Talmud Bavli · Massechet Shabbat · Perek Bet
הַדְלָקָה עוֹשָׂה מִצְוָה

A prova da lamparina de vidro resolve a dúvida: o acender cumpre a mitzvá; a obrigação da mulher e do hóspede; os óleos, a bênção, o pátio de duas portas, e a baraita da pe'á

Shabbat 23a — a prova da עֲשָׁשִׁית (lamparina de vidro) que se apaga e reacende à saída do Shabat, resolvendo que o acender cumpre a mitzvá de Chanucá, confirmada pela própria fórmula da bênção; a partir daí, a conclusão de que surdo-mudo, louco e menor não cumprem a mitzvá acendendo para outros, mas a mulher certamente acende, por ter também participado do milagre; o hóspede obrigado na vela, e o costume de Rabi Zeira antes e depois de casar; os ensinamentos de Rabi Yehoshua ben Levi sobre os óleos mais adequados para a vela e para a tinta, com o costume de Abaie; a disputa se o óleo serve para amassar ou para defumar a tinta; a disputa entre Rav Chiyya bar Ashi e Rav Yirmeya sobre quem deve abençoar a vela de Chanucá, e a fórmula exata de Rav Yehuda para o primeiro dia e os seguintes; o texto da bênção e sua fonte bíblica segundo Rav Avya e Rav Nechemia; a objeção de Rav Avram a partir do demai, resolvida por Abaie distinguindo o certo do duvidoso quanto às bênçãos rabínicas, com a exceção de Yom Tov Sheni; o ensinamento de Rav Huna sobre o pátio com duas entradas e a distinção de Rava entre dois lados e um só lado, por causa da suspeita dos moradores da cidade; e a baraita de Rabi Shimon sobre os motivos pelos quais a Torá ordenou deixar a pe'á apenas no final do campo.

O daf continua exatamente de onde 22b foi interrompido: a terceira prova para a dúvida entre acender e colocar, trazida de um ensinamento de Rabi Yehoshua ben Levi sobre a lamparina de vidro (assashit) que arde o dia inteiro do Shabat e que, à saída do Shabat, a pessoa apaga e reacende para a vela de Chanucá — prova que resolve definitivamente a favor do acender, reforçada pela própria fórmula da bênção "que nos ordenou acender a vela de Chanucá". A Guemará então tira as consequências práticas dessa conclusão: surdo-mudo, louco e menor não cumprem a mitzvá para outros; a mulher, porém, certamente acende, pois também ela participou do milagre; e o hóspede é obrigado, com a ressalva de Rabi Zeira sobre sua própria mudança de costume ao se casar. Seguem-se dois ensinamentos independentes de Rabi Yehoshua ben Levi sobre os óleos mais adequados — para a vela de Chanucá, o azeite de oliva; para a tinta, também o azeite, com a dúvida se serve para amassar ou defumar, resolvida pela baraita de Rav Shmuel bar Zutra, e a opinião de Rav Huna sobre as resinas. A Guemará então discute quem deve recitar a bênção da vela de Chanucá — quem acende ou quem vê — e a fórmula exata segundo Rav Yehuda, conforme o dia; o texto da própria bênção e sua base bíblica, segundo Rav Avya e Rav Nechemia; a objeção de Rav Avram a partir da baraita do demai, resolvida por Abaie com a distinção entre mitzvá certamente rabínica e mitzvá duvidosamente rabínica quanto à necessidade de bênção, com a ressalva de Yom Tov Sheni explicada por Rava. O daf fecha com o ensinamento de Rav Huna sobre o pátio com duas entradas, que exige duas velas, a distinção de Rava entre duas direções e uma só direção por causa da suspeita dos vizinhos da cidade, e a prova de que se teme tal suspeita a partir da baraita de Rabi Shimon sobre os motivos pelos quais a Torá ordena deixar a pe'á apenas ao final do campo — baraita cuja continuação, com os quatro motivos detalhados, prossegue em Shabat 23b.

A prova da lamparina de vidro: o acender cumpre a mitzvá · עֲשָׁשִׁית שֶׁהָיְתָה דּוֹלֶקֶת

01A lamparina de vidro que se apaga e reacende; a resolução a favor do acender; a confirmação pela fórmula da bênção
Guemará (Rabi Yehoshua ben Levi)
עֲשָׁשִׁית שֶׁהָיְתָה דּוֹלֶקֶת וְהוֹלֶכֶת כׇּל הַיּוֹם כּוּלּוֹ, לְמוֹצָאֵי שַׁבָּת מְכַבָּהּ וּמַדְלִיקָהּ. אִי אָמְרַתְּ בִּשְׁלָמָא הַדְלָקָה עוֹשָׂה מִצְוָה — שַׁפִּיר. אֶלָּא אִי אָמְרַתְּ הַנָּחָה עוֹשָׂה מִצְוָה, הַאי מְכַבָּהּ וּמַדְלִיקָהּ, מְכַבָּהּ וּמַגְבִּיהָהּ וּמַנִּיחָהּ וּמַדְלִיקָהּ מִיבְּעֵי לֵיהּ! וְעוֹד: מִדְּקָא מְבָרְכִינַן ״אֲשֶׁר קִדְּשָׁנוּ בְּמִצְוֹתָיו וְצִוָּנוּ לְהַדְלִיק נֵר שֶׁל חֲנוּכָּה״ — שְׁמַע מִינָּה הַדְלָקָה עוֹשָׂה מִצְוָה. שְׁמַע מִינָּה.

(Vem ouvir:) Uma lamparina de vidro (assashit) que estava ardendo continuamente o dia todo (desde a véspera de Shabat, para a mitzvá de Chanucá) — à saída do Shabat, (a pessoa) a apaga e a acende (de novo, cumprindo assim a mitzvá do dia). Se dizes, com razão, que o acender cumpre a mitzvá — está bem (pois basta apagar e reacender no mesmo lugar). Mas se dizes que o colocar cumpre a mitzvá, esse (que) apaga e acende deveria antes apagar, levantá-la, colocá-la (de novo em seu lugar), e (só então) acender! E, além disso: do fato de que abençoamos (a fórmula) "que nos santificou com Seus mandamentos e nos ordenou acender a vela de Chanucá" — aprenda-se disso que o acender cumpre a mitzvá. Aprenda-se disso (e assim se conclui, definitivamente).

