Talmud Bavli · Massechet Shabbat · Perek Alef
בּוֹא וּרְאֵה

As crianças da escola e a vela; a pureza que se alastrou em Israel; a nidá e o marido; e o início do relato do discípulo que morreu na metade dos dias

Shabbat 13a — a conclusão da objeção sobre o chazan e as crianças da escola que liam à luz da vela; a nova sugya sobre o zav, a zavá e a pureza que se alastrou em Israel; a dúvida sobre a nidá dormir com o marido em roupas separadas, resolvida por analogia à ave e ao queijo e ao caso dos dois hóspedes; a prova do verso de Yechezkel; a disputa de Rabi Pedat; o costume contraditório de Ula ao beijar suas irmãs; e o início da baraita de Bet Eliyahu sobre o discípulo que estudou muito e morreu jovem, que prossegue em 13b.

O daf abre concluindo a discussão iniciada no fim de 12b sobre o chazan que arruma as parashiot à luz da vela: a Guemará traz uma objeção a partir do ensinamento de Rabban Shimon ben Gamliel sobre as crianças da escola, que arrumavam as parashiot e liam à luz da vela — aparentemente permitindo a leitura plena, ao contrário do que se concluíra — e a resolve de duas maneiras, a segunda das quais explica que as crianças, por temerem seu mestre, não chegam a inclinar a vela. Encerrado esse tema, a Guemará muda de assunto por associação: uma baraita de Rabi Shimon ben Elazar celebra até onde se alastrou a pureza em Israel, pois a Mishná restringiu a proibição de comer junto não a puro e impuro em geral, mas apenas ao zav e à zavá, por temor do hábito ao pecado — e por extensão, ao zav parush e ao zav am ha'aretz, por receio de que este habitue aquele a comidas impuras ou não dizimadas. Segue-se uma extensa dúvida sobre se a mulher em nidá pode dormir com o marido, cada um em sua própria roupa, sem contato direto — resolvida por meio de uma cadeia de comparações com a disputa de Bet Shamai e Bet Hillel sobre a ave e o queijo à mesma mesa, o caso dos dois hóspedes de Rabban Shimon ben Gamliel, o próprio caso do zav e da zavá, e por fim um verso de Yechezkel que equipara a nidá à mulher do próximo — do qual a Guemará conclui que mesmo com roupas separadas é proibido, embora Rabi Pedat discorde, entendendo que a Torá proibiu apenas o contato direto de relação incestuosa. A Guemará então narra o costume de Ula, que beijava as próprias irmãs no peito (ou nas mãos), aparentemente contradizendo sua própria opinião de que toda proximidade é proibida, por causa do princípio do nazireu que não deve se aproximar sequer das margens da vinha. O daf fecha abrindo a baraita da Escola de Eliyahu, com o início do relato do discípulo que estudou muito, leu muito e serviu muito aos sábios, mas morreu na metade de seus dias — relato que sua esposa levava, com seus tefilin, às sinagogas e casas de estudo, e cuja conclusão prossegue em 13b.

Conclusão: o chazan e as crianças da escola · הַתִּינוֹקוֹת שֶׁל בֵּית רַבָּן

01A objeção de Rabban Shimon ben Gamliel sobre as crianças da escola
Baraita: Rabban Shimon ben Gamliel
מֵיתִיבִי: רַבָּן שִׁמְעוֹן בֶּן גַּמְלִיאֵל אוֹמֵר, הַתִּינוֹקוֹת שֶׁל בֵּית רַבָּן הָיוּ מְסַדְּרִין פָּרָשִׁיּוֹת וְקוֹרִין לְאוֹר הַנֵּר. אִי בָּעֵית אֵימָא — רָאשֵׁי פָּרָשִׁיּוֹתָיו, וְאִי בָּעֵית אֵימָא — שָׁאנֵי תִּינוֹקוֹת, הוֹאִיל וְאֵימַת רַבָּן עֲלֵיהֶן לָא אָתֵי לְאַצְלוֹיֵי.

(A Guemará) levanta uma objeção (contra a conclusão anterior): Rabban Shimon ben Gamliel diz: as crianças da escola arrumavam as parashiot e liam à luz da vela. (Resposta:) Se quiseres, dize: (trata-se apenas de arrumar) os começos de suas seções (sem ler o texto inteiro); e, se quiseres, dize (alternativamente): diferentes são as crianças, pois, uma vez que o temor de seu mestre está sobre elas, não chegam a inclinar (a vela).

