Massechet Maaser Sheni não possui Guemará no Talmud Bavli — apenas a Mishná é impressa/estudada nesta trilha. Esta página apresenta a Mishná adaptada ao formato da trilha Bavli; para o estudo devocional completo, com fontes da Torá, halachot dos códigos e o perush dos mefarshim, veja a versão completa na Mishná.
Ninguém deve dizer a seu companheiro: leve estes frutos a Jerusalém para dividir (isto é, prometendo-lhe uma parte dos frutos do segundo dízimo como recompensa por carregá-los até lá). Mas deve dizer-lhe: leve-os para que comamos e bebamos deles em Jerusalém (um convite para compartilhar a refeição sagrada, e não um pagamento por serviço prestado). Porém as pessoas podem dar umas às outras de presente, sem contrapartida (pois o dízimo, embora não possa ser usado como salário, continua podendo ser doado livremente a quem quer que seja, já que seu dono tem o direito de compartilhá-lo com quem desejar).
Não se compra teruma com dinheiro do segundo dízimo, porque isso reduz o número dos que podem comê-la (pois a teruma só pode ser comida por sacerdotes em estado de pureza, ao passo que o segundo dízimo, se comprado como fruto comum, poderia ser comido por qualquer israelita puro — logo, convertê-lo em teruma restringiria seu círculo de consumidores legítimos). Mas Rabi Shimon permite (argumentando que essa restrição não deveria ser motivo suficiente para proibir a compra). Disse-lhes Rabi Shimon: se a lei foi leniente quanto às oferendas de paz — que podem tornar-se piggul, notar ou impuras (estados que as tornam proibidas e sujeitas a punições severas), não deveríamos ser leniente também quanto à teruma? (já que a teruma, ao menos, não está sujeita a essas categorias adicionais de proibição). Disseram-lhe: se a lei foi leniente quanto às oferendas de paz, é porque elas são permitidas aos não-sacerdotes (zarim, ou seja, israelitas comuns), seremos leniente também quanto à teruma, que é proibida aos não-sacerdotes? (a resposta dos sábios inverte o argumento: a leniência com as oferendas de paz se justifica precisamente porque elas continuam acessíveis a todo israelita; a teruma, ao contrário, exclui de saída a maioria do povo, e é exatamente essa exclusão que a Mishná quer evitar ao proibir sua compra com dinheiro do dízimo).
Alguém que tinha dinheiro em Jerusalém e precisava dele (dinheiro do segundo dízimo, que precisava gastar em algo além de comer, beber ou untar-se), e seu companheiro tinha frutos (frutos comuns, não sagrados), diz a seu companheiro: eis que este dinheiro está resgatado sobre teus frutos (uma declaração de câmbio, transferindo a santidade do dízimo do dinheiro para os frutos do amigo). Resulta que este come seus frutos em pureza (o amigo, agora dono de frutos com santidade de dízimo, deve consumi-los conforme as leis de pureza aplicáveis ao segundo dízimo), e aquele faz o que precisa com seu dinheiro (o dono original do dízimo, agora com dinheiro comum em mãos, pode usá-lo livremente para qualquer finalidade). Mas não se deve dizer isso a um am haaretz (uma pessoa não confiável quanto à observância das leis de pureza ritual, por receio de que ele coma o dízimo em estado de impureza), a não ser que seja de demai (dízimo de produtos comprados de um am haaretz, cuja separação do dízimo é apenas duvidosa — nesse caso, o risco é menor e a permissão é concedida).
Se havia frutos comuns em Jerusalém e dinheiro do dízimo na medina (fora de Jerusalém), diz-se: eis que aquele dinheiro está resgatado sobre estes frutos (mesmo estando em lugares diferentes, a declaração de câmbio é válida). Se havia dinheiro do dízimo em Jerusalém e frutos comuns na medina (a situação inversa), diz-se: eis que este dinheiro está resgatado sobre aqueles frutos, contanto que os frutos sejam trazidos e comidos em Jerusalém (essa condição adicional é necessária porque o dinheiro do dízimo já está dentro de Jerusalém, e por isso os frutos que recebem sua santidade precisam, obrigatoriamente, ser trazidos até lá para serem consumidos, já que não se pode "libertar" o dízimo de dentro da cidade sagrada sem trazer o substituto para dentro dela também).
