Massechet Negaim não possui Guemará no Talmud Bavli — apenas a Mishná é impressa/estudada nesta trilha. Esta página apresenta a Mishná adaptada ao formato da trilha Bavli; para o estudo devocional completo, com fontes da Torá, halachot dos códigos e o perush dos mefarshim, veja a versão completa na Mishná.
Todas as casas contraem impureza por marcas, exceto as dos não-judeus. Aquele que compra casas dos não-judeus — devem ser examinadas como no início. Casa redonda, casa triangular, casa construída em um navio ou em uma jangada, sobre quatro vigas — não contrai impureza por marcas. E se era quadrangular, mesmo que sobre quatro colunas, contrai impureza.
Esta primeira mishná do Perek Yud-Bet inaugura o tratamento da tzaraat das casas (Vayikrá 14:34 em diante), depois de o capítulo anterior ter encerrado a tzaraat das vestimentas. A expressão bíblica “a casa da terra de vossa posse” ensina que somente as casas pertencentes a judeus em Eretz Israel são suscetíveis a essa impureza; as casas dos não-judeus estão isentas, e, do mesmo modo, tampouco suas vestimentas e seus corpos contraem impureza por marcas. Por isso, quando um judeu compra uma casa de um não-judeu, os dias em que a marca já estava presente antes da compra não contam: a inspeção recomeça como se a marca tivesse acabado de aparecer. Em seguida, a mishná exclui certas formas de construção: uma casa redonda ou triangular não tem o mínimo de quatro paredes exigido pela repetição do termo “paredes” na Torá; e uma casa construída sobre um navio, uma jangada ou vigas soltas não está fixada à terra, condição implícita na expressão “casa da terra”. Contudo, se a casa for quadrangular, mesmo apoiada sobre apenas quatro colunas fixadas ao solo, com um teto sobre elas, ela contrai impureza por marcas, ainda que aberta pelos quatro lados.
Uma casa em que um dos seus lados é revestido de mármore, um de rocha, um de tijolos e um de terra — é pura. Uma casa em que não havia pedras, madeiras e terra, e nela apareceu uma marca, e depois trouxeram nela pedras, madeiras e terra — é pura. E do mesmo modo, uma vestimenta em que não se teceu três por três, e nela apareceu uma marca, e depois se teceu nela três por três — é pura. A casa não contrai impureza por marcas até que haja nela pedras, madeiras e terra.
Esta mishná estabelece duas condições para que uma casa seja suscetível à impureza de nêgaim. A primeira é que as quatro paredes sejam feitas de material apto: se apenas uma delas é de mármore, rocha natural, tijolos cozidos em forno ou blocos de terra pura — materiais que, por si sós, não são suscetíveis à impureza de marcas —, a casa inteira fica isenta, mesmo que a marca apareça numa das outras paredes. A segunda condição é a de que a casa esteja apta à impureza no momento exato em que a marca surge: se faltavam pedras, madeiras ou terra quando a marca apareceu, e só depois esses materiais foram trazidos, a casa permanece pura, pois lhe faltou a aptidão no momento decisivo. O mesmo princípio se aplica à vestimenta: se a marca apareceu antes de haver nela um trecho tecido de pelo menos três dedos por três dedos — medida mínima de suscetibilidade —, e só depois esse trecho foi tecido, a vestimenta permanece pura. Conclui-se, portanto, que a casa só contrai impureza por marcas quando já possui pedras, madeiras e terra reunidas.
E quantas pedras deve haver nela? Rabi Yishmael diz: quatro. Rabi Akivá diz: oito. Pois Rabi Yishmael dizia: até que apareça como dois grãos sobre duas pedras ou sobre uma pedra. Rabi Akivá diz: até que apareça como dois grãos sobre duas pedras, e não sobre uma pedra. Rabi Elazar bar Rabi Shimão diz: até que apareça como dois grãos sobre duas pedras, em duas paredes, no ângulo — seu comprimento como dois grãos e sua largura como um grão.
A mishná anterior exigiu que a casa tenha pedras, madeiras e terra para ser suscetível à impureza de marcas; esta mishná precisa quantas pedras, no mínimo, são necessárias. A base do debate é a medida mínima da própria marca, que a Torá fixa em “dois grãos” (do tamanho de dois grãos de feijão partidos). Rabi Yishmael entende que essa medida pode se formar sobre uma única pedra; como cada uma das quatro paredes da casa precisa ter ao menos uma pedra apta, basta um mínimo de quatro pedras. Rabi Akivá discorda: a marca só conta quando os dois grãos se dividem entre duas pedras distintas, nunca sobre uma só; por isso, cada parede precisa de duas pedras, totalizando oito. Rabi Elazar bar Rabi Shimão vai mais longe: a marca deve se formar exatamente no ângulo entre duas paredes, repartida entre elas — com comprimento de dois grãos e largura de um grão —, o que só é possível numa esquina onde duas paredes se encontram. A halachá segue a opinião de Rabi Akivá.
Madeira: o suficiente para colocar sob o batente. Rabi Yehudá diz: o suficiente para fazer um suporte atrás do batente. Terra: o suficiente para colocar entre uma fiada e outra. As paredes do cocho e as paredes da divisória não contraem impureza por marcas. Jerusalém e fora da terra não contraem impureza por marcas.
Depois de fixar a medida mínima de pedras na mishná anterior, esta mishná completa as medidas mínimas dos outros dois materiais exigidos — madeira e terra — e acrescenta uma lista de locais isentos. A medida mínima de madeira é a quantidade suficiente para servir de apoio sob o batente da porta; Rabi Yehudá propõe, em vez disso, a quantidade necessária para formar um suporte atrás do batente. A medida mínima de terra é a quantidade que preenche o espaço entre uma fiada de pedra e a seguinte. Em seguida, a mishná exclui as paredes que não servem de habitação propriamente dita: as paredes do cocho onde se alimenta o gado, e as paredes de simples divisão de jardins e pomares, pois a Torá fala especificamente das “paredes da casa”. Por fim, exclui-se também a própria Jerusalém — que, não tendo sido dividida entre as tribos como possessão particular, mas destinada a “casa de oração para todos os povos”, não se enquadra na expressão “terra de vossa posse” — e qualquer lugar fora da terra de Israel, pela mesma razão.
Como é a inspeção da casa? “E virá aquele a quem pertence a casa, e dirá ao sacerdote, dizendo: como que uma marca me apareceu na casa” (Vayikrá 14). Mesmo que seja um sábio e saiba com certeza que é uma marca, não deve decretar e dizer “uma marca me apareceu na casa”, mas sim “como que uma marca me apareceu na casa”. “E o sacerdote ordenará, e esvaziarão a casa” (antes que o sacerdote venha ver a marca, para que não se torne impuro tudo o que há na casa, e depois virá o sacerdote ver a casa) (ali) — mesmo feixes de lenha, mesmo feixes de canas, palavras de Rabi Yehudá. Rabi Shimão diz: isso seria uma ocupação para o esvaziamento. Disse Rabi Meir: e o que, afinal, se tornaria impuro para ele? Se disseres, seus utensílios de madeira, suas vestimentas e seus metais — ele os imerge e eles ficam puros. Com que se preocupou a Torá? Com seus utensílios de barro, com seu jarro e com seu pote de gotejar. Se assim a Torá se preocupou com seus bens desprezíveis, tanto mais com seus bens preciosos. Se assim com seus bens, tanto mais com a vida de seus filhos e filhas. Se assim com os bens de um ímpio, tanto mais com os de um justo.
Esta mishná detalha o procedimento verbal e prático da inspeção. O dono da casa deve falar ao sacerdote com cautela, dizendo apenas que “algo como uma marca” apareceu, sem decretar com certeza que se trata de tzaraat — pois somente o sacerdote tem autoridade para declarar a impureza, mesmo que o dono seja um sábio versado na lei. Antes de o sacerdote entrar para examinar, ordena-se que a casa seja completamente esvaziada, para que os objetos nela contidos não se tornem impuros junto com a declaração da marca. Segundo Rabi Yehudá, esse esvaziamento é total, incluindo até feixes de lenha e de canas, sem exceção. Rabi Shimão questiona essa leitura, e Rabi Meir explica a verdadeira razão do preceito: os utensílios de madeira, tecido ou metal poderiam, de qualquer forma, ser purificados por imersão no mikvê; o único prejuízo real recai sobre os utensílios de barro — como um jarro ou um pote pequeno —, que não têm purificação possível e teriam de ser quebrados. Da compaixão da Torá por esses bens humildes, conclui-se, por um argumento a fortiori, que ela tem ainda mais compaixão pelos bens preciosos, pela vida dos filhos e filhas do dono, e pela sorte até mesmo de um ímpio — quanto mais pela de um justo.
Ele não vai para dentro de sua casa e a isola, e nem para dentro da casa em que está a marca e a isola; mas fica de pé à entrada da casa em que está a marca, e a isola, como está dito: “e o sacerdote sairá da casa, à entrada da casa, e isolará a casa por sete dias” (Vayikrá 14). E vem ao fim da semana e vê se alastrou; e o sacerdote ordenará, e arrancarão as pedras em que está a marca, e as lançarão fora da cidade, em lugar impuro. E tomarão outras pedras e as trarão no lugar das pedras, e tomará outra terra e rebocará a casa (ali). Ele não toma pedras de um lado e as traz para o outro lado, nem terra de um lado para o outro, nem cal de lugar nenhum. Ele não traz uma no lugar de duas, nem duas no lugar de uma; mas traz duas no lugar de duas, no lugar de três, no lugar de quatro. Daí disseram: ai do ímpio, ai de seu vizinho — ambos arrancam, ambos raspam, ambos trazem as pedras; mas ele sozinho traz a terra, como está dito: “e tomará outra terra e rebocará a casa” — seu companheiro não se ocupa com ele no reboco.
Esta mishná regula o procedimento de isolamento da casa marcada, após a primeira inspeção. O sacerdote nunca entra na própria casa do dono para declarar o isolamento, nem entra na casa marcada para fazê-lo de dentro: ele deve ficar de pé exatamente à entrada da casa marcada, e só então declará-la isolada por sete dias, conforme o texto bíblico que descreve o sacerdote “saindo” da casa antes de isolá-la. Ao fim da semana, ele retorna para verificar se a marca alastrou; se sim, ordena que as pedras marcadas sejam arrancadas e lançadas fora da cidade, em lugar impuro, e substituídas por outras pedras, com o reboco renovado com terra nova. A mishná especifica regras rigorosas para essa substituição: não se pode transferir pedras, terra ou cal de um lado da casa para outro, nem substituir uma única pedra grande no lugar de duas pequenas, ou vice-versa — a substituição deve manter a correspondência numérica exata. Por fim, a mishná ensina a máxima popular “ai do ímpio, ai de seu vizinho”: quando uma parede compartilhada entre duas casas é marcada do lado de uma delas, o vizinho também é obrigado a ajudar a arrancar as pedras e a raspar a parede — pois a Torá usa o verbo no plural —, mas somente o dono da casa marcada é obrigado a trazer a terra nova para o reboco, pois esse verbo aparece no singular.
Vem ao fim da semana e vê: se voltou, derruba a casa — suas pedras, suas madeiras e toda a terra da casa — e leva para fora da cidade, a um lugar impuro (ali). O alastramento próximo é impuro em qualquer medida. E o distante, como um grão. E o que retorna nas casas, como dois grãos.
Esta última mishná do capítulo trata do estágio final do processo: depois que as pedras marcadas foram arrancadas e substituídas, e a casa rebocada com pedras e terra novas, o sacerdote retorna ao fim da semana para uma nova inspeção. Se a marca reaparecer nesse estágio — sinal de que a impureza não foi removida com a substituição parcial —, a casa inteira deve ser demolida: não apenas as pedras marcadas, mas todas as suas pedras, suas madeiras e toda a sua terra, que devem ser levadas para fora da cidade, a um lugar impuro. A mishná fecha estabelecendo as três medidas de alastramento (pisyon) aplicáveis às casas, paralelas às já vistas para a pele e para as vestimentas: o alastramento contíguo à marca original é impuro em qualquer medida, por menor que seja; o alastramento que aparece separado, sem contiguidade, precisa ter ao menos o tamanho de um grão; e a marca que retorna depois de já ter sido considerada curada precisa ter, desde o início, o tamanho de dois grãos — a mesma medida mínima exigida para a primeira aparição de uma marca de casa.