Talmud Bavli · Massechet Shabbat · Perek Alef
מַאן תַּנָּא

A opinião de Rabi Yehoshua, e o motivo de cada um dos dezoito decretos que invalidam a teruma

Shabbat 14a — a resposta de Rabba bar bar Chana de que a baraita segue Rabi Yehoshua, contra Rabi Eliezer, quanto ao grau de impureza de quem come alimento de primeiro e de segundo grau; o motivo do decreto sobre quem come alimento impuro e quem bebe líquido impuro; a origem histórica do decreto sobre a água extraída após a imersão, e a discussão entre Abaie e Rava sobre o erro que se temia; o decreto sobre o puro atingido por três login de água extraída; o motivo do decreto sobre o livro sagrado, ligado ao perigo de os ratos estragarem a teruma guardada junto a ele; o motivo do decreto sobre as mãos "atarefadas", e a baraita de que também as mãos que tocaram um rolo da Torá invalidam a teruma, com a explicação de Rabi Yochanan sobre "segurar o rolo da Torá desnudo"; e a abertura da pergunta sobre qual desses decretos foi promulgado primeiro.

O daf abre respondendo à pergunta com que fechou 13b: quem é o Tana por trás da posição de que comer alimento de primeiro ou de segundo grau de impureza apenas invalida a teruma, sem torná-la fonte de impureza para outros itens? Rabba bar bar Chana identifica essa posição como a de Rabi Yehoshua, em contraste com Rabi Eliezer — trazendo a Mishná onde os dois sábios discordam sobre os graus sucessivos de impureza gerados por quem come alimentos contaminados, inclusive quanto à diferença entre o grau "para o sagrado" e o grau "para a teruma". A Guemará então percorre, item por item, a lista dos dezoito decretos citada em 13b, perguntando o motivo de cada um: por que se decretou impureza sobre quem come alimento impuro e sobre quem bebe líquido impuro (para que não venha a contaminar, pela boca, o outro tipo de teruma que eventualmente consumisse em seguida); por que sobre a água extraída que caía sobre a cabeça e a maior parte do corpo após a imersão ritual (originada do costume de lavar com água extraída o mau cheiro das águas de caverna, o que levou ao risco de se pensar que a própria água extraída purificava, temor debatido entre Abaie e Rava); por que sobre o puro atingido por três login de água extraída (para não distinguirem, sem motivo, entre esse caso e o anterior); por que sobre o livro sagrado (pois inicialmente guardavam alimentos de teruma junto ao rolo da Torá, dizendo que ambos eram sagrados, até perceberem que os ratos atraídos pela comida vinham a estragar o rolo); e por que sobre as mãos, "que são atarefadas" e tocam em coisas impróprias sem que a pessoa perceba — anexando-se uma baraita de que até as mãos que se sujam por segurar um rolo da Torá desnudo (sem capa) invalidam a teruma, por causa do dito de Rabi Yochanan sobre quem segura assim o rolo, refinado em três etapas até a explicação final: "desnudo daquele mandamento específico". O daf fecha abrindo a pergunta sobre qual desses decretos foi promulgado primeiro, cuja resposta prossegue em 14b.

A resposta: a baraita segue Rabi Yehoshua · רַבִּי יְהוֹשֻׁעַ הִיא

01Rabba bar bar Chana: é a opinião de Rabi Yehoshua, contra Rabi Eliezer
Guemará; Rabba bar bar Chana; Mishná (Rabi Eliezer e Rabi Yehoshua)
לָא מְטַמּוּ? אָמַר רַבָּה בַּר בַּר חָנָה, רַבִּי יְהוֹשֻׁעַ הִיא. דִּתְנַן: רַבִּי אֱלִיעֶזֶר אוֹמֵר: הָאוֹכֵל אוֹכֶל רִאשׁוֹן — רִאשׁוֹן. וְאוֹכֵל אוֹכֶל שֵׁנִי — שֵׁנִי. אוֹכֶל שְׁלִישִׁי — שְׁלִישִׁי. רַבִּי יְהוֹשֻׁעַ אוֹמֵר: הָאוֹכֵל אוֹכֶל רִאשׁוֹן וְאוֹכֶל שֵׁנִי — שֵׁנִי. שְׁלִישִׁי — שֵׁנִי לַקּוֹדֶשׁ, וְאֵין שֵׁנִי לַתְּרוּמָה בְּחוּלִּין שֶׁנַּעֲשׂוּ עַל טׇהֳרַת תְּרוּמָה.

