Talmud Bavli · Massechet Shabat · Perek Yud-Dalet (Shemoneh Sheratzim)
הָא דְּאִישְׁתַּהִי הָא דְּלָא אִישְׁתַּהִי

Resolução final sobre os locais de banho no Shabat; nova mishná sobre izvyon, yoezer e abuvroe; a guemará identifica essas plantas e ensina remédios contra vermes, água exposta e mordida de serpente

Shabbat 109b · continuação direta de 109a · Perek Yud-Dalet (Shemoneh Sheratzim)

Shabbat 109b abre completando exatamente a objeção de Rav Nachman bar Yitzchak que 109a deixou interrompida: contra a resolução de Rabi Yochanan (que atribuíra as duas baraitot contraditórias sobre o grande mar a Rabi Meir e a Rabi Yehudá), Rav Nachman objeta que, quanto à impureza e à pureza, pode-se até dizer que os tanaítas discordam sobre o versículo, mas quanto ao Shabat — cujo fundamento é apenas a suspeita de intenção curativa — ninguém jamais ouviu que discordassem. Em vez disso, o próprio Rav Nachman bar Yitzchak propõe sua resolução: a baraita que proíbe trata de quem permanece na água (ishtahi), revelando intenção de cura, e a que permite trata de quem não permanece (lo ishtahi). A guemará testa essa resolução e a rejeita para o caso da água de maceração do linho, pois outra baraita explícita já distingue ali entre permanecer e não permanecer, sem depender do grande mar; por fim, a contradição sobre o grande mar é resolvida de outro modo — entre suas águas boas (de uso comum, não medicinal) e suas águas ruins (de uso exclusivamente curativo) —, enquanto a contradição sobre a água de maceração volta a ser resolvida pela distinção entre permanecer e não permanecer, encerrando así a sugia dos locais de banho aberta em 108b. Surge então uma nova mishná: não se come izvyon no Shabat, por não ser alimento de pessoas saudáveis (o que denunciaria intenção curativa), mas pode-se comer o yoezer e beber o abuvroe, plantas de uso comum; todo alimento pode ser comido para cura, e toda bebida pode ser bebida, exceto a água de tamareiras e o "copo de raízes", associados especificamente à cura da icterícia — ainda que a água de tamareiras seja permitida para saciar a sede, e o óleo de raízes possa ser usado sem intenção curativa. A guemará então identifica cada planta: o ezov (hissopo) bíblico e o izvyon da mishná, segundo Rav Yossef, Ulla (que o identifica com a salva branca, confirmado num episódio na casa de Rav Shmuel bar Yehudá), Rav Pappi (que propõe o shumshuk) e Rav Yirmeya de Difti (que sustenta essa última opinião a partir da mishná sobre os três talos do hissopo), com a receita do shumshuk contra vermes intestinais. Identifica o yoezer como o potank, remédio contra vermes do fígado, com uma cadeia de alternativas — agrião branco, jejum com carne gorda e vinagre, e raspas de espinheiro fervidas em cerveja — para quando o remédio principal falha. Identifica o abuvroe como a chumatria (o "bastão solitário"), remédio contra o perigo de beber água exposta que uma serpente possa ter envenenado, com uma receita alternativa de rosas fervidas em cerveja, ilustrada pela história da mãe de Rav Achadvoi bar Ami, que tratou um homem envenenado até fazê-lo vomitar o veneno. Seguem-se outros remédios contra o mesmo perigo — o leite de cabra branca de Rav Avya, o citron recheado de mel de Rav Huna bar Yehudá, a urina de quarenta dias de Rabi Chanina (em doses graduadas para vespão, escorpião, água exposta e até feitiçaria) e o anigron, avangar e tiryaka de Rabi Yochanan. O daf se encerra com os remédios contra quem engoliu ou foi mordido por uma serpente — o lúpulo com sal seguido de uma corrida de três mil, ilustrado pela história de Rav Shimi bar Ashi (em duas versões, numa das quais o próprio Rav Shimi é socorrido por Eliyahu disfarçado de cavaleiro), e o feto de jumenta branca aplicado sobre a mordida, com a ressalva de que a mãe não deve ser treifá — texto interrompido no meio de um novo caso, cuja continuação é o ponto de partida de Shabbat 110a, ainda não publicado.

Guemará: conclusão da objeção de Rav Nachman bar Yitzchak e a resolução final sobre os locais de banho · אֵימוֹר דִּפְלִיגִי לְעִנְיַן טוּמְאָה וְטׇהֳרָה

512A objeção de Rav Nachman bar Yitzchak: quanto ao Shabat, ninguém ouviu que discordassem; sua própria resolução: permanecer na água ou não permanecer
Rav Nachman bar Yitzchak
אֵימוֹר דִּפְלִיגִי לְעִנְיַן טוּמְאָה וְטׇהֳרָה, לְעִנְיַן שַׁבָּת מִי שָׁמְעַתְּ לְהוּ? אֶלָּא אָמַר רַב נַחְמָן בַּר יִצְחָק, לָא קַשְׁיָא: הָא דְּאִישְׁתַּהִי, הָא דְּלָא אִישְׁתַּהִי.

Diga-se que discordam quanto à questão da impureza e da pureza — mas quanto à questão do Shabat, acaso ouviste que discordam a esse respeito? Mas disse Rav Nachman bar Yitzchak: não há dificuldade: esta (baraita, que proíbe) é (o caso) em que permaneceu (na água); aquela (que permite) é (o caso) em que não permaneceu.

