Talmud Bavli · Massechet Maaser Sheni · Perek Gimel
פֶּרֶק שְׁלִישִׁי

Mishná de Maaser Sheni, terceiro perek — adaptada à trilha Bavli

13 mishnayot · sem Guemará no Talmud Bavli
Nota

Massechet Maaser Sheni não possui Guemará no Talmud Bavli — apenas a Mishná é impressa/estudada nesta trilha. Esta página apresenta a Mishná adaptada ao formato da trilha Bavli; para o estudo devocional completo, com fontes da Torá, halachot dos códigos e o perush dos mefarshim, veja a versão completa na Mishná.

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Mishná 1"Ninguém deve dizer a seu companheiro: leve estes frutos a Jerusalém para dividir"
Abre-se o terceiro perek com um cuidado de linguagem que revela um princípio de fundo: é proibido convidar alguém a carregar frutos do segundo dízimo até Jerusalém prometendo-lhe, em troca, uma parte deles — pois isso equivaleria a pagar-lhe salário com dinheiro sagrado por um serviço que, sendo dono do dízimo, ele próprio já é obrigado a prestar. A fórmula correta é convidá-lo apenas para comer e beber juntos em Jerusalém. Mas dar o dízimo de presente, sem contrapartida por trabalho, é sempre permitido

Ninguém deve dizer a seu companheiro: leve estes frutos a Jerusalém para dividir (isto é, prometendo-lhe uma parte dos frutos do segundo dízimo como recompensa por carregá-los até lá). Mas deve dizer-lhe: leve-os para que comamos e bebamos deles em Jerusalém (um convite para compartilhar a refeição sagrada, e não um pagamento por serviço prestado). Porém as pessoas podem dar umas às outras de presente, sem contrapartida (pois o dízimo, embora não possa ser usado como salário, continua podendo ser doado livremente a quem quer que seja, já que seu dono tem o direito de compartilhá-lo com quem desejar).

לֹא יֹאמַר אָדָם לַחֲבֵרוֹ, הַעַל אֶת הַפֵּרוֹת הָאֵלּוּ לִירוּשָׁלַיִם לְחַלֵּק, אֶלָּא אוֹמֵר לוֹ, הַעֲלֵם שֶׁנֹּאכְלֵם וְנִשְׁתֵּם בִּירוּשָׁלָיִם. אֲבָל נוֹתְנִים זֶה לָזֶה מַתְּנַת חִנָּם:
Mishná 2"Não se compra teruma com dinheiro do segundo dízimo"
A mishná proíbe comprar teruma com dinheiro do segundo dízimo, pois isso reduziria o número de pessoas aptas a consumir o produto: enquanto o dízimo pode ser comido por qualquer israelita puro, a teruma só pode ser comida por sacerdotes (cohanim) em estado de pureza. Rabi Shimon discorda, argumentando por analogia com as oferendas de paz — que, embora sujeitas a leis mais severas (piggul, notar, tumá), podem ser comidas por qualquer israelita; os sábios respondem que a analogia falha, pois justamente o fato de a teruma ser vedada a não-sacerdotes é o que a torna inadequada para ser comprada com dinheiro do dízimo

Não se compra teruma com dinheiro do segundo dízimo, porque isso reduz o número dos que podem comê-la (pois a teruma só pode ser comida por sacerdotes em estado de pureza, ao passo que o segundo dízimo, se comprado como fruto comum, poderia ser comido por qualquer israelita puro — logo, convertê-lo em teruma restringiria seu círculo de consumidores legítimos). Mas Rabi Shimon permite (argumentando que essa restrição não deveria ser motivo suficiente para proibir a compra). Disse-lhes Rabi Shimon: se a lei foi leniente quanto às oferendas de paz — que podem tornar-se piggul, notar ou impuras (estados que as tornam proibidas e sujeitas a punições severas), não deveríamos ser leniente também quanto à teruma? (já que a teruma, ao menos, não está sujeita a essas categorias adicionais de proibição). Disseram-lhe: se a lei foi leniente quanto às oferendas de paz, é porque elas são permitidas aos não-sacerdotes (zarim, ou seja, israelitas comuns), seremos leniente também quanto à teruma, que é proibida aos não-sacerdotes? (a resposta dos sábios inverte o argumento: a leniência com as oferendas de paz se justifica precisamente porque elas continuam acessíveis a todo israelita; a teruma, ao contrário, exclui de saída a maioria do povo, e é exatamente essa exclusão que a Mishná quer evitar ao proibir sua compra com dinheiro do dízimo).

