Talmud Bavli · Massechet Orlá · Perek Bet
פֶּרֶק שֵׁנִי

Mishná de Orlá, segundo perek — adaptada à trilha Bavli

17 mishnayot · sem Guemará no Talmud Bavli
Nota

Massechet Orlá não possui Guemará no Talmud Bavli — apenas a Mishná é impressa/estudada nesta trilha. Esta página apresenta a Mishná adaptada ao formato da trilha Bavli; para o estudo devocional completo, com fontes da Torá, halachot dos códigos e o perush dos mefarshim, veja a versão completa na Mishná.

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Mishná 1"A trumá... sobe em um e cem"
Mishná de abertura do Perek Bet: o capítulo passa da definição de orlá (tema do Perek Alef) para as leis de anulação de misturas — quando um alimento proibido cai em quantidade permitida, a mishná estabelece as proporções que anulam trumá e seus equivalentes (1:100) versus orlá e kilei hakerem (1:200), com a disputa entre Rabi Shimon e Rabi Eliezer sobre a soma de proporções distintas

A trumá, e a trumá do dízimo de demai, a chalá e os primeiros frutos (quatro dons sacerdotais que, ao caírem misturados em alimento comum, se anulam pela mesma regra, por serem todos chamados "trumá" na Torá), sobem em um e cem (uma medida de qualquer um destes, caída em cem medidas de alimento comum, se anula — bastando separar uma medida equivalente para o cohen), e se juntam uns aos outros (para efeito de completar a proporção de cem, as quantidades de trumá, chalá e bicurim se somam entre si, mesmo vindas de fontes diferentes, pois compartilham o mesmo nome de "trumá"), e é necessário separar (mesmo depois de anulada a proibição para os demais, é preciso retirar do todo uma medida e entregá-la ao cohen, pois a trumá é propriedade dele). A orlá e o kilayim da vinha sobem em um e duzentos (por serem proibidas também em proveito, e não apenas em consumo, sua proporção de anulação é o dobro da trumá), e se juntam uma à outra (orlá e kilei hakerem, apesar de serem proibições distintas, se somam para completar a proporção de duzentos), e não é necessário separar (diferente da trumá, que pertence ao cohen e por isso precisa ser retirada e entregue a ele, orlá e kilei hakerem não pertencem a ninguém — uma vez anuladas na proporção, toda a mistura fica permitida sem necessidade de remoção). Rabi Shimon diz: não se juntam (discorda que orlá e kilei hakerem se somem entre si para completar a proporção de duzentos, por serem nomes de proibição diferentes). Rabi Eliezer diz: se juntam em dando sabor, mas não para proibir (posição intermediária: elas se combinam apenas para o efeito de que, se a mistura conjunta transmite sabor perceptível, isso não basta para tornar tudo proibido — mas não se somam para, ao contrário, criar uma proibição que nenhuma delas isoladamente causaria).

הַתְּרוּמָה, וּתְרוּמַת מַעֲשֵׂר שֶׁל דְּמַאי, הַחַלָּה וְהַבִּכּוּרִים, עוֹלִים בְּאֶחָד וּמֵאָה, וּמִצְטָרְפִין זֶה עִם זֶה, וְצָרִיךְ לְהָרִים. הָעָרְלָה וְכִלְאֵי הַכֶּרֶם, עוֹלִים בְּאֶחָד וּמָאתַיִם, וּמִצְטָרְפִין זֶה עִם זֶה, וְאֵין צָרִיךְ לְהָרִים. רַבִּי שִׁמְעוֹן אוֹמֵר, אֵינָן מִצְטָרְפִין. רַבִּי אֱלִיעֶזֶר אוֹמֵר, מִצְטָרְפִין בְּנוֹתֵן טַעַם, אֲבָל לֹא לֶאֱסֹר:
Mishná 2"A trumá eleva a orlá, e a orlá a trumá"
Continuando o tema de anulação de misturas, a mishná ensina um mecanismo mais sutil: uma proibição que já caiu e foi diluída em quantidade suficiente pode, por sua vez, contar como parte da massa "permitida" que ajuda a diluir uma segunda proibição, caída depois, na mesma mistura

A trumá eleva a orlá, e a orlá a trumá (cada uma delas, uma vez diluída na mistura, pode servir de base numérica que ajuda a anular a outra, caída posteriormente). Como assim? Uma medida de trumá que caiu em cem (de alimento comum, ficando assim anulada, pois cem é a proporção que anula trumá), e depois caíram três cabin de orlá, ou três cabin de kilei hakerem (um cabin equivale a um sexto de uma medida-seá; três cabin são, portanto, meia medida), este é o caso em que a trumá eleva a orlá, e a orlá a trumá (a medida original de cem, somada aos três cabin, ultrapassa a proporção de duzentos necessária para anular a orlá; e, inversamente, o total combinado também basta para manter anulada a trumá original).