Nota

Este beat completa exatamente a objeção que 109a deixou interrompida na palavra solta "מַתְקֵיף לַהּ רַב נַחְמָן בַּר יִצְחָק". Confirmado via Sefaria, o conteúdo da objeção é: a resolução de Rabi Yochanan (atribuindo as baraitot a Rabi Meir e a Rabi Yehudá) faz sentido para a disputa sobre a condição jurídica dos mares quanto à impureza e à pureza, apoiada num versículo — mas, quanto ao Shabat, cuja única razão de proibição é a suspeita de intenção curativa, não há tradição de que esses tanaítas jamais tenham discordado. Rav Nachman bar Yitzchak propõe então sua própria resolução, independente da disputa Meir/Yehudá: a distinção está em permanecer ou não na água — permanecer denuncia intenção medicinal (proibido), enquanto um simples banho de entrada e saída não a denuncia (permitido).

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "eimor difligi", "le'inyan Shabat", "ha de'ishtahi" e "ha delo ishtahi"
אימור דפליגי לענין טומאה וטהרה - ומשום קרא: לענין שבת - דטעמא משום רפואה הוא מי שמעת להו: הא דאישתהי - בגוייהו אסור דמוכחא מלתא דלרפואה קא מכוין: הא דלא אישתהי - אלא רחץ ויצא מותר:

"'Diga-se que discordam quanto à questão da impureza e da pureza'" — e isto por causa do versículo. "'Quanto à questão do Shabat'" — pois a razão (da proibição) é por causa da cura; acaso ouviste que discordassem a esse respeito? "'Este é o caso em que permaneceu'" — dentro delas (as águas), é proibido, pois é evidente que sua intenção é para a cura. "'Aquele é o caso em que não permaneceu'" — mas apenas se banhou e saiu, é permitido.

513A guemará testa a resolução: se a última baraita trata de quem não permanece, então até a água de maceração seria permitida; baraita sobre banhar-se apesar de pústulas na cabeça, distinguindo permanecer de não permanecer
A guemará; os Sábios (baraita)
בְּמַאי אוֹקֵימְתָּא לְבָתְרָיְיתָא — דְּלָא אִישְׁתַּהִי, אִי דְּלָא אִישְׁתַּהִי — אֲפִילּוּ בְּמֵי מִשְׁרָה נָמֵי. דְּהָתַנְיָא: רוֹחֲצִין בְּמֵי טְבֶרְיָא וּבְמֵי מִשְׁרָה וּבְיַמָּה שֶׁל סְדוֹם, וְאַף עַל פִּי שֶׁיֵּשׁ לוֹ חֲטָטִים בְּרֹאשׁוֹ. בַּמֶּה דְּבָרִים אֲמוּרִים — שֶׁלֹּא נִשְׁתַּהָא, אֲבָל נִשְׁתַּהָא — אָסוּר.

E com que (fundamento) você estabeleceu a última (baraita, que permite banhar-se no grande mar)? Que é (o caso) em que não permaneceu? Se é (o caso) em que não permaneceu, então até na água de maceração (do linho) também (seria permitido). Pois foi ensinado (numa baraita): banha-se nas águas de Tiberíades, e na água de maceração, e no Mar de Sodoma, e isto mesmo que se tenham pústulas (chatatim) na cabeça. Em que caso se disse isto? Quando não permaneceu; mas se permaneceu, é proibido.

Nota

A guemará testa a resolução de Rav Nachman bar Yitzchak levando-a à sua conclusão lógica: se a baraita que permite banhar-se no grande mar trata de quem não permanece na água, então esse mesmo raciocínio deveria permitir banhar-se, sem permanecer, até na água de maceração do linho — que a baraita original havia proibido incondicionalmente. A guemará traz então uma terceira baraita, que confirma exatamente essa lógica: permite-se banhar-se nas águas de Tiberíades, na água de maceração e no Mar de Sodoma, mesmo que a pessoa tenha pústulas na cabeça (que seriam curadas por essas águas) — desde que não permaneça ali. Se permanecer, revela intenção curativa e o banho é proibido.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "batrayeta", "chatatin" e "shelo nishtahá"
בתרייתא - דקתני רוחצין בדלא אישתהי: חטטין - מאלנ"ץ: שלא נשתהי - בתוך המים דנראה כמיקר בעלמא:

"'A última (baraita)'" — que ensina "banha-se" é (o caso) em que não permaneceu. "'Pústulas (chatatim)'" — "malanz" (feridas, crostas, em francês antigo). "'Que não permaneceu'" — dentro da água, pois assim parece que é apenas para refrescar-se.

514Resolução final: águas boas e águas ruins do grande mar; água de maceração — permanecer ou não permanecer, encerrando a sugia dos locais de banho
A guemará
אֶלָּא יָם הַגָּדוֹל אַיָּם הַגָּדוֹל לָא קַשְׁיָא: הָא — בְּיָפִין שֶׁבּוֹ, הָא — בְּרָעִים שֶׁבּוֹ. מֵי מִשְׁרָה אַמֵּי מִשְׁרָה נָמֵי לָא קַשְׁיָא: הָא — דְּאִישְׁתַּהִי, הָא — דְּלָא אִישְׁתַּהִי.

Mas (a contradição) "grande mar" contra "grande mar" não é difícil: esta (baraita, que permite) refere-se às (águas) boas que há nele; aquela (que proíbe) refere-se às (águas) ruins que há nele. "Água de maceração" contra "água de maceração" também não é difícil: esta (que proíbe) é (o caso) em que permaneceu; aquela (que permite) é (o caso) em que não permaneceu.