"...(mas) não a tornam (fonte de) impureza (retomando a pergunta de 13b)?" Disse Rabba bar bar Chana: é a opinião de Rabi Yehoshua. Pois se ensinou (numa Mishná): Rabi Eliezer diz: quem come alimento de primeiro grau (de impureza, torna-se ele mesmo) primeiro grau; e quem come alimento de segundo grau (torna-se) segundo grau; quem come (alimento de) terceiro grau (torna-se) terceiro grau. Rabi Yehoshua diz: quem come alimento de primeiro grau, e quem come (alimento de) segundo grau (ambos tornam-se) segundo grau. (Quem come alimento de) terceiro grau (torna-se) segundo grau para o sagrado, mas não há segundo grau para a teruma (a partir de terceiro grau, exceto) em chulin (alimento comum) que se preparou (com a intenção de mantê-lo) na pureza da teruma.

Nota

A Guemará resolve a pergunta com que terminou 13b, identificando a autoria da posição de que comer alimento de primeiro ou de segundo grau de impureza apenas invalida a teruma que se toca depois, sem tornar a própria pessoa fonte plena de impureza. Rabba bar bar Chana atribui essa posição a Rabi Yehoshua, citando a disputa entre ele e Rabi Eliezer sobre os graus sucessivos de impureza transmitidos por quem come alimentos contaminados. Para Rabi Eliezer, cada grau de impureza no alimento se transfere identicamente a quem o come — quem come primeiro grau torna-se primeiro grau, e assim por diante — de modo que ele continuaria capaz de propagar impureza plena. Para Rabi Yehoshua, porém, tanto quem come alimento de primeiro quanto de segundo grau tornam-se igualmente "segundo grau" — um nível que já não é fonte de impureza para a teruma (apenas a invalida ao tocá-la), embora ainda seja considerado segundo grau em relação a itens consagrados (kodashim), que são mais sensíveis. Quanto a quem come alimento de terceiro grau, sua condição de "segundo grau para o sagrado" só é relevante no caso especial de chulin preparado com a pureza de teruma em mente, já que chulin comum jamais chegaria a ter um terceiro grau de impureza detectável.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "não tornam impuro", "primeiro grau", "segundo", "terceiro" e "chulin feitos na pureza da teruma"
לא מטמו - את התרומה להיות שניה והיא תחזור ותפסול אחרים:

"Não tornam impuro" — a teruma, para que se torne segundo grau e volte a invalidar outras (terumot pelo seu toque).

האוכל אוכל ראשון - נעשה גופו ראשון ומטמא את התרומה להיות שנייה והיא תחזור ותפסול שלישי:

"Quem come alimento de primeiro grau" — seu corpo torna-se primeiro grau, e torna impura a teruma para que se torne segundo grau, e ela voltará a invalidar (o que a tocar, tornando-o) terceiro grau.

שני - פוסל ואינו מטמא: שלישי - אינו פוסל תרומה במגעו אבל הקדשים פוסל ובפ"ב דשחיטת חולין מפרש טעמא דתרוייהו:

"Segundo (grau)" — invalida, mas não torna impuro (outros itens em diante). "Terceiro (grau)" — não invalida a teruma pelo seu toque, mas invalida (itens) consagrados; e no segundo capítulo de Chulin se explica o motivo de ambos.

ר' יהושע אומר האוכל אוכל ראשון הוי שני וכן האוכל אוכל שני הוי שני - והתם מפרש טעמא מצינו שהשני עושה שני ע"י משקין דמשקין אפי' הן שניים נעשין תחלה ועושין מגען שני ואף כאן החמירו בשני לעשות האוכלו כיוצא בו:

"Rabi Yehoshua diz: quem come alimento de primeiro grau é segundo, e também quem come alimento de segundo grau é segundo" — e ali (em Chulin) se explica o motivo: encontramos que o segundo grau produz (outro) segundo grau por meio de líquidos, pois os líquidos, mesmo sendo (eles mesmos apenas) segundo grau, tornam-se (como) primeiro grau (quanto a transmitir impureza adiante), e fazem com que seu toque (produza) segundo grau; e também aqui foram rigorosos quanto ao segundo grau, para tornar quem o come semelhante a ele.