Nota

A Guemará completa a citação cortada ao fim de 22b: o ensinamento de Rabi Yehoshua ben Levi trata de uma lamparina de vidro especial, que arde continuamente durante todo o dia do Shabat (tendo sido acesa já na véspera para a mitzvá de Chanucá, já que não se pode acender no próprio Shabat). Como essa lamparina já está no lugar certo, junto à porta, desde antes do Shabat, à saída do Shabat a pessoa simplesmente a apaga e volta a acendê-la ali mesmo, sem tocá-la ou movê-la — cumprindo assim, nesse mesmo local, a mitzvá do dia seguinte. Se o colocar fosse o componente essencial da mitzvá, seria necessário repetir também o ato de colocar: apagar, levantar a lamparina do chão, recolocá-la, e só então acender — mas ninguém exige esse procedimento. Do fato de que ninguém o exige, conclui-se que o simples acender, sem repetir o colocar, já cumpre a mitzvá. A Guemará reforça essa conclusão com um segundo argumento, independente: a própria fórmula da bênção que se recita antes da mitzvá — "que nos ordenou acender a vela de Chanucá" — menciona explicitamente o acender, e não o colocar, o que confirma que o acender é o ato central da mitzvá. Com essas duas provas convergentes, a Guemará encerra a dúvida com a fórmula dupla "shema minah" (aprenda-se disso), indicando uma conclusão firme e definitiva: é o acender que cumpre a mitzvá de Chanucá.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "lamparina de vidro", "ardendo" e "acende"
עששית - כלי גדול של זכוכית בלעז לנטרנ"א:

"Lamparina de vidro" (assashit) — um recipiente grande de vidro, em língua estrangeira lantarna (lanterna).

דולקת - שהדליקה למצות חנוכה בע"ש:

"Ardendo" — pois a acendeu para a mitzvá de Chanucá na véspera de Shabat.

ומדליקה - למצות הלילה:

"E a acende" — para a mitzvá da noite (seguinte).

Quem cumpre a mitzvá: surdo-mudo, louco e menor; a mulher; o hóspede · נָשִׁים חַיָּיבוֹת בְּנֵר חֲנוּכָּה

02A consequência prática: surdo-mudo, louco e menor não cumprem para outros; a mulher certamente acende
Guemará (Rabi Yehoshua ben Levi)
וְהַשְׁתָּא דְּאָמְרִינַן הַדְלָקָה עוֹשָׂה מִצְוָה, הִדְלִיקָהּ חֵרֵשׁ שׁוֹטֶה וְקָטָן לֹא עָשָׂה וְלֹא כְלוּם. אִשָּׁה וַדַּאי מַדְלִיקָה, דְּאָמַר רַבִּי יְהוֹשֻׁעַ בֶּן לֵוִי: נָשִׁים חַיָּיבוֹת בְּנֵר חֲנוּכָּה שֶׁאַף הֵן הָיוּ בְּאוֹתוֹ הַנֵּס.

E agora que dizemos (concluímos) que o acender cumpre a mitzvá, se um surdo-mudo, um louco ou um menor a acenderam (para outra pessoa) — não fizeram absolutamente nada (pois esses não estão sujeitos a mandamentos, e como é o acender que cumpre a mitzvá, seu ato não vale para ninguém). A mulher, com certeza, acende (e cumpre a mitzvá, inclusive para outros), pois disse Rabi Yehoshua ben Levi: as mulheres são obrigadas na vela de Chanucá, pois também elas estiveram naquele milagre.

Nota

Uma vez estabelecido que o acender — e não o colocar — é o ato que cumpre a mitzvá, segue-se uma consequência prática importante: como surdo-mudo, louco e menor estão isentos, em geral, do cumprimento de mandamentos (por não terem o discernimento pleno exigido), se um deles acender a vela de Chanucá em nome de outra pessoa, esse ato não cumpre mitzvá alguma — nem para si, nem para quem pretendia beneficiar-se dele — precisamente porque o componente essencial, o acender, foi realizado por alguém sem obrigação. Se, ao contrário, fosse o colocar que cumprisse a mitzvá, poder-se-ia argumentar que mesmo o acender feito por essas pessoas seria válido, desde que o colocar fosse realizado corretamente por alguém obrigado. A mulher, porém, está em situação diferente: ela não apenas pode acender para si mesma, mas também para outros, pois Rabi Yehoshua ben Levi ensina que as mulheres estão plenamente obrigadas na mitzvá da vela de Chanucá, e não apenas de modo dependente ou auxiliar — porque também elas foram protagonistas do milagre que a mitzvá comemora (referência ao papel decisivo de uma mulher, identificada na tradição com Yehudit, no episódio que levou à vitória contra os gregos).

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "também elas estiveram naquele milagre"
היו באותו הנס - שגזרו יוונים על כל בתולות הנשואות להיבעל לטפסר תחלה ועל יד אשה נעשה הנס:

"Estiveram naquele milagre" — pois os gregos decretaram que toda noiva prestes a se casar fosse violada primeiro por um oficial (gentio), e foi por meio de uma mulher que se fez o milagre.

03O hóspede é obrigado na vela; o costume de Rabi Zeira antes e depois de casar
Guemará (Rav Sheshet; Rabi Zeira)
אָמַר רַב שֵׁשֶׁת: אַכְסְנַאי חַיָּיב בְּנֵר חֲנוּכָּה. אָמַר רַבִּי זֵירָא: מֵרֵישׁ כִּי הֲוֵינָא בֵּי רַב, מִשְׁתַּתַּפְנָא בִּפְרִיטֵי בַּהֲדֵי אוּשְׁפִּיזָא. בָּתַר דִּנְסֵיבִי אִיתְּתָא, אָמֵינָא: הַשְׁתָּא וַדַּאי לָא צְרִיכְנָא, דְּקָא מַדְלְקִי עֲלַי בְּגוֹ בֵּיתַאי.