Nota

Rejeitada a tentativa de resolver tudo pela distinção "permanecer/não permanecer" aplicada ao grande mar, a guemará propõe a resolução definitiva, em dois passos. Primeiro, a contradição sobre o grande mar se resolve geograficamente: a baraita que permite refere-se às suas águas boas — a parte usada comumente para lazer, sem conotação medicinal —, e a que proíbe refere-se às suas águas ruins ou poluídas, usadas apenas para fins curativos; em ambas, presume-se que a pessoa permanece na água. Segundo, volta-se à distinção original para a água de maceração: a baraita que proíbe trata de quem permanece, e a que permite (a última mencionada, com a ressalva das pústulas) trata de quem não permanece. Com isso, encerra-se toda a sugia sobre os locais de banho permitidos e proibidos no Shabat, aberta ainda em 108b/109a.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "beyafin", "bera'im" e "mei mishrá amei mishrá lo kashiá"
ביפין - שכן רוחצין בהן בחול לרחיצה שאינה לרפואה: ברעים - אין רוחצין דמוכחא מלתא דלרפואה ותרוייהו בדאישתהי: מי המשרה אמי המשרה לא קשיא - הך דקתני רוחצין במי המשרה אהנך תרתי דלעיל דקתני אבל לא במי המשרה הא דאישתהי הא דלא אשתהי:

"'Nas (águas) boas'" — pois nelas se costuma banhar em dia de semana, para um banho que não é para cura. "'Nas (águas) ruins'" — não se banha, pois é evidente que a intenção é para cura, e ambas (as baraitot sobre o grande mar) tratam do caso em que se permaneceu. "'Água de maceração contra água de maceração não é difícil'" — esta que ensina "banha-se na água de maceração" contra aquelas duas mencionadas acima, que ensinam "mas não na água de maceração": esta é o caso em que permaneceu, aquela é o caso em que não permaneceu.

Mishná: izvyon, yoezer e abuvroe; alimentos e bebidas para cura no Shabat · אֵין אוֹכְלִין אֵיזֹבְיוֹן בְּשַׁבָּת

515Mishná (nova): não se come izvyon, mas come-se o yoezer e bebe-se o abuvroe; todo alimento pode ser comido para cura, exceto água de tamareiras e o copo de raízes, associados à icterícia
Mishná — nova
מַתְנִי׳ אֵין אוֹכְלִין אֵיזֹבְיוֹן בְּשַׁבָּת לְפִי שֶׁאֵינוֹ מַאֲכַל בְּרִיאִים, אֲבָל אוֹכֵל הוּא אֶת יוֹעֶזֶר, וְשׁוֹתֶה אַבּוּבְרוֹאֶה. כׇּל הָאוֹכָלִין — אוֹכֵל אָדָם לִרְפוּאָה, וְכׇל הַמַּשְׁקִין — שׁוֹתֶה, חוּץ מִמֵּי דְקָלִים וְכוֹס עִיקָּרִין, מִפְּנֵי שֶׁהֵן לִירוֹקָה. אֲבָל שׁוֹתֶה הוּא מֵי דְקָלִים לִצְמָאוֹ, וְסָךְ שֶׁמֶן עִיקָּרִין שֶׁלֹּא לִרְפוּאָה.

MISHNÁ. Não se come izvyon no Shabat, porque não é alimento de pessoas saudáveis; mas come-se o yoezer, e bebe-se o abuvroe. Todos os alimentos — o homem pode comê-los para cura; e todas as bebidas — pode bebê-las; exceto a água de tamareiras (mei dekalim) e o copo de raízes (kos ikarin), porque são (associados) à icterícia (yeroka). Mas bebe-se água de tamareiras para saciar a sede, e unta-se com óleo de raízes sem intenção de cura.

Nota

Uma nova mishná surge no meio do daf, aplicando à alimentação o mesmo princípio de fundo que regeu toda a sugia dos locais de banho: o que é evidentemente medicinal é proibido, o que não o é, é permitido, mesmo com intenção curativa. O izvyon (planta amarga) é proibido porque só se come com finalidade curativa — comê-lo denuncia a intenção. Já o yoezer e o abuvroe, plantas de consumo comum, são permitidos, ainda que também tenham propriedades curativas, precisamente porque seu uso não é exclusivamente medicinal. A mishná generaliza: qualquer alimento comum pode ser comido mesmo visando à cura, pois o ato em si não o denuncia; o mesmo vale para as bebidas — com duas exceções, a água de tamareiras e o "copo de raízes", ambas associadas quase exclusivamente ao tratamento da icterícia, e por isso proibidas quando bebidas com esse fim. A mishná fecha com duas ressalvas: a água de tamareiras continua permitida se bebida por sede (uso não medicinal evidente), e o óleo de raízes pode ser passado no corpo desde que não seja explicitamente para cura.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "matni' izvyon", "aval ochel hu et yoezer", "mimei dekalim", "vechos ikarin", "mipnei sheihen lirokah" e "letzimo"
מתני' איזביון - מפרש בגמרא שאינו מאכל בריאים ומוכחא מלתא דלרפואה אכיל ליה: אבל אוכל הוא את יועזר - שהרבה אוכלין אותו כשהן בריאין: ממי דקלים - מפרש בגמרא: וכוס עיקרין - משקה שכותשין לתוכו עיקרי ירקות ובשמים ובגמרא מפרש ליה: מפני שהן לירוקה - לחולי של ירקון ואינו מאכל בריאים: לצמאו - אם אינו חולה:

"'MISHNÁ. Izvyon'" — explicado na guemará, que não é alimento de pessoas saudáveis, e é evidente que come-se para cura. "'Mas come-se o yoezer'" — pois muitos o comem quando estão saudáveis. "'Água de tamareiras'" — explicado na guemará. "'E o copo de raízes'" — bebida em que se socam raízes de vegetais e especiarias; explicado na guemará. "'Porque são para a icterícia'" — para a doença do icterícia (yeroka), e não é alimento de pessoas saudáveis. "'Para saciar a sede'" — se não estiver doente.