Nota

A Guemará conclui a discussão aberta no fim de 12b sobre o chazan que "arruma os começos de suas seções" à luz da vela. Traz-se agora uma objeção a partir de um ensinamento de Rabban Shimon ben Gamliel, que parece afirmar que as crianças da escola liam plenamente à luz da vela — o que contradiria a conclusão de que apenas "arrumar" é permitido, e não "ler". A Guemará responde de duas formas: a primeira, idêntica à resolução já dada para o chazan, entende que "liam" ali também significa apenas arrumar os começos das seções; a segunda oferece uma razão distinta, específica às crianças — como elas temem seu mestre, não se distrairiam a ponto de inclinar a vela mesmo lendo plenamente, de modo que, para elas, o próprio risco que fundamenta o decreto simplesmente não existe.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "o temor de seu mestre está sobre elas"
ואימת רבן עליהן - אין פושטין יד לשום דבר ואפי' בחול אלא על פי רבן:

"O temor de seu mestre está sobre elas" — não estendem a mão para coisa alguma, mesmo em dia comum, senão por ordem de seu mestre.

A pureza que se alastrou em Israel: o zav e a zavá · עַד הֵיכָן פָּרְצָה טׇהֳרָה בְּיִשְׂרָאֵל

02O zav e a zavá; o zav prushi e o zav am ha'aretz
Mishná; baraita: Rabi Shimon ben Elazar
כַּיּוֹצֵא בוֹ לֹא יֹאכַל הַזָּב. תַּנְיָא: רַבִּי שִׁמְעוֹן בֶּן אֶלְעָזָר אוֹמֵר: בּוֹא וּרְאֵה עַד הֵיכָן פָּרְצָה טׇהֳרָה בְּיִשְׂרָאֵל, שֶׁלֹּא שָׁנִינוּ ״לֹא יֹאכַל הַטָּהוֹר עִם הַטְּמֵאָה״, אֶלָּא לֹא יֹאכַל הַזָּב עִם הַזָּבָה מִפְּנֵי הֶרְגֵּל עֲבֵירָה. כַּיּוֹצֵא בוֹ: לֹא יֹאכַל זָב פָּרוּשׁ עִם זָב עַם הָאָרֶץ, שֶׁמָּא יַרְגִּילֶנּוּ אֶצְלוֹ.

"Semelhante a isso, o zav não deve comer (com a zavá)" (retomando a Mishná). Ensinou-se (numa baraita): Rabi Shimon ben Elazar diz: vinde e vede até onde se alastrou a pureza em Israel, pois não ensinamos (na Mishná): "o puro não deve comer com a impura", mas (apenas): "o zav não deve comer com a zavá", por causa do hábito ao pecado (isto é, apenas nesse caso específico, por receio de que a proximidade leve à transgressão). Semelhante a isso (ensinou-se também): o zav parush (cuidadoso quanto às leis de pureza) não deve comer com o zav am ha'aretz (descuidado), para que este não o habitue a si (a seus costumes).

Nota

Concluído o tema da vela, a Guemará passa, por associação com a expressão "semelhante a isso" na Mishná, a uma nova sugya sobre a proibição de o zav comer junto com a zavá. Rabi Shimon ben Elazar observa que essa proibição, embora pareça referir-se a pureza e impureza em geral, foi de fato formulada de modo restrito: a Mishná não proibiu qualquer pessoa pura de comer com qualquer pessoa impura — o que seria impraticável, já que a maioria das pessoas estava em algum grau de impureza ritual — mas apenas o caso específico do zav com a zavá, por causa do "hábito ao pecado": a proximidade íntima entre um homem e uma mulher, ambos com o mesmo tipo de impureza relacionada a fluxos corporais, poderia levar à transgressão sexual, já que ambos estão de qualquer forma impuros e a barreira psicológica se reduziria. Por extensão semelhante, ensinou-se que um zav cuidadoso com as leis de pureza (parush) não deve comer com um zav que é um am ha'aretz, descuidado nessas leis, por receio de que a convivência habitue o primeiro aos costumes displicentes do segundo.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "se alastrou" e "não ensinamos, o puro com a impura"
פרצה - גברה כמו ופרצת ימה וקדמה (בראשית כח):

"Se alastrou" — prevaleceu, como (no verso): "e te alastrarás (ufaratzta) para o mar e para o oriente" (Gênesis 28:14).

שלא שנינו לא יאכל הטהור עם הטמאה - מפני הערוה לפי שלא הוצרכו לכך שכולן אוכלין חוליהן בטהרה היו ולא היו אוכלין עם נשותיהן טמאות:

"Que não ensinamos: 'o puro não deve comer com a impura'" — por causa da (possível) imoralidade, pois não foi necessário (ensinar isso), já que todos comiam seu chulin (alimento comum) em pureza, e não comiam com suas esposas (quando estas estavam) impuras.