הַתְּרוּמָה מַעֲלָה אֶת הָעָרְלָה, וְהָעָרְלָה אֶת הַתְּרוּמָה. כֵּיצַד, סְאָה תְרוּמָה שֶׁנָּפְלָה לְמֵאָה, וְאַחַר כָּךְ נָפְלוּ שְׁלֹשָׁה קַבִּין עָרְלָה, אוֹ שְׁלֹשָׁה קַבִּין כִּלְאֵי הַכֶּרֶם, זוֹ הִיא שֶׁהַתְּרוּמָה מַעֲלָה אֶת הָעָרְלָה וְהָעָרְלָה אֶת הַתְּרוּמָה:
Mishná 3"A orlá eleva o kilayim, e o kilayim a orlá"
A mishná estende o mecanismo de elevação recíproca (ensinado em 2:2 entre trumá e orlá) para o par orlá/kilei hakerem, e acrescenta um terceiro caso — orlá elevando outra ocorrência de orlá, entendida pelos comentadores como referindo-se a neta revai, o fruto do quarto ano, que também carrega o nome "orlá" por derivar de uma árvore de orlá

A orlá eleva o kilayim, e o kilayim a orlá, e a orlá a orlá (três variações do mesmo mecanismo: qualquer uma destas proibições, já anulada numa mistura, pode servir de base para anular uma segunda, de nome diferente — ou até do mesmo nome, no caso de neta revai, entendido aqui como uma segunda forma de "orlá" — caída na mesma mistura). Como assim? Uma medida de orlá que caiu em duzentos (de alimento comum, ficando assim anulada, pois duzentos é a proporção que anula orlá), e depois caiu uma medida e mais de orlá, ou uma medida e mais de kilei hakerem (uma quantidade que, isolada, seria maior que a proporção mínima necessária para ser anulada por duzentos, mas que, somada à medida original já anulada, permanece dentro da proporção), este é o caso em que a orlá eleva o kilayim, e o kilayim a orlá, e a orlá a orlá (o princípio se aplica nas três direções: a primeira proibição, uma vez neutralizada, participa da massa que absorve e neutraliza a segunda, seja ela kilei hakerem ou uma nova ocorrência de orlá).

הָעָרְלָה מַעֲלָה אֶת הַכִּלְאַיִם, וְהַכִּלְאַיִם אֶת הָעָרְלָה, וְהָעָרְלָה אֶת הָעָרְלָה. כֵּיצַד, סְאָה עָרְלָה שֶׁנָּפְלָה לְמָאתַיִם, וְאַחַר כָּךְ נָפְלָה סְאָה וְעוֹד עָרְלָה, אוֹ סְאָה וְעוֹד שֶׁל כִּלְאֵי הַכֶּרֶם, זוֹ הִיא שֶׁהָעָרְלָה מַעֲלָה אֶת הַכִּלְאַיִם, וְהַכִּלְאַיִם אֶת הָעָרְלָה, וְהָעָרְלָה אֶת הָעָרְלָה:
Mishná 4"Todo o que fermenta, tempera e mistura"
A mishná introduz uma categoria diferente de proibição — o fermento ou tempero que age ativamente sobre a massa ou a panela, transformando-a — que não se anula por proporção, mesmo em quantidade mínima; e reporta a disputa entre Beit Shamai e Beit Hilel sobre se este mesmo efeito ativo também torna a mistura ritualmente impura

Todo o que fermenta, e tempera, e mistura (três verbos que descrevem o mesmo fenômeno: uma pequena quantidade de fermento, tempero ou alimento proibido que se combina ativamente com a massa ou a panela comum, alterando seu sabor ou sua composição, mesmo que a quantidade absoluta seja mínima) com a trumá, e com a orlá, e com o kilei hakerem, é proibido (diferentemente das misturas passivas tratadas nas mishnayot anteriores, aqui não há proporção que anule — mesmo uma quantidade infinitesimal de fermento ou tempero proibido, se sua ação de fermentar ou temperar é perceptível no resultado, torna tudo proibido). E Beit Shamai dizem: também torna impuro (a mesma pequena quantidade de fermento ou tempero, se estava ritualmente impura, transmite impureza a toda a massa ou ao prato, independente da quantidade). E Beit Hilel dizem: nunca torna impuro, a menos que haja nele o volume de um ovo (Beit Hilel discordam: para efeitos de impureza ritual — diferente da proibição de consumo —, aplica-se a medida padrão de "ovo" que rege a impureza de alimentos em geral, independentemente do efeito de fermentar ou temperar).