Guemará: a identificação do ezov e do izvyon; o remédio contra vermes intestinais · אֵזוֹב — אַבְרָתָה בַּר הֲמַג

516Rav Yossef, Ulla, Rav Pappi e Rav Yirmeya de Difti identificam o ezov bíblico e o izvyon da mishná; o remédio do shumshuk contra vermes intestinais
Rav Yossef; Ulla; Rav Shmuel bar Yehudá; Rav Pappi; Rav Yirmeya de Difti
גְּמָ׳ אָמַר רַב יוֹסֵף: אֵזוֹב — ״אַבְרָתָה בַּר הֲמַג״, אֵיזֹבְיוֹן — ״אַבְרָתָה בַּר הִינְג״. עוּלָּא אָמַר: מָרְוָא חִיוָּרָא. עוּלָּא אִיקְּלַע לְבֵי רַב שְׁמוּאֵל בַּר יְהוּדָה, אַיְיתוֹ לְקַמֵּיהּ מָרְוָא חִיוָּרָא. אֲמַר: הַיְינוּ אֵזוֹב דִּכְתִיב בְּאוֹרָיְיתָא. רַב פַּפֵּי אָמַר: שׁוּמְשׁוּק. אָמַר רַב יִרְמְיָה מִדִּיפְתִּי: כְּווֹתֵיהּ דְּרַב פַּפֵּי מִסְתַּבְּרָא, דִּתְנַן: מִצְוַת אֵזוֹב שְׁלֹשָׁה קְלָחִין וּבָהֶן שְׁלֹשָׁה גִבְעוֹלִין, וְשׁוּמְשׁוּק הוּא דְּמִשְׁתַּכְחָא הָכִי. לְמַאי אָכְלִי לֵיהּ — לְקוּקְאיָנֵי. בְּמַאי אָכְלִי לֵיהּ — בִּשְׁבַע תַּמְרֵי אוּכָּמָתָא. מִמַּאי הָוְיָא — מִקִּימְחָא דִשְׂעָרֵי בְּמָנָא דַּחֲלֵיף עֲלֵיהּ אַרְבְּעִין יוֹמִין.

GUEMARÁ. Disse Rav Yossef: (o) ezov (da Torá) é "avrata bar hamag"; (o) izvyon é "avrata bar hing". Ulla disse: é a salva branca (marva chivara). Ulla chegou (por acaso) à casa de Rav Shmuel bar Yehudá; trouxeram diante dele salva branca. Disse: este é o ezov que está escrito na Torá. Rav Pappi disse: é o shumshuk. Disse Rav Yirmeya de Difti: (a opinião) de Rav Pappi é razoável, pois aprendemos (numa mishná): o preceito do ezov (exige) três talos, e neles três hastes, e é o shumshuk que se encontra assim. Para que o comem? Para (curar) os vermes intestinais (kukyanei). Com que o comem? Com sete tâmaras pretas. De que (causa) provêm (os vermes)? Da farinha de cevada (deixada) num recipiente que passou (sem uso) quarenta dias.

Nota

A guemará abre a discussão sobre a nova mishná identificando botanicamente o ezov (hissopo) mencionado na Torá — usado na aspersão da vaca ruiva e na purificação do leproso — e o izvyon da mishná, uma espécie semelhante mas proibida por não ser alimento comum. Rav Yossef dá os nomes populares de ambos; Ulla identifica o ezov bíblico com a salva branca, confirmado num episódio concreto na casa de Rav Shmuel bar Yehudá; Rav Pappi propõe outra identificação, o shumshuk, que Rav Yirmeya de Difti defende como mais razoável a partir de uma mishná (Massechet Pará) que descreve a estrutura física exigida do hissopo ritual — três talos, cada um com três hastes —, estrutura que o shumshuk exibe naturalmente. A guemará então explica o uso medicinal do shumshuk: comido com sete tâmaras pretas, cura os vermes intestinais que se formam a partir de farinha de cevada guardada por muito tempo num mesmo recipiente.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "amar Rav Yossef ezov", "izvyon", "Ulla amar", "shumshuk", "sheloshá kelachin" e "lekukyanei"
גמ' אמר רב יוסף אזוב - דאורייתא שהוכשר להזאה הוא שקורין אברתא בר המג: איזביון - דמתניתין הוא שקורין אברתא בר הינג ויש מרבותי מפרשים בר המג שגדל במקום גמי בר הינג שגדל בין ההגים רונצ"ץ: עולא אמר - אזוב דאורייתא הוא מרוא חיורא בלע"ז שלוי"א: שומשוק - הוא אזוב דאורייתא: ג' קלחים - דאגודה כתיב ואין אגודה פחות מג': ובהן ג' גבעולין - בכל קלח ג' גבעולין קנים דקים כעין של קנבוס: לקוקייני - תולעים שבבני מעים: דחליף עליה מ' יומי - משנטחן:

"'GUEMARÁ. Disse Rav Yossef: ezov'" — o (ezov) da Torá, apto para a aspersão (hazaá), é o que chamam "avrata bar hamag". "'Izvyon'" — o (izvyon) da mishná é o que chamam "avrata bar hing"; e há, entre meus mestres, quem explique: "bar hamag" é o que cresce em lugar de junco, "bar hing" é o que cresce entre os espinheiros — "ronts" (em francês antigo). "'Ulla disse'" — o ezov da Torá é a salva branca, "sauge" em francês antigo. "'Shumshuk'" — é o ezov da Torá. "'Três talos'" — pois está escrito "agudá" (feixe), e não há feixe com menos de três. "'E neles três hastes'" — em cada talo, três hastes, canas finas como as do cânhamo. "'Para (curar) kukyanei'" — vermes que há nos intestinos. "'Que passou sobre ela quarenta dias'" — desde que foi moída.

Guemará: o yoezer e o remédio contra os vermes do fígado · מַאי יוֹעֶזֶר? פּוּתַּנְק

517O yoezer é o potank, remédio contra os vermes do fígado (arkata); como e com que se come; as causas dos vermes
A guemará
אֲבָל אוֹכֵל הוּא אֶת יוֹעֶזֶר. מַאי יוֹעֶזֶר? פּוּתַּנְק. לְמַאי אָכְלִי לַהּ — לְאַרְקָתָא. בְּמַאי אָכְלִי לַהּ — בִּשְׁבַע תַּמְרֵי חִיוּוֹרָתָא. מִמַּאי הָוְיָא — מֵאוּמְצָא וּמַיָּא אַלִּיבָּא רֵיקָנָא, וּמִבִּישְׂרָא שַׁמִּינָא אַלִּיבָּא רֵיקָנָא, וּמִבִּישְׂרָא דְתוֹרָא אַלִּיבָּא רֵיקָנָא, מֵאַמְגּוּזָא אַלִּיבָּא רֵיקָנָא, וּמִגִּירֵי דְרוּבְיָא אַלִּיבָּא רֵיקָנָא וּמִשְׁתֵּי מַיָּא אַבָּתְרֵיהּ.

