Massechet Orlá não possui Guemará no Talmud Bavli — apenas a Mishná é impressa/estudada nesta trilha. Esta página apresenta a Mishná adaptada ao formato da trilha Bavli; para o estudo devocional completo, com fontes da Torá, halachot dos códigos e o perush dos mefarshim, veja a versão completa na Mishná.
A trumá, e a trumá do dízimo de demai, a chalá e os primeiros frutos (quatro dons sacerdotais que, ao caírem misturados em alimento comum, se anulam pela mesma regra, por serem todos chamados "trumá" na Torá), sobem em um e cem (uma medida de qualquer um destes, caída em cem medidas de alimento comum, se anula — bastando separar uma medida equivalente para o cohen), e se juntam uns aos outros (para efeito de completar a proporção de cem, as quantidades de trumá, chalá e bicurim se somam entre si, mesmo vindas de fontes diferentes, pois compartilham o mesmo nome de "trumá"), e é necessário separar (mesmo depois de anulada a proibição para os demais, é preciso retirar do todo uma medida e entregá-la ao cohen, pois a trumá é propriedade dele). A orlá e o kilayim da vinha sobem em um e duzentos (por serem proibidas também em proveito, e não apenas em consumo, sua proporção de anulação é o dobro da trumá), e se juntam uma à outra (orlá e kilei hakerem, apesar de serem proibições distintas, se somam para completar a proporção de duzentos), e não é necessário separar (diferente da trumá, que pertence ao cohen e por isso precisa ser retirada e entregue a ele, orlá e kilei hakerem não pertencem a ninguém — uma vez anuladas na proporção, toda a mistura fica permitida sem necessidade de remoção). Rabi Shimon diz: não se juntam (discorda que orlá e kilei hakerem se somem entre si para completar a proporção de duzentos, por serem nomes de proibição diferentes). Rabi Eliezer diz: se juntam em dando sabor, mas não para proibir (posição intermediária: elas se combinam apenas para o efeito de que, se a mistura conjunta transmite sabor perceptível, isso não basta para tornar tudo proibido — mas não se somam para, ao contrário, criar uma proibição que nenhuma delas isoladamente causaria).
A trumá eleva a orlá, e a orlá a trumá (cada uma delas, uma vez diluída na mistura, pode servir de base numérica que ajuda a anular a outra, caída posteriormente). Como assim? Uma medida de trumá que caiu em cem (de alimento comum, ficando assim anulada, pois cem é a proporção que anula trumá), e depois caíram três cabin de orlá, ou três cabin de kilei hakerem (um cabin equivale a um sexto de uma medida-seá; três cabin são, portanto, meia medida), este é o caso em que a trumá eleva a orlá, e a orlá a trumá (a medida original de cem, somada aos três cabin, ultrapassa a proporção de duzentos necessária para anular a orlá; e, inversamente, o total combinado também basta para manter anulada a trumá original).
A orlá eleva o kilayim, e o kilayim a orlá, e a orlá a orlá (três variações do mesmo mecanismo: qualquer uma destas proibições, já anulada numa mistura, pode servir de base para anular uma segunda, de nome diferente — ou até do mesmo nome, no caso de neta revai, entendido aqui como uma segunda forma de "orlá" — caída na mesma mistura). Como assim? Uma medida de orlá que caiu em duzentos (de alimento comum, ficando assim anulada, pois duzentos é a proporção que anula orlá), e depois caiu uma medida e mais de orlá, ou uma medida e mais de kilei hakerem (uma quantidade que, isolada, seria maior que a proporção mínima necessária para ser anulada por duzentos, mas que, somada à medida original já anulada, permanece dentro da proporção), este é o caso em que a orlá eleva o kilayim, e o kilayim a orlá, e a orlá a orlá (o princípio se aplica nas três direções: a primeira proibição, uma vez neutralizada, participa da massa que absorve e neutraliza a segunda, seja ela kilei hakerem ou uma nova ocorrência de orlá).
Todo o que fermenta, e tempera, e mistura (três verbos que descrevem o mesmo fenômeno: uma pequena quantidade de fermento, tempero ou alimento proibido que se combina ativamente com a massa ou a panela comum, alterando seu sabor ou sua composição, mesmo que a quantidade absoluta seja mínima) com a trumá, e com a orlá, e com o kilei hakerem, é proibido (diferentemente das misturas passivas tratadas nas mishnayot anteriores, aqui não há proporção que anule — mesmo uma quantidade infinitesimal de fermento ou tempero proibido, se sua ação de fermentar ou temperar é perceptível no resultado, torna tudo proibido). E Beit Shamai dizem: também torna impuro (a mesma pequena quantidade de fermento ou tempero, se estava ritualmente impura, transmite impureza a toda a massa ou ao prato, independente da quantidade). E Beit Hilel dizem: nunca torna impuro, a menos que haja nele o volume de um ovo (Beit Hilel discordam: para efeitos de impureza ritual — diferente da proibição de consumo —, aplica-se a medida padrão de "ovo" que rege a impureza de alimentos em geral, independentemente do efeito de fermentar ou temperar).