כָּל הַמְחַמֵּץ וְהַמְתַבֵּל וְהַמְדַמֵּעַ בַּתְּרוּמָה וּבָעָרְלָה וּבְכִלְאֵי הַכֶּרֶם, אָסוּר. וּבֵית שַׁמַּאי אוֹמְרִים, אַף מְטַמֵּא. וּבֵית הִלֵּל אוֹמְרִים, לְעוֹלָם אֵינוֹ מְטַמֵּא עַד שֶׁיְּהֵא בּוֹ כַּבֵּיצָה:
Mishná 5"Dostai, homem de Kfar Yitmá"
Uma breve mishná de testemunho pessoal: Dostai, homem de Kfar Yitmá, discípulo de Beit Shamai, relata ter ouvido do próprio Shamai o Velho uma posição que coincide, na verdade, com a de Beit Hilel na mishná anterior — e não com a atribuída a Beit Shamai — colocando em questão a exatidão da atribuição da disputa em 2:4

Dostai, homem de Kfar Yitmá, era dos discípulos de Beit Shamai (identificação do transmissor: um sábio que se identificava com a escola de Shamai, e por isso sua testemunha sobre o próprio fundador da escola tem peso especial), e disse: ouvi de Shamai o Velho, que disse (uma tradição oral direta, atribuída à fonte primária da escola, e não a uma formulação posterior de "Beit Shamai" como escola): nunca torna impuro, a menos que haja nele o volume de um ovo (a mesma posição que a mishná anterior atribuiu a Beit Hilel — sugerindo que a posição original do próprio Shamai coincidia, neste ponto específico, com a de Hilel, e que a disputa reportada em 2:4 talvez reflita uma evolução ou uma versão distinta da tradição da escola de Shamai).

דּוֹסְתַּאי אִישׁ כְּפַר יִתְמָה, הָיָה מִתַּלְמִידֵי בֵית שַׁמַּאי, וְאָמַר, שָׁמַעְתִּי מִשַּׁמַּאי הַזָּקֵן שֶׁאָמַר, לְעוֹלָם אֵינוֹ מְטַמֵּא עַד שֶׁיְּהֵא בּוֹ כַּבֵּיצָה:
Mishná 6"E por que disseram: todo o que fermenta..."
A mishná volta ao princípio de 2:4 para esclarecer uma condição essencial que ali ficara implícita: a regra de que "fermentar e temperar proíbe em qualquer quantidade" só se aplica quando o alimento proibido é do mesmo tipo do permitido (mesmo grão); quando os tipos são diferentes, rege outro critério — o sabor perceptível — que ora facilita, ora dificulta a anulação

E por que disseram: todo o que fermenta, e tempera, e mistura, para ser mais rigoroso? (a mishná retoma a regra de 2:4 — que qualquer quantidade de fermento ou tempero proibido torna tudo proibido — e pergunta pelas condições exatas dessa aplicação) Tipo com seu próprio tipo (a resposta: essa regra rigorosa de "qualquer quantidade" vale apenas quando o fermento ou tempero proibido é do mesmo tipo de grão ou alimento que o permitido no qual caiu). Para ser mais leniente e mais rigoroso, tipo com tipo diferente (quando os tipos são diferentes, aplica-se um critério distinto — às vezes mais leniente, às vezes mais rigoroso, dependendo do sabor perceptível). Como assim? Fermento de trigo que caiu dentro de uma massa de trigo (exemplo do primeiro caso: mesmo tipo com mesmo tipo), e há nele o suficiente para fermentar, seja havendo nele o suficiente para subir em um e cem, seja não havendo nele o suficiente para subir em um e cem, é proibido (quando os tipos são idênticos, a proibição de "qualquer quantidade" prevalece incondicionalmente sobre o critério de proporção). Não havendo nele o suficiente para subir em cem e um, seja havendo nele o suficiente para fermentar, seja não havendo nele o suficiente para fermentar, é proibido (mesmo sem capacidade de fermentar ativamente, a proporção insuficiente de cem-e-um já basta, por si só, para proibir — reafirmando que, no caso de mesmo tipo, há dois caminhos independentes e cumulativos para a proibição: o efeito de fermentação, ou a simples insuficiência da proporção).

