Massechet Negaim não possui Guemará no Talmud Bavli — apenas a Mishná é impressa/estudada nesta trilha. Esta página apresenta a Mishná adaptada ao formato da trilha Bavli; para o estudo devocional completo, com fontes da Torá, halachot dos códigos e o perush dos mefarshim, veja a versão completa na Mishná.
Toda dúvida em pragas é pura, exceto esta, e mais uma outra. E qual é? Esta: aquele em quem havia uma mancha do tamanho de um grão, e ele a enclausurou; ao fim da semana, eis que ela está do tamanho de uma sela — há dúvida se é ela mesma, há dúvida se outra veio em seu lugar: é impuro.
A mishná abre o Perek Hei com um princípio geral que orienta toda a lei da dúvida em pragas — salvo duas exceções, toda dúvida é resolvida pela leniência, sendo o portador declarado puro. A primeira dessas exceções é apresentada de imediato: um homem que tinha uma mancha do tamanho de um grís (grão), medida mínima para tornar-se sinal de impureza, foi enclausurado por sete dias para observação. Ao fim da semana, o sacerdote encontra uma mancha do tamanho de uma sela — uma moeda, medida bem maior que a original. Surge então a dúvida: seria esta a mesma mancha original que simplesmente alastrou, caso em que o alastramento durante o enclausuramento certifica a impureza definitiva; ou seria uma mancha totalmente diferente, que substituiu a primeira em seu lugar, caso em que — não havendo alastramento de uma mancha já existente, mas sim uma mancha nova que ainda não completou sequer sua primeira semana de observação — a impureza não estaria ainda estabelecida. Apesar de essa ser exatamente o tipo de dúvida que, em princípio, deveria ser resolvida pela leniência, a mishná determina que aqui prevalece o rigor: é impuro. A segunda exceção prometida será explicada nas mishnayot seguintes deste mesmo perek.
Se o certificou impuro definitivamente por causa de pelo branco, e o pelo branco desapareceu e outro pelo branco voltou — e assim também com carne viva e com alastramento — seja no início, seja ao fim da primeira semana, seja ao fim da segunda semana, seja depois da isenção: ela permanece como estava. Se o certificou impuro definitivamente por causa de carne viva, e a carne viva desapareceu e outra carne viva voltou — e assim também com pelo branco e com alastramento — no início, ao fim da primeira semana, ao fim da segunda semana, depois da isenção: ela permanece como estava. Se o certificou impuro definitivamente por causa de alastramento, e o alastramento desapareceu e outro alastramento voltou — e assim também com pelo branco — ao fim da primeira semana, ao fim da segunda semana, depois da isenção: ela permanece como estava.
A mishná estabelece um princípio de continuidade da impureza através dos três sinais secundários que certificam a impureza definitiva — pelo branco, carne viva e alastramento. Em cada um dos três parágrafos, o sacerdote já havia certificado o portador impuro por causa de um desses sinais; em seguida, esse mesmo sinal desaparece, e depois um sinal de impureza retorna — seja o mesmo tipo de sinal (outro pelo branco no lugar do primeiro), seja um sinal diferente dos três (carne viva ou alastramento no lugar do pelo branco). O momento em que isso ocorre não faz diferença: pode ser logo no início do exame, ao fim da primeira semana de observação, ao fim da segunda semana, ou mesmo depois de o portador já ter sido isento da impureza. Em todos esses casos, a mishná determina que ele permanece na mesma condição em que estava — ou seja, continua impuro, pois ainda há nele um sinal de impureza, mesmo que não seja exatamente o mesmo sinal que motivou a certificação original. Nota-se que, ao tratar do alastramento na terceira cláusula, a mishná não menciona o retorno da carne viva, mas apenas do pelo branco — distinção que os comentadores explicam adiante.
Pelo depositado: Akavia ben Mahalalel declara impuro, e os sábios declaram puro. Qual é o pelo depositado? Aquele em quem havia uma mancha com pelo branco nela, e a mancha desapareceu, deixando o pelo branco em seu lugar, e voltou: Akavia ben Mahalalel declara impuro, e os sábios declaram puro. Disse Rabi Akiva: eu concordo, neste caso, que é puro. Qual é o pelo depositado? Aquele em quem havia uma mancha do tamanho de um grão com duas fiações de pelo nela, e desapareceu dela o tamanho de meio grão, deixando o pelo branco no lugar da mancha, e voltou. Disseram-lhe: assim como anularam as palavras de Akavia, também as tuas palavras não se sustentam.
A mishná introduz um novo conceito técnico, o “se’ar pekudah” (pelo depositado), e a controvérsia que ele suscita entre Akavia ben Mahalalel e os sábios. O caso é o seguinte: havia uma mancha com pelo branco válido em seu interior — sinal que, junto com a mancha, certificaria a impureza definitiva. Então a mancha desaparece por completo, mas o pelo branco permanece exatamente no lugar onde a mancha estava, como um depósito deixado para trás; depois disso, a mancha retorna a esse mesmo lugar. Akavia ben Mahalalel sustenta que, como o pelo branco nunca deixou de estar ali, ele continua válido como sinal, e a mancha que retornou é certificada impura por causa dele. Os sábios discordam: exigem que seja a própria mancha atual, a que agora está presente, quem tenha efetivamente tornado aquele pelo branco — e, como o pelo já estava lá antes do retorno da mancha, ele não foi “convertido” por ela, sendo portanto puro. Rabi Akiva concorda com os sábios nesse primeiro caso, mas propõe uma segunda definição, mais restrita, do que seria “pelo depositado”: uma mancha do tamanho de um grão inteiro, com duas fiações de pelo, da qual desaparece apenas a metade — deixando o pelo branco no lugar exato da metade que sumiu — e depois essa metade retorna. Os sábios rejeitam também essa proposta, respondendo que, assim como refutaram a posição de Akavia, também as palavras de Rabi Akiva não se sustentam — ou seja, também nesse caso mais restrito, o pelo é considerado depositado e, portanto, puro.
Toda dúvida em pragas, no início, é pura, até que se torne sujeito à impureza. Uma vez tornado sujeito à impureza, sua dúvida é impura. Como assim? Dois que vieram diante de um sacerdote, este com uma mancha do tamanho de um grão e aquele do tamanho de uma sela; ao fim da semana, este está do tamanho de uma sela e aquele do tamanho de uma sela, e não se sabe em qual deles houve alastramento — seja num só homem, seja em dois homens: é puro. Rabi Akiva diz: num só homem, é impuro; e em dois homens, é puro.
A mishná enuncia agora, de forma explícita, o princípio geral que subjaz a toda a lei da dúvida em pragas, e que explica por que a exceção de 5:1 foi necessária: no início do processo, antes que o portador já esteja sujeito à impureza por um sinal certificado, toda dúvida é resolvida pela leniência — é puro. Somente depois de a impureza já estar estabelecida é que a dúvida passa a ser resolvida pelo rigor. A mishná ilustra o princípio inicial com um caso: dois homens chegam ao mesmo sacerdote; um tem uma mancha do tamanho de um grão (a medida mínima), o outro já tem uma mancha do tamanho de uma sela (medida maior). ambos são enclausurados para a semana de observação. Ao fim da semana, ambas as manchas estão do mesmo tamanho — uma sela — o que significa que a mancha menor necessariamente alastrou; mas não se sabe qual das duas foi a que cresceu, pois ambas agora têm a mesma medida. Como nenhuma impureza havia ainda sido certificada em nenhum dos dois, a dúvida favorece a leniência, e ambos são declarados puros — seja esse o caso de duas manchas em pessoas diferentes, seja (segundo o texto que a mishná também contempla) de duas manchas no mesmo homem. Rabi Akiva discorda parcialmente: no caso de um só homem com duas manchas, ele considera que, de qualquer modo, houve alastramento em uma delas, e por isso é impuro; mas no caso de dois homens diferentes, ele concorda que ambos são puros.
“Uma vez tornado sujeito à impureza, sua dúvida é impura.” Como assim? Dois que vieram diante de um sacerdote, este com uma mancha do tamanho de um grão e aquele do tamanho de uma sela; ao fim da semana, este está do tamanho de uma sela e mais um pouco, e aquele do tamanho de uma sela e mais um pouco: ambos são impuros. E ainda que voltem a ser do tamanho de uma sela e de uma sela, ambos permanecem impuros, até que voltem a ser do tamanho de um grão. Isto é o que disseram: “uma vez tornado sujeito à impureza, sua dúvida é impura.”
Esta última mishná do perek retoma o caso da mishná anterior, mas com uma diferença decisiva: agora, ao fim da semana, ambas as manchas ultrapassam a medida da sela — ficam “do tamanho de uma sela e mais um pouco”. Isso significa que, com certeza, ambos os homens tiveram alastramento em suas manchas, pois cada uma delas cresceu além do que já era antes (uma delas de grão a mais que sela, a outra de sela a mais que sela). Como o alastramento em ambos é certo — ainda que não se saiba exatamente qual proporção cabe a qual — a impureza já está estabelecida para os dois, e a partir daí vale o segundo princípio de 5:4: uma vez que a impureza se tornou certa, a dúvida subsequente se resolve pelo rigor. A mishná prossegue: mesmo que, depois disso, ambas as manchas voltem a encolher para o tamanho exato de uma sela — o que, isoladamente, poderia sugerir retração e leniência — os dois permanecem impuros, pois a impureza já estava certificada, e uma simples redução não basta para reverter uma certeza já estabelecida. Só quando ambas as manchas retornam exatamente à medida original do grão é que a impureza cessa por completo, pois nesse ponto fica claro que todo o crescimento posterior desapareceu. Assim se fecha o Perek Hei, reafirmando pela última vez a máxima com que a mishná anterior abriu a explicação: uma vez que a impureza se tornou sujeita, a dúvida é impura.