Dostai, homem de Kfar Yitmá, era dos discípulos de Beit Shamai (identificação do transmissor: um sábio que se identificava com a escola de Shamai, e por isso sua testemunha sobre o próprio fundador da escola tem peso especial), e disse: ouvi de Shamai o Velho, que disse (uma tradição oral direta, atribuída à fonte primária da escola, e não a uma formulação posterior de "Beit Shamai" como escola): nunca torna impuro, a menos que haja nele o volume de um ovo (a mesma posição que a mishná anterior atribuiu a Beit Hilel — sugerindo que a posição original do próprio Shamai coincidia, neste ponto específico, com a de Hilel, e que a disputa reportada em 2:4 talvez reflita uma evolução ou uma versão distinta da tradição da escola de Shamai).
E por que disseram: todo o que fermenta, e tempera, e mistura, para ser mais rigoroso? (a mishná retoma a regra de 2:4 — que qualquer quantidade de fermento ou tempero proibido torna tudo proibido — e pergunta pelas condições exatas dessa aplicação) Tipo com seu próprio tipo (a resposta: essa regra rigorosa de "qualquer quantidade" vale apenas quando o fermento ou tempero proibido é do mesmo tipo de grão ou alimento que o permitido no qual caiu). Para ser mais leniente e mais rigoroso, tipo com tipo diferente (quando os tipos são diferentes, aplica-se um critério distinto — às vezes mais leniente, às vezes mais rigoroso, dependendo do sabor perceptível). Como assim? Fermento de trigo que caiu dentro de uma massa de trigo (exemplo do primeiro caso: mesmo tipo com mesmo tipo), e há nele o suficiente para fermentar, seja havendo nele o suficiente para subir em um e cem, seja não havendo nele o suficiente para subir em um e cem, é proibido (quando os tipos são idênticos, a proibição de "qualquer quantidade" prevalece incondicionalmente sobre o critério de proporção). Não havendo nele o suficiente para subir em cem e um, seja havendo nele o suficiente para fermentar, seja não havendo nele o suficiente para fermentar, é proibido (mesmo sem capacidade de fermentar ativamente, a proporção insuficiente de cem-e-um já basta, por si só, para proibir — reafirmando que, no caso de mesmo tipo, há dois caminhos independentes e cumulativos para a proibição: o efeito de fermentação, ou a simples insuficiência da proporção).
Para ser mais leniente e mais rigoroso, tipo com tipo diferente, como assim? (retomando a segunda metade da explicação de 2:6: quando os dois alimentos misturados são de tipos diferentes, o critério de sabor perceptível pode, dependendo do caso, ser mais leniente ou mais rigoroso que a simples proporção) Como grãos partidos [de trumá] que foram cozidos com lentilhas [comuns] (gerissin — grãos de leguminosa partidos, tipicamente de fava — de trumá, cozidos junto com lentilhas de alimento comum: dois tipos de leguminosa diferentes), e há neles sabor perceptível, seja havendo neles o suficiente para subir em um e cem, seja não havendo neles o suficiente para subir em um e cem, é proibido (quando o sabor da trumá é perceptível no prato de lentilhas, a mistura fica proibida independentemente da proporção — mesmo que a quantidade de grãos fosse pequena o bastante para, em teoria, se anular por proporção, o sabor perceptível já basta para proibir: aqui o critério de sabor é mais rigoroso que a proporção). Não há neles sabor perceptível, seja havendo neles o suficiente para subir em um e cem, seja não havendo neles o suficiente para subir em um e cem, é permitido (inversamente, se o sabor não é perceptível, a mistura é permitida mesmo que a proporção numérica fosse insuficiente para anular — aqui o critério de sabor é mais leniente que a proporção, pois a ausência de sabor perceptível basta para permitir, dispensando o cálculo).
Fermento de alimento comum que caiu dentro de uma massa, e há nele o suficiente para fermentar (o fermento comum, sozinho, já é suficiente para fazer toda a massa fermentar — a massa já está, por assim dizer, "garantida" a fermentar mesmo sem qualquer outro fermento), e depois caiu fermento de trumá, ou fermento de kilei hakerem, e há nele o suficiente para fermentar (um segundo fermento, este proibido, também cai na mesma massa, também em quantidade suficiente para fermentar por si só), é proibido (apesar de o resultado — a massa fermentada — já estar assegurado antes mesmo da chegada do fermento proibido, a massa fica proibida, pois o fermento proibido também contribuiu ativamente para o resultado final, e sua ação, uma vez presente e capaz, não pode ser ignorada apenas porque já havia outra causa suficiente).