וּלְמָה אָמְרוּ כָּל הַמְחַמֵּץ וְהַמְתַבֵּל וְהַמְדַמֵּעַ לְהַחֲמִיר, מִין בְּמִינוֹ. לְהָקֵל וּלְהַחֲמִיר, מִין בְּשֶׁאֵינוֹ מִינוֹ. כֵּיצַד, שְׂאֹר שֶׁל חִטִּים שֶׁנָּפַל לְתוֹךְ עִסַּת חִטִּים, וְיֵשׁ בּוֹ כְדֵי לְחַמֵּץ, בֵּין שֶׁיֵּשׁ בּוֹ לַעֲלוֹת בְּאֶחָד וּמֵאָה וּבֵין שֶׁאֵין בּוֹ לַעֲלוֹת בְּאֶחָד וּמֵאָה, אָסוּר. אֵין בּוֹ לַעֲלוֹת בְּמֵאָה וְאֶחָד, בֵּין שֶׁיֵּשׁ בּוֹ כְדֵי לְחַמֵּץ, בֵּין שֶׁאֵין בּוֹ כְדֵי לְחַמֵּץ, אָסוּר:
Mishná 7"Para ser mais leniente e mais rigoroso, tipo diferente"
A mishná completa a explicação iniciada em 2:6, agora exemplificando o segundo caso — "tipo com tipo diferente" — com grãos partidos de trumá cozidos junto com lentilhas comuns, mostrando como o critério de sabor perceptível pode ora facilitar, ora dificultar a anulação, em contraste com a regra fixa de "qualquer quantidade" do caso de mesmo tipo

Para ser mais leniente e mais rigoroso, tipo com tipo diferente, como assim? (retomando a segunda metade da explicação de 2:6: quando os dois alimentos misturados são de tipos diferentes, o critério de sabor perceptível pode, dependendo do caso, ser mais leniente ou mais rigoroso que a simples proporção) Como grãos partidos [de trumá] que foram cozidos com lentilhas [comuns] (gerissin — grãos de leguminosa partidos, tipicamente de fava — de trumá, cozidos junto com lentilhas de alimento comum: dois tipos de leguminosa diferentes), e há neles sabor perceptível, seja havendo neles o suficiente para subir em um e cem, seja não havendo neles o suficiente para subir em um e cem, é proibido (quando o sabor da trumá é perceptível no prato de lentilhas, a mistura fica proibida independentemente da proporção — mesmo que a quantidade de grãos fosse pequena o bastante para, em teoria, se anular por proporção, o sabor perceptível já basta para proibir: aqui o critério de sabor é mais rigoroso que a proporção). Não há neles sabor perceptível, seja havendo neles o suficiente para subir em um e cem, seja não havendo neles o suficiente para subir em um e cem, é permitido (inversamente, se o sabor não é perceptível, a mistura é permitida mesmo que a proporção numérica fosse insuficiente para anular — aqui o critério de sabor é mais leniente que a proporção, pois a ausência de sabor perceptível basta para permitir, dispensando o cálculo).

לְהָקֵל וּלְהַחֲמִיר מִין בְּשֶׁאֵינוֹ מִינוֹ, כֵּיצַד. כְּגוֹן גְּרִיסִין שֶׁנִּתְבַּשְּׁלוּ עִם עֲדָשִׁים, וְיֵשׁ בָּהֶם בְּנוֹתֵן טַעַם, בֵּין שֶׁיֵּשׁ בָּהֶם לַעֲלוֹת בְּאֶחָד וּמֵאָה, וּבֵין שֶׁאֵין בָּהֶם לַעֲלוֹת בְּאֶחָד וּמֵאָה, אָסוּר. אֵין בָּהֶם בְּנוֹתֵן טַעַם, בֵּין שֶׁיֵּשׁ בָּהֶם לַעֲלוֹת בְּאֶחָד וּמֵאָה, וּבֵין שֶׁאֵין בָּהֶם לַעֲלוֹת בְּאֶחָד וּמֵאָה, מֻתָּר:
Mishná 8"Fermento comum que caiu numa massa"
A mishná examina um caso onde fermento comum, já suficiente para fazer a massa fermentar por si só, é seguido pela queda de fermento proibido (trumá ou kilei hakerem) também em quantidade suficiente — e ensina que a proibição se aplica mesmo quando o fermento proibido não era estritamente "necessário" para o resultado

Fermento de alimento comum que caiu dentro de uma massa, e há nele o suficiente para fermentar (o fermento comum, sozinho, já é suficiente para fazer toda a massa fermentar — a massa já está, por assim dizer, "garantida" a fermentar mesmo sem qualquer outro fermento), e depois caiu fermento de trumá, ou fermento de kilei hakerem, e há nele o suficiente para fermentar (um segundo fermento, este proibido, também cai na mesma massa, também em quantidade suficiente para fermentar por si só), é proibido (apesar de o resultado — a massa fermentada — já estar assegurado antes mesmo da chegada do fermento proibido, a massa fica proibida, pois o fermento proibido também contribuiu ativamente para o resultado final, e sua ação, uma vez presente e capaz, não pode ser ignorada apenas porque já havia outra causa suficiente).