"Mas come-se o yoezer". O que é o yoezer? É o potank. Para que o comem? Para (curar) arkata (vermes do fígado). Com que o comem? Com sete tâmaras brancas. De que (causa) provêm (os vermes)? De carne crua com água em jejum (estômago vazio); e de carne gorda em jejum; e de carne de boi em jejum; de nozes em jejum; e de brotos de feno-grego (guirei derubya) em jejum, e beber água depois disso.

Nota

A guemará identifica agora o yoezer, a segunda planta permitida pela mishná, com o vegetal chamado potank. Seu uso medicinal é contra os "vermes do fígado" (arkata), comido com sete tâmaras brancas — em paralelo estrutural exato ao shumshuk contra vermes intestinais, comido com sete tâmaras pretas. A guemará então lista as causas alimentares dessa condição: uma série de combinações de carnes (crua, gorda, de boi), nozes ou brotos de feno-grego, todas consumidas em jejum (com o estômago vazio), especialmente quando seguidas de água — um padrão dietético que, segundo a medicina talmúdica, favorece o desenvolvimento de vermes no fígado.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "putank", "le'arkata", "alibá reikaná" e "umigirei derubyá"
פותנק - בלע"ז פולא"ל: לארקתא - תולעים שבכבד: ממאי הוי - החולי: מאומצא - בשר בגחלים: אליבא ריקנא - קודם אכילה: ומגירי דרובייא - לולבי תילתן כעין לולבי גפנים: רוביא - תילתן פינגרי: ומשתי מיא בתרייהו - האוכל אחד מאלו קודם אכילה ושותה אחריו מים:

"'Putank'" — "poirée" em francês antigo (acelga). "'Para (curar) arkata'" — vermes que há no fígado. "'De que provêm'" — a doença. "'De carne crua (umtsa)'" — carne (assada) sobre brasas. "'Em jejum'" — antes de comer. "'De brotos de rubya'" — folhas novas de feno-grego, como as folhas novas da videira. "'Rubya'" — feno-grego, "fenigrec" em francês antigo. "'E beber água depois disso'" — quem come um destes antes de comer (outra coisa), e bebe água depois.

518Alternativas quando o potank falta ou não ajuda: agrião branco; jejum com carne gorda, osso e vinagre; raspas de espinheiro fervidas em cerveja
A guemará
וְאִי לָא — לִיבְלַע תַּחְלֵי חִיוּוֹרָתָא. וְאִי לָא — לִיתִּיב בְּתַעֲנִיתָא, וְלַיְתֵי בִּישְׂרָא שַׁמִּינָא וְלִישְׁדֵּי אַגּוּמְרֵי, וְלִימֵיץ גַּרְמָא, וְלִיגַמַּע חַלָּא. וְאִיכָּא דְאָמְרִי: חַלָּא לָא, מִשּׁוּם דְּקָשֵׁי לְכַבְדָּא. וְאִי לָא — לַיְיתֵי גִּירְדָּא דַאֲסִינְתָּא דִּגְרִידָא מֵעִילַּאי לְתַתַּאי, וְלָא מִתַּתַּאי לְעִילַּאי, דִּילְמָא נָפְקָא אַיְּידֵי פּוּמֵּיהּ, וְלִישְׁלְקַהּ בְּשִׁיכְרָא בֵּי שִׁיבָבֵי, וּלְמָחָר נִסְכְּרִינּוּן לְנִקְבִין דִּידֵיהּ וְלִישְׁתֵּי, וְכִי מִפְּנֵי — מִפְּנֵי אַפְּשִׁיחָא דְּדִקְלָא.

E se não (tiver, ou não ajudou), engula agrião branco (tachlei chivarata). E se não (tiver, ou não ajudou), sente-se em jejum, e traga carne gorda, e a lance sobre as brasas, e sugue o osso, e engula vinagre. E há quem diga: vinagre não, porque é prejudicial ao fígado. E se não (tiver isso), traga raspas (girda) de espinheiro (assinta), raspadas de cima para baixo, e não de baixo para cima, para que talvez (os vermes) saiam pela boca; e as cozinhe em cerveja ao entardecer; e no dia seguinte, tape os seus orifícios e beba; e quando defecar, que defeque sobre o tronco de uma tamareira, por causa da rachadura da palmeira.

Nota

A guemará continua listando remédios em cadeia decrescente de preferência, um padrão recorrente nesta seção do Talmud: se o remédio principal (o potank) não estiver disponível ou não surtir efeito, recorre-se a alternativas cada vez mais elaboradas. Primeiro, o agrião branco; depois, um regime combinando jejum, carne gorda assada sobre brasas (sugada até a medula) e vinagre — embora uma tradição alternativa rejeite o vinagre por ser prejudicial ao próprio fígado que se está tentando curar. Por fim, o remédio mais elaborado: raspas da casca de um espinheiro, colhidas numa direção específica (para induzir os vermes a saírem pela boca, e não por baixo), fervidas em cerveja e bebidas com as narinas tapadas — terminando com uma instrução sobre onde defecar depois, ligada à imagem da rachadura natural na casca da palmeira.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "ve'i lo", "tachlei", "limotz garma", "gorda de'assinta", "bei shivavei" e "nisecherinun lenikvin didei"
ואי לא - אי לית ליה פותנק א"נ אכליה ולא איתסי: תחלי - שחלי כרישו"ן: לימוץ גרמא - יהא מוצץ אבר יפה מאותו בשר וימץ שמנו בפיו: גורדא דאסינתא - קליפה גרודה מן הסנה: מעילאי לתתאי - שתהא גרודה מלמעלה למטה: דלמא נפק - התולעים: איידי פומיה - דרך פיו: בי שבבי - בין השמשות בחשכותא דשמשי. ל"א בי שבבי בבית אחד משכניו שלא יריח הוא הריח שהוא קשה לו: נסכרינן לנקבים דיליה - יסתום נחיריו שלא יריח ל"א יסתום נחיריו ונקבי אזניו שלא יצא כח המשקה מגופו: מפני אפשיחה - מקום שנפשח הדקל אישברנקי"ר:

"'E se não (tiver)'" — se não tem potank, ou se o comeu e não se curou. "'Tachlei'" — agrião, "cresson" em francês antigo. "'Sugue o osso'" — que sugue bem um membro daquela carne, e sugue sua gordura com a boca. "'Raspas de espinheiro'" — casca raspada do espinheiro (sená). "'De cima para baixo'" — que seja raspada de cima para baixo. "'Ao entardecer'" — na escuridão do pôr do sol; outra explicação: numa casa de um dos vizinhos, para não sentir o cheiro, que lhe é prejudicial. "'Tape os seus orifícios'" — que tape as narinas para não sentir o cheiro; outra explicação: que tape as narinas e os orifícios das orelhas, para que a força da bebida não saia de seu corpo.

Guemará: o abuvroe contra a água exposta; a história da mãe de Rav Achadvoi bar Ami · מַאי אַבּוּבְרוֹאֶה? חוּמַטְרִיָּא

519O abuvroe é a chumatria, o "bastão solitário", remédio contra o perigo de água exposta; alternativa de rosas fervidas em cerveja
A guemará
וְשׁוֹתִין אַבּוּבְרוֹאֶה. מַאי אַבּוּבְרוֹאֶה? חוּמַטְרִיָּא. מַאי חוּמַטְרִיָּא? חוּטְרָא יְחִידָאָה. לְמַאי עָבְדִי לַהּ — לְגִילּוּיָא. וְאִי לָא — לַיְתֵי חַמְשָׁא כְּלִילֵי וְחַמְשָׁא כּוֹסָתָא דְשִׁיכְרָא, וְנִישְׁלוֹקִינְהוּ בַּהֲדֵי הֲדָדֵי עַד דְּקַיְימָא אַאַנְפָּקָא, וְנִישְׁתֵּי.

"E bebe-se o abuvroe". O que é o abuvroe? É a chumatria. O que é a chumatria? É o "bastão solitário" (chutra yechidaa). Para que se usa? Para (o perigo de) água exposta (giluy). E se não (tiver), traga cinco (flores em) coroa e cinco copos de cerveja, e cozinhe-os juntos até restar (a medida de) um anfaka, e beba.

Nota

A guemará identifica a terceira substância mencionada na mishná, o abuvroe (a bebida permitida), com uma planta chamada chumatria — descrita como uma árvore que cresce solitária, sem ramos ao redor. Seu uso medicinal é específico: contra o perigo de ter bebido água exposta (giluy), deixada descoberta e sob suspeita de que uma serpente tenha bebido dela e deixado veneno. Quando a chumatria não está disponível, ou não ajuda, a guemará oferece uma receita alternativa: cinco rosas e cinco copos de cerveja, fervidos juntos até reduzir ao volume de um "anfaka" (um quarto de log), a ser bebido como antídoto.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "chutra yechidaa", "legiluyá", "chamshá kelilei" e "ad dekaymá a'anpaka"
חוטרא יחידאה - עץ הגדל יחידי בלא ענף: לגילוייא - מי ששתה מים מגולין: חמשה כלילי - וורדין: כוסאתא דשיכרא - כוסות: עד דקיימי אאנפקא - שיעמדו על מדה מחזקת אנפק והיא רביעית הלוג כדאמרינן בחזקת הבתים (ב"ב נח:):

"'Bastão solitário'" — árvore que cresce sozinha, sem ramos. "'Para (o perigo de) água exposta'" — quem bebeu água exposta. "'Cinco (flores em) coroa'" — rosas. "'Copos de cerveja'" — copos. "'Até que fiquem na medida de um anfaka'" — que se reduzam até a medida que comporta um "anfak", que é um quarto de log, como dizemos em Chazakat HaBatim (Bava Batra 58b).

520A mãe de Rav Achadvoi bar Ami trata um homem envenenado com uma rosa e uma cerveja, e o assenta sobre um tijolo dentro do forno até que vomite o veneno
A mãe de Rav Achadvoi bar Ami
אִימֵּיהּ דְּרַב אַחָדְבוּי בַּר אַמֵּי עֲבַדָה לֵיהּ לְהָהוּא גַּבְרָא חַד כְּלִילָא וְחַד כּוֹסְתָּא דְשִׁיכְרָא. שְׁלַקָה וְאַישְׁקִיתֵיהּ, וּשְׁגַרָא תַּנּוּרָא וּגְרַפְתֵּיהּ, וְאוֹתִיבָה בֵּיהּ לְבֵינְתָּא, וְאוֹתִיבְתֵּיהּ בְּגַוֵּויהּ, וּנְפַק מִינֵּיהּ כְּהוּצָא יַרְקָא.

A mãe de Rav Achadvoi bar Ami preparou para um certo homem uma (rosa em) coroa e uma cerveja. Cozinhou e deu-lhe de beber; e acendeu o forno, e o limpou (das brasas), e colocou nele um tijolo, e o sentou sobre ele (dentro do forno); e saiu dele algo como uma folha verde (de palmeira).