Disse Rav Sheshet: o hóspede é obrigado na vela de Chanucá (mesmo hospedado na casa de outrem). Disse Rabi Zeira: no início, quando eu estava na casa de estudo (longe de minha própria casa), participava com moedas junto com meu anfitrião (contribuindo para o óleo e o pavio de sua vela, para se considerar parte dela e cumprir assim minha obrigação). Depois que me casei, disse: agora, com certeza, não preciso (mais fazer isso), pois (minha esposa) acende por mim dentro de minha própria casa (e sua vela me cumpre a obrigação, mesmo estando eu ausente).

Nota

Rav Sheshet estabelece que mesmo um hóspede — alguém que não tem casa própria no lugar onde se encontra, mas está hospedado na casa de outra pessoa — permanece obrigado na mitzvá da vela de Chanucá, e não pode se eximir simplesmente por não ter residência própria ali. Rabi Zeira ilustra essa lei com sua própria experiência: enquanto solteiro e estudando fora de casa, ele cumpria essa obrigação de hóspede contribuindo financeiramente para o óleo e o pavio da vela de seu anfitrião, tornando-se assim, por assim dizer, sócio na vela acesa por ele — o que bastava para cumprir sua própria obrigação de hóspede. Depois de se casar, porém, ele deixou de precisar desse arranjo, pois agora sua própria esposa acendia a vela de Chanucá em sua casa, e essa vela, acesa em seu nome mesmo em sua ausência, já cumpria plenamente sua obrigação pessoal — não sendo mais necessário participar como hóspede na vela de outrem.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "hóspede", "depois que me casei", "por mim" e "dentro de minha casa"
אכסנאי - אורח:

"Hóspede" (achsenai) — o hóspede.

בתר דנסיבי - ופעמים שהייתי אכסנאי ללמוד תורה:

"Depois que me casei" — e às vezes eu era hóspede para estudar Torá (mesmo depois disso, viajando sem a esposa).

עלי - בשבילי:

"Por mim" — em meu favor.

בגו ביתאי - בביתי:

"Dentro de minha casa" — em minha casa.

Os óleos mais adequados: para a vela e para a tinta · כׇּל הַשְּׁמָנִים כּוּלָּן יָפִין לַנֵּר

04Rabi Yehoshua ben Levi: todos os óleos servem para a vela, o azeite é o melhor; o costume de Abaie
Guemará (Rabi Yehoshua ben Levi; Abaie)
אָמַר רַבִּי יְהוֹשֻׁעַ בֶּן לֵוִי: כׇּל הַשְּׁמָנִים כּוּלָּן יָפִין לַנֵּר, וְשֶׁמֶן זַיִת מִן הַמּוּבְחָר. אָמַר אַבָּיֵי: מֵרֵישׁ הֲוָה מְהַדַּר מָר אַמִּשְׁחָא דְשׁוּמְשְׁמֵי. אָמַר: הַאי מְשִׁיךְ נְהוֹרֵיהּ טְפֵי. כֵּיוָן דִּשְׁמַע לַהּ לְהָא דְּרַבִּי יְהוֹשֻׁעַ בֶּן לֵוִי, מְהַדַּר אַמִּשְׁחָא דְזֵיתָא. אָמַר: הַאי צְלִיל נְהוֹרֵיהּ טְפֵי.

Disse Rabi Yehoshua ben Levi: todos os óleos servem bem para a vela (de Shabat ou de Chanucá), mas o azeite de oliva é o melhor (entre eles). Disse Abaie: no início, meu mestre (Rabá, seu mestre-tio) buscava óleo de gergelim. Dizia: esse prolonga mais sua luz. Quando ouviu esse ensinamento de Rabi Yehoshua ben Levi, passou a buscar azeite de oliva. Dizia: esse tem sua luz mais límpida (clara).

Nota

Rabi Yehoshua ben Levi ensina que, embora todos os tipos de óleo sejam aceitáveis para acender a vela, o azeite de oliva se destaca como o mais recomendável entre eles. Abaie relata como seu mestre — geralmente identificado como Rabá — mudou de prática ao ouvir esse ensinamento: antes, ele preferia o óleo de gergelim, por acreditar que sua chama durava mais tempo, sendo portanto mais econômico e prático. Mas, ao conhecer o ensinamento de Rabi Yehoshua ben Levi sobre a superioridade do azeite de oliva, ele reconsiderou e passou a usar o azeite, explicando que sua luz é mais límpida e clara — uma qualidade mais valiosa do que a mera duração, especialmente para a mitzvá de Chanucá, cujo propósito é a publicação visível do milagre.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "prolonga mais sua luz" e "límpida e mais clara"
משוך נהוריה - אינו ממהר לכלות כשמן זית:

"Prolonga mais sua luz" — não se consome tão rápido quanto o azeite de oliva.

צליל נהוריה - צלול ומאיר:

"Sua luz é mais límpida" — límpida e (mais) luminosa.

05Os óleos e resinas mais adequados para a tinta; a dúvida sobre amassar ou defumar
Guemará (Rabi Yehoshua ben Levi; Rav Shmuel bar Zutra; Rav Huna)
וְאָמַר רַבִּי יְהוֹשֻׁעַ בֶּן לֵוִי: כׇּל הַשְּׁמָנִים יָפִין לַדְּיוֹ, וְשֶׁמֶן זַיִת מִן הַמּוּבְחָר. אִיבַּעְיָא לְהוּ: לְגַבֵּל, אוֹ לְעַשֵּׁן? תָּא שְׁמַע, דְּתָנֵי רַב שְׁמוּאֵל בַּר זוּטְרָא: כׇּל הַשְּׁמָנִים יָפִין לַדְּיוֹ, וְשֶׁמֶן זַיִת מִן הַמּוּבְחָר — בֵּין לְגַבֵּל בֵּין לְעַשֵּׁן. רַב שְׁמוּאֵל בַּר זוּטְרָא מַתְנֵי הָכִי: כׇּל הָעֲשָׁנִים יָפִין לַדְּיוֹ, וְשֶׁמֶן זַיִת מִן הַמּוּבְחָר. אָמַר רַב הוּנָא: כׇּל הַשְּׂרָפִין יָפִין לַדְּיוֹ, וּשְׂרַף קְטָף יָפֶה מִכּוּלָּם.