Fermento de alimento comum que caiu dentro de uma massa e a fez fermentar (diferente da mishná anterior, aqui o processo de fermentação já se completou inteiramente por causa do fermento comum, antes de qualquer outro fermento entrar em cena), e depois caiu fermento de trumá, ou fermento de kilei hakerem, e há nele o suficiente para fermentar (o fermento proibido chega numa massa que já está, tecnicamente, pronta — já fermentada), é proibido (a posição dos Sábios, mantendo a mesma lógica de 2:8: mesmo chegando depois, o fermento proibido tem capacidade de agir e por isso proíbe). Rabi Shimon permite (Rabi Shimon discorda: uma vez que a massa já estava fermentada antes da chegada do fermento proibido, este último não pode ser considerado "causa" da fermentação — sua ação, chegando tarde, no máximo prejudica o sabor, sem alterar o status halachico da massa).
Temperos de dois ou três nomes de um só tipo, ou de três tipos [com nome comum] (um prato recebe vários temperos proibidos — por exemplo, de orlá, de kilei hakerem e de trumá —, cada um em quantidade pequena demais para, isoladamente, temperar o prato perceptivelmente, mas todos pertencendo ao mesmo tipo geral de tempero, ou a variedades diferentes que compartilham um nome comum), é proibido, e se somam (mesmo que nenhum deles isoladamente bastasse para dar sabor perceptível, a soma de todos eles é suficiente, e por isso o prato inteiro fica proibido). Rabi Shimon diz: dois ou três nomes de um só tipo, ou dois tipos de um só nome, não se somam (Rabi Shimon discorda parcialmente: para ele, apenas quando os temperos compartilham exatamente o mesmo nome — ainda que de tipos ligeiramente diferentes — é que eles se somam; quando são nomes distintos, mesmo do mesmo tipo geral, cada um deve ser avaliado isoladamente, e nenhum, sendo insuficiente por si só, proíbe).
Fermento de alimento comum e de trumá que caíram dentro de uma massa, não havendo neste o suficiente para fermentar, nem naquele o suficiente para fermentar (nenhum dos dois fermentos, isoladamente, teria capacidade de fazer a massa fermentar), se juntaram e fermentaram (mas juntos, os dois fermentos somados efetivamente fizeram a massa fermentar), Rabi Eliezer diz: sigo o último (Rabi Eliezer resolve o caso atribuindo o efeito exclusivamente ao fermento que caiu por último: se foi o de trumá que caiu por último, a massa é proibida — ele "completou" o processo; se foi o comum, a massa é permitida). E os Sábios dizem: seja caindo o proibido no início, seja no fim, nunca proíbe, a menos que haja nele, sozinho, o suficiente para fermentar (os Sábios rejeitam o critério de ordem cronológica de Rabi Eliezer: para eles, o que importa é apenas se o fermento proibido, isoladamente, teria capacidade de fermentar a massa; como neste caso ele não tinha essa capacidade sozinho, a massa permanece permitida, independentemente da ordem em que os fermentos caíram).
Yoezer, homem de Habirá, era dos discípulos de Beit Shamai (identificação do transmissor, paralela à de Dostai em 2:5 — outro sábio da escola de Shamai que, mesmo assim, testemunha uma tradição que reforça a posição vencedora dos Sábios), e disse: perguntei a Rabán Gamliel o Velho, estando ele junto à Porta Oriental (um relato de encontro direto e específico — o local, a Porta Oriental do Pátio do Templo, ancora a tradição num contexto histórico concreto), e ele disse: nunca proíbe, a menos que haja nele o suficiente para fermentar (a resposta de Rabán Gamliel confirma exatamente a posição dos Sábios na mishná anterior — que o critério decisivo é a capacidade do próprio fermento proibido, isoladamente, de fermentar a massa, e não a ordem cronológica de sua queda).
Utensílios que foram untados com óleo impuro, e voltaram a ser untados com óleo puro (um utensílio de couro — como sandálias ou correias — é primeiro tratado com óleo ritualmente impuro para amaciá-lo, e depois recebe uma segunda camada de óleo puro), ou que foram untados com óleo puro, e voltaram a ser untados com óleo impuro (o caso inverso: óleo puro primeiro, óleo impuro depois), Rabi Eliezer diz: sigo o primeiro (Rabi Eliezer resolve o caso seguindo sempre o primeiro óleo aplicado — pois é ele que penetra mais profundamente no couro e permanece absorvido nas fibras do utensílio). E os Sábios dizem: sigo o último (os Sábios discordam: para eles, o critério é o óleo que efetivamente é exsudado — que "sai" do couro — quando o utensílio é usado e aquecido, e este é normalmente o óleo aplicado por último, que permanece mais próximo da superfície).