אֵין לוֹקְחִין תְּרוּמָה בְּכֶסֶף מַעֲשֵׂר שֵׁנִי, מִפְּנֵי שֶׁהוּא מְמַעֵט בַּאֲכִילָתוֹ, וְרַבִּי שִׁמְעוֹן מַתִּיר. אָמַר לָהֶם רַבִּי שִׁמְעוֹן, מָה אִם הֵקֵל בְּזִבְחֵי שְׁלָמִים, שֶׁהוּא מְבִיאָן לִידֵי פִגּוּל וְנוֹתָר וְטָמֵא, לֹא נָקֵל בַּתְּרוּמָה. אָמְרוּ לוֹ, מָה אִם הֵקֵל בְּזִבְחֵי שְׁלָמִים, שֶׁהֵן מֻתָּרִים לְזָרִים, נָקֵל בַּתְּרוּמָה, שֶׁהִיא אֲסוּרָה לְזָרִים:
Mishná 3"Alguém que tinha dinheiro em Jerusalém e precisava dele"
Um caso prático: alguém tem dinheiro do segundo dízimo em Jerusalém, mas precisa gastá-lo em algo que não seja comer, beber ou untar-se — e um amigo, ali mesmo, tem frutos comuns (chulin). A solução é uma declaração de câmbio (chilul): o dinheiro do dízimo se transfere para os frutos do amigo, que passam a ter a santidade do dízimo e devem ser comidos em pureza, enquanto o dinheiro se torna comum e pode ser usado livremente. Esse arranjo, porém, não pode ser feito com um am haaretz (pessoa não confiável quanto às leis de pureza), exceto quando se trata de dízimo de produtos duvidosos (demai)

Alguém que tinha dinheiro em Jerusalém e precisava dele (dinheiro do segundo dízimo, que precisava gastar em algo além de comer, beber ou untar-se), e seu companheiro tinha frutos (frutos comuns, não sagrados), diz a seu companheiro: eis que este dinheiro está resgatado sobre teus frutos (uma declaração de câmbio, transferindo a santidade do dízimo do dinheiro para os frutos do amigo). Resulta que este come seus frutos em pureza (o amigo, agora dono de frutos com santidade de dízimo, deve consumi-los conforme as leis de pureza aplicáveis ao segundo dízimo), e aquele faz o que precisa com seu dinheiro (o dono original do dízimo, agora com dinheiro comum em mãos, pode usá-lo livremente para qualquer finalidade). Mas não se deve dizer isso a um am haaretz (uma pessoa não confiável quanto à observância das leis de pureza ritual, por receio de que ele coma o dízimo em estado de impureza), a não ser que seja de demai (dízimo de produtos comprados de um am haaretz, cuja separação do dízimo é apenas duvidosa — nesse caso, o risco é menor e a permissão é concedida).

מִי שֶׁהָיוּ לוֹ מָעוֹת בִּירוּשָׁלַיִם וְצָרִיךְ לוֹ, וְלַחֲבֵרוֹ פֵרוֹת, אוֹמֵר לַחֲבֵרוֹ, הֲרֵי הַמָּעוֹת הָאֵלּוּ מְחֻלָּלִין עַל פֵּרוֹתֶיךָ. נִמְצָא זֶה אוֹכֵל פֵּרוֹתָיו בְּטָהֳרָה, וְהַלָּה עוֹשֶׂה צָרְכּוֹ בִּמְעוֹתָיו. וְלֹא יֹאמַר כֵּן לְעַם הָאָרֶץ, אֶלָּא בִדְמָאי:
Mishná 4"Frutos em Jerusalém e dinheiro na medina"
Continuando o tema da mishná anterior, esta ensina que o câmbio (chilul) entre dinheiro do dízimo e frutos comuns não exige que ambos estejam no mesmo lugar: pode-se resgatar dinheiro que está na medina (fora de Jerusalém) sobre frutos que estão em Jerusalém, e vice-versa — com uma condição importante: se o dinheiro do dízimo está em Jerusalém e os frutos comuns na medina, é preciso que esses frutos sejam efetivamente trazidos a Jerusalém e ali comidos, já que o dízimo em si não pode ser resgatado dentro da própria cidade sagrada, apenas fora dela

Se havia frutos comuns em Jerusalém e dinheiro do dízimo na medina (fora de Jerusalém), diz-se: eis que aquele dinheiro está resgatado sobre estes frutos (mesmo estando em lugares diferentes, a declaração de câmbio é válida). Se havia dinheiro do dízimo em Jerusalém e frutos comuns na medina (a situação inversa), diz-se: eis que este dinheiro está resgatado sobre aqueles frutos, contanto que os frutos sejam trazidos e comidos em Jerusalém (essa condição adicional é necessária porque o dinheiro do dízimo já está dentro de Jerusalém, e por isso os frutos que recebem sua santidade precisam, obrigatoriamente, ser trazidos até lá para serem consumidos, já que não se pode "libertar" o dízimo de dentro da cidade sagrada sem trazer o substituto para dentro dela também).