Nota

A guemará ilustra a receita alternativa (uma única rosa e uma única cerveja, versão reduzida da receita anterior) com um episódio concreto: a mãe de Rav Achadvoi bar Ami trata um homem que havia bebido água exposta e suspeita-se envenenado. Depois de dar-lhe a bebida cozida, ela prepara um forno aceso, remove suas brasas para que esfrie um pouco, coloca dentro um tijolo para que ele se sente sem se queimar, e o instala ali dentro — provavelmente para provocar suor e vômito através do calor controlado. O resultado é que "algo como uma folha verde" sai dele: uma descrição vívida do veneno expelido pelo vômito.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "veshegará tanurá", "vegraftei", "ve'otiva leih leventá bagavei" e "hutza"
ושגרא תנורא - הסיקה תנור: וגרפתיה - מגחלים שיצטנן קצת: ואותבה לבינתא בגויה - שישב עליה ולא יכוה: ונפק מיניה - הקיא הארס שבלע: הוצא - עלה של לולב:

"'E acendeu o forno'" — acendeu-o com fogo. "'E o limpou'" — das brasas, para que esfriasse um pouco. "'E colocou nele um tijolo'" — para que se sentasse sobre ele e não se queimasse. "'E saiu dele'" — vomitou o veneno que havia engolido. "'Hutza'" — folha de palmeira (lulav).

Guemará: mais remédios contra água exposta — leite, citron com mel, urina e ervas · מֵי רַגְלַיִם בְּנֵי אַרְבָּעִים יוֹם

521Rav Avya: leite de cabra branca; Rav Huna bar Yehudá: citron com mel; Rabi Chanina: urina de quarenta dias em doses graduadas; Rabi Yochanan: anigron, avangar e tiryaka
Rav Avya; Rav Huna bar Yehudá; Rabi Chanina; Rabi Yochanan
רַב אַוְיָא אָמַר: רְבִיעֵתָא דַחֲלָבָא מֵעִיזָּא חִיוָּרְתָּא. רַב הוּנָא בַּר יְהוּדָה אָמַר: לַיְיתֵי אֶתְרוֹגָא חֲלִיתָא וְלִחַיְּיקֵיהּ וְלִימַלְּיֵיהּ דּוּבְשָׁא, וְלוֹתְבֵהּ בֵּי מִילְלֵי דְנוּרָא, וְלֵיכְלֵיהּ. רַבִּי חֲנִינָא אָמַר, מֵי רַגְלַיִם בְּנֵי אַרְבָּעִים יוֹם: בַּרְזִינָא — לְזִיבּוּרָא, רְבִיעֵתָא — לְעַקְרַבָּא, פַּלְגָא רִיבְעָא — לְגִילּוּיָא, רִיבְעָא — אֲפִילּוּ לִכְשָׁפִים מְעַלּוּ. אָמַר רַבִּי יוֹחָנָן: אֲנִיגְרוֹן, וַאֲבַנְגַּר, וְתִירְיָיקָה — מְעַלּוּ בֵּין לְגִילּוּיָא בֵּין לִכְשָׁפִים.

Rav Avya disse: um quarto de log de leite de cabra branca. Rav Huna bar Yehudá disse: traga um citron doce, fure-o, encha-o de mel, coloque-o entre brasas de fogo, e coma-o. Rabi Chanina disse: urina de quarenta dias: um copo pequeníssimo (barzina) — para picada de vespão; um quarto de log — para (picada de) escorpião; meio quarto — para (o perigo de) água exposta; um quarto inteiro — é benéfico até mesmo contra feitiçaria. Disse Rabi Yochanan: anigron, avangar e tiryaka são benéficos tanto para (o perigo de) água exposta quanto para feitiçaria.

Nota

A guemará reúne mais quatro tradições de remédios, ainda no tema da água exposta (giluy) e, na sequência, da feitiçaria. Rav Avya recomenda leite de cabra branca em dose específica; Rav Huna bar Yehudá, um citron doce, esvaziado e recheado de mel, assado sobre brasas. Rabi Chanina apresenta um sistema graduado de doses de urina envelhecida (quarenta dias), cada volume associado a um perigo diferente — do menor (picada de vespão) ao maior (feitiçaria) —, sugerindo uma escala de potência crescente. Rabi Yochanan encerra com três substâncias — água de acelga fervida, água de outra erva chamada avangar, e bálsamo (tiryaka) — eficazes tanto contra o perigo da água exposta quanto contra feitiçaria, ligando tematicamente os dois perigos que se repetem ao longo de toda esta seção.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "etrogá chalitá", "velechayekei", "berazina lezibura" e "anigron va'avangar vetiryaki"
אתרוג חליתא - מתוק: ולחייקיה - לגויה יחקוק בתוכו חקק: וליתבה בי מיללי דנורא - מניחו ע"ג גחלים לוחשות שיתבשל האתרוג בדבש: בני מ' יום - שעברו עליהם מ' יום. ל"א של תינוק בן מ' יום: רבעא - לוג: ברזינא לזיבורא - כוס קטן מאד ושמו ברזינא מאותן מי רגלים שותין למי שנשכתו צרעה ומתרפא: רביעתא לעקרב - רביעית לוג למי שעקצו עקרב: פלגא ריבעא לגילויא - חצי לוג: אניגרון ואבנגר ותירייקי - מים שנשלק בהם בנגרי מין עשב ששמו בנגרי וסתם אניגרון מי שלק תרדין כדאמרינן (ברכות דף לה:) אניגרון מיא דסילקא ותירייקי צרי:

"'Citron doce'" — doce. "'E fure-o'" — que fure um buraco em seu interior. "'E coloque-o entre brasas de fogo'" — coloca-o sobre brasas em fogo brando, para que o citron cozinhe com o mel. "'De quarenta dias'" — que passaram por quarenta dias; outra explicação: de uma criança de quarenta dias. "'Riva'" — um log. "'Barzina para vespão'" — um copo muito pequeno chamado barzina; dessa urina se bebe para quem foi picado por uma vespa, e se cura. "'Anigron, avangar e tiryaka'" — água em que se cozinhou avangar, um tipo de erva chamada avangar; e o anigron simples é água em que se cozinharam acelgas, como dizemos (Berachot 39a): "anigron é água de acelga"; e tiryaka é bálsamo (tzori).

Guemará: remédios contra quem engoliu ou foi mordido por uma serpente · הַאי מַאן דִּבְלַע חִיוְיָא

522Lúpulo com sal e a corrida de três mil; a história de Rav Shimi bar Ashi, em duas versões; o feto de jumenta branca sobre a mordida — texto interrompido no meio de um novo caso
A guemará; Rav Shimi bar Ashi; Eliyahu
הַאי מַאן דִּבְלַע חִיוְיָא — לוֹכְלֵיהּ כְּשׁוּתָא בְּמִילְחָא, וְלַירְהֲטֵיהּ תְּלָתָא מִילֵּי. רַב שִׁימִי בַּר אָשֵׁי חַזְיֵיהּ לְהָהוּא גַּבְרָא דִּבְלַע חִיוְיָא. אִידְּמִי לֵיהּ כְּפַרָּשָׁא. אוֹכְלֵיהּ כְּשׁוּתָא בְּמִילְחָא וְאַרְהֲטֵיהּ קַמֵּיהּ תְּלָתָא מִילֵּי, וּנְפַק מִינֵּיהּ גּוּבֵּי גּוּבֵּי. אִיכָּא דְאָמְרִי: רַב שִׁימִי בַּר אָשֵׁי בְּלַע חִיוְיָא, אֲתָא אֵלִיָּהוּ אִידְּמִי לֵיהּ כְּפַרָּשָׁא. אוֹכְלֵיהּ כְּשׁוּתָא בְּמִילְחָא וְאַרְהֲטֵיהּ קַמֵּיהּ תְּלָתָא מִילֵּי וּנְפַק מִינֵּיהּ גּוּבֵּי גּוּבֵּי. הַאי מַאן דְּטַרְקֵיהּ חִיוְיָא — לֵיתֵי עוּבָּרָא דַחֲמָרָא חִיוָּרְתִּי, וְלִיקְרְעֵיהּ, וְלוֹתְבֵיהּ עִילָּוֵיהּ. וְהָנֵי מִילֵּי דְּלָא אִישְׁתְּכַח טְרֵפָה. הָהוּא

Aquele que engoliu uma serpente: alimente-o com lúpulo (keshuta) com sal, e faça-o correr três mil (de distância). Rav Shimi bar Ashi viu um certo homem que havia engolido uma serpente; (Rav Ashi) apareceu-lhe disfarçado como um cavaleiro; alimentou-o com lúpulo e sal, e o fez correr diante de si três mil, e (a serpente) saiu dele em pedaços. Há quem diga: foi o próprio Rav Shimi bar Ashi quem engoliu a serpente; veio Eliyahu, (e) apareceu-lhe como um cavaleiro; alimentou-o com lúpulo e sal, e o fez correr diante de si três mil, e (a serpente) saiu dele em pedaços. Aquele a quem uma serpente mordeu: traga-se o feto de uma jumenta branca, rasgue-se, e coloque-se sobre ele. E isto (vale) apenas quando não se constate (que a mãe é) treifá. Certo (homem)...

Nota

O daf se encerra com uma última série de remédios, agora contra a mordida ou a ingestão de uma serpente. Para quem engoliu uma serpente, o remédio é o lúpulo com sal, seguido de uma corrida forçada de três milhas — o medo, o esforço físico e o efeito do lúpulo, juntos, enfraquecem e matam a serpente por dentro. A guemará ilustra com uma história contada em duas versões: numa, Rav Shimi bar Ashi socorre um homem, disfarçando-se de cavaleiro para assustá-lo e fazê-lo correr; na outra, é o próprio Rav Shimi quem é socorrido, e quem se disfarça de cavaleiro é o profeta Eliyahu. Em ambas, a serpente sai do corpo em pedaços. Para quem foi mordido (e não engoliu) uma serpente, o remédio é diferente: o feto retirado do ventre de uma jumenta branca, rasgado e colocado sobre a ferida — desde que a mãe não seja encontrada com um defeito que a torne treifá. O daf termina abruptamente com as palavras "הָהוּא" ("certo..."), no início de um novo caso cujo conteúdo fica para a continuação em Shabbat 110a, ainda não publicado.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "idmi leih kefarashá", "gubei", "detarkei" e "de'lo ishtechach terefá"
אידמי ליה כפרשא - תופסו ומייסרו שהפחד והמרוצה והכשות מתישין כחו ומחמם ומת הנחש בתוכו: גובי - חתיכות חתיכות יצא הנחש ממנו: גובי טרונצו"ץ בלע"ז: דטרקיה - נשכו: עוברא דחמרא חיוורתי - עובר הנמצא במעי חמורה לבנה: דלא אשתכח טרפה - האם:

"'Apareceu-lhe como um cavaleiro'" — prende-o e o disciplina, pois o medo, a corrida e o lúpulo enfraquecem sua força, e o calor mata a serpente em seu interior. "'Em pedaços (gubei)'" — pedaço por pedaço saiu a serpente dele; "gubei", "tronçons" em francês antigo. "'Que o mordeu (tarkei)'" — que o mordeu. "'Feto de jumenta branca'" — o feto encontrado no ventre de uma jumenta branca. "'Que não se constate treifá'" — a mãe.

O daf termina aqui, no meio de um novo caso introduzido pela palavra solta "הָהוּא" ("certo (homem)..."), logo após o remédio para quem foi mordido por uma serpente — o feto de uma jumenta branca colocado sobre a ferida, desde que a mãe não seja treifá. A continuação desse caso — o oficial (bar kasha) de Pumbedita mordido por uma serpente — e o restante da série de remédios contra picadas e mordidas estão em Shabbat 110a.