שלישי שני לקדש - האוכל אוכל שלישי עושה גופו שני לקדש והתם מפרש טעמא דהאי אוכל שלישי חולין שנעשו על טהרת תרומה הוא וטהרתן טומאה היא אצל הקדש הלכך שמירה דידה לאו שמירה היא לענין קודש וחיישינן באוכל שלישי דידיה דילמא ראשון הוא והאוכלו שני:

"Terceiro (grau), segundo para o sagrado" — quem come alimento de terceiro grau torna seu corpo segundo grau para o sagrado; e ali se explica o motivo: que este alimento de terceiro grau é chulin preparado na pureza da teruma, e sua pureza é (considerada como) impureza em relação ao sagrado; portanto, sua guarda não é guarda (suficiente) para efeito do sagrado, e receamos, quanto a quem come esse terceiro grau, que talvez (o alimento fosse na verdade) primeiro grau, e quem o comesse (se tornasse) segundo.

בחולין שנעשו על טהרת תרומה - כלומר באיזו חולין אתה מוצא אוכל שלישי בחולין שנעשו על טהרת תרומה דאילו חולין גרידא לא משכחת בהו שלישי:

"Em chulin que se preparou na pureza da teruma" — isto é, em qual chulin se encontra alimento de terceiro grau? Em chulin preparado na pureza da teruma; pois em chulin puro e simples não se encontraria terceiro grau.

O motivo de cada decreto: comer e beber impuro · מַאי טַעְמָא גְּזַרוּ בֵּיהּ רַבָּנַן

02Por que decretaram impureza sobre quem come alimento impuro
Guemará
אוֹכֵל אוֹכֶל רִאשׁוֹן וְאוֹכֵל אוֹכֶל שֵׁנִי — מַאי טַעְמָא גְּזַרוּ בֵּיהּ רַבָּנַן טוּמְאָה? דְּזִימְנִין דְּאָכֵיל אוֹכָלִין טְמֵאִין, וְשָׁקֵיל מַשְׁקִין דִּתְרוּמָה, וְשָׁדֵי לְפוּמֵּיהּ וּפָסֵיל לְהוּ.

Quem come alimento de primeiro grau e quem come alimento de segundo grau — qual o motivo pelo qual os sábios decretaram impureza sobre ele? (Responde-se:) Porque às vezes come alimentos impuros, e toma líquidos de teruma, e os lança à sua boca, e os invalida (pelo contato do alimento impuro que ainda está em sua boca com o líquido).

Nota

A Guemará inicia a explicação sistemática, item por item, do motivo de cada um dos dezoito decretos. Para o primeiro caso — quem come alimento de primeiro ou de segundo grau de impureza —, a razão do decreto é preventiva: teme-se que, tendo acabado de comer algo impuro, a pessoa em seguida tome líquidos de teruma e os leve à boca, momento em que restos do alimento impuro ainda presentes na boca entrariam em contato com o líquido e o invalidariam. Para evitar esse risco de contato indireto, os sábios decretaram que a própria pessoa que comeu alimento impuro se torna, ela mesma, capaz de invalidar a teruma que tocar depois, incentivando-a a evitar por completo o contato com teruma enquanto não se purificar.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "qual o motivo do decreto" e "invalida"
מאי טעמא גזור - באדם האוכל שיהא טמא:

"Qual o motivo do decreto" — sobre a pessoa que come, para que se torne impura.

ופסיל להו - והתורה הזהירה על התרומה לשמרה בטהרה דכתיב את משמרת תרומתי לפיכך גזרו באוכל אוכלין טמאין שלא יהא רגיל אצל תרומה:

"E os invalida" — e a Torá advertiu sobre a teruma, para guardá-la em pureza, como se escreve: "e guardarás Minha teruma" (Números 18:8); por isso decretaram sobre quem come alimentos impuros, para que não se acostume a ficar perto da teruma.

