Talmud Bavli · Massechet Eduyot · Perek Bet
פֶּרֶק שֵׁנִי

Mishná de Eduyot, segundo perek — adaptada à trilha Bavli

10 mishnayot · sem Guemará no Talmud Bavli
Nota

Massechet Eduyot não possui Guemará no Talmud Bavli — apenas a Mishná é impressa/estudada nesta trilha. Esta página apresenta a Mishná adaptada ao formato da trilha Bavli; para o estudo devocional completo, com fontes da Torá, halachot dos códigos e o perush dos mefarshim, veja a versão completa na Mishná.

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Mishná 1A carne mais impura e o óleo aceso na candeia impura
Rabi Chanina Segan HaKohanim testemunha as duas primeiras de quatro coisas

Rabi Chanina, chefe dos sacerdotes, testemunhou quatro coisas: Em todos os seus dias, os sacerdotes nunca deixaram de queimar a carne que se tornara impura por um descendente da impureza junto com a carne que se tornara impura por um pai da impureza, ainda que com isso lhe acrescentassem impureza sobre sua impureza. Acrescentou Rabi Akiva: em todos os seus dias, os sacerdotes nunca deixaram de acender o óleo que fora desqualificado por um tevul yom numa candeia que se tornara impura por quem se tornara impuro por um cadáver, ainda que com isso lhe acrescentassem impureza sobre sua impureza.Esta é a primeira das quatro coisas que Rabi Chanina, chefe dos sacerdotes, testemunhou — as duas primeiras aqui, as duas seguintes na próxima mishná. O caso pressupõe a cadeia de graus de impureza ritual: o "pai da impureza" (av hatumah) é o grau mais alto, e o que o toca torna-se "primeiro"; o que toca o primeiro torna-se "segundo"; e assim por diante. Carne que tocou um "descendente da impureza" (grau inferior) é apenas "terceiro", mas, ao ser queimada junto com carne que tocou um "pai da impureza" — e portanto é "primeiro" — ela mesma se torna "segundo", pois voltou a tocar algo mais impuro que ela. Os sacerdotes jamais se importaram com esse acréscimo de impureza, pois ambas as carnes já estavam destinadas à queima. Rabi Akiva estendeu o princípio a um caso mais extremo, no qual o óleo desqualificado — apenas "terceiro" grau — torna-se, ao ser aceso numa candeia de metal que tocou um cadáver (e por isso é "pai da impureza"), "primeiro" grau segundo a própria Torá.

רַבִּי חֲנִינָא סְגַן הַכֹּהֲנִים הֵעִיד אַרְבָּעָה דְבָרִים. מִימֵיהֶם שֶׁל כֹּהֲנִים לֹא נִמְנְעוּ מִלִּשְׂרֹף אֶת הַבָּשָׂר שֶׁנִּטְמָא בִּוְלַד הַטֻּמְאָה עִם הַבָּשָׂר שֶׁנִּטְמָא בְּאַב הַטֻּמְאָה, אַף עַל פִּי שֶׁמּוֹסִיפִין טֻמְאָה עַל טֻמְאָתוֹ. הוֹסִיף רַבִּי עֲקִיבָא, מִימֵיהֶם שֶׁל כֹּהֲנִים לֹא נִמְנְעוּ מִלְּהַדְלִיק אֶת הַשֶּׁמֶן שֶׁנִּפְסַל בִּטְבוּל יוֹם בְּנֵר שֶׁנִּטְמָא בִטְמֵא מֵת, אַף עַל פִּי שֶׁמּוֹסִיפִין טֻמְאָה עַל טֻמְאָתוֹ:
Mishná 2O couro do primogênito defeituoso: "eu nunca vi"
A terceira e a quarta coisas: o couro do bechor trefá, e o silêncio dos Sábios