שְׂאֹר שֶׁל חֻלִּין שֶׁנָּפַל לְתוֹךְ עִסָּה, וְיֵשׁ בּוֹ כְּדֵי לְחַמֵּץ, וְאַחַר כָּךְ נָפַל שְׂאֹר שֶׁל תְּרוּמָה, אוֹ שְׂאֹר שֶׁל כִּלְאֵי הַכֶּרֶם, וְיֵשׁ בּוֹ כְדֵי לְחַמֵּץ, אָסוּר:
Mishná 9"Fermento comum que já fermentou a massa"
Uma variação do caso de 2:8: agora a massa já está completamente fermentada pelo fermento comum antes de o fermento proibido cair. Os Sábios mantêm a proibição, mas Rabi Shimon discorda — introduzindo o princípio de que um fermento que chega depois do processo já concluído apenas "piora" o resultado, sem ser sua causa

Fermento de alimento comum que caiu dentro de uma massa e a fez fermentar (diferente da mishná anterior, aqui o processo de fermentação já se completou inteiramente por causa do fermento comum, antes de qualquer outro fermento entrar em cena), e depois caiu fermento de trumá, ou fermento de kilei hakerem, e há nele o suficiente para fermentar (o fermento proibido chega numa massa que já está, tecnicamente, pronta — já fermentada), é proibido (a posição dos Sábios, mantendo a mesma lógica de 2:8: mesmo chegando depois, o fermento proibido tem capacidade de agir e por isso proíbe). Rabi Shimon permite (Rabi Shimon discorda: uma vez que a massa já estava fermentada antes da chegada do fermento proibido, este último não pode ser considerado "causa" da fermentação — sua ação, chegando tarde, no máximo prejudica o sabor, sem alterar o status halachico da massa).

שְׂאֹר שֶׁל חֻלִּין שֶׁנָּפַל לְתוֹךְ עִסָּה וְחִמְּצָהּ, וְאַחַר כָּךְ נָפַל שְׂאֹר שֶׁל תְּרוּמָה אוֹ שְׂאֹר שֶׁל כִּלְאֵי הַכֶּרֶם, וְיֵשׁ בּוֹ כְדֵי לְחַמֵּץ, אָסוּר. רַבִּי שִׁמְעוֹן מַתִּיר:
Mishná 10"Temperos de dois ou três nomes de um só tipo"
A mishná trata de um cenário de múltiplos temperos proibidos, cada um insuficiente isoladamente, mas de nomes ou tipos relacionados — e ensina que eles se somam para completar a proibição; Rabi Shimon distingue "nomes diferentes do mesmo tipo" de "tipos diferentes do mesmo nome", permitindo apenas o segundo caso

Temperos de dois ou três nomes de um só tipo, ou de três tipos [com nome comum] (um prato recebe vários temperos proibidos — por exemplo, de orlá, de kilei hakerem e de trumá —, cada um em quantidade pequena demais para, isoladamente, temperar o prato perceptivelmente, mas todos pertencendo ao mesmo tipo geral de tempero, ou a variedades diferentes que compartilham um nome comum), é proibido, e se somam (mesmo que nenhum deles isoladamente bastasse para dar sabor perceptível, a soma de todos eles é suficiente, e por isso o prato inteiro fica proibido). Rabi Shimon diz: dois ou três nomes de um só tipo, ou dois tipos de um só nome, não se somam (Rabi Shimon discorda parcialmente: para ele, apenas quando os temperos compartilham exatamente o mesmo nome — ainda que de tipos ligeiramente diferentes — é que eles se somam; quando são nomes distintos, mesmo do mesmo tipo geral, cada um deve ser avaliado isoladamente, e nenhum, sendo insuficiente por si só, proíbe).

תְּבָלִין, שְׁנַיִם וּשְׁלֹשָׁה שֵׁמוֹת מִמִּין אֶחָד, אוֹ מִשְּׁלֹשָׁה, אָסוּר, וּמִצְטָרְפִין. רַבִּי שִׁמְעוֹן אוֹמֵר, שְׁנַיִם וּשְׁלֹשָׁה שֵׁמוֹת מִמִּין אֶחָד, אוֹ שְׁנֵי מִינִין מִשֵּׁם אֶחָד, אֵינָן מִצְטָרְפִין:
Mishná 11"Fermento comum e de trumá que caíram numa massa"
A mishná trata do caso complementar às duas anteriores: dois fermentos, um comum e um de trumá, cada um isoladamente insuficiente para fermentar, mas cuja soma é suficiente. Rabi Eliezer atribui o efeito ao último fermento a cair; os Sábios respondem com o princípio de "zeh vezeh gorem" — quando duas causas, uma proibida e uma permitida, juntas produzem o efeito, o resultado é permitido