03O motivo real: alimentos impuros ou não dizimados
Guemará; Abaie; Rava
וְכִי מַרְגִּילוֹ אֶצְלוֹ מַאי הָוֵי? אֶלָּא אֵימָא: שֶׁמָּא יַאֲכִילֶנּוּ דְּבָרִים טְמֵאִין. אַטּוּ זָב פָּרוּשׁ לָאו דְּבָרִים טְמֵאִין אָכֵיל? אָמַר אַבָּיֵי: גְּזֵירָה שֶׁמָּא יַאֲכִילֶנּוּ דְּבָרִים שֶׁאֵינָן מְתוּקָּנִין. וְרָבָא אָמַר: רוֹב עַמֵּי הָאָרֶץ מְעַשְּׂרִין הֵן, אֶלָּא שֶׁמָּא יְהֵא רָגִיל אֶצְלוֹ וְיַאֲכִילֶנּוּ דְּבָרִים טְמֵאִין בִּימֵי טׇהֳרָתוֹ.

Mas, (se) o habitua a si, que (mal) haveria (nisso, já que ambos são zavim)? Mas dize (antes): para que não venha a alimentá-lo com coisas impuras. (Objeção:) Acaso o próprio zav parush não come coisas impuras (sendo ele mesmo impuro por seu fluxo)? Disse Abaie: (é antes) um decreto, para que não venha a alimentá-lo com coisas não dizimadas (pois o am ha'aretz é suspeito de não separar corretamente os dízimos). E Rava disse: a maioria dos amei ha'aretz dizima (corretamente, então não é essa a razão); mas (antes, o receio é) que (o zav parush) venha a se habituar a ele e (o am ha'aretz) o alimente com coisas impuras nos dias de sua pureza (depois de ter se purificado do fluxo).

Nota

A Guemará examina mais de perto a razão dada para a proibição entre o zav parush e o zav am ha'aretz. Pergunta-se: já que ambos são igualmente impuros por seu fluxo, que diferença faria se um se habituasse ao outro? Responde-se que o receio real não é sobre a impureza que ambos já compartilham, mas sobre o am ha'aretz vir a alimentar o parush com "coisas impuras" — ou seja, alimentos que o parush, por sua condição de zav, não deveria de qualquer forma tratar com o mesmo rigor de pureza que trataria fora dessa condição, mas que criam um hábito perigoso. A Guemará então questiona essa explicação: o próprio zav parush já come coisas impuras, dada sua condição! Abaie oferece uma explicação diferente: o verdadeiro receio é o decreto contra alimentos não dizimados corretamente, dos quais o am ha'aretz é suspeito. Rava discorda dessa premissa — a maioria dos amei ha'aretz de fato dizima devidamente — e propõe, em vez disso, que o real perigo é o hábito se estender além do período de impureza: o parush, acostumado a comer com o am ha'aretz enquanto ambos são zavim, poderia continuar esse hábito mesmo depois de purificado, quando o am ha'aretz viesse a alimentá-lo com alimentos genuinamente impuros.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "acaso o zav prushi não come coisas impuras" e "dizimam"
אטו זב פרוש לאו דברים טמאים קאכיל - והלא כל מגעו טמא:

"Acaso o zav parush não come coisas impuras?" — pois não é todo o seu toque impuro (de qualquer forma, sendo ele mesmo um zav)?

מעשרין הן - ולא גזרי' גזירה לגזירה:

"Dizimam" — e não decretamos (um) decreto sobre (outro) decreto.

A dúvida sobre a nidá que dorme com o marido, cada um em sua roupa · נִדָּה מַהוּ שֶׁתִּישַׁן עִם בַּעֲלָהּ

04A dúvida, e a primeira tentativa de resolução: a ave e o queijo
Guemará; Rav Yossef; Mishná: Bet Shamai e Bet Hillel
אִיבַּעְיָא לְהוּ: נִדָּה מַהוּ שֶׁתִּישַׁן עִם בַּעֲלָהּ הִיא בְּבִגְדָהּ וְהוּא בְּבִגְדוֹ? אָמַר רַב יוֹסֵף, תָּא שְׁמַע: הָעוֹף עוֹלֶה עִם הַגְּבִינָה עַל הַשֻּׁלְחָן וְאֵינוֹ נֶאֱכָל, דִּבְרֵי בֵּית שַׁמַּאי. בֵּית הִלֵּל אוֹמְרִים: לֹא עוֹלֶה וְלֹא נֶאֱכָל. שָׁאנֵי הָתָם דְּלֵיכָּא דֵּיעוֹת.

