Massechet Orlá não possui Guemará no Talmud Bavli — apenas a Mishná é impressa/estudada nesta trilha. Esta página apresenta a Mishná adaptada ao formato da trilha Bavli; para o estudo devocional completo, com fontes da Torá, halachot dos códigos e o perush dos mefarshim, veja a versão completa na Mishná.
Uma roupa que a tingiu com cascas de orlá (cascas de frutos proibidos por orlá — como as de romãs e nozes, que servem de corante — que, por serem parte do fruto proibido, carregam também elas a proibição de qualquer proveito), será queimada (a roupa inteira, já que a tinta de orlá se espalhou por todo o tecido e não há como separar o proveito proibido do restante). Se se misturou com outras (a roupa tingida com orlá se confundiu, sem identificação possível, entre um conjunto de outras roupas não tingidas com orlá), todas serão queimadas — palavras de Rabi Meir (Rabi Meir considera a roupa um item "que costuma ser contado" — um objeto de valor individual e identificável, não uma substância que se dilui numa massa —, e por isso não se aplica a ela a regra comum de anulação por proporção). E os Sábios dizem: sobe em um e duzentos (discordam de Rabi Meir: mesmo tratando-se de um objeto individual como uma roupa, ele se anula na proporção padrão de proibições vedadas também em proveito — uma parte proibida para cada duzentas partes permitidas).
O que tinge um fio de tamanho mínimo (melo hasit, uma medida técnica mínima de comprimento de fio, suficiente para ser considerada uma porção significativa de tingimento) com cascas de orlá, e o teceu numa roupa, e não se sabe qual é ele (o fio tingido se perdeu, indistinguível, entre os demais fios da roupa tecida), Rabi Meir diz: a roupa será queimada (mantendo sua posição da mishná anterior: um item identificável e "que costuma ser contado" — mesmo reduzido a um único fio — não se anula por proporção, e proíbe toda a peça em que se perdeu). E os Sábios dizem: sobe em um e duzentos (mantendo igualmente sua posição: mesmo esse fio individual se submete à regra padrão de anulação de proibições vedadas em proveito).
O que tece um fio de tamanho mínimo de lã de bechor numa roupa, a roupa será queimada (bechor, animal primogênito com defeito físico que o desqualifica para sacrifício — sua lã é proibida em proveito, tal como a orlá, pela mesma lógica de contaminação de um tecido inteiro). E de pelo de nazireu e de asno primogênito, num saco, o saco será queimado (pelo de nazireu — os cabelos que o nazireu deve raspar e queimar ao final de seu voto — e pelo de um asno primogênito não resgatado são igualmente proibidos em proveito; a mishná usa "saco" em vez de "roupa" por ser o produto têxtil típico tecido a partir de pelo, em vez de lã). E, em objetos consagrados, santificam em qualquer quantidade (regra geral distinta: quando o material contaminante é hekdesh — propriedade consagrada ao Templo —, ele proíbe o todo mesmo na menor quantidade imaginável, sem exigir sequer o melo hasit que os casos anteriores requerem).
Um guisado que o cozinhou com cascas de orlá (usando as cascas — ou a madeira — de um fruto de orlá como combustível sob a panela, de modo que o sabor da queima se transmite ao guisado), será queimado (pois há "vantagem de lenha" no guisado: a fumaça e o calor da combustão da madeira proibida efetivamente temperam e melhoram o prato, transmitindo-lhe proveito proibido). Se se misturou com outros (o guisado contaminado se misturou, sem identificação, com outros guisados permitidos), sobe em um e duzentos (diferentemente das mishnayot 1-2, aqui não há menção de disputa entre Rabi Meir e os Sábios: todos concordam que um guisado — substância líquida e fungível, não um objeto individualizável como uma roupa — se anula pela proporção padrão).
Um forno que o aqueceram com cascas de orlá e assaram nele o pão (o forno de barro tradicional, aquecido primeiro pela queima de lenha em seu interior, e só depois usado, já quente, para assar o pão nas suas paredes internas), o pão será queimado (mesmo sem contato direto entre a lenha e a massa, o calor e a fumaça da combustão de orlá impregnam as paredes do forno e se transmitem ao pão assado nele). Se se misturou com outros (o pão contaminado se misturou, sem identificação, com outros pães permitidos), sobe em um e duzentos (a mesma proporção padrão da mishná anterior, sem disputa registrada).
Aquele que tinha feixes de feno-grego de kilei hakerem (tiltan, feno-grego, aqui cultivado ilicitamente dentro da vinha, junto às videiras, constituindo a proibição de kilei hakerem — mistura de espécies na vinha — vedada em proveito, como a orlá), serão queimados (os feixes de kilei hakerem, isoladamente identificados, devem ser destruídos por completo). Se se misturaram com outros (os feixes proibidos se confundiram, sem identificação, entre um conjunto maior de feixes permitidos), todos serão queimados — palavras de Rabi Meir (Rabi Meir trata os feixes, tal como a roupa das mishnayot 1-2, como itens "que costumam ser contados" e por isso individualmente significativos, não sujeitos à anulação por proporção). E os Sábios dizem: sobem em um e duzentos (discordam, aplicando a proporção padrão de proibições vedadas em proveito, mesmo a feixes contados individualmente).
Pois Rabi Meir costumava dizer: aquilo cujo costume é ser contado (itens vendidos por unidade — "dez nozes", "cinco romãs" —, e não por peso ou volume, como grãos ou líquidos), santifica (termo técnico para "proíbe a mistura inteira", em qualquer proporção, sem possibilidade de anulação). E os Sábios dizem: não santifica, exceto seis coisas apenas (os Sábios rejeitam a generalização de Rabi Meir e limitam a regra estrita a uma lista fechada e específica). E Rabi Akiva diz: sete (Rabi Akiva aceita a lista dos Sábios, mas acrescenta um sétimo item). E estes são eles: nozes de Perech, romãs de Badan, e barris fechados, e folhas de acelga, e repolhos [inteiros], e abóbora grega (seis itens específicos — nomeados por sua qualidade excepcional ou origem geográfica reconhecida — que, por serem vendidos e valorizados individualmente, proíbem a mistura inteira mesmo em quantidade mínima). Rabi Akiva diz: também as fôrmas de pão do dono da casa (o sétimo item de Rabi Akiva: pães grandes, feitos para uso doméstico — e não os pães pequenos e padronizados do padeiro profissional). O que é apto para orlá, é orlá; o que é apto para kilei hakerem, é kilei hakerem (conclusão importante: a lista de seis ou sete itens não é uma lista única aplicável a qualquer proibição, mas se divide entre os dois domínios — cada item "santifica" apenas dentro da categoria de proibição à qual pertence por sua própria natureza).
Como assim? (a mishná retoma a lista da mishná 7 para explicar a condição sob a qual ela deixa de se aplicar) Se as nozes se partiram, as romãs se separaram, os barris se abriram, as abóboras se cortaram, as fôrmas de pão se fatiaram (cada um dos cinco primeiros itens da lista anterior, agora descrito no momento em que perde sua integridade física original — a casca da noz quebrada, os grãos da romã espalhados, o lacre do barril rompido, a abóbora cortada em pedaços, o pão fatiado), sobem em um e duzentos (uma vez rompida a integridade física do item, ele deixa de ser "contado" no sentido técnico da mishná anterior, e passa a se submeter à regra padrão de anulação por proporção, como qualquer substância comum).
Dúvida de orlá (um caso em que não se sabe com certeza se determinado fruto provém de uma árvore ainda dentro dos três primeiros anos, ou de uma árvore já liberada — por exemplo, quando um não-judeu tem em seu pomar tanto árvores jovens quanto antigas, e vende frutos sem indicar a origem), na Terra de Israel é proibida (seguindo o princípio geral de que uma dúvida sobre uma proibição de origem bíblica se resolve pelo rigor — safek deoraita lechumra), e na Síria é permitida (a Síria, território conquistado por Davi mas não incluído nos limites bíblicos originais da Terra prometida, tem status intermediário: a conquista individual de um rei, não da nação inteira, não confere o mesmo grau de santidade territorial, e por isso a mishná é mais leniente quanto à dúvida ali), e no exterior desce e compra, contanto que não o veja colhendo (fora da Terra de Israel e da Síria, é permitido descer ao pomar de um não-judeu e comprar frutos que ele já colheu — mesmo sabendo que parte do pomar é orlá —, desde que o comprador não veja com os próprios olhos o momento exato da colheita, o que tornaria explícita a possível violação). Uma vinha plantada com legumes, e o legume vendido fora dela (o segundo caso da mishná, análogo em estrutura: uma vinha com kilei hakerem, cujos legumes proibidos se misturam, na venda, com legumes de fora da vinha), na Terra de Israel é proibido, e na Síria é permitido, e no exterior desce e colhe, contanto que não colha com a própria mão (o mesmo mapa de três zonas se aplica a kilei hakerem, com uma variação sutil na condição do exterior — aqui, "não colher com a mão", em vez de "não ver colhendo", refletindo a natureza rabínica, e não bíblica, desta proibição fora da Terra). O grão novo é proibido pela Torá em todo lugar (chadash, grão da nova colheita antes da oferta do Omer — ao contrário de orlá e kilayim, sua proibição bíblica se aplica integralmente até fora da Terra de Israel, sem as zonas de leniência). E a orlá é halachá (halachá leMoshé miSinai — uma tradição oral transmitida a Moshé no Sinai, sem base textual explícita, mas com força normativa equivalente à Torá escrita, que estabelece especificamente que a proibição de orlá vale mesmo fora da Terra, embora com a leniência da dúvida). E o kilayim é palavra dos escribas (midivrei soferim — kilei hakerem fora da Terra de Israel é, ao contrário de orlá, uma extensão de origem rabínica, e não uma halachá sinaítica, explicando por que sua leniência de dúvida no exterior é ainda maior).