פֵּרוֹת בִּירוּשָׁלַיִם וּמָעוֹת בַּמְּדִינָה, אוֹמֵר, הֲרֵי הַמָּעוֹת הָהֵם מְחֻלָּלִין עַל פֵּרוֹת הָאֵלּוּ. מָעוֹת בִּירוּשָׁלַיִם וּפֵרוֹת בַּמְּדִינָה, אוֹמֵר הֲרֵי הַמָּעוֹת הָאֵלּוּ מְחֻלָּלִין עַל פֵּרוֹת הָהֵם, וּבִלְבַד שֶׁיָּעֳלוּ הַפֵּרוֹת וְיֵאָכְלוּ בִירוּשָׁלָיִם:
Mishná 5"O dinheiro entra em Jerusalém e sai"
Esta mishná breve estabelece uma assimetria fundamental entre as duas formas do segundo dízimo: o dinheiro pode entrar em Jerusalém e sair novamente, mantendo sua santidade intacta, mas os frutos do dízimo, uma vez que entram na cidade, não podem mais sair — devem ser consumidos ali. Rabban Shimon ben Gamliel discorda, sustentando que também os frutos podem entrar e sair livremente

O dinheiro do segundo dízimo entra em Jerusalém e sai (pode ser trazido para dentro da cidade e depois retirado novamente, sem perder sua santidade nem violar nenhuma proibição), mas os frutos do segundo dízimo entram e não saem (uma vez trazidos para dentro de Jerusalém, os frutos devem permanecer ali até serem consumidos; retirá-los da cidade é proibido). Rabban Shimon ben Gamliel diz: também os frutos entram e saem (discordando da opinião anterior, ele sustenta que não há diferença nesse aspecto entre o dinheiro e os frutos do dízimo).

מָעוֹת נִכְנָסוֹת לִירוּשָׁלַיִם וְיוֹצְאוֹת, וּפֵרוֹת נִכְנָסִין וְאֵינָן יוֹצְאִין. רַבָּן שִׁמְעוֹן בֶּן גַּמְלִיאֵל אוֹמֵר, אַף הַפֵּרוֹת נִכְנָסִין וְיוֹצְאִין:
Mishná 6"Frutos cuja produção terminou e passaram por dentro de Jerusalém"
Esta mishná refina a regra da mishná anterior — de que os frutos do dízimo, uma vez em Jerusalém, não podem mais sair — introduzindo uma distinção crucial: frutos cuja produção (melachá, o processamento que os torna obrigados ao dízimo) já terminou, ao passarem por dentro de Jerusalém, ficam definitivamente presos ali. Mas frutos ainda em processamento — como cestos de uvas a caminho do lagar ou cestos de figos a caminho do secador — geram controvérsia entre Bet Shamai e Bet Hilel; e Rabi Shimon ben Yehudá, em nome de Rabi Yossei, esclarece que o verdadeiro ponto de discórdia entre as escolas está apenas nos frutos já acabados

Frutos cuja produção terminou e passaram por dentro de Jerusalém, seu segundo dízimo deve retornar e ser comido em Jerusalém (mesmo que estivessem apenas de passagem, sem intenção de ali permanecer, o simples fato de terem entrado na cidade já os torna presos a ela, exigindo que o dízimo correspondente seja trazido de volta). E os que não tiveram sua produção terminada — cestos de uvas a caminho do lagar, cestos de figos a caminho do secador (ou seja, ainda faltava a etapa final de processamento — a prensagem das uvas ou a secagem dos figos — quando passaram por Jerusalém): Bet Shamai diz: seu segundo dízimo deve retornar e ser comido em Jerusalém (a mesma regra rigorosa se aplica, segundo Bet Shamai, independentemente do estágio de processamento). Mas Bet Hilel diz: pode ser resgatado e comido em qualquer lugar (pois, não tendo ainda se tornado obrigados ao dízimo por completo, sua mera passagem por Jerusalém não os prende à cidade). Rabi Shimon ben Yehudá diz em nome de Rabi Yossei: Bet Shamai e Bet Hilel não discordaram quanto aos frutos cuja produção não terminou — que seu dízimo pode ser resgatado e comido em qualquer lugar (ou seja, nesse ponto específico as duas escolas concordam). Sobre o que discordaram? Sobre os frutos cuja produção terminou, quanto aos quais Bet Shamai diz: seu segundo dízimo deve retornar e ser comido em Jerusalém, e Bet Hilel diz: pode ser resgatado e comido em qualquer lugar (segundo esta versão, a disputa real recai exatamente sobre o caso oposto ao que a primeira leitura da mishná sugeria). E o demai entra e sai e pode ser resgatado (o dízimo de produtos duvidosos mantém sempre a maior flexibilidade, em qualquer estágio).

פֵּרוֹת שֶׁנִּגְמְרָה מְלַאכְתָּן וְעָבְרוּ בְתוֹךְ יְרוּשָׁלַיִם, יַחֲזֹר מַעֲשֵׂר שֵׁנִי שֶׁלָּהֶן וְיֵאָכֵל בִּירוּשָׁלָיִם. וְשֶׁלֹּא נִגְמְרָה מְלַאכְתָּן, סַלֵּי עֲנָבִים לַגַּת וְסַלֵּי תְאֵנִים לַמֻּקְצֶה, בֵּית שַׁמַּאי אוֹמְרִים, יַחֲזֹר מַעֲשֵׂר שֵׁנִי שֶׁלָּהֶם וְיֵאָכֵל בִּירוּשָׁלַיִם. וּבֵית הִלֵּל אוֹמְרִים, יִפָּדֶה וְיֵאָכֵל בְּכָל מָקוֹם. רַבִּי שִׁמְעוֹן בֶּן יְהוּדָה אוֹמֵר מִשּׁוּם רַבִּי יוֹסֵי, לֹא נֶחְלְקוּ בֵית שַׁמַּאי וּבֵית הִלֵּל עַל פֵּרוֹת שֶׁלֹּא נִגְמְרָה מְלַאכְתָּן, שֶׁיִּפָּדֶה מַעֲשֵׂר שֵׁנִי שֶׁלָּהֶם וְיֵאָכֵל בְּכָל מָקוֹם. וְעַל מַה נֶחְלְקוּ, עַל פֵּרוֹת שֶׁנִּגְמְרָה מְלַאכְתָּן, שֶׁבֵּית שַׁמַּאי אוֹמְרִים, יַחֲזֹר מַעֲשֵׂר שֵׁנִי שֶׁלָּהֶם וְיֵאָכֵל בִּירוּשָׁלָיִם. וּבֵית הִלֵּל אוֹמְרִים, יִפָּדֶה וְיֵאָכֵל בְּכָל מָקוֹם. וְהַדְּמַאי, נִכְנָס וְיוֹצֵא וְנִפְדֶּה:
Mishná 7"Uma árvore que está por dentro e se inclina para fora"
Depois de estabelecer que os frutos do dízimo ficam presos a Jerusalém uma vez lá dentro, a mishná enfrenta um problema prático: como determinar se algo está "dentro" ou "fora" quando um objeto físico se estende através da própria muralha da cidade? A resposta, tanto para árvores quanto para casas de prensa de azeite, é a mesma: o plano vertical da muralha é o critério decisivo — o que está alinhado com a muralha para dentro conta como dentro, e o que está alinhado para fora conta como fora, independentemente de onde o tronco ou a entrada estejam localizados

Uma árvore que está de pé por dentro e se inclina para fora, ou está de pé por fora e se inclina para dentro (o tronco está de um lado da muralha, mas os galhos e frutos se estendem para o outro lado): do alinhamento da muralha para dentro, é considerado como dentro; do alinhamento da muralha para fora, é considerado como fora (não importa onde está o tronco — o que decide é apenas o plano vertical da própria muralha, projetado para cima: os frutos que ficam acima da linha da muralha e para o lado de dentro contam como estando dentro de Jerusalém, e vice-versa). Casas de prensa de azeite cujas entradas estão por dentro e cujo espaço interno está por fora, ou cujas entradas estão por fora e cujo espaço interno está por dentro (a estrutura física do lagar atravessa a linha da muralha, de modo que a porta de entrada e o espaço de trabalho ficam em lados opostos): Bet Shamai diz: tudo é considerado como dentro (para esta escola, quando há uma ambiguidade estrutural desse tipo — não uma simples árvore, mas uma construção integrada —, prevalece a posição mais rigorosa, tratando o todo como dentro dos limites da cidade). Mas Bet Hilel diz: do alinhamento da muralha para dentro, é considerado como dentro; do alinhamento da muralha para fora, é considerado como fora (Bet Hilel aplica à casa de prensa o mesmo critério do plano vertical já usado para a árvore, recusando-se a tratar a estrutura inteira como uma unidade única).