Levantou-se a dúvida entre eles: a mulher em nidá, qual é a lei quanto a ela dormir com seu marido, ela em sua roupa e ele em sua roupa (sem contato direto)? Disse Rav Yossef: vem e ouve (uma prova, a partir da Mishná): a ave sobe (à mesa) junto com o queijo sobre a mesa, mas não se come (junto) — palavras de Bet Shamai. Bet Hillel dizem: não sobe (à mesa), nem se come (junto). (Rejeição:) Diferente é ali, pois (entre a ave e o queijo) não há (duas) mentes (conscientes que possam se lembrar uma à outra do erro).

Nota

A Guemará levanta uma nova dúvida: pode a mulher em estado de nidá dormir na mesma cama que o marido, desde que cada um permaneça vestido em sua própria roupa, sem contato direto de pele? Rav Yossef tenta trazer uma prova da disputa conhecida entre Bet Shamai e Bet Hillel sobre colocar carne de ave e queijo na mesma mesa: Bet Shamai permite que ambos estejam sobre a mesa, desde que não sejam comidos juntos, enquanto Bet Hillel proíbe até mesmo colocá-los juntos sobre a mesa, por receio de que se confundam e sejam comidos juntos por engano. Se a mera proximidade de dois objetos gera uma proibição rabínica de aparência, talvez a proximidade física de dois corpos, mesmo vestidos, seja igualmente vedada. Mas a Guemará rejeita a comparação: no caso da ave e do queijo, trata-se de objetos inanimados, sem "mentes" (consciência) que possam se lembrar mutuamente da proibição; já no caso do marido e da mulher, cada um é dotado de consciência e pode, a qualquer momento, lembrar o outro da proibição, o que talvez torne a situação mais segura e, portanto, não comparável.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "dormir com o marido", "sobre a mesa" e "não há mentes"
שתישן עם בעלה - במטה כגון שהוא טמא דליכא למיחש משום טהרה או בזמן הזה שאין בו טהרה מי חיישי' להרגל עבירה או דילמא כיון דאיכא היכרא מדכר דכירי:

"Que ela durma com o marido" — na cama, por exemplo quando ele (também) está impuro (por outra causa), de modo que não há receio quanto à pureza; ou (mesmo) em nossos dias, quando não há (estado de) pureza (geral, pois todos estão em algum grau de impureza) — acaso ainda tememos o hábito ao pecado? Ou talvez, já que há (uma) marca distintiva (a roupa separando-os), eles se lembram (da proibição e não transgridem).

על השולחן - שאוכל עליו מותר להניח בשר העוף אצל הגבינה דקסברי בית שמאי בשר עוף בחלב לאו דאורייתא ולא גזרי' העלאה אטו אכילה:

"Sobre a mesa" — sobre a qual se come, é permitido colocar a carne da ave junto ao queijo, pois Bet Shamai entendem que carne de ave com leite não é (proibição) da Torá, e não decretamos (a proibição de) colocar (sobre a mesa) por causa de comer (junto).

ואינו נאכל - עמו:

"Mas não se come" — junto (com o queijo).

וב"ה אומרים כו' - ש"מ דאסור:

"E Bet Hillel dizem, etc." — (disso) se aprende que é proibido.

דליכא דיעות - שני בני אדם שיזכירו זה לזה וה"ה נמי דמצי לשנויי דליכא שינוי להיכרא ומיהו דעדיפא נקט דאפי' דיעות ליכא:

"Pois não há mentes" — duas pessoas que se lembrem uma à outra; e o mesmo (a Guemará) poderia ter respondido que não há (ali) uma marca distintiva para reconhecimento; mas (preferiu) trazer (a razão) mais forte, que sequer há (ali) mentes.

05Segunda tentativa: os dois hóspedes de Rabban Shimon ben Gamliel
Guemará; Mishná: Rabban Shimon ben Gamliel; Rav Chanin bar Ami em nome de Shmuel
הָכִי נָמֵי מִסְתַּבְּרָא דְּהֵיכָא דְּאִיכָּא דֵּיעוֹת שָׁאנֵי. דְּקָתָנֵי סֵיפָא: רַבָּן שִׁמְעוֹן בֶּן גַּמְלִיאֵל אוֹמֵר: שְׁנֵי אַכְסְנָיִים אוֹכְלִין עַל שֻׁלְחָן אֶחָד, זֶה אוֹכֵל בָּשָׂר וְזֶה אוֹכֵל גְּבִינָה, וְאֵין חוֹשְׁשִׁין. וְלָאו אִתְּמַר עֲלַהּ אָמַר רַב חָנִין בַּר אַמֵּי אָמַר שְׁמוּאֵל: לֹא שָׁנוּ אֶלָּא שֶׁאֵין מַכִּירִין זֶה אֶת זֶה, אֲבָל מַכִּירִין זֶה אֶת זֶה — אֲסוּרִים. וְהָנֵי נָמֵי, מַכִּירִין זֶה אֶת זֶה נִינְהוּ. הָכִי הַשְׁתָּא?! הָתָם דֵּיעוֹת אִיכָּא, שִׁינּוּי לֵיכָּא. הָכָא אִיכָּא דֵּיעוֹת וְאִיכָּא שִׁינּוּי.