E disse Rabi Yehoshua ben Levi: todos os óleos servem bem para a tinta (usados em seu preparo), mas o azeite de oliva é o melhor. Perguntaram: (o azeite serve) para amassar (a fuligem, misturando-se a ela), ou para defumar (usado como combustível cuja fumaça produz a fuligem)? Vem ouvir, pois ensinou Rav Shmuel bar Zutra: todos os óleos servem bem para a tinta, e o azeite de oliva é o melhor — tanto para amassar quanto para defumar. (Alguns dizem que) Rav Shmuel bar Zutra ensinava assim: todas as fumaças servem bem para a tinta, e a (fumaça de) azeite de oliva é a melhor. Disse Rav Huna: todas as resinas servem bem para a tinta, e a resina de ketaf é a melhor de todas.

Nota

Paralelamente ao ensinamento sobre a vela, Rabi Yehoshua ben Levi também ensina sobre a fabricação da tinta usada para escrever (por exemplo, rolos sagrados): todos os óleos ajudam na sua composição, mas o azeite de oliva é o melhor. Surge então a dúvida sobre o papel exato do óleo nesse processo: serviria para ser misturado (amassado) diretamente com a fuligem já produzida, formando a pasta da tinta, ou serviria como combustível que, ao ser queimado, produz a fumaça da qual se recolhe a fuligem que se torna tinta? A Guemará traz a baraita de Rav Shmuel bar Zutra, que resolve a dúvida dizendo que o azeite de oliva serve para ambos os usos — tanto para amassar quanto para produzir a fumaça por defumação. Há também uma versão alternativa dessa mesma baraita, citada com a palavra trocada: em vez de "óleos", "fumaças" — ensinando que entre as diferentes fumaças usadas para produzir fuligem, a fumaça do azeite de oliva é a melhor. Por fim, Rav Huna acrescenta que também as resinas de árvores servem para a tinta, sendo a resina chamada ketaf a mais indicada entre todas.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "para amassar", "para defumar", "resina" e "ketaf"
לגבל - מצאתי בתשוב' הגאוני' שמעשנין כלי זכוכית בעשן שמן זית עד שמשחיר וגורר השחרורי' ונותן בו שמן קימעא ומגבל בו ומייבשו בחמה וממחה אותו לתוך הדיו:

"Para amassar" — encontrei nas respostas dos Geonim que se defuma um recipiente de vidro com fumaça de azeite de oliva até escurecer, e (depois) se raspa o negrume, e se põe nele um pouco de óleo, e se amassa com ele, e se seca ao sol, e se dissolve dentro da tinta.

לעשן - נמי כדפרישית:

"Para defumar" — também como expliquei.

שרף - גומ"א:

"Resina" (seraf)goma.

קטף - פרוניי"ל של יער כמו שאנו עושים משל שרף:

"Ketaf" — pruniel da floresta, como fazemos (tinta) a partir de resina.

A bênção da vela: quem abençoa, e sua fórmula · הַמַּדְלִיק נֵר שֶׁל חֲנוּכָּה צָרִיךְ לְבָרֵךְ

06Rav Chiyya bar Ashi e Rav Yirmeya: quem acende, e quem vê; a fórmula de Rav Yehuda conforme o dia; a dúvida sobre por que reduzir apenas o tempo
Guemará (Rav Chiyya bar Ashi; Rav Yirmeya; Rav Yehuda)
אָמַר רַב חִיָּיא בַּר אָשֵׁי אָמַר רַב: הַמַּדְלִיק נֵר שֶׁל חֲנוּכָּה צָרִיךְ לְבָרֵךְ. וְרַב יִרְמְיָה אָמַר: הָרוֹאֶה נֵר שֶׁל חֲנוּכָּה צָרִיךְ לְבָרֵךְ. אָמַר רַב יְהוּדָה: יוֹם רִאשׁוֹן, הָרוֹאֶה מְבָרֵךְ שְׁתַּיִם, וּמַדְלִיק מְבָרֵךְ שָׁלֹשׁ. מִכָּאן וְאֵילָךְ, מַדְלִיק מְבָרֵךְ שְׁתַּיִם, וְרוֹאֶה מְבָרֵךְ אַחַת. מַאי מְמַעֵט? מְמַעֵט זְמַן: וְנִימְעוֹט נֵס! — נֵס כׇּל יוֹמֵי אִיתֵיהּ.

Disse Rav Chiyya bar Ashi, disse Rav: quem acende a vela de Chanucá precisa abençoar. E Rav Yirmeya disse: quem vê a vela de Chanucá precisa abençoar (mesmo sem ele próprio acender). Disse Rav Yehuda: no primeiro dia, quem vê (a vela pela primeira vez naquele ano) abençoa duas (bênçãos), e quem acende abençoa três. Daí em diante (nos demais dias), quem acende abençoa duas, e quem vê abençoa uma. O que (se) reduz (nos dias seguintes, em relação ao primeiro)? Reduz-se (a bênção sobre) o "tempo" (shehecheyanu). (Pergunta:) Que se reduza (então também a bênção sobre) o milagre (she'assa nissim, já que o milagre também já foi mencionado antes)! (Resposta:) O milagre (está presente e se renova) todos os seus dias (da festa, sendo relevante mencioná-lo a cada dia; já a bênção do tempo refere-se apenas ao início da observância anual, cabendo somente no primeiro dia).