אִילָן שֶׁהוּא עוֹמֵד בִּפְנִים וְנוֹטֶה לַחוּץ, אוֹ עוֹמֵד בַּחוּץ וְנוֹטֶה לִפְנִים, מִכְּנֶגֶד הַחוֹמָה וְלִפְנִים, כְּלִפְנִים. מִכְּנֶגֶד הַחוֹמָה וְלַחוּץ, כְּלַחוּץ. בָּתֵּי הַבַּדִּים שֶׁפִּתְחֵיהֶן לִפְנִים וַחֲלָלָן לַחוּץ, אוֹ שֶׁפִּתְחֵיהֶן לַחוּץ וַחֲלָלָן לִפְנִים, בֵּית שַׁמַּאי אוֹמְרִים, הַכֹּל כְּלִפְנִים. וּבֵית הִלֵּל אוֹמְרִים, מִכְּנֶגֶד הַחוֹמָה וְלִפְנִים, כְּלִפְנִים. מִכְּנֶגֶד הַחוֹמָה וְלַחוּץ, כְּלַחוּץ:
Mishná 8"As câmaras construídas em terreno sagrado e abertas para o comum"
Concluindo o tema dos limites físicos ambíguos, a mishná trata agora das câmaras (lechachot) construídas nos arredores do Templo, cuja estrutura física às vezes atravessa a fronteira entre a área sagrada (o pátio do Templo, a azará) e a área comum (o Monte do Templo, considerado comum para certos efeitos). O critério aqui não é o plano vertical da parede, mas a direção da abertura (o vão da porta): a câmara segue o status do lado para onde está aberta, e não o lado onde fisicamente foi construída

As câmaras construídas em terreno sagrado, mas abertas para o comum, seu interior é considerado comum e seus tetos são considerados sagrados (mesmo estando fisicamente dentro da área sagrada do Templo, o fato de a porta dar acesso para a área comum faz com que o espaço interno da câmara — onde as pessoas efetivamente entram e permanecem — siga o status comum; mas o teto, que não é "usado" da mesma forma pelas pessoas, permanece com o status sagrado correspondente à sua localização física real). As construídas em terreno comum, mas abertas para o sagrado, seu interior é considerado sagrado e seus tetos são considerados comuns (exatamente o caso inverso: a direção da porta determina o status do espaço interno, invertendo a regra que a mera localização física sugeriria). As construídas parte em terreno sagrado e parte em terreno comum, e abertas tanto para o sagrado quanto para o comum, seu interior e seus tetos seguem, na parte que está alinhada com o sagrado e voltada para o sagrado, o status de sagrado; na parte que está alinhada com o comum e voltada para o comum, o status de comum (o caso mais complexo: quando a própria câmara está dividida, com parte de sua estrutura em cada lado e aberturas voltadas para ambos os lados, ela se divide internamente segundo a mesma lógica proporcional, cada porção seguindo o status do lado correspondente).

הַלְּשָׁכוֹת, בְּנוּיוֹת בַּקֹּדֶשׁ וּפְתוּחוֹת לַחֹל, תּוֹכָן חֹל וְגַגּוֹתֵיהֶן קֹדֶשׁ. בְּנוּיוֹת בַּחֹל וּפְתוּחוֹת לַקֹּדֶשׁ, תּוֹכָן קֹדֶשׁ וְגַגּוֹתֵיהֶן חֹל. בְּנוּיוֹת בַּקֹּדֶשׁ וּבַחֹל וּפְתוּחוֹת לַקֹּדֶשׁ וְלַחֹל, תּוֹכָן וְגַגּוֹתֵיהֶן מִכְּנֶגֶד הַקֹּדֶשׁ וְלַקֹּדֶשׁ, קֹדֶשׁ, מִכְּנֶגֶד הַחֹל וְלַחֹל, חֹל:
Mishná 9"Segundo dízimo que entrou em Jerusalém e se contaminou"
A mishná agora aborda o que acontece quando o segundo dízimo, já dentro de Jerusalém — onde, como visto nas mishnayot anteriores, não pode mais sair nem ser resgatado em circunstâncias normais —, se torna impuro. A impureza abre uma exceção à regra de que o dízimo dentro da cidade só pode ser comido, nunca resgatado. Mas o grau da impureza (principal ou secundária) e o local onde ela ocorreu (dentro ou fora da cidade) geram uma controvérsia intrincada entre Bet Shamai e Bet Hilel sobre exatamente quando o resgate é permitido e onde o produto resgatado pode então ser comido

Segundo dízimo que entrou em Jerusalém e se contaminou (tornou-se ritualmente impuro depois de já estar dentro dos limites da cidade), seja que se contaminou por impureza principal, seja que se contaminou por impureza secundária (av hatumá — uma fonte primária e mais grave de impureza, como um cadáver ou um réptil morto; ou valad hatumá — impureza transmitida em segundo grau, mais branda), seja dentro, seja fora (seja que o contato com a fonte de impureza tenha ocorrido dentro ou fora da cidade): Bet Shamai diz: deve ser resgatado e tudo deve ser comido dentro, exceto o que se contaminou por impureza principal fora (Bet Shamai permite o resgate em todos os casos, e determina que o produto resgatado seja comido dentro de Jerusalém — com uma única exceção: quando a impureza foi principal e ocorreu fora da cidade, caso em que, aparentemente, nem esse resgate é permitido dentro). Mas Bet Hilel diz: tudo deve ser resgatado e comido fora, exceto o que se contaminou por impureza secundária dentro (posição quase espelhada: Bet Hilel permite resgatar e comer fora em todos os casos, exceto quando a impureza foi apenas secundária e ocorreu dentro da cidade, situação em que ainda resta alguma santidade que exige o consumo dentro).