Também assim é razoável, que onde há mentes (conscientes), é diferente (a lei). Pois se ensinou no final (da mesma Mishná): Rabban Shimon ben Gamliel diz: dois hóspedes comem sobre uma mesma mesa, este comendo carne e aquele comendo queijo, e não há preocupação. E não se disse a respeito disso (o seguinte, em nome de Shmuel): disse Rav Chanin bar Ami em nome de Shmuel: não ensinaram (essa permissão) senão quando não se conhecem um ao outro, mas (se) se conhecem um ao outro, é proibido? (Objeção:) E estes (o marido e a mulher) também se conhecem um ao outro (e, no entanto, se pretende permitir)! (Resposta:) Como se pode comparar?! Ali (no caso dos hóspedes) há mentes, mas não há marca distintiva (entre a carne e o queijo, que se parecem); aqui (no caso do marido e da mulher) há mentes e há (também) marca distintiva (a roupa que os separa — portanto, mais razão para permitir).

Nota

A Guemará tenta agora uma prova mais promissora, a partir do restante da mesma Mishná: Rabban Shimon ben Gamliel permite que dois hóspedes, um comendo carne e outro comendo queijo, sentem-se à mesma mesa sem receio de confusão. Um ensinamento em nome de Shmuel qualifica essa permissão: ela vale apenas quando os dois hóspedes não se conhecem (e por isso não compartilhariam comida um do prato do outro por educação e distância social); mas se se conhecem, a proibição permanece, por receio de que troquem pratos. A Guemará então questiona: no caso do marido e da mulher, eles certamente se conhecem — o que, pela regra de Shmuel, deveria proibir! A resposta distingue os dois casos por um segundo fator, além do conhecimento mútuo: uma "marca distintiva" (heiker) que impede confusão. No caso dos hóspedes que se conhecem, mesmo havendo consciência mútua, falta uma marca física que distinga visualmente a carne do queijo — ambos podem ter aparência semelhante, criando risco de troca acidental. Já no caso do marido e da mulher, existe tanto consciência mútua (que os lembraria da proibição) quanto uma marca distintiva evidente — a roupa de cada um, que fisicamente os separa e torna imediatamente perceptível qualquer aproximação indevida. Por isso, esse caso seria ainda mais seguro e, portanto, permitido.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "não se conhecem", "mas se conhecem", "não há marca" e "há marca"
שאין מכירין - דלא אתי חד למשקל מדחבריה ומיכל:

"Que não se conhecem" — pois um não vem a tomar (comida) de seu companheiro e comer.

אבל מכירין - אסור ואשה ובעלה [נמי] מכירין זה את זה וש"מ דאסור:

"Mas se conhecem" — é proibido; e a mulher e o marido também se conhecem um ao outro, e disso se aprenderia que é proibido.

שינוי ליכא - שאוכלין בדרך אכילה:

"Não há marca (distintiva)" — pois comem à maneira normal de comer (sem distinção visível).

איכא שינוי - שאין דרך לישן אלא בקירוב בשר כדכתיב שארה כסותה ועונתה ואמר מר שאר זה קירוב בשר שאם אמר אי איפשי אלא היא בבגדה והוא בבגדו יוציא ויתן כתובה במס' כתובות (פ"ד דף מח.):

"Há marca (distintiva)" — pois não é costume dormir (juntos) senão em contato direto de pele, como está escrito: "seu sustento, sua vestimenta e sua união conjugal" (Êxodo 21:10), e disse o Mestre: "sustento", isso é o contato direto de pele; de modo que, se (o marido) disser: não desejo (unir-me a ela) senão com ela em sua roupa e ele em sua roupa, deve (divorciá-la e) pagar-lhe a ketubá, (como se ensina) no tratado Ketubot (48a).