Fermento de alimento comum e de trumá que caíram dentro de uma massa, não havendo neste o suficiente para fermentar, nem naquele o suficiente para fermentar (nenhum dos dois fermentos, isoladamente, teria capacidade de fazer a massa fermentar), se juntaram e fermentaram (mas juntos, os dois fermentos somados efetivamente fizeram a massa fermentar), Rabi Eliezer diz: sigo o último (Rabi Eliezer resolve o caso atribuindo o efeito exclusivamente ao fermento que caiu por último: se foi o de trumá que caiu por último, a massa é proibida — ele "completou" o processo; se foi o comum, a massa é permitida). E os Sábios dizem: seja caindo o proibido no início, seja no fim, nunca proíbe, a menos que haja nele, sozinho, o suficiente para fermentar (os Sábios rejeitam o critério de ordem cronológica de Rabi Eliezer: para eles, o que importa é apenas se o fermento proibido, isoladamente, teria capacidade de fermentar a massa; como neste caso ele não tinha essa capacidade sozinho, a massa permanece permitida, independentemente da ordem em que os fermentos caíram).

שְׂאֹר שֶׁל חֻלִּין וְשֶׁל תְּרוּמָה שֶׁנָּפְלוּ לְתוֹךְ עִסָּה, לֹא בָּזֶה כְדֵי לְחַמֵּץ וְלֹא בָּזֶה כְדֵי לְחַמֵּץ, נִצְטָרְפוּ וְחִמְּצוּ, רַבִּי אֱלִיעֶזֶר אוֹמֵר, אַחַר הָאַחֲרוֹן אֲנִי בָא. וַחֲכָמִים אוֹמְרִים, בֵּין שֶׁנָּפַל אִסּוּר בַּתְּחִלָּה, בֵּין בַּסּוֹף, לְעוֹלָם אֵינוֹ אוֹסֵר עַד שֶׁיְּהֵא בּוֹ כְדֵי לְחַמֵּץ:
Mishná 12"Yoezer, homem de Habirá"
Uma segunda mishná de testemunho pessoal, paralela a 2:5: Yoezer, homem de Habirá, discípulo de Beit Shamai, relata ter perguntado diretamente a Rabán Gamliel o Velho, junto à Porta Oriental do Templo, e ter recebido a confirmação da posição dos Sábios na mishná anterior — reforçando, por meio de uma testemunha da própria escola de Shamai, a decisão contrária a Rabi Eliezer

Yoezer, homem de Habirá, era dos discípulos de Beit Shamai (identificação do transmissor, paralela à de Dostai em 2:5 — outro sábio da escola de Shamai que, mesmo assim, testemunha uma tradição que reforça a posição vencedora dos Sábios), e disse: perguntei a Rabán Gamliel o Velho, estando ele junto à Porta Oriental (um relato de encontro direto e específico — o local, a Porta Oriental do Pátio do Templo, ancora a tradição num contexto histórico concreto), e ele disse: nunca proíbe, a menos que haja nele o suficiente para fermentar (a resposta de Rabán Gamliel confirma exatamente a posição dos Sábios na mishná anterior — que o critério decisivo é a capacidade do próprio fermento proibido, isoladamente, de fermentar a massa, e não a ordem cronológica de sua queda).

יוֹעֶזֶר אִישׁ הַבִּירָה הָיָה מִתַּלְמִידֵי בֵּית שַׁמַּאי, וְאָמַר, שָׁאַלְתִּי אֶת רַבָּן גַּמְלִיאֵל הַזָּקֵן עוֹמֵד בְּשַׁעַר הַמִּזְרָח, וְאָמַר, לְעוֹלָם אֵינוֹ אוֹסֵר, עַד שֶׁיְּהֵא בּוֹ כְדֵי לְחַמֵּץ:
Mishná 13"Utensílios que foram untados com óleo impuro"
Uma mishná aparentemente distante do tema de misturas alimentares, mas estruturalmente paralela a 2:11: utensílios de couro untados sucessivamente com óleo impuro e depois puro (ou o inverso) — e a mesma disputa entre Rabi Eliezer (que segue uma ordem cronológica fixa) e os Sábios (que seguem o óleo que efetivamente se manifesta ao usar o utensílio)

Utensílios que foram untados com óleo impuro, e voltaram a ser untados com óleo puro (um utensílio de couro — como sandálias ou correias — é primeiro tratado com óleo ritualmente impuro para amaciá-lo, e depois recebe uma segunda camada de óleo puro), ou que foram untados com óleo puro, e voltaram a ser untados com óleo impuro (o caso inverso: óleo puro primeiro, óleo impuro depois), Rabi Eliezer diz: sigo o primeiro (Rabi Eliezer resolve o caso seguindo sempre o primeiro óleo aplicado — pois é ele que penetra mais profundamente no couro e permanece absorvido nas fibras do utensílio). E os Sábios dizem: sigo o último (os Sábios discordam: para eles, o critério é o óleo que efetivamente é exsudado — que "sai" do couro — quando o utensílio é usado e aquecido, e este é normalmente o óleo aplicado por último, que permanece mais próximo da superfície).