Fermento de trumá e de kilei hakerem que caíram dentro de uma massa (dois fermentos proibidos, de fontes distintas, caindo na mesma massa), não havendo neste o suficiente para fermentar, nem naquele o suficiente para fermentar (nenhum dos dois, isoladamente, teria capacidade de fazer a massa fermentar), e se juntaram e fermentaram (mas a soma dos dois fermentos, juntos, efetivamente fez a massa fermentar — o mesmo cenário de causa combinada de 2:11), é proibido aos não-cohanim, e permitido aos cohanim (diferente de 2:11, aqui o resultado não é simplesmente "permitido" — porque um dos dois elementos, a trumá, é proibida apenas aos não-cohanim, mas permitida aos próprios cohanim; por isso, a massa resultante da combinação segue essa mesma distinção: proibida a quem a trumá seria proibida, permitida a quem ela seria permitida). Rabi Shimon permite aos não-cohanim e aos cohanim (Rabi Shimon discorda inteiramente, seguindo sua posição já vista em 2:10 — de que "dois nomes diferentes" [aqui, trumá e kilei hakerem] não se somam para completar a proibição, tornando a massa permitida a todos).
Temperos de trumá e de kilei hakerem que caíram na panela (paralelo exato de 2:14, mas agora com temperos numa panela de comida cozida, em vez de fermento numa massa de pão), não havendo nestes o suficiente para temperar, nem naqueles o suficiente para temperar (nenhum dos dois temperos, isoladamente, seria suficiente para dar sabor perceptível à panela), e se juntaram e temperaram (mas a soma dos dois, juntos, efetivamente deu sabor perceptível ao prato), é proibido aos não-cohanim, e permitido aos cohanim (exatamente o mesmo resultado misto de 2:14: proibido a quem a trumá seria proibida, permitido a quem ela seria permitida, pois o kilei hakerem, isolado, era insuficiente). Rabi Shimon permite aos não-cohanim e aos cohanim (a mesma posição de Rabi Shimon, consistente com sua rejeição da soma de "nomes diferentes" já vista em 2:10 e 2:14).
Um pedaço de kodshei kodashim, de pigul, e de notar, que foram cozidos com os pedaços (de carne comum — três categorias distintas de carne proibida ou restrita do domínio sacrificial: kodshei kodashim, carne santíssima que só os cohanim do sexo masculino podem comer; pigul, um sacrifício tornado inválido por pensamento indevido durante sua oferenda; e notar, sobra de um sacrifício que passou do prazo permitido para consumo — cada uma insuficiente isoladamente para dar sabor perceptível ao guisado de carne comum), é proibido aos não-cohanim, e permitido aos cohanim (seguindo a mesma lógica de soma de "nomes diferentes" de 2:14-15: para o não-cohen, tanto a carne santíssima quanto o pigul e o notar são proibidos, e por isso a soma dos três, ainda que cada um isoladamente insuficiente, basta para proibir; para o cohen, porém, a carne santíssima em si lhe é permitida — restando apenas pigul e notar como elementos proibidos mesmo para ele, mas o restante do capítulo esclarece que mesmo esses, quando insuficientes, não bastam a proibir sozinhos, pelo mesmo princípio). Rabi Shimon permite aos não-cohanim e aos cohanim (mantendo consistência com sua posição em toda a série de mishnayot 2:10, 2:14 e 2:15 — para ele, "nomes diferentes" nunca se somam, e por isso, sendo cada elemento insuficiente isoladamente, o guisado inteiro permanece permitido a todos).
Carne de kodshei kodashim e carne de kodashim kalim que foram cozidas com carne de apetite (basar taavá, carne comum, não-sagrada, consumida livremente por qualquer pessoa — aqui cozida junto com pedaços de duas categorias de carne sacrificial: kodshei kodashim, a carne santíssima, restrita aos cohanim homens; e kodashim kalim, sacrifícios de santidade leve, que podem ser consumidos por qualquer israelita puro), é proibido aos impuros, e permitido aos puros (o resultado final: como tanto kodshei kodashim quanto kodashim kalim, quando puros, são permitidos a pessoas ritualmente puras — a diferença entre eles está em quem pode comê-los, não em pureza ritual —, a mistura das duas categorias com a carne comum não introduz uma proibição adicional para pessoas puras; mas, para pessoas impuras, a soma de ambas as categorias sagradas, cada uma potencialmente insuficiente isoladamente, basta para proibir, já que carne sagrada nunca pode ser consumida por quem está impuro).