06A versão alternativa da mesma prova, e a prova do próprio zav
Guemará (versão alternativa); baraita do zav e da zavá
אִיכָּא דְּאָמְרִי: תָּא שְׁמַע, רַבָּן שִׁמְעוֹן בֶּן גַּמְלִיאֵל אוֹמֵר: שְׁנֵי אַכְסְנָיִים אוֹכְלִין עַל שֻׁלְחָן אֶחָד, זֶה בָּשָׂר וְזֶה גְּבִינָה. וְאִתְּמַר עֲלַהּ, אָמַר רַב חָנִין בַּר אַמֵּי אָמַר שְׁמוּאֵל: לֹא שָׁנוּ אֶלָּא שֶׁאֵין מַכִּירִין זֶה אֶת זֶה, אֲבָל מַכִּירִין זֶה אֶת זֶה — אָסוּר. וְהָנֵי נָמֵי, מַכִּירִין זֶה אֶת זֶה נִינְהוּ! הָתָם, דֵּיעוֹת אִיכָּא שִׁינּוּי לֵיכָּא. הָכָא, אִיכָּא דֵּיעוֹת וְאִיכָּא שִׁינּוּי. תָּא שְׁמַע: לֹא יֹאכַל הַזָּב עִם הַזָּבָה מִשּׁוּם הֶרְגֵּל עֲבֵירָה. הָכָא נָמֵי, דֵּיעוֹת אִיכָּא שִׁינּוּי לֵיכָּא.

Há quem diga (a mesma sequência de outra forma): vem e ouve: Rabban Shimon ben Gamliel diz: dois hóspedes comem sobre uma mesma mesa, este (comendo) carne e aquele (comendo) queijo. E disse-se a respeito disso: disse Rav Chanin bar Ami em nome de Shmuel: não ensinaram senão quando não se conhecem um ao outro, mas (se) se conhecem um ao outro, é proibido. (Objeção:) E estes também se conhecem um ao outro! (Resposta:) Ali há mentes, (mas) não há marca distintiva; aqui há mentes e há marca distintiva. Vem e ouve (outra prova): o zav não deve comer com a zavá, por causa do hábito ao pecado. (Objeção semelhante:) Aqui também há mentes, (mas) não há marca distintiva (entre eles, e por isso permanece proibido; o que confirma que, havendo marca distintiva como a roupa, é permitido).

Nota

A Guemará apresenta uma versão alternativa (ika de'amri) da mesma linha de raciocínio, chegando basicamente à mesma conclusão pelo mesmo caminho: a distinção entre "mentes" e "marca distintiva" explica por que o caso dos hóspedes que se conhecem permanece proibido, enquanto o caso do marido e da mulher, com a roupa como marca distintiva, poderia ser permitido. Acrescenta-se ainda uma nova prova, a partir do próprio caso do zav e da zavá que abriu esta sugya: ali, embora ambos certamente tenham consciência plena da proibição de se aproximarem (há "mentes"), falta uma marca distintiva física entre eles — nada os separa fisicamente de modo perceptível — e por isso a proibição permanece. Isso reforça, por comparação, que apenas quando há tanto consciência quanto uma marca distintiva evidente (como as roupas separadas) a permissão poderia se sustentar.

07A prova decisiva do verso de Yechezkel
Guemará; verso de Yechezkel 18
תָּא שְׁמַע: ״אֶל הֶהָרִים לֹא אָכָל וְעֵינָיו לֹא נָשָׂא אֶל גִּלּוּלֵי בֵּית יִשְׂרָאֵל וְאֶת אֵשֶׁת רֵעֵהוּ לֹא טִמֵּא וְאֶל אִשָּׁה נִדָּה לֹא יִקְרָב״. מַקִּישׁ אִשָּׁה נִדָּה לְאֵשֶׁת רֵעֵהוּ: מָה אֵשֶׁת רֵעֵהוּ הוּא בְּבִגְדוֹ וְהִיא בְּבִגְדָהּ — אָסוּר, אַף אִשְׁתּוֹ נִדָּה הוּא בְּבִגְדוֹ וְהִיא בְּבִגְדָהּ — אָסוּר. שְׁמַע מִינַּהּ.

Vem e ouve (a prova decisiva): "Não comeu sobre os montes, nem levantou seus olhos para os ídolos da casa de Israel, nem contaminou a mulher de seu próximo, e não se aproximou da mulher em nidá" (Yechezkel 18:6). (O verso) equipara a mulher em nidá à mulher do próximo: assim como (no caso d)a mulher do próximo, (mesmo estando) ele em sua roupa e ela em sua roupa, é proibido, também (no caso d)e sua própria esposa em nidá, (mesmo estando) ele em sua roupa e ela em sua roupa, é proibido. (A Guemará conclui:) Aprenda-se disso (que é de fato proibido).

Nota

A prova decisiva vem de um verso de Yechezkel que descreve o homem justo, listando entre suas virtudes o fato de não ter se aproximado de uma mulher em nidá — usando o verbo "aproximar-se" (yikrav) na mesma frase e no mesmo padrão sintático em que descreve não ter contaminado a mulher do próximo. A Guemará lê essa justaposição como uma hekesh (equiparação textual): assim como a proibição de "contaminar" a mulher do próximo — isto é, ter relações com ela — se aplicaria e permaneceria proibida mesmo se ambos estivessem vestidos, sem qualquer contato físico direto (pois o mero ato de estar na mesma cama já constituiria a transgressão, independentemente do grau de contato), da mesma forma a proibição de "aproximar-se" da própria esposa em nidá se aplica mesmo quando ambos estão vestidos em suas próprias roupas, sem contato direto de pele. A Guemará conclui que a dúvida original está, portanto, resolvida: é proibido.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "não comeu sobre os montes" e "assim como a mulher do próximo"
אל ההרים לא אכל - בפרק אלו הן הנשרפין בסנהדרין (דף פא.) מפרש ליה שלא נתפרנס בזכות אבות שלא הוצרך לכך לפי שהוא צדיק:

"Não comeu sobre os montes" — no capítulo Elu Hen HaNisrafin, em Sanhedrin (81a), explica-se que (significa) que não se sustentou pelo mérito dos ancestrais, pois não precisou disso, sendo ele mesmo justo.

מה אשת רעהו כו' - דאסור לן יחוד מן התורה בקדושין (פ"ד דף פ.) מאחיך בן אמך:

"Assim como a mulher do próximo, etc." — pois nos é proibida (até mesmo) a reclusão a sós, pela Torá, (como se ensina) em Kidushin (80a), a partir (do verso): "de teu irmão, filho de tua mãe" (Deuteronômio 13:7).

08A disputa de Rabi Pedat
Rabi Pedat
וּפְלִיגָא דְּרַבִּי פְּדָת: דְּאָמַר רַבִּי פְּדָת לֹא אָסְרָה תּוֹרָה אֶלָּא קוּרְבָה שֶׁל גִּלּוּי עֲרָיוֹת בִּלְבַד, שֶׁנֶּאֱמַר: ״אִישׁ אִישׁ אֶל כׇּל שְׁאֵר בְּשָׂרוֹ לֹא תִקְרְבוּ לְגַלּוֹת עֶרְוָה״.

E discorda disso Rabi Pedat, pois disse Rabi Pedat: a Torá não proibiu senão a proximidade de (efetiva) relação incestuosa, como se diz: "nenhum homem se aproximará de qualquer parente próximo de sua carne, para descobrir a nudez" (Levítico 18:6).

Nota

A Guemará observa que a conclusão anterior — de que até mesmo dormir vestido, sem contato direto, é proibido pela Torá no caso da nidá — não é unânime. Rabi Pedat entende o verso de Levítico de modo mais restrito: a proibição bíblica de "aproximar-se" para descobrir a nudez refere-se apenas à própria relação incestuosa consumada, e não a qualquer grau de proximidade física anterior a ela. Segundo essa leitura, o contato ou proximidade sem consumação de relação — como dormir vestido na mesma cama — não estaria proibido pela própria Torá, ainda que pudesse ser vedado por decreto rabínico posterior, por precaução.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "discorda de Rabi Pedat" e "relação incestuosa"
ופליגא - דרב יוסף דפשט מדרשה דהאי קרא לאיסור אדרבי פדת:

"E discorda" — (esta conclusão, atribuída) a Rav Yossef, que resolveu (a dúvida) a partir da interpretação deste verso (de Yechezkel) como proibição — discorda de Rabi Pedat.

גילוי עריות - תשמיש ממש ושאר קורבה ואפי' קירוב בשר מדרבנן והיא בבגדה אפי' מדרבנן ליכא למגזר:

"Relação incestuosa" — (refere-se ao) ato conjugal propriamente dito; e o restante da proximidade, mesmo o contato direto de pele, (é proibido apenas) pelos rabinos; e (quando) ela está em sua roupa, nem mesmo pelos rabinos há que decretar.