03Por que decretaram sobre quem bebe líquido impuro — e por que não bastava um só decreto
Guemará
שׁוֹתֶה מַשְׁקִין טְמֵאִין — מַאי טַעְמָא גְּזַרוּ בֵּיהּ רַבָּנַן טוּמְאָה? דְּזִימְנִין דְּשָׁתֵי מַשְׁקִין טְמֵאִין, וְשָׁקֵיל אוֹכָלִין דִּתְרוּמָה וְשָׁדֵי לְפוּמֵּיהּ וּפָסֵיל לְהוּ. הַיְינוּ הָךְ? מַהוּ דְתֵימָא: הָא שְׁכִיחִי, וְהָא לָא שְׁכִיחִי — קָא מַשְׁמַע לַן.

Quem bebe líquidos impuros — qual o motivo pelo qual os sábios decretaram impureza sobre ele? Porque às vezes bebe líquidos impuros, e toma alimentos de teruma, e os lança à sua boca, e os invalida. (Pergunta:) Isso não é o mesmo (motivo do decreto anterior, sendo então um só decreto)? (Responde-se:) Poderias dizer: este (caso, de quem come impuro e bebe teruma) é comum, e aquele (caso, de quem bebe impuro e come teruma) não é comum (e por isso não mereceria decreto próprio)(por isso) nos ensina (que também este segundo caso mereceu decreto separado).

Nota

A Guemará explica o segundo item pelo mesmo mecanismo do primeiro, invertendo a ordem: teme-se que quem bebeu líquido impuro venha, em seguida, a comer alimento de teruma, contaminando-o pelo contato na boca. Diante da aparente redundância — já que o motivo é estruturalmente idêntico ao do item anterior —, a Guemará explica por que a Mishná contou os dois casos separadamente, como dois dos dezoito decretos, e não como um só: alguém poderia pensar que apenas o primeiro caso (comer impuro e depois beber teruma) é comum, pois é habitual que quem come também beba em seguida, enquanto o caso inverso (beber impuro e depois comer teruma) seria incomum, e por isso dispensável de decreto. A Mishná ensina que, na realidade, os sábios decretaram sobre ambos os casos, sem exceção.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "isto é comum" e "aquilo não é comum"
הא שכיחא - שאדם שותה עם אכילתו:

"Isto é comum" — que a pessoa bebe junto com sua comida.

והא לא שכיחא - שיהא אוכל עם שתייתו:

"E aquilo não é comum" — que coma junto com sua bebida.

A água extraída após a imersão · הַבָּא רֹאשׁוֹ וְרוּבּוֹ בְּמַיִם שְׁאוּבִין

04A origem do decreto: da água de caverna fétida ao costume fixo
Guemará; Rav Bivi em nome de Rav Assi
וְהַבָּא רֹאשׁוֹ וְרוּבּוֹ בְּמַיִם שְׁאוּבִין — מַאי טַעְמָא גְּזַרוּ בֵּיהּ רַבָּנַן טוּמְאָה? אָמַר רַב בִּיבִי אָמַר רַב אַסִּי: שֶׁבַּתְּחִלָּה הָיוּ טוֹבְלִין בְּמֵי מְעָרוֹת מְכוּנָּסִין וּסְרוּחִין, וְהָיוּ נוֹתְנִין עֲלֵיהֶן מַיִם שְׁאוּבִין. הִתְחִילוּ וַעֲשָׂאוּם קֶבַע — גָּזְרוּ עֲלֵיהֶם טוּמְאָה.

"E quem submerge a cabeça e a maior parte do corpo em água extraída" — qual o motivo pelo qual os sábios decretaram impureza sobre ele? Disse Rav Bivi em nome de Rav Assi: porque no início imergiam em águas de cavernas, (águas) reunidas e fétidas, e derramavam sobre si (depois) água extraída (para lavar o mau cheiro). Começaram e a tornaram (prática) fixa — decretaram sobre elas impureza.

Nota

A Guemará passa ao próximo item, o decreto sobre quem, depois de já ter imergido corretamente para se purificar, submerge a cabeça e a maior parte do corpo em água extraída (isto é, água retirada com um recipiente, e não colhida diretamente de uma fonte ou reservatório natural, que é o único tipo de água válido para a imersão ritual). Rav Bivi explica, em nome de Rav Assi, a origem histórica desse costume: originalmente, as pessoas imergiam em águas de cavernas — reservatórios válidos por serem águas reunidas naturalmente, mas frequentemente estagnadas e malcheirosas. Por isso, depois de imergir, tinham o hábito de derramar sobre si água extraída (limpa, de poço ou balde) apenas para remover o mau cheiro, sem qualquer intenção de purificação adicional. Com o tempo, porém, esse hábito de lavagem se tornou tão arraigado e automático — uma prática fixa — que os sábios temeram uma confusão conceitual grave, e por isso decretaram impureza sobre a própria água extraída usada dessa forma.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre a versão correta do texto, "derramavam sobre si" e "começaram"
ה"ג היו טובלין במי מערה סרוחים מכונסין - שיש בה מ' סאה מי גשמים שהם כשרים לכל טמא חוץ מזב לבדו דכתיב ביה מים חיים:

Assim é a versão correta: "imergiam em água de caverna, fétida, reunida" — que tinha nela quarenta seá de água de chuva, válidas para todo impuro, exceto para o zav apenas, pois a respeito dele se escreve "águas vivas" (Levítico 15:13, que exige água corrente).

והיו נותנין עליהן - על גופן מים שאובין להעביר סרחון המקוה:

"E derramavam sobre elas" — sobre seus corpos, água extraída, para remover o mau cheiro do mikvê.

התחילו - הטובלין ועשו השאובין קבע לפיכך גזרו על השאובין טומאה לטמא אדם אחר טבילתו אבל אין מטמא שום אוכל ומשקה אלא אם כן נטמאו בשרץ:

"Começaram" — os que imergiam, e tornaram a água extraída (prática) fixa; por isso decretaram sobre a água extraída impureza, para tornar impura a pessoa depois de sua imersão; mas (essa água) não torna impuro alimento ou líquido algum, a menos que estes se tenham tornado impuros por um réptil (sheretz, fonte primária de impureza).

05Abaie e Rava: qual era exatamente o erro temido
Guemará; Abaie; Rava
מַאי קֶבַע? — אָמַר אַבָּיֵי, שֶׁהָיוּ אוֹמְרִים: לֹא אֵלּוּ מְטַהֲרִין, אֶלָּא אֵלּוּ וָאֵלּוּ מְטַהֲרִין. אֲמַר לֵיהּ רָבָא: מַאי נָפְקָא מִינַּהּ, הָא קָא טָבְלִי בְּהָנָךְ? אֶלָּא אָמַר רָבָא: שֶׁהָיוּ אוֹמְרִים: לֹא אֵלּוּ מְטַהֲרִין, אֶלָּא אֵלּוּ מְטַהֲרִין.

O que é "(prática) fixa"? Disse Abaie: que diziam: "não são estas (as águas de caverna, sozinhas) que purificam, mas sim estas e aquelas (águas extraídas, juntas) que purificam." Disse-lhe Rava: que diferença faz (dizerem isso), se afinal imergem nestas (águas de caverna, validamente)? Mas, disse Rava: (o erro era) que diziam: "não são estas (as águas de caverna) que purificam, mas sim aquelas (as águas extraídas, sozinhas) que purificam."

Nota

A Guemará precisa o exato conteúdo do erro que motivou o decreto. Abaie propõe que o problema era um erro de atribuição parcial: as pessoas passaram a dizer que a purificação resultava da combinação das águas de caverna com a água extraída derramada depois — "estas e aquelas" purificam juntas —, quando na verdade apenas a imersão nas águas de caverna (naturais) tem eficácia purificadora; a água extraída não contribui em nada. Rava objeta que esse erro, por si só, não seria grave o suficiente para justificar um decreto, já que, de qualquer forma, a pessoa efetivamente imergia nas águas de caverna válidas — o equívoco seria apenas teórico, sem consequência prática. Rava propõe então um erro mais grave: as pessoas chegaram a dizer que "não são estas, mas sim aquelas" que purificam — isto é, inverteram completamente a atribuição, passando a crer que a água extraída sozinha bastaria para purificar, e a água de caverna seria dispensável. Esse erro sim ameaçava levar ao abandono da imersão em água de coleta natural (a única halachicamente válida) em favor da água extraída (que a Torá explicitamente não reconhece para a purificação), razão suficiente para o decreto severo.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "não estas" segundo Abaie, "que diferença faz" e a versão final de Rava
לא אלו - דמקוה לבדה מטהרין אלא אלו ואלו מטהרין דמתוך שהורגלו הכל בכך לא היו יודעין שלהעביר הזוהמא היו השאובין באין אלא לטהר:

"Não são estas" — que o mikvê sozinho purifica, mas sim estas e aquelas purificam juntas; pois, por se terem todos acostumado a isso, não sabiam que as águas extraídas vinham apenas para remover a sujeira, e pensavam que vinham para purificar.