מַעֲשֵׂר שֵׁנִי שֶׁנִּכְנַס לִירוּשָׁלַיִם וְנִטְמָא, בֵּין שֶׁנִּטְמָא בְאַב הַטֻּמְאָה, בֵּין שֶׁנִּטְמָא בִּוְלַד הַטֻּמְאָה, בֵּין בִּפְנִים בֵּין בַּחוּץ, בֵּית שַׁמַּאי אוֹמְרִים, יִפָּדֶה וְיֵאָכֵל הַכֹּל בִּפְנִים, חוּץ מִשֶּׁנִּטְמָא בְּאַב הַטֻּמְאָה בַּחוּץ. וּבֵית הִלֵּל אוֹמְרִים, הַכֹּל יִפָּדֶה וְיֵאָכֵל בַּחוּץ, חוּץ מִשֶּׁנִּטְמָא בִּוְלַד הַטֻּמְאָה בִּפְנִים:
Mishná 10"O que foi comprado com dinheiro do segundo dízimo e se contaminou"
Depois de tratar do próprio dízimo que se contaminou, a mishná passa a um caso relacionado, mas distinto: produtos que foram comprados com dinheiro do dízimo (e que, portanto, carregam sua santidade por extensão, não por origem direta) e que se contaminaram. Os sábios permitem seu resgate, exatamente como o próprio dízimo; Rabi Yehudá discorda, exigindo que sejam enterrados. O argumento entre eles gira em torno de uma distinção jurídica sutil sobre até onde vai a analogia entre o dízimo original e o que foi comprado com seu dinheiro

O que foi comprado com dinheiro do segundo dízimo e se contaminou deve ser resgatado (os sábios permitem que esse produto, mesmo tendo apenas a santidade "derivada" do dízimo, seja resgatado do mesmo modo que o próprio dízimo original, quando se torna impuro). Rabi Yehudá diz: deve ser enterrado (discordando, ele sustenta que esse tipo de produto, por ter uma santidade de segundo grau, não pode ser resgatado uma vez impuro — apenas enterrado, como se faz com objetos sagrados que perderam toda utilidade lícita). Disseram a Rabi Yehudá: e se o próprio segundo dízimo, quando se contamina, pode ser resgatado, não seria lógico que o que foi comprado com dinheiro do segundo dízimo, quando se contamina, também pudesse ser resgatado? (um argumento kal vachomer — do mais leve ao mais pesado: se até o dízimo original, de santidade mais forte, permite resgate quando impuro, por que negar essa mesma permissão a um produto de santidade mais fraca?) Disse-lhes: não! Se dissestes isso do próprio segundo dízimo, é porque ele pode ser resgatado mesmo puro, à distância; direis o mesmo do que foi comprado com dinheiro do dízimo, que não pode ser resgatado puro à distância? (Rabi Yehudá rebate o argumento: a comparação falha, pois o próprio dízimo tem uma flexibilidade de resgate — mesmo estando puro, longe de Jerusalém — que o produto comprado com seu dinheiro nunca teve; por isso não se pode inferir, do fato de o dízimo original poder ser resgatado quando impuro, que o mesmo valeria para algo de categoria jurídica mais restrita).

הַלָּקוּחַ בְּכֶסֶף מַעֲשֵׂר שֵׁנִי שֶׁנִּטְמָא, יִפָּדֶה. רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר, יִקָּבֵר. אָמְרוּ לוֹ לְרַבִּי יְהוּדָה, וּמָה אִם מַעֲשֵׂר שֵׁנִי עַצְמוֹ שֶׁנִּטְמָא, הֲרֵי הוּא נִפְדֶּה, הַלָּקוּחַ בְּכֶסֶף מַעֲשֵׂר שֵׁנִי שֶׁנִּטְמָא, אֵינוֹ דִין שֶׁיִּפָּדֶה. אָמַר לָהֶם, לֹא, אִם אֲמַרְתֶּם בְּמַעֲשֵׂר שֵׁנִי עַצְמוֹ, שֶׁכֵּן הוּא נִפְדֶּה בְטָהוֹר בְּרִחוּק מָקוֹם, תֹּאמְרוּ בְלָקוּחַ בְּכֶסֶף מַעֲשֵׂר, שֶׁאֵינוֹ נִפְדֶּה בְטָהוֹר בְּרִחוּק מָקוֹם:
Mishná 11"Um veado comprado com dinheiro do dízimo, e que morreu"
A mishná continua o tema de produtos comprados com dinheiro do dízimo que se tornam impróprios, agora com um caso específico: um veado (animal selvagem, chayá, e não behemá doméstica) comprado com esse dinheiro. Três cenários são examinados — o veado morre por conta própria, é abatido vivo e depois se contamina, ou é comprado já abatido e depois se contamina — cada um com sua própria regra e controvérsia entre os sábios