O costume de Ula, e sua opinião contraditória · עוּלָּא כִּי הָוֵי אָתֵי מִבֵּי רַב

09Ula beijava suas irmãs, mas também dizia que toda proximidade é proibida
Ula
עוּלָּא כִּי הָוֵי אָתֵי מִבֵּי רַב הֲוָה מְנַשֵּׁק לְהוּ לְאַחְווֹתֵיהּ אַבֵּי חָדַיְיהוּ, וְאָמְרִי לַהּ אַבֵּי יְדַיְיהוּ. וּפְלִיגָא דִידֵיהּ אַדִּידֵיהּ, דְּאָמַר עוּלָּא: אֲפִילּוּ שׁוּם קוּרְבָה אָסוּר, מִשּׁוּם ״לָךְ לָךְ אָמְרִי נְזִירָא סְחוֹר סְחוֹר, לְכַרְמָא לָא תִּקְרַב״.

Ula, quando vinha da casa de Rav (de volta à sua terra), costumava beijar suas irmãs sobre o peito delas — e há quem diga: sobre as mãos delas. E isso contradiz sua própria (opinião), pois disse Ula: até mesmo qualquer (grau de) proximidade é proibida, por causa (do princípio): "a ti, a ti dizem (ao) nazireu: rodeia, rodeia, mas à vinha não te aproximes".

Nota

A Guemará encerra o tema com uma nota sobre o próprio Ula, que tinha o costume de beijar suas irmãs no peito (segundo uma versão) ou nas mãos (segundo outra) ao retornar de suas viagens de estudo. A Guemará observa que essa prática parece contradizer uma opinião do próprio Ula, segundo a qual até mesmo qualquer grau de proximidade física entre parentes proibidos é vedado, como medida preventiva geral — ilustrada pelo princípio do nazireu, a quem se recomenda não apenas evitar o vinho, mas manter-se afastado até das imediações da própria vinha, para não se aproximar do risco. Sendo suas irmãs parentes com quem a relação seria proibida, o beijo, mesmo sem intenção alguma, pareceria contradizer seu próprio princípio de precaução extrema. A Guemará não resolve explicitamente a contradição no texto, deixando-a como observação sobre a tensão entre o costume afetuoso e o rigor teórico do próprio sábio.

A baraita de Bet Eliyahu: o discípulo que morreu jovem · תָּנֵי דְּבֵי אֵלִיָּהוּ

10O início do relato: o discípulo, sua esposa, e os tefilin
Baraita da Escola de Eliyahu
תָּנֵי דְּבֵי אֵלִיָּהוּ: מַעֲשֶׂה בְּתַלְמִיד אֶחָד שֶׁשָּׁנָה הַרְבֵּה, וְקָרָא הַרְבֵּה, וְשִׁימֵּשׁ תַּלְמִידֵי חֲכָמִים הַרְבֵּה, וּמֵת בַּחֲצִי יָמָיו. וְהָיְתָה אִשְׁתּוֹ נוֹטֶלֶת תְּפִילָּיו וּמְחַזַּרְתָּם בְּבָתֵּי כְנֵסִיּוֹת וּבְבָתֵּי מִדְרָשׁוֹת, וְאָמְרָה לָהֶם: כָּתוּב בַּתּוֹרָה ״כִּי הוּא חַיֶּיךָ וְאוֹרֶךְ יָמֶיךָ״, בַּעֲלִי שֶׁשָּׁנָה הַרְבֵּה וְקָרָא הַרְבֵּה

Ensinou-se (na baraita) da Escola de Eliyahu: aconteceu com certo discípulo que estudou (Mishná) muito, e leu (Escritura) muito, e serviu muito aos discípulos dos sábios (aprendendo com eles pessoalmente), e (ainda assim) morreu na metade de seus dias (prematuramente). E sua esposa tomava seus tefilin e os levava, percorrendo, pelas sinagogas e pelas casas de estudo, e lhes dizia: está escrito na Torá: "pois ele é tua vida e o prolongamento de teus dias" (Deuteronômio 30:20)(e, no entanto) meu marido, que estudou muito e leu muito (a Torá) (morreu jovem — como se explica isso? A continuação deste relato prossegue em 13b.)

Nota

O daf fecha abrindo um novo e comovente relato da Escola de Eliyahu, que prossegue em 13b: um discípulo dedicado — que estudou extensamente a Mishná, leu extensamente as Escrituras, e serviu pessoalmente muitos sábios, absorvendo seus ensinamentos diretamente — ainda assim morreu prematuramente, na metade do que se esperaria de seus dias. Sua viúva, perplexa e angustiada diante desse aparente paradoxo — pois a Torá promete longevidade a quem a ela se dedica —, tomava os tefilin de seu falecido marido e os levava consigo pelas sinagogas e casas de estudo, questionando publicamente os sábios sobre como reconciliar a dedicação de seu marido com sua morte prematura. O relato, e sua resolução surpreendente através de um diálogo entre ela e um sábio hóspede em sua casa, prossegue no início de 13b.