O daf abre completando a pergunta retórica que ficara interrompida ao final de 54b: os anciãos, o que pecaram para serem incluídos no julgamento divino junto aos príncipes? A resposta é que não pecaram por ação própria, mas por omissão — por não terem protestado contra a conduta dos príncipes. A Guemará ilustra esse princípio com um episódio: Rav Yehuda, sentado diante de Shmuel, viu uma mulher clamar por uma injustiça sem que Shmuel lhe desse atenção, e o repreendeu citando o versículo de Provérbios sobre quem tapa os ouvidos ao clamor do pobre; Shmuel respondeu que a responsabilidade de agir cabia a Mar Ukva, chefe do tribunal, superior a ambos. Prova-se, a partir de um versículo dirigido à casa de Davi, que essa mesma responsabilidade recai sobre a casa do Exilarca, seu descendente direto — e Rabi Zeira insiste com Rabi Simon que se deve repreender essa casa mesmo sabendo que a repreensão não será aceita. A sugya then se aprofunda no tema com o ensinamento de Rabi Acha bar Rabi Chanina: em toda a Escritura, apenas uma vez Deus retirou uma promessa de bem — quando ordenou a Gabriel que marcasse a testa dos justos com um tav de tinta, protegendo-os dos anjos destruidores, e a dos ímpios com um tav de sangue, expondo-os a eles; o Atributo da Justiça objetou que os justos tinham condições de protestar contra os ímpios e não o fizeram, e, diante da réplica de que Deus sabia que a repreensão não seria aceita, retrucou que esse conhecimento não era acessível aos próprios justos — argumento que reverteu o decreto, fazendo os anjos destruidores começar precisamente pelos anciãos justos junto ao santuário. Identificam-se os seis anjos nomeados por Rav Chisda, discute-se por que se escolheu a letra tav, com quatro explicações sucessivas (Rav, Shmuel, Rabi Yochanan e Reish Lakish, além de Rabi Shmuel bar Nachmani), e debate-se, com quatro opiniões amoraítas, desde quando cessou o mérito dos patriarcas como escudo para Israel — nos dias de Hoshea, de Hazael, de Elias ou de Ezequias. O daf fecha com o ensinamento de Rav Ami, segundo o qual não há morte sem pecado nem sofrimento sem iniquidade, sustentado por versículos de Ezequiel e Salmos.
Os anciãos, o que pecaram? Antes diga: por causa dos anciãos, que não protestaram contra os príncipes.
Completa-se aqui a pergunta retórica que ficara interrompida ao final de 54b, sobre o versículo de Isaías em que o Senhor vem a juízo com os anciãos e os príncipes do povo. A resposta da Guemará confirma o princípio já ensinado no daf anterior: os zekenim — os sábios do Sinédrio — não são julgados por terem eles mesmos pecado, mas por terem tido condições de protestar contra a conduta pecaminosa dos príncipes e não o terem feito, tornando-se assim responsáveis pelo pecado alheio que poderiam ter evitado.
"Anciãos" (zekenim) — o Sinédrio.
Rav Yehuda estava sentado diante de Shmuel. Veio certa mulher e clamava diante dele, e ele não lhe dava atenção. Disse-lhe: não sustenta o mestre o que está escrito: "Quem tapa os ouvidos ao clamor do pobre, também ele clamará e não será ouvido"? Disse-lhe: homem de dentes afiados, tua cabeça (será castigada) em água fria; a cabeça de tua cabeça, em água quente. Eis que está sentado Mar Ukva, chefe do tribunal.
A Guemará ilustra o princípio recém-formulado com um episódio concreto: Rav Yehuda viu Shmuel ignorar o clamor de uma mulher que sofria injustiça, e o repreendeu citando Provérbios 21:13 sobre quem tapa os ouvidos ao clamor do pobre. Shmuel — chamando Rav Yehuda afetuosamente de shinana, "homem de dentes afiados", termo usado para um discípulo perspicaz — respondeu que a punição por essa omissão recairia sobre quem de fato tinha autoridade e responsabilidade para agir: ele mesmo seria punido apenas levemente ("água fria"), mas Mar Ukva, que era superior a ambos e chefe do tribunal, seria punido mais severamente ("água quente"), por ser dele a verdadeira responsabilidade de julgar e corrigir tais injustiças.
"Tua cabeça em água fria" — eu, que sou teu mestre, não me queimarei; mas Mar Ukva, que é superior a mim e a ti, e chefe do tribunal, se queimará em água quente.
Pois está escrito: "Casa de Davi, assim disse o Senhor: julgai pela manhã com justiça, e livrai o roubado da mão do opressor, para que a minha fúria não saia como fogo e queime sem que haja quem a apague, por causa da maldade das vossas ações" etc. (Jeremias 21:12).
De onde se infere que essa mesma responsabilidade recai especificamente sobre a casa do Exilarca (Reish Galuta)? Do versículo dirigido diretamente à "casa de Davi", exigindo dela — e não de qualquer pessoa — que julgue e livre o oprimido; e o Exilarca, autoridade máxima da comunidade judaica na Babilônia, era tido por descendente direto da casa real de Davi, herdando assim essa mesma responsabilidade de julgar e corrigir.
"Pois está escrito 'Casa de Davi' etc." — não puniu senão aquele que tem em mãos julgar.
Disse-lhe Rabi Zeira a Rabi Simon: que o mestre repreenda esses da casa do Exilarca. Disse-lhe: não aceitarão de mim. Disse-lhe: ainda que não aceitem, que o mestre os repreenda.
Rabi Zeira pede a Rabi Simon, que tinha alguma influência sobre a casa do Exilarca, que a repreenda por sua conduta. Rabi Simon hesita, prevendo que a repreensão não será aceita. Rabi Zeira insiste: mesmo sabendo de antemão que não será aceita, o dever de repreender permanece — cumprir-se o preceito de protestar não depende do resultado prático, mas da própria tentativa.
Disse Rabi Acha bar Rabi Chanina: nunca saiu um atributo bom da boca do Santo, bendito seja, e Ele voltou atrás para o mal, exceto neste caso, pois está escrito: "E disse o Senhor a ele: passa pelo meio da cidade, pelo meio de Jerusalém, e marca um sinal (tav) na testa dos homens que suspiram e que gemem por causa de todas as abominações que se fazem no meio dela" etc. (Ezequiel 9:4).
Rabi Acha bar Rabi Chanina introduz um princípio notável: em toda a Escritura, Deus jamais reverteu para o mal uma palavra que proferira para o bem — exceto neste único caso. Antes da destruição de Jerusalém, Deus ordena que se marque com um sinal a testa dos justos que sofrem e lamentam pelas abominações praticadas na cidade, numa promessa de proteção. Como se verá adiante, essa promessa acaba sendo revertida diante da objeção do Atributo da Justiça.
"Exceto neste caso" — porque se diz, neste versículo, que Ele proferiu uma palavra para o bem, e por causa da punição de (falta de) repreensão voltou atrás dela.
"E marca um tav na testa dos homens que suspiram e que gemem por causa de todas as abominações que se fazem no meio dela" — estes são os justos.
Disse o Santo, bendito seja, a Gabriel: vai e inscreve na testa dos justos um tav de tinta, para que os anjos destruidores não tenham domínio sobre eles; e na testa dos ímpios um tav de sangue, para que os anjos destruidores tenham domínio sobre eles.
A ordem original de Deus a Gabriel distinguia claramente justos de ímpios: sobre os justos, um sinal de tinta que os protegeria dos anjos destruidores prestes a serem enviados contra Jerusalém; sobre os ímpios, um sinal de sangue que os exporia a esses mesmos anjos. Essa distinção protetora, porém, será contestada e revertida no diálogo seguinte.
"Para que os anjos destruidores não tenham domínio sobre eles" — pois eu quero enviá-los à cidade.
Disse o Atributo da Justiça diante do Santo, bendito seja: Senhor do universo! Em que se diferenciam estes daqueles? Disse-lhe: estes são justos completos, e aqueles são ímpios completos. Disse diante dele: Senhor do universo! Estava em suas mãos protestar, e não protestaram! Disse-lhe: revelado e sabido está diante de mim que, se protestassem contra eles, não aceitariam deles. Disse diante dele: Senhor do universo! Se diante de ti isso é revelado, para eles quem o revelou?
O Atributo da Justiça pergunta por que se distingue entre justos e ímpios, se ambos habitam a mesma cidade condenada. Deus responde que a diferença está na retidão de cada grupo. O Atributo da Justiça replica com o argumento central: mesmo sendo justos, eles tinham o poder de protestar contra a conduta dos ímpios e não o exerceram — o mesmo princípio de responsabilidade por omissão já ensinado ao longo destes dafim. Deus tenta defendê-los, alegando que sabia de antemão que a repreensão seria inútil, pois os ímpios não a aceitariam. O Atributo da Justiça, porém, assesta o golpe final: esse conhecimento prévio pertencia apenas a Deus — os justos não tinham como saber, de antemão, que seu protesto seria em vão, e portanto continuavam obrigados a tentar. Esse argumento reverte o decreto protetor, e o sinal de proteção deixa de bastar para os justos.
E é isso que está escrito: "Ancião, jovem e donzela, criança e mulheres matareis para destruição; mas a todo homem sobre quem estiver o sinal não vos aproximeis; e começai pelo meu santuário (mikdashi)". E está escrito: "E começaram pelos homens anciãos que estavam diante da casa" (Ezequiel 9:6). Ensinou Rav Yossef: não leias "meu santuário" (mikdashi), mas sim "meus santificados" (mekudashai) — estes são homens que cumpriram toda a Torá, de alef a tav. E imediatamente: "E eis que seis homens vinham do caminho da porta superior, que dá para o norte, cada um com sua arma de destruição na mão; e um homem entre eles vestido de linho, com o estojo de escriba à cintura; e vieram e se colocaram junto ao altar de bronze" (Ezequiel 9:2).
Confirma-se, pelos versículos seguintes de Ezequiel, que o decreto foi de fato revertido: a ordem de poupar quem tem o sinal é seguida, poucos versículos depois, pela ordem de começar a destruição precisamente pelos homens anciãos diante da Casa — os mesmos justos que deveriam estar protegidos. Rav Yossef propõe uma leitura alternativa da palavra "mikdashi" (meu santuário) como "mekudashai" (meus santificados), identificando as vítimas iniciais como os próprios justos que haviam cumprido toda a Torá — reforçando que Deus concordou com o Atributo da Justiça e reverteu sua proteção original. A cena continua com a visão dos seis homens armados, vestidos de linho, que se posicionam junto ao altar de bronze do Templo, prontos para executar o decreto.
"É isso que está escrito" — no início, "a todo homem sobre quem estiver o tav não vos aproximeis", e ao final, "e começai pelos meus santificados".
"Meus santificados" — pois (Deus) concordou com o acusador, o Atributo da Justiça, e voltou atrás do bem (que havia prometido).
Havia altar de bronze (no Templo, nos dias de Ezequiel)? Disse-lhes o Santo, bendito seja: começai pelo lugar onde se canta perante mim. E quem são os seis homens? Disse Rav Chisda: Fúria (Ketzef), Ira (Af), Cólera (Cheima), Destruidor (Mashchit), Quebrador (Meshaber) e Aniquilador (Mechaleh).
A Guemará objeta: já nos dias de Salomão o altar de bronze fora substituído por um altar de pedra; como, então, o versículo de Ezequiel fala em altar de bronze? Responde-se que a expressão é figurada, referindo-se ao lugar onde os levitas cantavam com instrumentos de bronze durante o serviço no Templo — ali os anjos deveriam começar sua obra de destruição. Rav Chisda nomeia então os seis anjos destruidores da visão, cada nome expressando um grau crescente de ira e ruína.
"Havia altar de bronze" — na época de Ezequiel; ora, não o guardou Salomão e fez um altar de pedras de trinta e duas côvados, pois está escrito (I Reis 8:64): "porque o altar de bronze que estava diante do Senhor era pequeno demais" — como quem diz a seu companheiro "fulano é um anão" e o desqualifica para o serviço?
"Do lugar onde se canta" — dos levitas, que cantam com instrumentos de bronze.
E por que se escolheu a letra tav? Disse Rav: tav — tichyeh, "viverás"; tav — tamut, "morrerás". E Shmuel disse: tama, "cessou" o mérito dos patriarcas. E Rabi Yochanan disse: tachon, "terá piedade" o mérito dos patriarcas. E Reish Lakish disse: tav é a última letra do selo do Santo, bendito seja, pois disse Rabi Chanina: o selo do Santo, bendito seja, é "verdade" (emet). Rabi Shmuel bar Nachmani disse: estes são homens que cumpriram toda a Torá, de alef a tav.
Discute-se por que, entre todas as letras, escolheu-se o tav como sinal na testa dos justos e dos ímpios. Rav lê o tav como abreviação simultânea de "viverás" — para os justos — e "morrerás" — para os ímpios, a mesma letra carregando dois destinos opostos. Shmuel associa o tav à raiz de "cessar" (tama), indicando que o mérito dos patriarcas havia se esgotado como proteção. Rabi Yochanan lê a mesma raiz de modo oposto, como "terá piedade" (tachon), afirmando que o mérito dos patriarcas ainda intercederia por misericórdia. Reish Lakish, apoiado num ensinamento de Rabi Chanina, identifica o tav como a letra final da palavra "verdade" (emet), o próprio selo de Deus. Rabi Shmuel bar Nachmani volta à leitura já sugerida por Rav Yossef: os marcados com o tav eram os que haviam cumprido toda a Torá, do alef ao tav.
"Tav, 'morrerás'" — para os ímpios.
"O selo do Santo, bendito seja, é 'verdade'" — a letra do meio do alfabeto (mem), e a primeira e a última (alef e tav), aludindo a "Eu sou o primeiro, e Eu sou o último, e Eu sou Ele".