מאי נפקא לן מינה - כיון שכולן טובלין תחלה במקוה מאי איכפת לרבנן אם עשאוה הטובלין קבע אחר טבילה:

"Que diferença faz" — já que todos imergem primeiro no mikvê, que importa aos sábios se os que imergem a tornaram (a água extraída) fixa depois da imersão?

אלא אלו מטהרין - וחיישינן דילמא אתי לבטולי תורת מקוה וטובלין בשאובין והתורה אמרה אך מעין ובור מקוה מים וגו':

"Mas sim aquelas (purificam)" — e receamos que talvez viessem a anular a lei do mikvê e imergissem (apenas) em águas extraídas, e a Torá disse: "somente fonte e poço, ajuntamento de águas..." (Levítico 11:36, exigindo água reunida naturalmente).

06O puro atingido por três login de água extraída
Guemará
וְטָהוֹר שֶׁנָּפְלוּ עַל רֹאשׁוֹ וְרוּבּוֹ שְׁלֹשָׁה לוּגִּין מַיִם שְׁאוּבִין — מַאי טַעְמָא גְּזַרוּ בֵּיהּ רַבָּנַן טוּמְאָה? — דְּאִי לָא הָא, לָא קָיְימָא הָא.

"E o puro sobre cuja cabeça e maior parte do corpo caíram três login de água extraída" — qual o motivo pelo qual os sábios decretaram impureza sobre ele? Porque, se não (fosse por) este (decreto), não se sustentaria aquele (decreto anterior).

Nota

O sexto item — uma pessoa já completamente pura (que não estava em processo de imersão) sobre a qual caíram três login de água extraída — recebe uma explicação distinta: não um motivo histórico próprio, mas uma necessidade lógica derivada do decreto anterior. Se os sábios tivessem decretado impureza apenas para quem submerge em água extraída logo após a imersão, mas não para uma pessoa já pura atingida pela mesma água extraída em outra ocasião, as pessoas fariam uma distinção artificial entre os dois casos, perguntando-se por que um seria impuro e o outro não — e essa distinção poderia minar a compreensão e a observância do primeiro decreto. Por isso, para que o decreto original "se sustente" de modo coerente e sem exceções que gerassem confusão, os sábios estenderam a mesma impureza também ao puro atingido pela água extraída em qualquer circunstância.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "qual o motivo" e "se não fosse por este"
מ"ט - הא לאו לאחר טבילה הוה:

"Qual o motivo" — pois este (caso) não é depois da imersão.

אי לאו - דגזור אף על הטהור לא קיימא גזירה הבא אחר טבילה דאמרי מ"ש האי מהאי:

"Se não (fosse)" que decretassem também sobre o puro, não se sustentaria o decreto sobre quem (a recebe) depois da imersão, pois diriam: "em que (este caso) difere daquele?"

O livro sagrado, junto à teruma · וְסֵפֶר, מַאי טַעְמָא גְּזַרוּ בֵּיהּ

07Por que o rolo sagrado invalida a teruma: o perigo dos ratos
Guemará; Rav Mesharshiya
וְסֵפֶר — מַאי טַעְמָא גְּזַרוּ בֵּיהּ רַבָּנַן טוּמְאָה? — אָמַר רַב מְשַׁרְשְׁיָא: שֶׁבִּתְחִלָּה הָיוּ מַצְנִיעִין (אֶת) אוֹכָלִין דִּתְרוּמָה אֵצֶל סֵפֶר תּוֹרָה, וַאֲמַרוּ: הַאי קֹדֶשׁ וְהַאי קֹדֶשׁ. כֵּיוָן דְּקָחָזוּ דְּקָאָתוּ לִידֵי פְסֵידָא, גְּזַרוּ בֵּיהּ רַבָּנַן טוּמְאָה.

"E o livro (sagrado)" — qual o motivo pelo qual os sábios decretaram impureza sobre ele? Disse Rav Mesharshiá: porque no início guardavam os alimentos de teruma junto ao rolo da Torá, e diziam: "isto é sagrado, e isto é sagrado" (convém guardá-los juntos). Quando viram que vinham a dar prejuízo, decretaram sobre ele (o rolo) os sábios impureza.

Nota

O sétimo item explica por que o toque num livro sagrado (rolo da Torá, ou das demais Escrituras) invalida a teruma. Rav Mesharshiá conta a origem prática do costume: por lógica de que ambos eram objetos sagrados, era comum guardar os alimentos de teruma junto ao próprio rolo da Torá, no mesmo local — talvez por conveniência de espaço, ou por sentir que essa proximidade era apropriada entre duas coisas santas. O problema surgiu quando os sábios perceberam que essa prática causava dano real: os ratos, atraídos pelo cheiro dos alimentos armazenados, vinham roer tanto a teruma quanto o precioso rolo da Torá guardado ao lado, danificando as Escrituras sagradas. Para impedir que continuassem a guardar teruma junto aos rolos, os sábios decretaram que o próprio rolo sagrado se tornasse capaz de invalidar a teruma que o tocasse, desestimulando definitivamente essa proximidade perigosa.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "vinham a dar prejuízo"
לידי פסידא - עכברים מצויין אצל אוכלין ומפסידים את הספר אבל בחולין לא הוצרכו לגזור דבלאו הכי נמי לא היו נותנין חול אצל קדש:

"Vinham a dar prejuízo" — os ratos são comuns junto aos alimentos, e estragam o livro (a que se aproximam); mas quanto a chulin (alimento comum) não precisaram decretar, pois, mesmo sem isso, não costumavam colocar o comum junto ao sagrado.

As mãos atarefadas, e o rolo da Torá desnudo · הַיָּדַיִם עַסְקָנִיּוֹת הֵן

08Por que as mãos invalidam a teruma; a baraita sobre segurar o rolo desnudo
Guemará; baraita; Rabi Parnach em nome de Rabi Yochanan; Rabi Zeira
וְהַיָּדַיִם — מִפְּנֵי שֶׁהַיָּדַיִם עַסְקָנִיּוֹת הֵן. תָּנָא, אַף יָדַיִם הַבָּאוֹת מֵחֲמַת סֵפֶר פּוֹסְלוֹת אֶת הַתְּרוּמָה. מִשּׁוּם דְּרַבִּי פַּרְנָךְ — דְּאָמַר רַבִּי פַּרְנָךְ אָמַר רַבִּי יוֹחָנָן: הָאוֹחֵז סֵפֶר תּוֹרָה עָרוֹם, נִקְבָּר עָרוֹם. עָרוֹם סָלְקָא דַּעְתָּךְ? אֶלָּא אָמַר רַבִּי זֵירָא: עָרוֹם בְּלֹא מִצְוֹת. בְּלֹא מִצְוֹת סָלְקָא דַּעְתָּךְ? אֶלָּא אֵימָא: עָרוֹם בְּלֹא אוֹתָהּ מִצְוָה.

"E as mãos" — porque as mãos são atarefadas (tocam em toda parte, sem que a pessoa perceba). Ensinou-se (numa baraita): também as mãos que se tornam (impuras) por causa do (toque no) livro (sagrado) invalidam a teruma. (E o motivo desta baraita é) por causa (do dito) de Rabi Parnach — pois disse Rabi Parnach em nome de Rabi Yochanan: quem segura um rolo da Torá desnudo (sem capa ou envoltório) será enterrado desnudo. (Objeção:) Desnudo, viria à mente (dizer isso literalmente)?! Mas disse Rabi Zeira: desnudo (quer dizer) sem (mérito de) mandamentos. (Nova objeção:) Sem mandamentos, viria à mente? Mas dize: desnudo sem aquele (específico) mandamento (que estava realizando ao tocar o rolo sem capa).

