O daf abre completando, no meio da frase, a razão de Rabi Yehudá ben Lakish com que terminara 43b: permite-se salvar do incêndio o morto exposto ao fogo, movendo-o indiretamente mesmo sem pão ou criança sobre ele, porque, se não se permitisse isso, a pessoa, aflita por seu morto, viria a transgredir a proibição mais grave de apagar o fogo. Rabi Yehudá ben Sheila, em nome de Rav Assi, em nome de Rabi Yochanan, fixa a halakha segundo essa opinião. A Guemará acrescenta em seguida uma baraita relacionada: o resto de óleo que sobra na lâmpada ou na tigela, depois de apagada a chama, é proibido para uso em Shabat, pois não foi destinado desde a véspera para esse fim; mas Rabi Shimon, que praticamente não reconhece a categoria de muktzeh, permite. Uma nova Mishná então se abre, mudando de assunto: move-se uma lâmpada de óleo nova em Shabat, mas não uma velha, já usada e enegrecida, que se considera muktzeh por repugnância; Rabi Shimon, mais permissivo, sustenta que todas as lâmpadas podem ser movidas, exceto a que está acesa naquele Shabat, por receio de que se apague ao ser tocada. A Guemará traz a versão completa dessa disputa numa Tosefta, com três posições — Rabi Yehudá (nova sim, velha não), Rabi Meir (todas, exceto a que se acendeu naquele Shabat) e Rabi Shimon (todas, exceto a que está acesa; uma vez apagada, pode-se mover) — e acrescenta que um copo, uma tigela e uma lanterna cheios de óleo não se movem de seu lugar mesmo depois de apagados, e que Rabi Eliezer bar Rabi Shimon permite aproveitar o óleo pingando da lâmpada mesmo enquanto ainda arde. Abaye explica que Rabi Eliezer concorda com seu pai, Rabi Shimon, em não reconhecer muktzeh, mas diverge dele quanto à necessidade de a chama já estar apagada. A Guemará pergunta por que o copo, a tigela e a lanterna nunca se movem, mesmo para Rabi Shimon; Ulla responde que essa cláusula final volta à opinião de Rabi Yehudá, mas Mar Zutra objeta e propõe que, na verdade, ainda é Rabi Shimon quem fala — distinguindo entre a lâmpada pequena, cujo óleo ele sabe que se esgotará no mesmo dia, e os recipientes grandes, que não têm essa expectativa. Uma baraita paralela, sobre o resto de óleo na tigela, é reconciliada distinguindo-se uma tigela pequena, semelhante à lâmpada, de uma tigela grande, semelhante ao copo. Rabi Zeira então discute o pamot, um candelabro de metal — não repugnante, mas ainda assim sujeito, em sua primeira formulação, a uma dificuldade quanto a Rabi Yehudá, resolvida por uma reformulação final: acendido nele em Shabat, é proibido para todos; não acendido, é permitido para todos. O daf termina com um novo ensinamento de Rav, transmitido por Rav Yehudá: uma cama designada para guardar dinheiro não pode ser movida em Shabat, mesmo sem dinheiro sobre ela no momento, por ser muktzeh pela própria designação — mas o texto é interrompido pela objeção de Rav Nachman bar Yitzchak, a partir da própria Mishná deste daf, continuada em 44b.
…se você não lhe permitir, ele virá a apagar o fogo. Disse Rabi Yehudá ben Sheila, disse Rav Assi, disse Rabi Yochanan: a halakha segue Rabi Yehudá ben Lakish quanto ao morto.
O daf abre completando exatamente a frase interrompida no fim de 43b: a razão pela qual Rabi Yehudá ben Lakish permite salvar do incêndio um morto exposto ao fogo, mesmo movendo-o indiretamente sem pão ou criança sobre ele, é que, se essa permissão não existisse, a pessoa — tomada pela aflição natural diante de seu próprio morto — acabaria por transgredir a proibição, muito mais grave, de apagar o fogo com suas próprias mãos. Os Sábios preferiram permitir um ato proibido apenas por decreto rabínico a arriscar que alguém, no desespero, viesse a violar uma proibição bíblica. Rabi Yehudá ben Sheila, em nome de Rav Assi, em nome de Rabi Yochanan, fecha a discussão fixando a halakha definitivamente a favor de Rabi Yehudá ben Lakish.
Não se aproveita dele, pois não é do que foi preparado (desde a véspera). Ensinaram os Sábios: o resto de óleo que sobra na lâmpada e na tigela é proibido. E Rabi Shimon permite.
A Guemará muda de assunto, trazendo uma baraita sobre um caso próximo, ligado ao mesmo princípio de muktzeh: o óleo que sobra numa lâmpada ou numa tigela depois que a chama se apaga não foi destinado, desde a véspera de Shabat, para consumo humano — foi destinado apenas para arder —, e por isso permanece proibido mesmo depois de extinta a chama. Rabi Shimon, porém, que sustenta de forma praticamente absoluta que não existe a categoria de muktzeh, permite aproveitar esse resto de óleo livremente. Essa baraita serve de ponte para a nova Mishná que se segue, também dedicada às regras de mover lâmpadas em Shabat.
Move-se uma lâmpada de óleo nova, mas não uma velha. Rabi Shimon diz: todas as lâmpadas se movem, exceto a lâmpada que está acesa em Shabat.
Uma nova Mishná se abre, deixando de lado o tema do morto e retomando as regras de muktzeh a partir de um caso próprio: a lâmpada de óleo. Uma lâmpada nova, que nunca serviu para acender uma chama, não é repugnante e continua plenamente apta ao uso — por isso pode ser movida livremente em Shabat. Uma lâmpada velha, já enegrecida pelo uso do óleo e do pavio, é considerada muktzeh por repugnância, e por isso não se move. Rabi Shimon discorda dessa distinção entre nova e velha: para ele, todas as lâmpadas podem ser movidas, sejam novas ou velhas, com uma única exceção — a lâmpada que está, naquele momento, acesa em Shabat —, por receio de que, ao movê-la, a chama se apague.
Mishná: "Move-se uma lâmpada nova" — pois não é repugnante, e serve para uso direto, já que nunca ardeu nela chama alguma.
"Mas não uma velha" — pois é muktzeh por repugnância.
Ensinaram os Sábios: move-se uma lâmpada nova, mas não uma velha — palavras de Rabi Yehudá. Rabi Meir diz: todas as lâmpadas se movem, exceto a lâmpada que acenderam nela em Shabat. Rabi Shimon diz: exceto a lâmpada acesa em Shabat; se ela se apagou, é permitido movê-la. Mas um copo, uma tigela e uma lanterna não se movem de seu lugar. E Rabi Eliezer bar Rabi Shimon diz: pode-se aproveitar da lâmpada apagada e do óleo que pinga dela, mesmo enquanto a lâmpada ainda arde.
A Guemará traz a formulação mais detalhada dessa disputa, tal como ensinada numa Tosefta, revelando que a Mishná resumiu apenas duas das três posições. Rabi Yehudá distingue entre nova e velha, como na Mishná. Rabi Meir, que não reconhece muktzeh por repugnância, permite mover mesmo a lâmpada velha, proibindo apenas a que se acendeu naquele Shabat — pois essa está sujeita a muktzeh por proibição, uma categoria que ele sim reconhece. Rabi Shimon, mais permissivo ainda, proíbe apenas a lâmpada enquanto está de fato acesa; uma vez apagada, permite movê-la livremente. A Tosefta acrescenta, porém, que mesmo Rabi Shimon reconhece um limite: um copo, uma tigela e uma lanterna cheios de óleo, com um pavio aceso, não se movem de seu lugar, mesmo depois de apagados — uma dificuldade que a Guemará examinará a seguir. Por fim, Rabi Eliezer bar Rabi Shimon vai além de seu pai: permite aproveitar o óleo tanto da lâmpada já apagada quanto do óleo que ainda pinga dela, mesmo enquanto a chama continua acesa.
"Exceto a lâmpada que acenderam" — e, ainda que já tenha se apagado, é proibida, pois Rabi Meir sustenta a categoria de muktzeh por proibição, mas não a de muktzeh por repugnância.
"Exceto a lâmpada acesa em Shabat" — enquanto está acesa, é proibida, por receio de que a chama se apague (ao movê-la).
"Lanterna" (assashit) — um copo grande de vidro, que se chama lanpa.
"Não os move de seu lugar" — mesmo depois de apagada a chama; e adiante se explica a razão.
"Da lâmpada apagada" — pois, uma vez já apagada e permanecendo assim, não há mais responsabilidade por "apagar".
Disse Abaye: Rabi Eliezer bar Rabi Shimon concorda com seu pai (Rabi Shimon) num ponto, e diverge dele noutro. Concorda com seu pai num ponto — que ele não tem (o conceito de) muktzeh. E diverge dele noutro — pois seu pai sustentava que, se se apagou, sim (é permitido); se não se apagou, não; e ele sustenta que (é permitido) mesmo que não se tenha apagado.
Abaye precisa a relação entre a posição de Rabi Eliezer bar Rabi Shimon e a de seu pai. Ambos compartilham a rejeição do conceito de muktzeh — por isso nenhum dos dois vê problema em aproveitar o óleo residual de uma lâmpada como tal. Mas divergem quanto ao momento: Rabi Shimon, o pai, exige que a chama já esteja apagada para permitir o uso do óleo, temendo que, enquanto ainda arde, tocar o óleo equivalha a um gesto de "apagar" a chama; Rabi Eliezer, o filho, permite aproveitar o óleo mesmo enquanto a lâmpada continua acesa, pois entende que esse gesto — tocar o óleo que pinga, ou aproveitar-se dele — de modo algum se assemelha a apagar a chama.
"Se se apagou, sim; se não se apagou, não" — pois não ouvimos Rabi Shimon permitir, na Mishná, senão o resto de óleo que sobra na lâmpada e na tigela, o que subentende que já se apagou.
"Mas um copo, uma tigela e uma lanterna não se movem de seu lugar" — em que estes se diferenciam? Disse Ulla: na cláusula final, voltamos a (a opinião de) Rabi Yehudá.
A Guemará pergunta por que a Tosefta, depois de expor a posição relativamente permissiva de Rabi Shimon — que autoriza mover a lâmpada assim que a chama se apaga —, acrescenta que um copo, uma tigela e uma lanterna jamais se movem, mesmo depois de apagados. Se essa cláusula ainda pertencesse a Rabi Shimon, pareceria contradizer sua própria regra. Ulla propõe que essa cláusula final, na verdade, não é mais de Rabi Shimon, mas retoma a opinião mais restritiva de Rabi Yehudá, para quem qualquer recipiente que serviu de base para uma chama acesa em Shabat permanece muktzeh, mesmo depois de extinta.
Objetou Mar Zutra: se assim é, o que significa "mas"? (Se a cláusula final fosse de outro tanna, não haveria contraste a marcar.) Antes, disse Mar Zutra: na verdade, é (ainda) Rabi Shimon. E, quando Rabi Shimon permite, é numa lâmpada pequena, cujo (fim do óleo) ele já tem em mente (desde a véspera); mas estes (recipientes), que são grandes, não.
Mar Zutra rejeita a explicação de Ulla com um argumento gramatical: se a cláusula sobre o copo, a tigela e a lanterna pertencesse a um tanna diferente (Rabi Yehudá), a palavra "mas" — que marca um contraste dentro da mesma opinião — não faria sentido; esperar-se-ia antes uma fórmula como "Rabi Yehudá diz". Mar Zutra propõe, então, que toda a Tosefta continua sendo de Rabi Shimon, e que a distinção não está entre tannaim, mas entre tipos de recipiente: quando Rabi Shimon permite mover a lâmpada apagada, fala de uma lâmpada pequena, cujo óleo ele já esperava, desde a véspera de Shabat, que se esgotasse durante o dia — por isso nunca a considerou totalmente destinada para além daquele uso. Mas o copo, a tigela e a lanterna, sendo recipientes grandes, com bastante óleo, não davam a mesma expectativa; ele os destinou, mentalmente, para arder o Shabat inteiro, e por isso permanecem muktzeh mesmo depois de apagados.
Mas não se ensinou: "o resto de óleo que sobra na lâmpada e na tigela é proibido, e Rabi Shimon permite"? (Como, então, aqui a tigela nunca se move?) Ali, a tigela é semelhante à lâmpada (pequena); aqui, a tigela é semelhante ao copo (grande).
A Guemará traz de volta a baraita já citada no início do daf, na qual Rabi Shimon permitia expressamente o resto de óleo da tigela — o que parece contradizer a explicação de Mar Zutra, segundo a qual Rabi Shimon proíbe mover uma tigela, por ser um recipiente grande. A resposta harmoniza as duas fontes reconhecendo que a palavra "tigela" não designa um recipiente de tamanho fixo: na baraita que permite, fala-se de uma tigela pequena, semelhante à lâmpada, cujo óleo Rabi Shimon já esperava que se esgotasse no mesmo dia; na Tosefta que proíbe, fala-se de uma tigela grande, semelhante ao copo, cujo óleo era esperado durar o Shabat inteiro.
"O que significa 'mas'" — visto que se diz "mas", segue-se que, na lâmpada, é permitido.
"Numa (lâmpada) pequena" — pois já desde a véspera tinha em mente que o óleo se esgotaria depressa, e pensava em usá-lo assim que a lâmpada se apagasse.
"Mas estes (recipientes)" — não lhe ocorreu que se apagariam apenas depois de todo o dia.
"E Rabi Shimon permite" — e, sendo a tigela grande, há dificuldade de tigela contra tigela.
"Semelhante à lâmpada" — ensina-se que é pequena.
Disse Rabi Zeira: um pamot em que se acendeu em Shabat — segundo quem permite (mover a lâmpada velha), é proibido; segundo quem proíbe, é permitido. (Objeção:) Isso quer dizer que Rabi Yehudá tem (o conceito de) muktzeh por repugnância, mas não tem muktzeh por proibição? Mas não se ensinou: Rabi Yehudá diz: todas as lâmpadas de metal se movem, exceto a lâmpada em que se acendeu em Shabat! Mas, se foi dito, assim foi dito — disse Rabi Zeira: um pamot em que se acendeu em Shabat, todos concordam que é proibido; não se acendeu nele, todos concordam que é permitido.
Rabi Zeira examina o pamot — um candelabro de metal que, por não absorver óleo, nunca fica repugnante e por isso não é muktzeh por repugnância. Em sua primeira formulação, ele distingue o pamot segundo as duas razões de muktzeh já vistas: para Rabi Meir, que permite mover a lâmpada velha (não reconhecendo muktzeh por repugnância) mas proíbe a que se acendeu naquele Shabat (reconhecendo muktzeh por proibição), o pamot aceso seria proibido; para Rabi Yehudá, que proíbe a lâmpada velha por repugnância, mas — supunha-se — não teria muktzeh por proibição, o pamot, não sendo repugnante, seria permitido mesmo tendo ardido. A Guemará objeta com uma baraita explícita, na qual o próprio Rabi Yehudá proíbe o candelabro de metal que se acendeu em Shabat — provando que ele também reconhece muktzeh por proibição. A formulação é então corrigida: na verdade, todos concordam que o pamot aceso em Shabat é proibido (por muktzeh devido à proibição, reconhecido tanto por Rabi Yehudá quanto por Rabi Meir), e todos concordam que o pamot não aceso é permitido (por não ser repugnante, sendo de metal).
"Pamot" — um candelabro de metal, que não é repugnante.
"Segundo quem permite" — Rabi Meir, que permite mover a lâmpada velha.
"Proíbe" — neste caso, por muktzeh devido à proibição, como se ensinou acima: "exceto a lâmpada em que se acendeu em Shabat".
"Segundo quem proíbe" — Rabi Yehudá, que proíbe mover a lâmpada velha de barro: ali é porque é repugnante, mas aqui seria permitido, pois ele não teria muktzeh por proibição.
"Lâmpada de metal" — não é repugnante, como a de cobre, que não absorve (o óleo).
Disse Rav Yehudá, disse Rav: uma cama que se designou para (guardar) dinheiro é proibida de ser movida. Objetou Rav Nachman bar Yitzchak: (mas ensinamos na Mishná:) "move-se uma lâmpada nova, mas não uma velha"…
A Guemará abre um novo ensinamento de Rav, transmitido por Rav Yehudá: uma cama que a pessoa designou, desde a véspera de Shabat, para guardar dinheiro sobre ela, torna-se proibida de ser movida em Shabat pela própria designação — mesmo que, no momento em questão, não haja dinheiro algum sobre ela. Basta a intenção declarada de uso para tornar o objeto muktzeh, sem que seja necessário que ele de fato tenha servido para esse fim. Rav Nachman bar Yitzchak levanta uma objeção a partir da própria Mishná deste daf, citando sua primeira cláusula — "move-se uma lâmpada nova, mas não uma velha" —, mas o texto se interrompe exatamente no meio dessa objeção.
O daf 44a termina de forma interrompida, no meio da objeção de Rav Nachman bar Yitzchak: "מְטַלְטְלִין נֵר חָדָשׁ אֲבָל לֹא יָשָׁן" ("move-se uma lâmpada nova, mas não uma velha"). A continuação, em 44b, completa o raciocínio da objeção e sua resposta: "וּמָה נֵר דִּלְהָכִי עֲבִידָא, כִּי לָא אַדְלֵיק בָּהּ שְׁרֵי לְטַלְטוֹלַהּ — מִטָּה דְּלָאו לְהָכִי עֲבִידָא לֹא כׇל שֶׁכֵּן?!" — "…e, se a própria lâmpada, que é feita para esse fim, quando não se acendeu nela, é permitido movê-la — a cama, que não é feita para esse fim, não seria, com maior razão, permitida?!" — e prossegue reformulando o ensinamento de Rav com maior precisão, distinguindo entre a cama que tinha dinheiro sobre ela e a que não tinha, e entre a designada e a não designada para esse uso.
"Que designou para dinheiro" — torna-se proibida por mera designação, ainda que nunca se tenha colocado (dinheiro) sobre ela.
"Move-se uma lâmpada nova" — mas foi Rabi Yehudá quem ensinou isto, e ele sustenta muktzeh; logo, não se proíbe por mera designação, pois disse "mas não uma velha", e não ensinou "mas não a designada para isso".