Um veado que foi comprado com dinheiro do dízimo, e morreu, deve ser enterrado junto com sua pele (um animal selvagem que morreu por si só — não abatido ritualmente — não pode ser resgatado nem seu couro aproveitado; deve ser enterrado inteiro, com a pele, pois nada dele pode ser licitamente utilizado). Rabi Shimon diz: deve ser resgatado (discordando, permite que mesmo esse veado morto sem abate seja resgatado, e não simplesmente enterrado). Se foi comprado vivo e abatido, e depois se contaminou, deve ser resgatado (neste segundo cenário — o veado foi abatido corretamente, tornando sua carne apta ao consumo, mas depois essa carne se contaminou —, a lei concorda que o resgate é permitido). Rabi Yossei diz: deve ser enterrado (discordando desta vez em sentido oposto ao de Rabi Shimon, Rabi Yossei é mais rigoroso, exigindo o sepultamento mesmo neste caso). Se foi comprado já abatido, e depois se contaminou, é como os frutos (neste terceiro cenário — o veado já estava abatido no momento da compra, e só depois se contaminou —, aplica-se a mesma regra já estabelecida para frutos comprados com dinheiro do dízimo que se contaminam, discutida na mishná anterior).

צְבִי שֶׁלְּקָחוֹ בְּכֶסֶף מַעֲשֵׂר, וָמֵת, יִקָּבֵר עַל יְדֵי עוֹרוֹ. רַבִּי שִׁמְעוֹן אוֹמֵר, יִפָּדֶה. לְקָחוֹ חַי וּשְׁחָטוֹ וְנִטְמָא, יִפָּדֶה. רַבִּי יוֹסֵי אוֹמֵר, יִקָּבֵר. לְקָחוֹ שָׁחוּט וְנִטְמָא, הֲרֵי הוּא כְפֵרוֹת:
Mishná 12"Quem empresta jarros para o segundo dízimo"
Iniciando o par final de mishnayot deste perek, o tema muda para as leis dos jarros usados para guardar vinho do segundo dízimo. Um jarro emprestado nunca adquire, ele próprio, a santidade do dízimo — mesmo que seja lacrado com o vinho sagrado dentro. Já um jarro no qual se despeja vinho do dízimo sem que se tenha especificado sua finalidade segue uma regra baseada no momento do lacre (gefen): antes de lacrado, o jarro ainda não "pertence" ao dízimo; depois de lacrado, sim — com consequências práticas para as leis de anulação em mistura e separação de teruma

Quem empresta jarros para o segundo dízimo, mesmo que os tenha lacrado, não adquiriu o status de dízimo (o jarro emprestado permanece propriedade comum de seu dono original; o fato de ter sido usado para lacrar vinho do dízimo não lhe confere, ele mesmo, nenhuma santidade — mesmo que fisicamente tenha sido selado junto com o vinho sagrado). Se despejou vinho neles sem especificar, antes de serem lacrados, não adquiriu o status de dízimo (quando o dono do vinho ainda não declarou explicitamente que aquele vinho específico é do dízimo, e apenas o despejou nos jarros, estes ainda não estão vinculados ao dízimo enquanto permanecerem abertos). Depois de lacrados, adquiriu o status de dízimo (o ato de lacrar o jarro é o que finaliza e consolida a associação entre aquele recipiente específico e o vinho do dízimo nele contido). Antes de serem lacrados, anulam-se em cento e um (se uma gota de vinho de teruma ou outro líquido sagrado cai acidentalmente nesses jarros ainda abertos, ela se anula na proporção padrão de uma parte para cento e uma, como qualquer mistura comum), e depois de lacrados, consagram qualquer quantidade (uma vez lacrados, mesmo a menor quantidade de líquido sagrado que caia neles não se anula mais — todo o conteúdo passa a ser tratado com a santidade plena do dízimo, sem possibilidade de anulação por maioria). Antes de serem lacrados, separa-se a teruma de um jarro para todos (quando ainda estão abertos e não vinculados ao dízimo, o dono pode separar a porção de teruma devida de um único jarro representativo, cobrindo todo o lote), e depois de lacrados, separa-se a teruma de cada jarro individualmente (uma vez que cada jarro lacrado adquiriu sua própria identidade vinculada ao dízimo, a teruma deve ser separada individualmente de cada um, não mais de um representante para todos).

הַמַּשְׁאִיל קַנְקַנִּין לְמַעֲשֵׂר שֵׁנִי, אַף עַל פִּי שֶׁגָּפָן, לֹא קָנָה מַעֲשֵׂר. זָלַף לְתוֹכָן סְתָם, עַד שֶׁלֹּא גָפָן, לֹא קָנָה מַעֲשֵׂר. מִשֶּׁגָּפָן, קָנָה מַעֲשֵׂר. עַד שֶׁלֹּא גָפָן, עוֹלוֹת בְּאֶחָד וּמֵאָה, וּמִשֶּׁגָּפָן, מְקַדְּשׁוֹת בְּכָל שֶׁהֵן. עַד שֶׁלֹּא גָפָן, תּוֹרֵם מֵאַחַת עַל הַכֹּל, וּמִשֶּׁגָּפָן, תּוֹרֵם מִכָּל אַחַת וְאֶחָת:
Mishná 13"Bet Shamai diz: abre e esvazia no lagar"
Encerra-se o terceiro perek com a continuação do tema dos jarros de vinho do dízimo: quando alguém vende, no lagar em Jerusalém, vinho do segundo dízimo, e o comprador paga com dinheiro comum (resgatando assim o vinho), surge a dúvida sobre se o próprio jarro que continha o vinho também reverte ao uso comum, ou se permanece vinculado ao dízimo. Bet Shamai e Bet Hilel discordam sobre a necessidade de esvaziar fisicamente o jarro; a resposta final depende do costume local de venda, e Rabi Shimon acrescenta uma fórmula verbal que resolve a questão em qualquer circunstância

Bet Shamai diz: abre-se o jarro e esvazia-se seu conteúdo no lagar (para que o próprio jarro reverta ao uso comum junto com o vinho vendido, é preciso, segundo Bet Shamai, não apenas abri-lo, mas efetivamente despejar todo o vinho para fora dele, no lagar de venda). Mas Bet Hilel diz: basta abri-lo, sem necessidade de esvaziá-lo (para esta escola, o simples ato de abrir o jarro já é suficiente para que ele reverta ao uso comum, sem exigir o esforço adicional de esvaziar fisicamente seu conteúdo). Em que caso se aplica isso? No lugar onde o costume é vender os jarros fechados (a disputa entre as escolas pressupõe um mercado onde o vinho normalmente é vendido dentro de seus próprios jarros lacrados, sem que o comprador espere recebê-lo de outra forma). Mas no lugar onde o costume é vender abertos, o jarro não reverte ao uso comum (nesse tipo de mercado, onde o vinho é habitualmente vendido já aberto e medido, o simples fato de abrir o jarro não basta para libertá-lo do status do dízimo, pois abrir é apenas o procedimento comercial padrão, sem significado jurídico especial de "reversão"). Mas se quis ser mais rigoroso consigo mesmo e vender por medida, o jarro reverte ao uso comum (mesmo nesse mercado de venda aberta, se o vendedor optar voluntariamente por medir o vinho ao vendê-lo — um procedimento mais trabalhoso e rigoroso do que o costume local exige —, esse cuidado extra já demonstra sua intenção clara de liberar também o jarro, e este reverte ao uso comum). Rabi Shimon diz: também quem diz a seu companheiro: vendo-te este barril, exceto os jarros, o jarro reverte ao uso comum (Rabi Shimon acrescenta que uma declaração verbal explícita — excluindo os jarros da venda do vinho — já basta, por si só, para que eles revertam ao uso comum, independentemente do costume local ou da necessidade de esvaziá-los fisicamente).

בֵּית שַׁמַּאי אוֹמְרִים, מְפַתֵּחַ וּמְעָרֶה לַגַּת. וּבֵית הִלֵּל אוֹמְרִים, מְפַתֵּחַ וְאֵינוֹ צָרִיךְ לְעָרוֹת. בַּמֶּה דְבָרִים אֲמוּרִים, בְּמָקוֹם שֶׁדַּרְכָּן לִמְכֹּר סְתוּמוֹת. אֲבָל בְּמָקוֹם שֶׁדַּרְכָּן לִמְכֹּר פְּתוּחוֹת, לֹא יָצָא קַנְקַן לְחֻלִּין. אֲבָל אִם רָצָה לְהַחְמִיר עַל עַצְמוֹ לִמְכֹּר בְּמִדָּה, יָצָא קַנְקַן לְחֻלִּין. רַבִּי שִׁמְעוֹן אוֹמֵר, אַף הָאוֹמֵר לַחֲבֵרוֹ, חָבִית זוֹ אֲנִי מוֹכֵר לְךָ חוּץ מִקַּנְקַנִּים, יָצָא קַנְקַן לְחֻלִּין: