O daf continua diretamente de 143b, sem qualquer pausa e ainda dentro do Perek Vinte e Dois, Chavit (Shabbat 143b:1-148a:4, conforme a estrutura de capítulos do Sefaria). Conclui-se a resposta dos Sábios ao kal vachomer de Rabi Akiva: como o leite do animal tornaria impuro mesmo quando sai sem vontade, se o sangue de sua ferida é puro? Rabi Akiva responde que é mais rigoroso com o leite do que com o sangue, pois quem ordenha um animal para fins medicinais torna o leite impuro, enquanto quem o sangra para fins medicinais deixa o sangue puro. Os Sábios replicam com o caso dos cestos de azeitonas e uvas, cujo líquido só torna impuro quando sai por vontade. A guemará usa essa mishná para retomar a objeção contra a baraita de amoras e romãs: se "sem vontade" significa o caso sem propósito especificado, como poderia Rabi Yehuda proibir o não especificado em frutas que nem sequer se destinam à espremedura? A objeção é rejeitada de dois modos: "sem vontade" pode ser o caso em que a pessoa declarou expressamente não querer o líquido, ou os cestos são um caso à parte, pois o líquido que deles goteja se perde e é renunciado desde o início. Por fim, a guemará pergunta de onde se sabe que os Sábios concordam com Rabi Yehuda quanto às demais frutas, e começa a citar uma baraita — que se conclui em Shabat 144b.
…tornaria impuro o leite do animal mesmo quando saiu sem vontade, se o sangue de sua ferida é puro?! Disse-lhes Rabi Akiva: sou mais rigoroso com o leite do que com o sangue, pois quem ordenha um animal para fins medicinais — o leite é impuro, isto é, capacita o alimento a receber impureza; e quem sangra o animal para fins medicinais — o sangue é puro. Disseram-lhe: os cestos de azeitonas e uvas o provarão, pois os líquidos que saem deles por vontade são impuros, e os que saem sem vontade são puros.
“Sou mais rigoroso com o leite” — para torná-lo impuro mesmo quando sai sem vontade, mais do que com o sangue.
“Pois quem ordenha” — para o tratamento do animal, para que seu leite não lhe faça mal: o leite é impuro, pois saiu por vontade; e quem sangra seu animal para tratamento: o sangue é puro, pois é como o sangue de sua ferida. E, já que quem ordenha para tratamento deixa o leite impuro, também o que goteja sem vontade é impuro.
“Disseram-lhe” — não é comparável o que sai sem vontade ao que sai por vontade, pois os cestos de azeitonas e uvas o provarão, que o líquido etc.
O daf retoma exatamente onde 143b se interrompera, no meio da resposta dos Sábios ao kal vachomer de Rabi Akiva. O leite da mulher torna impuro mesmo quando sai sem vontade porque se equipara ao sangue de sua ferida, que é impuro; mas o sangue da ferida do animal é puro, e por isso não haveria base para estender o mesmo rigor ao leite do animal. Rabi Akiva não aceita a refutação: no caso do animal, ele é de todo modo mais rigoroso com o leite do que com o sangue, como mostra o caso de quem ordenha ou sangra o animal para fins medicinais — o leite assim extraído conta como líquido, o sangue não. Os Sábios então trazem um contraexemplo: o líquido que goteja dos cestos de azeitonas e uvas só torna impuro quando sai por vontade, o que mostra que a distinção entre “por vontade” e “sem vontade” vale de fato para os líquidos em geral.
A guemará analisa: não será que “por vontade” se refere ao caso em que a pessoa se satisfaz com a saída do líquido, e “sem vontade”, ao caso sem propósito especificado? Se é assim, se azeitonas e uvas, que se destinam à espremedura, quando o líquido sai sem vontade não é nada, amoras e romãs, que não se destinam à espremedura, não serão com mais razão ainda?
“Sem vontade”, isto é, sem propósito especificado — e ensina-se que são puros, pois não é considerado líquido. Se é Rabi Yehuda quem o diz, é uma dificuldade; e, se são os Sábios que o dizem, tanto mais são puros segundo Rabi Yehuda, pois algo que para os Sábios é líquido, para Rabi Yehuda não é líquido, e tanto mais algo que para os Sábios não é líquido. E agora a guemará argumenta: “se azeitonas e uvas etc.”. E, do mesmo modo, a guemará poderia ter contraposto também azeitonas e uvas a azeitonas e uvas, conforme ensinado acima, que Rabi Yehuda concorda quanto a elas que, mesmo recolhidas para alimento, o que sai delas é proibido. Mas esta objeção lhe pareceu mais forte para levantar a dificuldade: que, de amoras e romãs, que não se destinam à espremedura, ensina-se acima que quando recolhidas sem propósito especificado o que sai delas é proibido, e aqui se ensina que mesmo azeitonas e uvas, quando sem propósito especificado, não são tidas como destinadas a líquido.
A guemará volta à objeção levantada em 143b contra a baraita de amoras e romãs, agora apoiada nesta mishná. Se “sem vontade” significar o caso em que a pessoa não manifestou nenhuma preferência, então, quanto a azeitonas e uvas — frutas destinadas à espremedura —, o líquido que sai sem propósito especificado não tem estatuto de líquido; com mais razão ainda isso valeria para amoras e romãs, que não se destinam à espremedura. Como, então, a baraita atribui a Rabi Yehuda a proibição do que sai de amoras e romãs recolhidas sem propósito especificado? Rashi observa que a guemará poderia ter levantado também a contradição entre as próprias azeitonas e uvas de uma fonte e de outra, mas preferiu a objeção mais forte.
A guemará rejeita: não; “por vontade” refere-se ao caso sem propósito especificado, e “sem vontade”, ao caso em que a pessoa revelou sua intenção, dizendo: “Não me agrada”. E, se quiseres, dize: os cestos de azeitonas e uvas são diferentes; já que o líquido que deles goteja está destinado a se perder, desde o início a pessoa renuncia a ele.
“Revelou sua intenção” — explicitamente, e disse: “Não me agrada”; e isso é uma revelação de intenção maior do que o fato de tê-las recolhido para alimento.
“E, se quiseres, dize: os cestos de azeitonas e uvas são diferentes etc.” — e mencionou-se especificamente “cestos”, pois o líquido que deles goteja cai ao chão e se perde; por isso, quando sem propósito especificado, isso não agrada à pessoa.
“Renuncia a ele” — a esse líquido; mas, quanto aos demais recipientes, mesmo com amoras e romãs, eu te digo que, quando sem propósito especificado, são tidas como destinadas a líquido.
A guemará rejeita a prova de dois modos. Primeiro, “por vontade” pode incluir o caso não especificado, e “sem vontade” designar apenas o caso em que a pessoa declarou expressamente não querer o líquido — declaração mais forte, nota Rashi, do que simplesmente recolher as frutas para comer. Segundo, os cestos de azeitonas e uvas são um caso particular: o líquido que goteja deles cai ao chão e se perde, e por isso a pessoa renuncia a ele desde o início; em outros recipientes, mesmo com amoras e romãs, o líquido que sai sem propósito especificado continua a ser tido como destinado a líquido, de acordo com a baraita.
Encontramos na baraita que Rabi Yehuda concorda com os Sábios quanto a azeitonas e uvas. Que os Sábios concordam com Rabi Yehuda quanto às demais frutas, de onde o sabemos? Pois foi ensinado numa baraita: espremem-se…
Resolvida a objeção, a guemará retoma o fio da versão de Rabá vista em 143b, segundo a qual há concordância mútua: a baraita de azeitonas e uvas já mostrou que Rabi Yehuda concorda com os Sábios quanto a elas; resta encontrar a fonte de que os Sábios concordam com Rabi Yehuda quanto às demais frutas. A guemará começa a citar uma baraita que trata do que se pode espremer no Shabat, e a folha termina no meio da citação, que prossegue em Shabbat 144b.