O dinheiro do segundo dízimo entra em Jerusalém e sai (pode ser trazido para dentro da cidade e depois retirado novamente, sem perder sua santidade nem violar nenhuma proibição), mas os frutos do segundo dízimo entram e não saem (uma vez trazidos para dentro de Jerusalém, os frutos devem permanecer ali até serem consumidos; retirá-los da cidade é proibido). Rabban Shimon ben Gamliel diz: também os frutos entram e saem (discordando da opinião anterior, ele sustenta que não há diferença nesse aspecto entre o dinheiro e os frutos do dízimo).
Frutos cuja produção terminou e passaram por dentro de Jerusalém, seu segundo dízimo deve retornar e ser comido em Jerusalém (mesmo que estivessem apenas de passagem, sem intenção de ali permanecer, o simples fato de terem entrado na cidade já os torna presos a ela, exigindo que o dízimo correspondente seja trazido de volta). E os que não tiveram sua produção terminada — cestos de uvas a caminho do lagar, cestos de figos a caminho do secador (ou seja, ainda faltava a etapa final de processamento — a prensagem das uvas ou a secagem dos figos — quando passaram por Jerusalém): Bet Shamai diz: seu segundo dízimo deve retornar e ser comido em Jerusalém (a mesma regra rigorosa se aplica, segundo Bet Shamai, independentemente do estágio de processamento). Mas Bet Hilel diz: pode ser resgatado e comido em qualquer lugar (pois, não tendo ainda se tornado obrigados ao dízimo por completo, sua mera passagem por Jerusalém não os prende à cidade). Rabi Shimon ben Yehudá diz em nome de Rabi Yossei: Bet Shamai e Bet Hilel não discordaram quanto aos frutos cuja produção não terminou — que seu dízimo pode ser resgatado e comido em qualquer lugar (ou seja, nesse ponto específico as duas escolas concordam). Sobre o que discordaram? Sobre os frutos cuja produção terminou, quanto aos quais Bet Shamai diz: seu segundo dízimo deve retornar e ser comido em Jerusalém, e Bet Hilel diz: pode ser resgatado e comido em qualquer lugar (segundo esta versão, a disputa real recai exatamente sobre o caso oposto ao que a primeira leitura da mishná sugeria). E o demai entra e sai e pode ser resgatado (o dízimo de produtos duvidosos mantém sempre a maior flexibilidade, em qualquer estágio).
Uma árvore que está de pé por dentro e se inclina para fora, ou está de pé por fora e se inclina para dentro (o tronco está de um lado da muralha, mas os galhos e frutos se estendem para o outro lado): do alinhamento da muralha para dentro, é considerado como dentro; do alinhamento da muralha para fora, é considerado como fora (não importa onde está o tronco — o que decide é apenas o plano vertical da própria muralha, projetado para cima: os frutos que ficam acima da linha da muralha e para o lado de dentro contam como estando dentro de Jerusalém, e vice-versa). Casas de prensa de azeite cujas entradas estão por dentro e cujo espaço interno está por fora, ou cujas entradas estão por fora e cujo espaço interno está por dentro (a estrutura física do lagar atravessa a linha da muralha, de modo que a porta de entrada e o espaço de trabalho ficam em lados opostos): Bet Shamai diz: tudo é considerado como dentro (para esta escola, quando há uma ambiguidade estrutural desse tipo — não uma simples árvore, mas uma construção integrada —, prevalece a posição mais rigorosa, tratando o todo como dentro dos limites da cidade). Mas Bet Hilel diz: do alinhamento da muralha para dentro, é considerado como dentro; do alinhamento da muralha para fora, é considerado como fora (Bet Hilel aplica à casa de prensa o mesmo critério do plano vertical já usado para a árvore, recusando-se a tratar a estrutura inteira como uma unidade única).
As câmaras construídas em terreno sagrado, mas abertas para o comum, seu interior é considerado comum e seus tetos são considerados sagrados (mesmo estando fisicamente dentro da área sagrada do Templo, o fato de a porta dar acesso para a área comum faz com que o espaço interno da câmara — onde as pessoas efetivamente entram e permanecem — siga o status comum; mas o teto, que não é "usado" da mesma forma pelas pessoas, permanece com o status sagrado correspondente à sua localização física real). As construídas em terreno comum, mas abertas para o sagrado, seu interior é considerado sagrado e seus tetos são considerados comuns (exatamente o caso inverso: a direção da porta determina o status do espaço interno, invertendo a regra que a mera localização física sugeriria). As construídas parte em terreno sagrado e parte em terreno comum, e abertas tanto para o sagrado quanto para o comum, seu interior e seus tetos seguem, na parte que está alinhada com o sagrado e voltada para o sagrado, o status de sagrado; na parte que está alinhada com o comum e voltada para o comum, o status de comum (o caso mais complexo: quando a própria câmara está dividida, com parte de sua estrutura em cada lado e aberturas voltadas para ambos os lados, ela se divide internamente segundo a mesma lógica proporcional, cada porção seguindo o status do lado correspondente).
Segundo dízimo que entrou em Jerusalém e se contaminou (tornou-se ritualmente impuro depois de já estar dentro dos limites da cidade), seja que se contaminou por impureza principal, seja que se contaminou por impureza secundária (av hatumá — uma fonte primária e mais grave de impureza, como um cadáver ou um réptil morto; ou valad hatumá — impureza transmitida em segundo grau, mais branda), seja dentro, seja fora (seja que o contato com a fonte de impureza tenha ocorrido dentro ou fora da cidade): Bet Shamai diz: deve ser resgatado e tudo deve ser comido dentro, exceto o que se contaminou por impureza principal fora (Bet Shamai permite o resgate em todos os casos, e determina que o produto resgatado seja comido dentro de Jerusalém — com uma única exceção: quando a impureza foi principal e ocorreu fora da cidade, caso em que, aparentemente, nem esse resgate é permitido dentro). Mas Bet Hilel diz: tudo deve ser resgatado e comido fora, exceto o que se contaminou por impureza secundária dentro (posição quase espelhada: Bet Hilel permite resgatar e comer fora em todos os casos, exceto quando a impureza foi apenas secundária e ocorreu dentro da cidade, situação em que ainda resta alguma santidade que exige o consumo dentro).
O que foi comprado com dinheiro do segundo dízimo e se contaminou deve ser resgatado (os sábios permitem que esse produto, mesmo tendo apenas a santidade "derivada" do dízimo, seja resgatado do mesmo modo que o próprio dízimo original, quando se torna impuro). Rabi Yehudá diz: deve ser enterrado (discordando, ele sustenta que esse tipo de produto, por ter uma santidade de segundo grau, não pode ser resgatado uma vez impuro — apenas enterrado, como se faz com objetos sagrados que perderam toda utilidade lícita). Disseram a Rabi Yehudá: e se o próprio segundo dízimo, quando se contamina, pode ser resgatado, não seria lógico que o que foi comprado com dinheiro do segundo dízimo, quando se contamina, também pudesse ser resgatado? (um argumento kal vachomer — do mais leve ao mais pesado: se até o dízimo original, de santidade mais forte, permite resgate quando impuro, por que negar essa mesma permissão a um produto de santidade mais fraca?) Disse-lhes: não! Se dissestes isso do próprio segundo dízimo, é porque ele pode ser resgatado mesmo puro, à distância; direis o mesmo do que foi comprado com dinheiro do dízimo, que não pode ser resgatado puro à distância? (Rabi Yehudá rebate o argumento: a comparação falha, pois o próprio dízimo tem uma flexibilidade de resgate — mesmo estando puro, longe de Jerusalém — que o produto comprado com seu dinheiro nunca teve; por isso não se pode inferir, do fato de o dízimo original poder ser resgatado quando impuro, que o mesmo valeria para algo de categoria jurídica mais restrita).
Um veado que foi comprado com dinheiro do dízimo, e morreu, deve ser enterrado junto com sua pele (um animal selvagem que morreu por si só — não abatido ritualmente — não pode ser resgatado nem seu couro aproveitado; deve ser enterrado inteiro, com a pele, pois nada dele pode ser licitamente utilizado). Rabi Shimon diz: deve ser resgatado (discordando, permite que mesmo esse veado morto sem abate seja resgatado, e não simplesmente enterrado). Se foi comprado vivo e abatido, e depois se contaminou, deve ser resgatado (neste segundo cenário — o veado foi abatido corretamente, tornando sua carne apta ao consumo, mas depois essa carne se contaminou —, a lei concorda que o resgate é permitido). Rabi Yossei diz: deve ser enterrado (discordando desta vez em sentido oposto ao de Rabi Shimon, Rabi Yossei é mais rigoroso, exigindo o sepultamento mesmo neste caso). Se foi comprado já abatido, e depois se contaminou, é como os frutos (neste terceiro cenário — o veado já estava abatido no momento da compra, e só depois se contaminou —, aplica-se a mesma regra já estabelecida para frutos comprados com dinheiro do dízimo que se contaminam, discutida na mishná anterior).
Quem empresta jarros para o segundo dízimo, mesmo que os tenha lacrado, não adquiriu o status de dízimo (o jarro emprestado permanece propriedade comum de seu dono original; o fato de ter sido usado para lacrar vinho do dízimo não lhe confere, ele mesmo, nenhuma santidade — mesmo que fisicamente tenha sido selado junto com o vinho sagrado). Se despejou vinho neles sem especificar, antes de serem lacrados, não adquiriu o status de dízimo (quando o dono do vinho ainda não declarou explicitamente que aquele vinho específico é do dízimo, e apenas o despejou nos jarros, estes ainda não estão vinculados ao dízimo enquanto permanecerem abertos). Depois de lacrados, adquiriu o status de dízimo (o ato de lacrar o jarro é o que finaliza e consolida a associação entre aquele recipiente específico e o vinho do dízimo nele contido). Antes de serem lacrados, anulam-se em cento e um (se uma gota de vinho de teruma ou outro líquido sagrado cai acidentalmente nesses jarros ainda abertos, ela se anula na proporção padrão de uma parte para cento e uma, como qualquer mistura comum), e depois de lacrados, consagram qualquer quantidade (uma vez lacrados, mesmo a menor quantidade de líquido sagrado que caia neles não se anula mais — todo o conteúdo passa a ser tratado com a santidade plena do dízimo, sem possibilidade de anulação por maioria). Antes de serem lacrados, separa-se a teruma de um jarro para todos (quando ainda estão abertos e não vinculados ao dízimo, o dono pode separar a porção de teruma devida de um único jarro representativo, cobrindo todo o lote), e depois de lacrados, separa-se a teruma de cada jarro individualmente (uma vez que cada jarro lacrado adquiriu sua própria identidade vinculada ao dízimo, a teruma deve ser separada individualmente de cada um, não mais de um representante para todos).
Bet Shamai diz: abre-se o jarro e esvazia-se seu conteúdo no lagar (para que o próprio jarro reverta ao uso comum junto com o vinho vendido, é preciso, segundo Bet Shamai, não apenas abri-lo, mas efetivamente despejar todo o vinho para fora dele, no lagar de venda). Mas Bet Hilel diz: basta abri-lo, sem necessidade de esvaziá-lo (para esta escola, o simples ato de abrir o jarro já é suficiente para que ele reverta ao uso comum, sem exigir o esforço adicional de esvaziar fisicamente seu conteúdo). Em que caso se aplica isso? No lugar onde o costume é vender os jarros fechados (a disputa entre as escolas pressupõe um mercado onde o vinho normalmente é vendido dentro de seus próprios jarros lacrados, sem que o comprador espere recebê-lo de outra forma). Mas no lugar onde o costume é vender abertos, o jarro não reverte ao uso comum (nesse tipo de mercado, onde o vinho é habitualmente vendido já aberto e medido, o simples fato de abrir o jarro não basta para libertá-lo do status do dízimo, pois abrir é apenas o procedimento comercial padrão, sem significado jurídico especial de "reversão"). Mas se quis ser mais rigoroso consigo mesmo e vender por medida, o jarro reverte ao uso comum (mesmo nesse mercado de venda aberta, se o vendedor optar voluntariamente por medir o vinho ao vendê-lo — um procedimento mais trabalhoso e rigoroso do que o costume local exige —, esse cuidado extra já demonstra sua intenção clara de liberar também o jarro, e este reverte ao uso comum). Rabi Shimon diz: também quem diz a seu companheiro: vendo-te este barril, exceto os jarros, o jarro reverte ao uso comum (Rabi Shimon acrescenta que uma declaração verbal explícita — excluindo os jarros da venda do vinho — já basta, por si só, para que eles revertam ao uso comum, independentemente do costume local ou da necessidade de esvaziá-los fisicamente).