"Estes são homens que cumpriram toda a Torá" — o tav é um sinal para eles de que cumpriram a Torá do começo ao fim.
Desde quando cessou o mérito dos patriarcas? Disse Rav: desde os dias de Hoshea filho de Beeri, pois está dito: "Descobrirei sua vergonha diante dos olhos de seus amantes, e ninguém a livrará da minha mão" (Oseias 2:12). E Shmuel disse: desde os dias de Hazael, pois está dito: "E Hazael, rei de Aram, oprimiu Israel todos os dias de Jeoacaz" (II Reis 13:22). E está escrito: "E o Senhor lhes fez graça, e teve compaixão deles, e se voltou para eles por causa de sua aliança com Abraão, Isaque e Jacó, e não quis destruí-los, e não os lançou de diante de si até agora" (II Reis 13:23). Rabi Yehoshua ben Levi disse: desde os dias de Elias, pois está dito: "E aconteceu que, subindo a oferenda, chegou-se o profeta Elias e disse: Senhor, Deus de Abraão, Isaque e Israel, hoje se saiba que tu és Deus em Israel, e que eu sou teu servo, e que por tua palavra fiz todas estas coisas" etc. (I Reis 18:36). E Rabi Yochanan disse: desde os dias de Ezequias, pois está dito: "Para aumentar o domínio e para a paz sem fim, sobre o trono de Davi e sobre seu reino, para estabelecê-lo e sustentá-lo com juízo e com justiça, desde agora e para sempre; o zelo do Senhor dos Exércitos fará isto" etc. (Isaías 9:6).
Retomando a opinião de Shmuel de que o tav assinala o momento em que "cessou" o mérito dos patriarcas como escudo protetor de Israel, a Guemará debate quando exatamente isso ocorreu, com quatro datações amoraítas: Rav situa o fim desse mérito nos dias do profeta Hoshea, cujo versículo declara que ninguém mais livrará Israel da mão divina — sem menção a mérito ancestral. Shmuel aponta para os dias de Hazael, rei arameu opressor, observando que o versículo seguinte já atribui a salvação de Israel apenas à aliança com os patriarcas por pura compaixão, e não a um mérito ainda vigente — sinal de que esse mesmo mérito já se esgotara antes, sendo essa menção apenas residual. Rabi Yehoshua ben Levi situa o fim nos dias de Elias, inferindo da expressão "hoje se saiba" que o profeta pede que o milagre seja reconhecido apenas naquele momento, e não graças a um mérito ancestral permanente. Rabi Yochanan, por fim, aponta para os dias de Ezequias, cujo versículo credita a preservação do reino de Davi exclusivamente ao "zelo do Senhor dos Exércitos", sem qualquer menção ao mérito dos patriarcas.
"E ninguém a livrará" — pois já não há mais mérito dos patriarcas, que se esgotou.
"E se voltou para eles por causa de sua aliança com Abraão etc., e não os lançou de diante de si até agora" — mas, daí em diante, os lançou fora e não mais se voltou para a aliança dos patriarcas.
"Nos dias de Ezequias" — pois está escrito "desde agora e para sempre o zelo do Senhor dos Exércitos fará isto", e não o mérito dos patriarcas.
Disse Rav Ami: não há morte sem pecado, e não há sofrimento sem iniquidade. "Não há morte sem pecado" — pois está escrito: "A alma que pecar, essa morrerá; o filho não levará a iniquidade do pai, nem o pai levará a iniquidade do filho; a justiça do justo estará sobre ele, e a maldade do ímpio estará sobre ele" etc. (Ezequiel 18:20). "Não há sofrimento sem iniquidade" — pois está escrito: "E visitarei com a vara a sua transgressão, e com pragas a sua iniquidade" (Salmos 89:33).
O daf fecha com um princípio geral de Rav Ami sobre a relação entre conduta e consequência: ninguém morre sem ter pecado, e ninguém sofre aflição sem ter cometido alguma iniquidade — cada um é responsabilizado por seus próprios atos, e não pelos de outrem, como confirma o versículo de Ezequiel sobre a alma que peca sendo a que morre, e não o filho pela iniquidade do pai nem o pai pela do filho. Quanto ao sofrimento, o versículo dos Salmos, dirigido à descendência de Davi, confirma que mesmo as aflições — distintas da morte — vêm sempre acompanhadas de alguma iniquidade correspondente, ainda que menor.
"Sem pecado" — pois é o próprio pecado do homem que lhe causa a morte.
"Com a vara e com pragas" — isto é, os sofrimentos; e diz que não vêm senão por causa da visitação da iniquidade.