Nota

Surge uma disputa sobre quem, exatamente, está obrigado a recitar a bênção relacionada à vela de Chanucá: Rav (citado por Rav Chiyya bar Ashi) sustenta que é quem acende a vela quem deve abençoar — a bênção acompanha o ato da mitzvá. Rav Yirmeya acrescenta que também quem apenas vê a vela acesa — por exemplo, alguém que não tem como acender a própria vela, ou que está na rua e avista a vela de outra casa — deve recitar uma bênção, ainda que diferente, em reconhecimento ao milagre que a vela publica. Rav Yehuda then detalha as fórmulas exatas: no primeiro dia de Chanucá, quem vê a vela (sem tê-la acendido) recita duas bênçãos — "que fez milagres" (she'assa nissim) e "que nos manteve vivos" (shehecheyanu) —, enquanto quem acende recita três, acrescentando a bênção sobre o próprio ato ("que nos ordenou acender"). A partir do segundo dia, como o shehecheyanu já foi dito no início da festa e não se repete, quem acende recita apenas duas bênçãos, e quem vê recita apenas uma (she'assa nissim). A Guemará então questiona por que se reduz apenas a bênção do tempo, e não também a do milagre, já que ambas mencionam algo que já foi declarado anteriormente — respondendo que o milagre de Chanucá permanece presente e atual durante todos os oito dias da festa (representado pelo óleo que ardeu continuamente), justificando sua menção diária, ao passo que a bênção do tempo comemora o início da temporada festiva, cabível apenas uma vez.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "quem vê", "duas bênçãos", "o que reduz" e "todos os seus dias"
הרואה - העובר בשוק ורואה באחד החצרות דולק ומצאתי בשם רבינו יצחק בן יהודה שאמר משם רבינו יעקב דלא הוזקקה ברכה זו אלא למי שלא הדליק בביתו עדיין או ליושב בספינ':

"Quem vê" — (refere-se a) quem passa pelo mercado e vê, num dos pátios, (a vela) ardendo. E encontrei em nome de Rabenu Yitzchak ben Yehuda, que disse em nome de Rabenu Yaakov, que essa bênção só se exige a quem ainda não acendeu em sua própria casa, ou a quem está sentado num navio (sem possibilidade de acender).

הרואה מברך שתים - שעשה נסים ושהחיינו שאין עליו לברך להדליק דהא לא אדליק איהו:

"Quem vê abençoa duas" — "que fez milagres" e "shehecheyanu", pois não lhe cabe abençoar "acender", já que ele mesmo não acendeu.

מאי ממעט - המדליק בשאר ימים איזו מן השלש ממעט:

"O que reduz" — quem acende nos demais dias, qual das três (bênçãos) ele reduz.

כל יומי איתיה - שהרי כל שמנה הדליקו מן הפך אבל זמן משהגיענו להתחלת זמן הגיענו:

"Todos os seus dias" — pois, de fato, todos os oito dias acenderam (o milagre se estendeu) a partir do frasco (de óleo); mas o (tempo) "shehecheyanu" — desde que chegamos ao início da temporada, já chegamos (e não se repete).

07O texto da bênção e sua fonte bíblica: Rav Avya e Rav Nechemia
Guemará (Rav Avya; Rav Nechemia)
מַאי מְבָרֵךְ? — מְבָרֵךְ: ״אֲשֶׁר קִדְּשָׁנוּ בְּמִצְוֹתָיו וְצִוָּנוּ לְהַדְלִיק נֵר שֶׁל חֲנוּכָּה״. וְהֵיכָן צִוָּנוּ? רַב אַוְיָא אָמַר: מִ״לֹּא תָסוּר״. רַב נְחֶמְיָה אָמַר: ״שְׁאַל אָבִיךָ וְיַגֵּדְךָ זְקֵנֶיךָ וְיֹאמְרוּ לָךְ״.

O que (exatamente) abençoa (quem acende)? Abençoa: "que nos santificou com Seus mandamentos, e nos ordenou acender a vela de Chanucá." E onde (está escrito que Ele) nos ordenou (essa mitzvá, que é de instituição rabínica e não bíblica)? Rav Avya disse: a partir de (o verso) "não te desviarás" (Devarim 17:11, que ordena obedecer às decisões dos sábios de cada geração). Rav Nechemia disse: a partir de (o verso) "pergunta a teu pai, e ele te anunciará; a teus anciãos, e eles te dirão" (Devarim 32:7, referindo-se também à autoridade dos sábios).

Nota

A Guemará especifica o texto exato da bênção recitada por quem acende a vela: "que nos santificou com Seus mandamentos, e nos ordenou acender a vela de Chanucá" — a fórmula padrão de bênção sobre mitzvot. Surge então uma dificuldade teológica e legal: como a mitzvá de Chanucá foi instituída pelos sábios, séculos depois da entrega da Torá, em que sentido se pode dizer que D'us "nos ordenou" essa mitzvá? A resposta de ambos os amoraítas é que a autoridade rabínica para instituir novas mitzvot, obrigando a todo Israel a cumpri-las, deriva ela mesma de um mandamento bíblico direto: Rav Avya localiza essa fonte no verso "não te desviarás" (de tudo o que os sábios ensinarem, à direita ou à esquerda), que estabelece a obrigação geral de obedecer às decisões da liderança rabínica de cada geração; Rav Nechemia localiza a mesma ideia noutro verso, que também remete à autoridade instrutiva dos sábios e anciãos. Assim, ao dizer "que nos ordenou", a pessoa está, em última análise, cumprindo um mandamento bíblico de obediência à instituição rabínica.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "onde nos ordenou" e "de não te desviarás"
היכן צונו - הא לאו דאורייתא היא אלא מדבריהם:

"Onde nos ordenou" — pois, de fato, isso não é (mandamento) da Torá, senão de suas (instituições dos sábios).

מלא תסור - מן הדבר אשר יגידו לך וגו':

"De 'não te desviarás'" — "da coisa que te anunciarem etc."

08A objeção de Rav Avram a partir do demai; a distinção de Abaie entre mitzvá certa e duvidosa
Guemará (Rav Avram; Abaie)
מֵתִיב רַב עַמְרָם: הַדְּמַאי, מְעָרְבִין בּוֹ וּמִשְׁתַּתְּפִין בּוֹ וּמְבָרְכִין עָלָיו וּמְזַמְּנִין עָלָיו וּמַפְרִישִׁין אוֹתוֹ עָרוֹם וּבֵין הַשְּׁמָשׁוֹת. וְאִי אָמְרַתְּ כׇּל מִדְּרַבָּנַן בָּעֵי בְּרָכָה, הָכָא כִּי קָאֵי עָרוֹם הֵיכִי מְבָרֵךְ? וְהָא בָּעֵינַן וְהָיָה מַחֲנֶיךָ קָדוֹשׁ — וְלֵיכָּא! אָמַר אַבָּיֵי: וַדַּאי דְּדִבְרֵיהֶם בָּעֵי בְּרָכָה, סָפֵק דְּדִבְרֵיהֶם לָא בָּעֵי בְּרָכָה.

Objetou Rav Avram: o demai (produto duvidoso quanto ao dízimo) — faz-se eiruv com ele, faz-se shitufim com ele, abençoa-se sobre ele, convida-se (para a bênção do convite, zimun) sobre ele, e separa-se (o dízimo duvidoso) dele mesmo nu e no crepúsculo (entre os sóis, mesmo perto do Shabat). E se dizes que tudo que é de instituição rabínica precisa de bênção (inclusive a própria separação do dízimo duvidoso), aqui, estando (a pessoa) nua, como abençoaria? Não precisamos (para toda bênção) que "teu acampamento seja sagrado" (Devarim 23:15, exigindo vestimenta adequada para pronunciar o Nome Divino) — e (estando nu) isso não há! Disse Abaie: (mitzvá) certamente (de instituição) dos sábios precisa de bênção; (mitzvá) duvidosamente (de instituição) dos sábios não precisa de bênção.

Nota

Rav Avram desafia o princípio de que toda mitzvá instituída pelos sábios exige uma bênção antes de sua realização — princípio que sustentava a explicação anterior sobre a bênção de Chanucá. Ele traz o caso do demai: produto agrícola comprado de um am ha'aretz (pessoa não confiável quanto às leis de dízimo), sobre o qual paira a dúvida se os dízimos já foram separados. Os sábios permitiram um tratamento relativamente leniente do demai — pode-se usá-lo para eiruv (para permitir carregar entre domínios) e shitufim (parceria de beco), pode-se recitar bênçãos de comida sobre ele, convidar outros para a bênção após a refeição (zimun), e separar dele o dízimo duvidoso mesmo em circunstâncias normalmente inadequadas para mitzvot que exigem bênção — como estando nu, ou no crepúsculo, quando o status do dia (se ainda é dia comum ou já é Shabat) é incerto. Ora, se a separação do demai é ela mesma uma instituição rabínica, e toda instituição rabínica exigisse bênção, como se explicaria que ela é permitida mesmo estando a pessoa nua — situação em que não se pode pronunciar bênçãos, por exigir-se um mínimo de decência ("que teu acampamento seja sagrado")? Isso prova que nem toda mitzvá rabínica exige bênção. Abaie resolve a objeção com uma distinção fundamental: mitzvot que são certa e inequivocamente de instituição rabínica (como a vela de Chanucá) exigem bênção; mas mitzvot cuja própria aplicação rabínica é ela mesma incerta ou duvidosa (como a separação do demai, que trata de um caso de dúvida) não exigem bênção — pois a bênção pressupõe uma obrigação clara e definida.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "eiruv e shitufim com demai", "e separa nu", "teu acampamento seja sagrado", "certamente" e "duvidosamente"
מערבין בו - עירובי חצרות ותחומין:

"Faz-se eiruv com ele" — eiruvin de pátios e de techumin (limites de caminhada no Shabat).

משתתפין בו - במבוי דאי בעי מפקר לנכסיה והוה עני וחזי ליה כדתנן מאכילין את העניים דמאי הלכך חשוב דידיה:

"Faz-se shitufim com ele" — no beco, pois, se quiser, pode declarar seus bens sem dono e tornar-se pobre, e (o demai) lhe seria apto, conforme ensinamos: alimenta-se os pobres com demai; por isso (o demai) é considerado como seu (próprio, apto para uso).

ומברכין עליו - המוציא:

"E abençoa-se sobre ele" — (a bênção) "hamotzi".

ומזמנין עליו - ברכת הזימון:

"E convida-se sobre ele" — a bênção do zimun.

ומפריש אותו - אדם שהוא ערום כלומר דלא צריך לברוכי עליה בהפרשתו:

"E separa-o" — uma pessoa que está nua; isto é, que não precisa abençoar sobre sua separação.

והיה מחניך קדוש - ולא יראה בך ערות דבר אפילו דבור דהזכרת השם לא יראה בך ערות דבר:

"E teu acampamento será sagrado" — "e não se verá em ti coisa indecente" — mesmo a fala (bênção) que menciona o Nome não deve ver em ti coisa indecente.

ודאי דדבריהם - כגון נר חנוכה:

"Certamente (de instituição) dos sábios" — como a vela de Chanucá.

ספק דדבריהם - כגון דמאי שהפרשתו אינה אלא מספק:

"Duvidosamente (de instituição) dos sábios" — como o demai, cuja separação é apenas por causa de uma dúvida.

09A objeção de Yom Tov Sheni; a resposta de "para que não o desprezem"; Rava sobre a maioria dos amei ha'aretz
Guemará (Rava)
וְהָא יוֹם טוֹב שֵׁנִי דִּסְפֵק דִּבְרֵיהֶם הוּא, וּבָעֵי בְּרָכָה? הָתָם כִּי הֵיכִי דְּלָא לִיזַלְזְלוּ בֵּהּ. רָבָא אָמַר: רוֹב עַמֵּי הָאָרֶץ מְעַשְּׂרִין הֵן.

Mas o segundo dia de Yom Tov (observado na Diáspora por dúvida sobre o calendário) não é (também) uma (instituição) duvidosa dos sábios, e (ainda assim) precisa de bênção (no Kidush)? (Resposta:) Ali, é para que não o desprezem (pois, se não houvesse bênção, as pessoas tratariam o segundo dia com menos seriedade que o primeiro). Rava disse (uma resposta alternativa e mais fundamental à objeção original do demai): a maioria dos amei ha'aretz (de fato) separa os dízimos (corretamente, de modo que o demai não é uma dúvida real e substancial, mas apenas um excesso de cautela rabínica sobre uma minoria improvável; por isso sua separação nunca chegou a ser considerada mitzvá plena o bastante para exigir bênção).

Nota

A Guemará desafia a distinção de Abaie com o caso do segundo dia de Yom Tov, observado fora da Terra de Israel por causa da incerteza histórica sobre a data exata da lua nova (antes da fixação do calendário). Esse segundo dia é, por definição, uma instituição rabínica fundamentada numa dúvida — precisamente o tipo de caso que, segundo Abaie, não deveria exigir bênção — e, no entanto, o Kidush do segundo dia é recitado com sua bênção completa, sem redução. A resposta é que, nesse caso específico, os sábios exigiram a bênção por uma razão adicional: para evitar que o público tratasse o segundo dia com menos respeito e seriedade do que o primeiro, o que enfraqueceria a própria observância da festa. Rava, por sua vez, oferece uma resposta diferente e mais radical à objeção original sobre o demai: ele nega que o demai seja verdadeiramente um caso de "dúvida" no sentido pleno, explicando que a esmagadora maioria dos amei ha'aretz de fato separa corretamente os dízimos de sua produção — de modo que o decreto de tratar seus produtos como demai é, na prática, apenas uma cautela extra dos sábios contra uma minoria pouco provável, e não uma autêntica incerteza legal, razão pela qual nunca se equiparou, quanto à exigência de bênção, às mitzvot rabínicas certas e definidas.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "precisa de bênção (Kidush)" e "Rava disse: a maioria... dízimo já é uma leniência apenas"
ובעי ברכה - קדוש היום:

"E precisa de bênção" — a santificação do dia (Kidush).

רבא אמר - ספק דדבריהם בעי ברכה ודמאי אפילו ספק לא הוי אלא חומרא בעלמא דרוב עמי הארץ מעשרין:

Rava disse — (na verdade) a (mitzvá) duvidosamente (de instituição) dos sábios precisa de bênção; e o demai nem sequer é uma dúvida, senão apenas um rigor a mais, pois a maioria dos amei ha'aretz dizima (corretamente).

O pátio com duas entradas; a baraita da pe'á · חָצֵר שֶׁיֵּשׁ לָהּ שְׁנֵי פְּתָחִים

10Rav Huna: pátio com duas entradas exige duas velas; Rava distingue duas direções de uma só; a razão da suspeita
Guemará (Rav Huna; Rava)
אָמַר רַב הוּנָא: חָצֵר שֶׁיֵּשׁ לָהּ שְׁנֵי פְּתָחִים צְרִיכָה שְׁתֵּי נֵרוֹת. (וְאָמַר) [אָמַר] רָבָא: לָא אֲמַרַן אֶלָּא מִשְׁתֵּי רוּחוֹת, אֲבָל מֵרוּחַ אַחַת — לָא צְרִיךְ. מַאי טַעְמָא? אִילֵּימָא מִשּׁוּם חֲשָׁדָא — חֲשָׁדָא דְמַאן? אִילֵּימָא חֲשָׁדָא דְעָלְמָא — אֲפִילּוּ בְּרוּחַ אַחַת נָמֵי לִיבְעֵי! אִי חֲשָׁדָא דִּבְנֵי מָתָא — אֲפִילּוּ מִשְׁתֵּי רוּחוֹת נָמֵי לָא לִיבְעֵי. לְעוֹלָם מִשּׁוּם חֲשָׁדָא דִּבְנֵי מָתָא, וְזִימְנִין דְּחָלְפִי בְּהַאי וְלָא חָלְפִי בְּהַאי, וְאָמְרִי: כִּי הֵיכִי דִּבְהַאי פִּיתְחָא לָא אַדְלִיק — בְּהָךְ פִּיתְחָא נָמֵי לָא אַדְלִיק.

Disse Rav Huna: um pátio que tem duas entradas (voltadas para ruas diferentes) precisa de duas velas (uma junto a cada entrada). Disse Rava: não dissemos (isso) senão (quando as entradas estão voltadas) para duas direções; mas (quando estão voltadas) para uma só direção, não precisa (de duas velas). Qual a razão? Se dirias, por causa da suspeita — suspeita de quem? Se dirias, suspeita do público em geral — mesmo numa só direção também se deveria exigir (duas velas, pois qualquer estranho que passasse por uma porta sem ver a vela suspeitaria)! Se (dirias que é) suspeita dos moradores da cidade (que conhecem bem o pátio) — mesmo com duas direções também não se deveria exigir (pois eles sabem que se trata da mesma casa)! Na verdade, é por causa da suspeita dos moradores da cidade, mas (a razão é que) às vezes passam por esta (porta) e não passam por aquela, e diriam: assim como por esta entrada não acendeu, também por aquela entrada não acendeu (pressupondo, erroneamente, que a pessoa não cumpriu a mitzvá alguma).

Nota

Rav Huna estabelece que um pátio com duas entradas voltadas para ruas diferentes exige que se coloque uma vela de Chanucá junto a cada uma delas, e não basta acender apenas numa. Rava refina essa regra: essa exigência de duas velas só se aplica quando as duas entradas dão para direções diferentes (por exemplo, uma para o norte e outra para o leste); mas se ambas as entradas estão voltadas para a mesma direção geral (por exemplo, ambas para a mesma rua), basta uma única vela. A Guemará então investiga a razão dessa distinção, testando duas possibilidades quanto à natureza da "suspeita" (chashad) que a colocação de duas velas visa evitar: se a preocupação fosse com estranhos de fora da cidade, que não conhecem a disposição da casa, então mesmo com as duas portas voltadas para a mesma direção seria necessário colocar duas velas, pois um estranho que visse apenas uma porta sem vela suspeitaria de negligência. Mas, se a preocupação for com os moradores da própria cidade, que conhecem bem a disposição das casas e sabem que se trata de um único pátio, então, mesmo com as portas voltadas para direções diferentes, não deveria ser necessária mais de uma vela, pois eles saberiam reconhecer a mesma residência. A Guemará resolve que, de fato, a preocupação é com os moradores da cidade — mas de um modo mais sutil: como as pessoas circulam por rotas específicas e nem sempre passam por ambas as portas do mesmo pátio, alguém que costuma passar apenas pela porta voltada, digamos, para o norte, e não vê ali vela alguma, pode concluir erroneamente que o morador não acendeu a vela de Chanucá naquele ano — sem saber que ele a colocou na outra porta, voltada para outra direção, por onde esse observador nunca passa. Quando as duas portas dão para a mesma direção, esse risco de mal-entendido não existe, pois quem passa por uma delas normalmente passa também pela outra.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "pátio com duas entradas", "de duas direções", "suspeita do público" e "mesmo com uma só direção"
חצר שיש לה ב' פתחים - שיש לבית ב' פתחים פתוחים לחצר צריכ' שתי נרות נר לכל פתח כדמפ' טעמא משום חשדא שהרואה יהא סבור שהבית חלוק והרי הוא של שני בני אדם ויאמרו האחד אינו מקיים מצות נר:

"Pátio que tem duas entradas" — (refere-se a) uma casa que tem duas entradas abertas para o pátio (ou para ruas): precisa de duas velas, uma vela para cada entrada, conforme se explica: a razão é por causa da suspeita, pois quem vê presumiria que a casa está dividida, e que pertence a duas pessoas, e diria que uma delas não cumpre a mitzvá da vela.

מב' רוחות - אחד בצפון ואחד במזרח:

"De duas direções" — uma (porta) ao norte e outra ao leste.

חשדא דעלמא - בני עיר אחרת העוברין משם בשוק:

"Suspeita do público em geral" — moradores de outra cidade que passam por ali no mercado.

אפי' מרוח אחת נמי - סבורין הן שהבית חלוק מתוכו:

"Mesmo com uma só direção também" — (pois estranhos) presumiriam que a casa está dividida por dentro.

ואי חשדא דבני מתא - שיודעים שאין חלוק:

"E se (dirias que é) suspeita dos moradores da cidade" — que sabem que (a casa) não está dividida.

11A prova de que se teme a suspeita: a baraita de Rabi Shimon sobre os motivos da pe'á, interrompida — continua em 23b
Guemará (baraita de Rabi Shimon)
וּמְנָא תֵּימְרָא דְּחָיְישִׁינַן לַחֲשָׁד? — דְּתַנְיָא אָמַר רַבִּי שִׁמְעוֹן: בִּשְׁבִיל אַרְבָּעָה דְּבָרִים אָמְרָה תּוֹרָה לְהַנִּיחַ פֵּיאָה בְּסוֹף שָׂדֵהוּ: מִפְּנֵי גֶּזֶל עֲנִיִּים, וּמִפְּנֵי בִּיטּוּל עֲנִיִּים, וּמִפְּנֵי הַחֲשָׁד, וּמִשּׁוּם ״בַּל תְּכַלֶּה״. מִפְּנֵי גֶּזֶל עֲנִיִּים — שֶׁלֹּא יִרְאֶה בַּעַל הַבַּיִת שָׁעָה פְּנוּיָיה וְיֹאמַר לִקְרוֹבוֹ עָנִי: ״הֲרֵי זוֹ פֵּאָה״.

E de onde se diz que se teme a suspeita (como fator legal relevante, capaz de gerar uma obrigação)? Pois foi ensinado (numa baraita), disse Rabi Shimon: por causa de quatro coisas, a Torá disse para deixar a pe'á (o canto do campo reservado aos pobres) no final do seu campo (e não em qualquer outro ponto): por causa do roubo dos pobres, por causa da inutilização (do tempo) dos pobres, por causa da suspeita, e por causa de "não acabarás por completo" (Vayikrá 19:9). Por causa do roubo dos pobres — para que o dono da casa não veja uma hora vazia (sem pobres por perto) e diga a seu parente pobre: "eis aqui, isto é pe'á" (dando-lhe de antemão parte da colheita disfarçada de pe'á, roubando assim dos demais pobres)(o daf corta aqui; a explicação dos demais três motivos — a inutilização dos pobres, a suspeita, e "não acabarás por completo" — prossegue em Shabat 23b.)

Nota

A Guemará busca uma fonte independente para validar o próprio conceito de que a lei se preocupa com a "suspeita" (chashad) — isto é, com a aparência de transgressão aos olhos de terceiros, mesmo quando não há transgressão real —, conceito usado para explicar a exigência de duas velas no pátio de duas entradas. Ela traz uma baraita de Rabi Shimon sobre a mitzvá da pe'á: a Torá exige que o dono do campo deixe a porção reservada aos pobres (pe'á) apenas ao final da colheita, e não em qualquer ponto do campo à sua escolha, por quatro razões distintas. A primeira, detalhada aqui, é evitar o "roubo dos pobres": se o dono pudesse dar a pe'á a qualquer momento, poderia aproveitar um instante em que nenhum pobre estivesse observando o campo para entregar secretamente toda a pe'á a um parente pobre seu, disfarçando-a como se fosse a porção legítima — privando assim os demais pobres de sua parte legítima. Ao exigir que a pe'á seja deixada apenas ao final da colheita, à vista de todos os pobres que ali se reúnem, evita-se essa manipulação. O daf termina precisamente neste ponto, apenas com o primeiro dos quatro motivos explicado; os outros três — a inutilização do tempo dos pobres, a suspeita propriamente dita (a razão mais diretamente relevante à nossa sugya), e o motivo de "não acabarás por completo" — são explicados no início de Shabat 23b. Essa mesma baraita, quase palavra por palavra (com pequenas variações, como "cinco motivos" em vez de "quatro", acrescentando os enganadores), aparece também no Talmud Yerushalmi, Peá 4:3.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "ao final do seu campo", "por causa da inutilização dos pobres" e "hora vazia"
לסוף שדהו - בגמר קצירו כדכתי' לא תכלה משמע בשעת כילוי ולא שיקצה אותה קודם לכן:

"Ao final do seu campo" — ao término de sua colheita, conforme está escrito "não acabarás por completo", o que indica (que a pe'á se separa) no momento do término, e não que se reserve (uma parte) antes disso.

מפני בטול עניים - וכולהו מפרש להו:

"Por causa da inutilização dos pobres" — e todos (os motivos) ele explica (a seguir, no próximo daf).

שעה פנויה - שאין עניים אצלו ויאמר לקרובו עני מהר וטול כאן עד שלא יבאו אחרים אבל עכשיו שמניחה בגמר קציר השד' העניים רואין ובאין:

"Hora vazia" — (um momento) em que não há pobres perto dele, e diria a seu parente pobre: apressa-te e toma aqui, antes que outros venham; mas agora, que a deixa ao término da colheita do campo, os pobres (já) veem e vêm.