Nota

O oitavo item explica o decreto sobre as mãos, que são impuras por padrão até serem lavadas: o motivo é que "as mãos são atarefadas" — isto é, tocam constantemente em objetos diversos, muitas vezes sujos ou impróprios, sem que a pessoa tenha plena consciência disso, tornando-as um veículo natural de contaminação inadvertida da teruma. Uma baraita anexa uma extensão desse decreto: mesmo mãos que se tornaram impuras especificamente por terem tocado um rolo sagrado também invalidam a teruma. A Guemará explica essa extensão específica por meio do dito de Rabi Parnach em nome de Rabi Yochanan, segundo o qual quem segura um rolo da Torá "desnudo" — sem a capa ou envoltório protetor que normalmente o reveste — sofre a punição de ser "enterrado desnudo". A expressão passa por dois refinamentos sucessivos: primeiro se rejeita a leitura literal (ser enterrado sem roupas, punição desproporcional), propondo-se que significa ser enterrado "sem mérito de mandamentos" (despojado de toda recompensa espiritual); essa leitura também é rejeitada como exagerada, chegando-se à formulação final e mais precisa: a pessoa perde apenas o mérito daquele mandamento específico que estava cumprindo no momento em que tocou o rolo desprotegido — por exemplo, se erguia o rolo para uma leitura pública, não recebe crédito por essa mitzvá específica, por tê-la realizado de modo inadequado.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "atarefadas são" e "rolo da Torá desnudo"
עסקניות הן - ונוגעין בבשרו ובמקום טנופת וגנאי לתרומה בכך ונמאס לאוכלין כשנוגע בה בידים מסואבות ורבותינו מפרשים חיישינן שמא נגעו [ידיו] בטומאה [ונטמא] וקשיא לי אם כן ניחוש שמא נגע באב הטומאה ונמצא ראשון ויטמאנה ועוד מאי שנא ידים לחודייהו בכל גופו נגזור לפסול תרומה שמא נגעו ידיו בטומאה ונטמא כל גופו ועוד לא תסגי להו בנטילה אלא בטבילה:

"Atarefadas são" — e tocam na própria carne (da pessoa) e em lugar de sujeira, o que é indecoroso para a teruma, e repugnante para quem a come, quando (a teruma) é tocada com mãos manchadas. E nossos mestres explicam: receamos que talvez as mãos tenham tocado em impureza e se tenham tornado impuras. E é difícil para mim: se assim é, receemos que talvez tenham tocado numa fonte primária de impureza, e se tornariam primeiro grau, e tornariam impura a teruma (plenamente, e não apenas a invalidariam)! E mais: por que apenas as mãos? Que decretassem sobre todo o corpo, para invalidar a teruma, por receio de que tenham tocado impureza e todo o corpo se tenha tornado impuro; e mais, não bastaria a lavagem, mas seria necessária a imersão!

ספר תורה ערום - אלא על ידי מטפחת:

"Rolo da Torá desnudo" — (segurá-lo sem tocar) senão por meio de um pano (protetor).

Qual decreto foi promulgado primeiro · הֵי גְּזוּר בְּרֵישָׁא

09A pergunta se abre: qual dos decretos veio antes
Guemará
הֵי גְּזוּר בְּרֵישָׁא? אִילֵימָא הָא גְּזוּר בְּרֵישָׁא,

Qual (decreto) foi promulgado primeiro? Se disseres que este (a impureza geral das mãos) foi promulgado primeiro... (a pergunta prossegue em Shabbat 14b)

Nota

O daf fecha com a Guemará abrindo uma nova investigação: entre os dois decretos relacionados às mãos — a impureza geral que recai sobre as mãos por padrão, e a impureza específica das mãos que tocaram um rolo sagrado —, qual foi promulgado cronologicamente primeiro? A pergunta é interrompida no meio da primeira hipótese ("se disseres que este foi promulgado primeiro"), e sua resolução — mostrando que a ordem lógica exige que o decreto sobre o toque no rolo viesse primeiro, sendo o decreto geral sobre as mãos uma extensão posterior — é dada logo no início de Shabbat 14b.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "se disseres que este foi promulgado primeiro"
אילימא הא - דסתם ידים גזור ברישא:

"Se disseres que este" — que a impureza das mãos, por padrão, foi decretada primeiro...