כֵּלִים שֶׁסָּכָן בְּשֶׁמֶן טָמֵא, וְחָזַר וְסָכָן בְּשֶׁמֶן טָהוֹר, אוֹ שֶׁסָּכָן בְּשֶׁמֶן טָהוֹר, וְחָזַר וְסָכָן בְּשֶׁמֶן טָמֵא, רַבִּי אֱלִיעֶזֶר אוֹמֵר, אַחַר הָרִאשׁוֹן אֲנִי בָּא. וַחֲכָמִים אוֹמְרִים, אַחַר הָאַחֲרוֹן:
Mishná 14"Fermento de trumá e de kilei hakerem"
A mishná retoma o padrão de 2:11 — dois fermentos proibidos, cada um insuficiente isoladamente, mas juntos suficientes — agora com trumá e kilei hakerem, dois "nomes" tecnicamente diferentes de proibição. O resultado é intermediário: proibido para os não-cohanim, mas permitido para os cohanim, pois a trumá lhes é permitida

Fermento de trumá e de kilei hakerem que caíram dentro de uma massa (dois fermentos proibidos, de fontes distintas, caindo na mesma massa), não havendo neste o suficiente para fermentar, nem naquele o suficiente para fermentar (nenhum dos dois, isoladamente, teria capacidade de fazer a massa fermentar), e se juntaram e fermentaram (mas a soma dos dois fermentos, juntos, efetivamente fez a massa fermentar — o mesmo cenário de causa combinada de 2:11), é proibido aos não-cohanim, e permitido aos cohanim (diferente de 2:11, aqui o resultado não é simplesmente "permitido" — porque um dos dois elementos, a trumá, é proibida apenas aos não-cohanim, mas permitida aos próprios cohanim; por isso, a massa resultante da combinação segue essa mesma distinção: proibida a quem a trumá seria proibida, permitida a quem ela seria permitida). Rabi Shimon permite aos não-cohanim e aos cohanim (Rabi Shimon discorda inteiramente, seguindo sua posição já vista em 2:10 — de que "dois nomes diferentes" [aqui, trumá e kilei hakerem] não se somam para completar a proibição, tornando a massa permitida a todos).

שְׂאֹר שֶׁל תְּרוּמָה וְשֶׁל כִּלְאֵי הַכֶּרֶם שֶׁנָּפְלוּ לְתוֹךְ עִסָּה, לֹא בָזֶה כְדֵי לְחַמֵּץ וְלֹא בָזֶה כְדֵי לְחַמֵּץ, וְנִצְטָרְפוּ וְחִמְּצוּ, אָסוּר לְזָרִים וּמֻתָּר לַכֹּהֲנִים. רַבִּי שִׁמְעוֹן מַתִּיר לְזָרִים וְלַכֹּהֲנִים:
Mishná 15"Temperos de trumá e de kilei hakerem"
A mishná repete exatamente a estrutura da anterior, substituindo o fermento (que age sobre massa) por temperos (que agem sobre uma panela) — confirmando que o mesmo princípio de "isto e aquilo causam", com o resultado dividido entre não-cohanim e cohanim, se aplica igualmente a ambas as categorias de "ação transformadora"

Temperos de trumá e de kilei hakerem que caíram na panela (paralelo exato de 2:14, mas agora com temperos numa panela de comida cozida, em vez de fermento numa massa de pão), não havendo nestes o suficiente para temperar, nem naqueles o suficiente para temperar (nenhum dos dois temperos, isoladamente, seria suficiente para dar sabor perceptível à panela), e se juntaram e temperaram (mas a soma dos dois, juntos, efetivamente deu sabor perceptível ao prato), é proibido aos não-cohanim, e permitido aos cohanim (exatamente o mesmo resultado misto de 2:14: proibido a quem a trumá seria proibida, permitido a quem ela seria permitida, pois o kilei hakerem, isolado, era insuficiente). Rabi Shimon permite aos não-cohanim e aos cohanim (a mesma posição de Rabi Shimon, consistente com sua rejeição da soma de "nomes diferentes" já vista em 2:10 e 2:14).

תְּבָלִין שֶׁל תְּרוּמָה וְשֶׁל כִּלְאֵי הַכֶּרֶם שֶׁנָּפְלוּ בַּקְּדֵרָה, לֹא בָאֵלוּ כְדֵי לְתַבֵּל וְלֹא בָאֵלּוּ כְדֵי לְתַבֵּל, וְנִצְטָרְפוּ וְתִבְּלוּ, אָסוּר לְזָרִים וּמֻתָּר לַכֹּהֲנִים. רַבִּי שִׁמְעוֹן מַתִּיר לְזָרִים וְלַכֹּהֲנִים:
Mishná 16"Pedaço de kodshei kodashim, de pigul e de notar"
A mishná desloca o tema, do domínio agrícola de orlá, trumá e kilei hakerem, para o domínio sacrificial: um pedaço de carne santíssima (kodshei kodashim), de pigul (sacrifício invalidado por pensamento indevido) ou de notar (sobra além do prazo permitido), cozido junto com pedaços de carne comum — aplicando o mesmo princípio de soma de "nomes diferentes" já visto nas mishnayot anteriores

Um pedaço de kodshei kodashim, de pigul, e de notar, que foram cozidos com os pedaços (de carne comum — três categorias distintas de carne proibida ou restrita do domínio sacrificial: kodshei kodashim, carne santíssima que só os cohanim do sexo masculino podem comer; pigul, um sacrifício tornado inválido por pensamento indevido durante sua oferenda; e notar, sobra de um sacrifício que passou do prazo permitido para consumo — cada uma insuficiente isoladamente para dar sabor perceptível ao guisado de carne comum), é proibido aos não-cohanim, e permitido aos cohanim (seguindo a mesma lógica de soma de "nomes diferentes" de 2:14-15: para o não-cohen, tanto a carne santíssima quanto o pigul e o notar são proibidos, e por isso a soma dos três, ainda que cada um isoladamente insuficiente, basta para proibir; para o cohen, porém, a carne santíssima em si lhe é permitida — restando apenas pigul e notar como elementos proibidos mesmo para ele, mas o restante do capítulo esclarece que mesmo esses, quando insuficientes, não bastam a proibir sozinhos, pelo mesmo princípio). Rabi Shimon permite aos não-cohanim e aos cohanim (mantendo consistência com sua posição em toda a série de mishnayot 2:10, 2:14 e 2:15 — para ele, "nomes diferentes" nunca se somam, e por isso, sendo cada elemento insuficiente isoladamente, o guisado inteiro permanece permitido a todos).

חֲתִיכָה שֶׁל קָדְשֵׁי קָדָשִׁים, שֶׁל פִּגּוּל, וְשֶׁל נוֹתָר, שֶׁנִּתְבַּשְּׁלוּ עִם הַחֲתִיכוֹת, אָסוּר לְזָרִים וּמֻתָּר לַכֹּהֲנִים. רַבִּי שִׁמְעוֹן מַתִּיר לְזָרִים וְלַכֹּהֲנִים:
Mishná 17"Carne de kodshei kodashim e de kodashim kalim"
Mishná final do Perek Bet: encerrando a série de misturas do domínio sacrificial iniciada em 2:16, a mishná examina carne santíssima e carne de santidade leve cozidas com carne comum de apetite — mostrando que, quando ambas as categorias sagradas se somam, o resultado fica proibido aos ritualmente impuros, mas permanece permitido aos puros, pois nenhuma delas, isolada, teria capacidade de proibir por si só nesta combinação

Carne de kodshei kodashim e carne de kodashim kalim que foram cozidas com carne de apetite (basar taavá, carne comum, não-sagrada, consumida livremente por qualquer pessoa — aqui cozida junto com pedaços de duas categorias de carne sacrificial: kodshei kodashim, a carne santíssima, restrita aos cohanim homens; e kodashim kalim, sacrifícios de santidade leve, que podem ser consumidos por qualquer israelita puro), é proibido aos impuros, e permitido aos puros (o resultado final: como tanto kodshei kodashim quanto kodashim kalim, quando puros, são permitidos a pessoas ritualmente puras — a diferença entre eles está em quem pode comê-los, não em pureza ritual —, a mistura das duas categorias com a carne comum não introduz uma proibição adicional para pessoas puras; mas, para pessoas impuras, a soma de ambas as categorias sagradas, cada uma potencialmente insuficiente isoladamente, basta para proibir, já que carne sagrada nunca pode ser consumida por quem está impuro).

בְּשַׂר קָדְשֵׁי קָדָשִׁים וּבְשַׂר קָדָשִׁים קַלִּים שֶׁנִּתְבַּשְּׁלוּ עִם בְּשַׂר הַתַּאֲוָה, אָסוּר לִטְמֵאִים וּמֻתָּר לִטְהוֹרִים: