso ao final de 58a: "mas o sino da porta — é puro", pois, como explica Rashi, a porta está ligada à casa, que por sua vez está ligada ao solo, e por isso não é considerada um utensílio capaz de receber impureza — e o sino feito para ela se anula em relação a ela, segundo o princípio já dito no início deste mesmo perek, de que tudo o que está ligado a algo fixo ao solo é como esse algo. A Guemará então contrapõe uma baraita: o sino que era de uma porta e foi reaproveitado para um animal torna-se impuro; e o sino que era de um animal e foi reaproveitado para uma porta, mesmo que preso a ela e fixado com pregos, permanece impuro — pois todos os utensílios entram sob o domínio da impureza por mero pensamento (a intenção de usá-los como utensílio pessoal), mas só saem desse domínio por uma mudança efetiva de feitura, e não pela mera mudança de intenção e fixação. A dificuldade se resolve pela distinção entre o sino que tem batente (o "einbal", a peça interna que produz o som) e o que não tem: mas a Guemará pergunta, de qualquer modo que se veja, por que a presença ou ausência do batente deveria importar — se o sino é um utensílio mesmo sem o batente, deveria receber impureza de qualquer forma; se não o é, como o simples acréscimo do batente o tornaria um utensílio? A resposta vem de um ensinamento de Rabi Shmuel bar Nachmani em nome de Rabi Yonatan: o que produz som entre os utensílios de metal é impuro, como se aprende do versículo sobre a purificação dos despojos de guerra — "tudo o que vier ao fogo, fareis passar pelo fogo" —, entendido como incluindo até mesmo a "fala", ou seja, o som. A Guemará então levanta nova dificuldade a partir da própria baraita do escravo, citada em 58a, que declara que tanto o sino do pescoço quanto o da roupa recebem impureza — o que pareceria supor que ambos têm batente, contrariando a resolução anterior. Contrapõe-se, então, outra baraita: quem faz sinos para o pilão de especiarias, para o berço, para os panos com que se enrolam os livros da Torá e para os panos dos bebês — se têm batente, são impuros; se não têm, são puros; se seus batentes foram removidos, sua impureza permanece sobre eles. A Guemará explica que essa distinção entre ter ou não batente vale apenas para o sino da criança, feito para produzir som; para o adulto, porém, o sino é um enfeite, e por isso recebe impureza mesmo sem o batente. Quanto à afirmação de que a impureza permanece mesmo depois de removido o batente, Abaye explica que isso se deve ao fato de que um leigo, sem necessidade de um artesão especializado, pode recolocá-lo. Rava objeta, porém, citando um ensinamento de que o sino e o batente formam uma unidade só — o que sugeriria que, uma vez separados, o sino seria como um utensílio ao qual falta uma parte, e não deveria mais receber impureza —, e a Guemará tenta reinterpretar essa objeção à luz de uma baraita sobre a tesoura articulada e a lâmina de plaina, que são consideradas unidas para fins de impureza, mas não para fins de aspersão das águas de purificação — uma distinção que parece incoerente à primeira vista, mas que Rabá explica: por lei da Torá, a união vale tanto para a impureza quanto para a aspersão apenas durante o tempo de uso; fora do tempo de uso, não há união para nenhuma das duas; mas os sábios decretaram, por precaução, que fora do tempo de uso a peça seja considerada unida para fins de impureza (por causa do tempo de uso), e que durante o tempo de uso seja considerada não unida para fins de aspersão (por causa de fora do tempo de uso). O daf termina, mais uma vez, interrompido no meio de uma resposta: "Antes, disse Rava:" — resposta que, segundo Rashi, rejeita a explicação de Abaye e oferece um motivo diferente para a impureza do sino sem batente, e cujo conteúdo completo só aparece na abertura de 59a.

O sino da porta é puro, mas o sino de animal reaproveitado numa porta permanece impuro · וְשֶׁל דֶּלֶת טָהוֹר

01Conclui-se a frase interrompida ao final de 58a: o sino da porta é puro, pois a porta está ligada ao solo
Baraita (continuação de 58a)
וְשֶׁל דֶּלֶת — טָהוֹר.

Mas o sino da porta — é puro.

Nota

Completa-se aqui a frase deixada em suspenso ao final de 58a. A baraita ali citada declarava impuro o sino de um animal, e agora contrasta esse caso com o sino de uma porta, que é puro. Como explica Rashi, a razão é que a porta está ligada à casa, a qual, por sua vez, está ligada ao solo — e por isso não é considerada um utensílio autônomo capaz de receber impureza; o sino nela fixado se anula em relação a ela, segundo o princípio já ensinado no início deste mesmo perek, de que tudo o que está ligado a algo preso ao solo tem o mesmo estatuto desse algo.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "ve-shel delet tahor"
ושל דלת טהור - דלת מחובר לבית הוא שהוא חבור לקרקע ואינו כלי לקבל טומאה וזוג העשוי לו בטיל לגביה כדאמרי' בריש פרקין דלעיל כל המחובר לו הרי הוא כמוהו:

"Mas o sino da porta é puro" — porque a porta é ligada à casa, pois ela (a casa) é ligada ao solo, e a porta, portanto, não é um utensílio capaz de receber impureza; e o sino feito para ela se anula em relação a ela, como se disse no início deste perek, mais acima: tudo o que está ligado a ele (a algo preso ao solo) é como ele.

02Contraposição: o sino que era de porta e foi reaproveitado para animal torna-se impuro, e vice-versa, mesmo fixado com pregos
Baraita (contradição)
שֶׁל דֶּלֶת וַעֲשָׂאוֹ לִבְהֵמָה — טָמֵא. שֶׁל בְּהֵמָה וַעֲשָׂאוֹ לְדֶלֶת, אַף עַל פִּי שֶׁחִבְּרוֹ לַדֶּלֶת וּקְבָעוֹ בְּמַסְמְרִים — טָמֵא, שֶׁכׇּל הַכֵּלִים יוֹרְדִין לִידֵי טוּמְאָתָן בְּמַחְשָׁבָה, וְאֵין עוֹלִין מִידֵּי טוּמְאָתָן אֶלָּא בְּשִׁנּוּי מַעֲשֶׂה!

O sino que era da porta, e ele o fez — reaproveitou — para um animal, é impuro. O sino que era de um animal, e ele o fez para uma porta, mesmo que o tenha ligado à porta e o tenha fixado com pregos, é impuro — pois todos os utensílios entram sob o domínio de sua impureza por mero pensamento — pela simples intenção de destiná-los a uso pessoal —, mas só saem do domínio de sua impureza por uma mudança efetiva de feitura — e não por mera mudança de intenção e fixação!

Nota

Esta baraita parece contradizer o que se acabou de estabelecer: se o sino de porta é puro por estar ligado a algo fixo ao solo, então o sino que era de um animal (impuro) e foi reaproveitado para uma porta, ligado a ela e fixado com pregos, deveria também tornar-se puro — mas a baraita ensina que permanece impuro. A razão dada é um princípio geral: um utensílio, uma vez que entrou sob o domínio da impureza por intenção de uso pessoal, só sai desse domínio por uma mudança física real na sua feitura (como quebrá-lo ou fundi-lo), e não por uma simples mudança de destinação e fixação, por mais firme que seja.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "shel delet va-asao li-vehemah tamé" e "she-ein olin mi-tumatan"
של דלת ועשאו לבהמה טמאה - מכאן ולהבא ואע"פ דלא עבד ביה מעשה אלא שחישב עליו ותלאו ותלייה לאו מעשה היא שכל הכלים יורדים לידי תורת טומאה במחשבה שלו: של בהמה ועשאו לדלת טמא - ואפי' מכאן להבא יקבל טומאה שאין חיבורו מעשה עד שישנהו מכמות שהיה: שאין עולין מטומאתן - מתורת טומאה שירדה להן ואע"פ שעדיין לא נטמאו משנמלך עליהן אין עולין מלקבל טומאה אלא בשינוי מעשה:

"O sino que era da porta, e ele o fez para um animal, é impuro" — é impuro deste momento em diante, e ainda que não tenha realizado nele nenhuma ação de feitura, mas apenas pensado nele e pendurado o sino no animal — pois pendurar não é considerado uma mudança de feitura, já que todos os utensílios entram sob a lei da impureza por seu próprio pensamento. "O sino que era de um animal, e ele o fez para uma porta, é impuro" — e mesmo daqui em diante ele continuará a receber impureza, pois sua ligação à porta não é considerada uma mudança de feitura, até que ele o transforme daquilo que era. "Não saem de sua impureza" — da lei da impureza que desceu sobre eles; e ainda que de fato ainda não tenham se tornado impuros desde que se decidiu reaproveitá-los, eles não saem de poder receber impureza senão por uma mudança de feitura.

03Resolução: um caso tem batente (einbal), o outro não tem
Guemará
לָא קַשְׁיָא: הָא דְּאִית לֵיהּ עִינְבָּל, הָא דְּלֵית לֵיהּ עִינְבָּל.

Não há dificuldade: este — o sino de animal reaproveitado numa porta, que permanece impuro — é aquele que tem batente (einbal, a peça interna que produz o som); aquele — o sino de porta, puro, mesmo quando reaproveitado para um animal — é aquele que não tem batente.

Nota

A Guemará resolve a contradição não pela origem do sino (porta ou animal), mas pela presença do batente — a peça interna que, ao balançar, produz o som. Um sino com batente é um utensílio funcional pleno, e por isso permanece impuro mesmo quando reaproveitado; um sino sem batente, mero ornamento silencioso fixado à porta, nunca chega a ser considerado um utensílio capaz de receber impureza.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "einbal"
עינבל - בטדי"ל שעשוי בתוכו להשמיע קול:

"Batente (einbal)" — em francês antigo, "batediçõe" ou termo semelhante, que é feito dentro do sino para fazer soar o som.

04Pergunta-se: de qualquer modo que se veja, por que o batente deveria fazer diferença?
Guemará
מָה נַפְשָׁךְ: אִי מָנָא הוּא, אַף עַל פִּי דְּלֵית לֵיהּ עִינְבָּל. אִי לָאו מָנָא הוּא — עִינְבָּל מְשַׁוֵּי לֵיהּ מָנָא?!

De qualquer modo que se veja: se o sino, mesmo sem o batente, é um utensílio, então deveria receber impureza ainda que não tenha batente. Se sem o batente não é um utensílio — o batente o transformaria em utensílio?!

Nota

A Guemará questiona a resolução anterior com um dilema: se o sino, por si só, já é considerado um utensílio (por exemplo, como ornamento), então deveria receber impureza independentemente do batente; mas se, sem o batente, ele não é sequer um utensílio, então o simples acréscimo de uma peça interna não deveria bastar para criá-lo como tal — pois um utensílio se define pela feitura de quem o fabrica (melechet machshevet), e não por uma peça solta.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "i mana hu" e "einbal meshavei leih mana"
אי מנא הוא - דתכשיט חשיב ליה: עינבל משוי ליה מנא - בתמיה משום העינבל מי הוי תכשיט:

"Se é um utensílio" — pois o sino, mesmo sem o batente, é considerado um enfeite. "O batente o transformaria em utensílio?" — em tom de espanto: por causa do batente, o sino se tornaria um enfeite?

05Resposta: sim — o que produz som entre os utensílios de metal é impuro, como se aprende do versículo sobre os despojos de guerra
Guemará; Rabi Shmuel bar Nachmani; Rabi Yonatan
אִין, כִּדְרַבִּי שְׁמוּאֵל בַּר נַחְמָנִי אָמַר רַבִּי יוֹנָתָן. דְּאָמַר רַבִּי שְׁמוּאֵל בַּר נַחְמָנִי אָמַר רַבִּי יוֹנָתָן: מִנַּיִן לְמַשְׁמִיעַ קוֹל בִּכְלֵי מַתָּכוֹת שֶׁהוּא טָמֵא, שֶׁנֶּאֱמַר: ״כׇּל דָּבָר אֲשֶׁר יָבֹא בָאֵשׁ תַּעֲבִירוּ בָאֵשׁ״ — אֲפִילּוּ דִּבּוּר, יָבֹא בָּאֵשׁ.

Sim — o batente o transforma em utensílio —, como ensinou Rabi Shmuel bar Nachmani, disse Rabi Yonatan; pois disse Rabi Shmuel bar Nachmani, disse Rabi Yonatan: de onde se aprende que o que produz som entre os utensílios de metal é impuro? Pois foi dito: "Todo item que vier ao fogo, fareis passar pelo fogo" — até mesmo a fala (dibur, que soa como "davar", "item") deve vir ao fogo.

Nota

A resposta afirma que o próprio ato de produzir som já constitui a marca definidora do utensílio, no caso de objetos de metal. A prova vem do versículo sobre a purificação dos despojos de guerra (Números 31:23), que fala de "todo item" que vier ao fogo — lido, por jogo de palavras, como incluindo também a "fala" (dibur), isto é, o som, entre os itens de metal que se qualificam como utensílios sujeitos às leis de purificação, e, por extensão, às leis de impureza.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "ein - einbal meshavei leih mana" e "kol davar she-yavo va-esh"
אין - עינבל משוי ליה מנא ולא משום תכשיט אלא משום כלי: כל דבר שיבא באש - בכלי מתכות משתעי במעשה מדין:

"Sim" — o batente o transforma em utensílio, e não por conta de ser considerado enfeite, mas por conta de ser considerado utensílio. "Todo item que vier ao fogo" — o versículo trata de utensílios de metal, no relato do episódio de Midiã.

Nova dificuldade, a partir da baraita do escravo · אֵימָא מְצִיעֲתָא

06Pergunta-se: mas a baraita do escravo já ensinou que ambos os sinos — do pescoço e da roupa — recebem impureza
Guemará
בְּמַאי אוֹקִימְתָּא — בִּדְלֵית לֵיהּ עִינְבָּל? אֵימָא מְצִיעֲתָא: וְלֹא בְּזוֹג שֶׁבְּצַוָּארוֹ, אֲבָל יוֹצֵא הוּא בְּזוֹג שֶׁבִּכְסוּתוֹ, וְזֶה וָזֶה מְקַבְּלִין טוּמְאָה. אִי דְּלֵית לֵיהּ עִינְבָּל מִי מְקַבְּלִי טוּמְאָה?

Como estabeleceste o caso do sino de porta que é puro? Como aquele que não tem batente? Mas então considera a cláusula do meio da baraita citada em 58a: e não pode sair com o sino que traz no pescoço, mas ele pode sair com o sino que traz na roupa, e ambos estes recebem impureza. Se se tratasse de um sino que não tem batente, receberia impureza?

Nota

A Guemará levanta nova dificuldade: se a resolução anterior for que o sino puro é o que não tem batente, isso deveria valer para todo sino sem batente, em qualquer contexto. Mas a baraita sobre o escravo, já citada em 58a, afirma que tanto o sino do pescoço quanto o da roupa recebem impureza — o que pressupõe que ambos têm batente, sem mencionar exceção alguma para o caso sem batente, sugerindo que a distinção precisa ser refinada ou aplicada de outro modo.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "eima metziata" e "mi mekablei tumah"
אימא מציעתא - זוג דאדם: מי מקבל טומאה - אפי' דאדם:

"Considera a cláusula do meio" — a que trata do sino de uma pessoa (o escravo). "Receberia impureza?" — mesmo o sino de uma pessoa — pressupõe-se que tem batente, pois de outro modo não faria sentido falar de sua impureza.

Os sinos do pilão, do berço e dos panos: a criança e o adulto · הָעוֹשֶׂה זֹגִין לְמַכְתֶּשֶׁת

07Contraposição: sinos feitos para o pilão, o berço, os panos dos livros e dos bebês — com batente, impuros; sem, puros
Baraita
וּרְמִינְהוּ: הָעוֹשֶׂה זֹגִין לְמַכְתֶּשֶׁת וְלַעֲרִיסָה וּלְמִטְפְּחוֹת סְפָרִים וּלְמִטְפְּחוֹת תִּינוֹקוֹת, יֵשׁ לָהֶם עִינְבָּל — טְמֵאִין, אֵין לָהֶם עִינְבָּל — טְהוֹרִין, נִיטְּלוּ עִינְבְּלֵיהֶן — עֲדַיִן טוּמְאָתָן עֲלֵיהֶם.

E contrapuseram: quem faz sinos para o pilão de especiarias, para o berço, para os panos dos livros da Torá e para os panos dos bebês — se têm batente, são impuros; se não têm, são puros; se seus batentes foram removidos, sua impureza permanece sobre eles.

Nota

Esta baraita trata de sinos usados em quatro contextos distintos: no pilão onde se maceram especiarias (cujo som ajuda a liberar o aroma), no berço da criança (para acalmá-la ou fazê-la dormir com o chocalhar), nos panos com que se envolvem os rolos da Torá quando levados à sinagoga (cujo som anuncia às crianças da escola que se aproximem para ouvir a leitura), e nos panos pendurados no pescoço dos bebês. Em todos esses casos, a impureza depende da presença do batente — mas, uma vez que o sino já recebeu impureza, ela permanece mesmo que o batente seja depois removido.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre cada cláusula da baraita
העושה זגין למכתשת - שמפטמין בה סממנין להקטיר לריח דקיי"ל בכריתות (פ"א ד' ו) שהקול יפה לבשמים: ולעריסה - שהתינוק שוכב בתוכה שקורין בירצ"ה ותולה בו זגין לקשקש כדי שישמע התינוק וישן: ולמטפחות ספרים - כשנושאין אותן לבית הכנסת שהתינוקות של בית רבן קורין שם מקשקשין הזגין והתינוקות שומעין ובאין: ולמטפחות תינוקות - שתולין בצוארן: ניטלו עינבליהם כו' - ואם ניטל לאחר שנטמאו עדיין טומאתן עליהן דלא הוי ככלי שנשבר ובטל מתורת כלי ליטהר מטומאתו:

"Para o pilão" — usam-se sinos nele porque nele se compõem as especiarias para queimar por causa do aroma, pois estabelecemos, no tratado de Keritot (6a), que o som é bom para os aromas (ajuda a liberá-los). "E para o berço" — onde a criança fica deitada, que se chama "bircha" (em francês antigo), e se pendura nele sinos para chacoalhar, para que a criança ouça e adormeça. "E para os panos dos livros" — quando os levam à sinagoga, as crianças da escola, ouvindo ali os sinos chacoalharem, os escutam e vêm. "E para os panos dos bebês" — que se penduram em seu pescoço. "Se seus batentes foram removidos etc." — e se foi removido depois que já se tornaram impuros, sua impureza ainda permanece sobre eles, pois isso não é como um utensílio que se quebrou e perdeu seu estatuto de utensílio, de modo a se purificar de sua impureza.

08Distinção: isso vale para a criança, cujo sino é feito para o som; para o adulto, é um enfeite, mesmo sem batente
Guemará
הָנֵי מִילֵּי בְּתִינוֹק, דִּלְקָלָא עָבְדִי לֵיהּ. אֲבָל גָּדוֹל — תַּכְשִׁיט הוּא לֵיהּ, אַף עַל גַּב דְּלֵית לֵיהּ עִינְבָּל.

Isso se aplica à criança, para quem o sino é feito para produzir som. Mas para o adulto, é um enfeite para ele, ainda que não tenha batente.

Nota

A Guemará resolve a nova dificuldade: a dependência do batente para a impureza vale apenas quando o sino é feito para a função de produzir som — como no caso da criança, do berço, do pilão e dos livros. Já para o adulto, como o escravo da baraita anterior, o sino é considerado um enfeite por si só, e por isso recebe impureza mesmo sem o batente — explicando por que a baraita do escravo pôde afirmar que ambos os sinos recebem impureza, sem depender da presença do batente.

09Explica-se por que a impureza permanece mesmo depois de removido o batente: um leigo pode recolocá-lo
Guemará; Abaye
אָמַר מָר: נִיטְּלוּ עִינְבְּלֵיהֶן עֲדַיִן טוּמְאָתָן עֲלֵיהֶם. לְמַאי חֲזוּ? אָמַר אַבָּיֵי: הוֹאִיל שֶׁהַהֶדְיוֹט יָכוֹל לְהַחֲזִירוֹ.

Disse o Mestre — citando de novo a baraita acima: se seus batentes foram removidos, sua impureza ainda permanece sobre eles. Para que ainda servem — se lhes falta a peça que os torna funcionais? Disse Abaye: porque um leigo — sem necessidade de um artesão especializado — pode recolocá-lo.

Nota

A Guemará pergunta por que a impureza permanece mesmo depois de removido o batente, já que, sem ele, o sino parece inútil. Abaye responde que a facilidade de restauração — qualquer pessoa comum, sem perícia especial, pode recolocar o batente — impede que o sino seja considerado como tendo perdido definitivamente seu estatuto de utensílio; por isso, continua sujeito à impureza que já havia recebido.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "hedyot"
הדיוט - שאין צריך אומן:

"Leigo" — que não precisa de um artesão especializado.

O sino e o batente: uma unidade só? · הַזּוּג וְהָעִינְבָּל חִבּוּר

10Objeção de Rava: o sino e o batente formam uma unidade só
Rava
מֵתִיב רָבָא: הַזּוּג וְהָעִינְבָּל חִבּוּר.

Rava objetou: o sino e o batente formam uma unidade só — como se ensina em outra fonte.

Nota

Rava contesta a explicação de Abaye trazendo um ensinamento segundo o qual o sino e seu batente são considerados, para fins de impureza, uma única peça — de modo que, uma vez separados, o sino restante deveria ser tratado como um utensílio ao qual falta uma parte, e não como um utensílio completo que retém sua impureza anterior.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "ha-zug ve-ha-einbal chibur"
הזוג והעינבל חיבור - כשהן יחד הרי הן כלי אחד נטמא זה נטמא זה הזה על זה טהור זה וכיון דקרי ליה חיבור שמע מינה דכי נתפרדו הוי כלי שניטל מקצתו ואף על גב דהדיוט יכול להחזירו כל כמה דלא אהדריה לאו שלם הוא:

"O sino e o batente formam uma unidade só" — quando estão juntos, eles são um único utensílio: tornou-se impuro este, torna-se impuro aquele; aspergiu-se água de purificação sobre este, purifica-se aquele. E, visto que a fonte os chama de "unidos", conclui-se disso que, quando se separam, o sino restante é como um utensílio ao qual foi removida uma parte — e, ainda que um leigo possa recolocá-la, enquanto não a recolocar, o utensílio não está completo.

11Reinterpretação e nova objeção, a partir da baraita sobre a tesoura articulada e a lâmina de plaina
Guemará; Baraita
וְכִי תֵּימָא, הָכִי קָאָמַר: אַף עַל גַּב דְּלָא מְחַבַּר — כְּמַאן דִּמְחַבַּר דָּמֵי. וְהָתַנְיָא: מַסְפּוֹרֶת שֶׁל פְּרָקִים וְאִיזְמֵל שֶׁל רָהִיטְנֵי — חִבּוּר לַטּוּמְאָה וְאֵין חִבּוּר לַהַזָּאָה.

E se dirás que o ensinamento citado por Rava quer dizer o seguinte: ainda que o batente e o sino não estejam fisicamente unidos — por estarem separados —, são considerados como se estivessem unidos — pois basta que possam vir a se unir de novo, sem alterar o resultado. Mas não se ensinou numa baraita: a tesoura articulada (cujas duas lâminas se separam) e a lâmina da plaina (que o artesão encaixa e retira do bloco de madeira conforme o uso) — são consideradas unidas para fins de impureza, mas não são consideradas unidas para fins de aspersão das águas de purificação?

Nota

A Guemará tenta salvar a explicação de Abaye propondo que a objeção de Rava não fala de união física, mas de uma união conceitual mesmo quando separados. Mas traz, então, uma baraita sobre dois outros utensílios compostos — a tesoura de partes articuladas e a lâmina que o marceneiro encaixa e retira de seu suporte de madeira — que são tratados como unidos para fins de impureza (contaminação de uma parte contamina a outra), mas não unidos para fins de aspersão da água de purificação (aspergir uma parte não purifica a outra), levantando uma nova dificuldade sobre a coerência dessa distinção.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "ve-chi teima" e a baraita da tesoura e da lâmina
וכי תימא - דהאי חיבור דקאמר הכי קאמר אפי' מפורדים קרינן ליה חיבור ואתא לאשמעי' דאם נתפרדו משנטמאו לא עלו מטומאתן: הא תניא - גבי ההיא: מספורת של פרקים - ששני סכינים שלה מתפרדין: ואיזמל של רהיטני - פלינה של אומנים תריסים שנותנים האיזמל לתוך בין שני עצים העשוין לכך ולאחר מלאכתו נוטלו ומצניעו: חיבור לטומאה - ואם נטמא זה נטמא זה:

"E se dirás" — que esta palavra "unidade" que a fonte diz quer dizer isto: mesmo separados, chamamo-los de unidade, e o ensinamento veio para nos informar que, se se separaram depois de se tornarem impuros, as partes não saem de sua impureza por essa separação. "Mas não se ensinou" — a respeito daquilo mesmo assunto: "a tesoura articulada" — cujas duas lâminas se separam. "E a lâmina da plaina" — a plaina dos artesãos marceneiros, que colocam a lâmina entre dois blocos de madeira feitos para esse fim, e depois de seu trabalho a retiram e a guardam. "Unidas para fins de impureza" — e, se esta se torna impura, aquela se torna impura.

12Pergunta-se: de qualquer modo que se veja, a distinção entre impureza e aspersão parece incoerente
Guemará
וְאָמְרִינַן: מָה נַפְשָׁךְ, אִי חִבּוּר הוּא — אֲפִלּוּ לְהַזָּאָה, וְאִי לָא חִבּוּר הוּא — אֲפִילּוּ לְטוּמְאָה נָמֵי לָא!

E dissemos a respeito dessa baraita: de qualquer modo que se veja: se é uma unidade, deveria ser considerada unida até mesmo para fins de aspersão; e se não é uma unidade, nem sequer para fins de impureza deveria ser considerada unida!

Nota

A Guemará levanta a mesma objeção lógica contra a baraita da tesoura e da lâmina: parece incoerente que duas partes sejam tratadas como uma unidade só para um efeito (impureza) e não para outro (aspersão) — pois, se são realmente uma unidade, deveriam sê-lo para ambos os efeitos; se não são, não deveriam sê-lo para nenhum dos dois.

13Resposta de Rabá: por lei da Torá, a união vale para ambos apenas durante o uso; os sábios decretaram o oposto, por precaução, para cada lado
Rabá
וְאָמַר רַבָּה: דְּבַר תּוֹרָה, בִּשְׁעַת מְלָאכָה — חִבּוּר בֵּין לְטוּמְאָה בֵּין לְהַזָּאָה. שֶׁלֹּא בִּשְׁעַת מְלָאכָה — אֵינוֹ חִבּוּר לֹא לְטוּמְאָה וְלֹא לְהַזָּאָה. וְגָזְרוּ עַל טוּמְאָה שֶׁלֹּא בִּשְׁעַת מְלָאכָה מִשּׁוּם טוּמְאָה שֶׁהִיא בִּשְׁעַת מְלָאכָה, וְעַל הַזָּאָה שֶׁהִיא בִּשְׁעַת מְלָאכָה מִשּׁוּם הַזָּאָה שֶׁלֹּא בִּשְׁעַת מְלָאכָה.

E disse Rabá: por lei da Torá, durante o tempo de uso — as partes são consideradas unidas, tanto para fins de impureza quanto para fins de aspersão. Fora do tempo de uso — não são consideradas unidas nem para fins de impureza nem para fins de aspersão. Mas os sábios decretaram, quanto à impureza fora do tempo de uso, que fossem consideradas unidas, por causa da impureza que ocorre durante o tempo de uso; e, quanto à aspersão durante o tempo de uso, que não fossem consideradas unidas, por causa da aspersão que ocorre fora do tempo de uso.

Nota

Rabá resolve a aparente incoerência mostrando que a lei bíblica original é, de fato, simétrica: durante o uso ativo do utensílio composto, as partes são unidas para ambos os efeitos; fora do uso, não são unidas para nenhum dos dois. A assimetria observada na baraita é obra de um decreto rabínico duplo, por precaução: para a impureza, os sábios estenderam a união também para fora do tempo de uso, temendo que se confundisse com o caso — mais comum — de impureza durante o uso; e para a aspersão, retiraram a união mesmo durante o tempo de uso, temendo que se confundisse com o caso de aspersão fora do tempo de uso. Assim, a lei rabínica final inverte, por dupla precaução, o que seria a simetria original da Torá.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "she-lo bi-shaat melachah"
שלא בשעת מלאכה - הואיל ואין צריכין להיות מחוברין הוו להו כשני כלים ואין חיבור ואף על פי שמחוברין דע"כ שלא בשעת מלאכה דומיא דשעת מלאכה קאמר ובשעת מלאכה מחוברין הן אלמא במחוברין עסקינן וגזרו לחומרא על הטומאה דליהוי חיבור ועל הזאה דלא ליהוי חיבור ומשום הכי קתני חיבור לטומאה לעולם ואין חיבור להזאה לעולם:

"Fora do tempo de uso" — visto que as partes não precisam estar unidas nesse momento, são como dois utensílios separados, e não há união — ainda que de fato estejam unidas, pois necessariamente "fora do tempo de uso" é dito em comparação com "no tempo de uso", e no tempo de uso elas estão unidas; logo, tratamos de partes unidas fisicamente em ambos os casos, e os sábios decretaram, por precaução: quanto à impureza, que houvesse união; quanto à aspersão, que não houvesse união — e por isso a baraita ensina: unidas para fins de impureza sempre, e não unidas para fins de aspersão sempre.

A resposta de Rava, interrompida · אֶלָּא אָמַר רָבָא

14Rava propõe, então, um motivo diferente para a impureza do sino sem batente — frase interrompida, continuada em 59a
Rava (resposta incompleta)
אֶלָּא אָמַר רָבָא:

Antes, disse Rava ...

Nota

O daf termina, mais uma vez, no meio de uma frase. Segundo Rashi, a resposta de Rava — cujo conteúdo só aparece na abertura de 59a, "porque é apto para ser batido contra um caco de barro" — rejeita o próprio raciocínio de Abaye, de que a impureza do sino sem batente se deve ao fato de que um leigo pode recolocar o batente. Rava argumenta que, na verdade, o sino e o batente são mesmo considerados uma unidade só, como ensina a baraita citada por ele — de modo que, quando se separam, o sino restante deveria ser tratado como um utensílio ao qual foi removida uma parte, o que normalmente o isentaria de impureza; mas o batente sozinho continua impuro por si mesmo, pois não perde seu próprio estatuto de utensílio — visto que ainda serve para ser batido contra um caco de barro e produzir som dessa forma, mesmo fora do sino. Esta divisão de conteúdo entre dois dafim, sem qualquer fórmula de encerramento no meio da frase, confirma-se por uma consulta independente ao texto de Shabat 59a, e segue o mesmo padrão já observado nas transições entre 57a e 57b, entre 57b e 58a, e entre 58a e este daf.