Disse Rabi Chanina, chefe dos sacerdotes: em todos os meus dias eu nunca vi um couro sair para a casa da queima. Disse Rabi Akiva: de suas palavras aprendemos que aquele que esfola o bechor [primogênito do gado] e ele é encontrado trefá, os sacerdotes podem se beneficiar de seu couro. Mas os Sábios dizem: "não vimos" não é prova; antes, ele sai para a casa da queima.Continuação do testemunho de Rabi Chanina: ele relata apenas o que observou — nunca viu um couro de animal ser levado à queima por causa de defeito interno (trefá) descoberto só depois de esfolado. Rabi Akiva extrai daí uma inferência positiva: como isso nunca aconteceu, conclui-se que a lei permite aos sacerdotes usufruir desse couro. Os Sábios rejeitam esse tipo de raciocínio por silêncio — "eu não vi" prova apenas ausência de observação pessoal, não ausência do fenômeno; pode simplesmente não ter ocorrido na época, ou ter ocorrido sem que Rabi Chanina presenciasse a queima. O debate expõe um princípio metodológico da própria tradição de eduyot: até que ponto um testemunho negativo ("nunca vi X acontecer") constitui prova halákhica válida.

אָמַר רַבִּי חֲנִינָא סְגַן הַכֹּהֲנִים, מִיָּמַי לֹא רָאִיתִי עוֹר יוֹצֵא לְבֵית הַשְּׂרֵפָה. אָמַר רַבִּי עֲקִיבָא, מִדְּבָרָיו לָמַדְנוּ, שֶׁהַמַּפְשִׁיט אֶת הַבְּכוֹר וְנִמְצָא טְרֵפָה, שֶׁיֵּאוֹתוּ הַכֹּהֲנִים בְּעוֹרוֹ. וַחֲכָמִים אוֹמְרִים, לֹא רָאִינוּ אֵינוֹ רְאָיָה, אֶלָּא יוֹצֵא לְבֵית הַשְּׂרֵפָה:
Mishná 3O documento escrito pelo próprio credor, e a agulha na carne
Testemunho sobre a aldeia perto de Jerusalém, e sobre a agulha impura

Ele também testemunhou acerca de uma pequena aldeia que ficava perto de Jerusalém, na qual havia um ancião que costumava emprestar a todos os habitantes da aldeia e escrever [o documento] de próprio punho, e outros o assinavam; e o caso veio diante dos Sábios, e eles o declararam válido. Por este caminho tu aprendes que a mulher escreve seu próprio guet [bilhete de divórcio] e o marido escreve sua própria quitação, pois a validade do guet depende apenas de seus signatários. E [testemunhou] acerca de uma agulha que foi encontrada na carne, que a faca e as mãos estão puras, mas a carne está impura; e se foi encontrada no excremento, tudo está puro.A terceira testemunha estabelece um princípio jurídico fundamental: a validade de um documento depende inteiramente das testemunhas que o assinam, não de quem o redigiu materialmente — mesmo que o próprio interessado (o credor) tenha escrito o texto de próprio punho, o documento é válido se testemunhas idôneas o assinaram. Daí se infere, por analogia, que uma mulher pode escrever seu próprio bilhete de divórcio e um marido sua própria quitação de dívida, desde que outros assinem como testemunhas. O quarto testemunho trata de uma questão de pureza ritual no Templo: uma agulha impura encontrada dentro de carne de sacrifício gera dúvida sobre se a faca e as mãos a tocaram; como o pátio do Templo tem, para esse efeito, o estatuto de domínio público (onde a dúvida quanto à impureza se resolve a favor da pureza), a faca e as mãos permanecem puras — mas a carne, tendo certamente tocado a agulha impura, é impura sem dúvida.

אַף הוּא הֵעִיד עַל כְּפָר קָטָן שֶׁהָיָה בְצַד יְרוּשָׁלַיִם, וְהָיָה בוֹ זָקֵן אֶחָד וְהָיָה מַלְוֶה לְכָל בְּנֵי הַכְּפָר וְכוֹתֵב בִּכְתַב יָדוֹ וַאֲחֵרִים חוֹתְמִים, וּבָא מַעֲשֶׂה לִפְנֵי חֲכָמִים וְהִתִּירוּ. לְפִי דַרְכְּךָ אַתָּה לָמֵד, שֶׁהָאִשָּׁה כּוֹתֶבֶת אֶת גִּטָּהּ וְהָאִישׁ כּוֹתֵב אֶת שׁוֹבְרוֹ, שֶׁאֵין קִיּוּם הַגֵּט אֶלָּא בְחוֹתְמָיו. וְעַל מַחַט שֶׁנִּמְצֵאת בַּבָּשָׂר, שֶׁהַסַּכִּין וְהַיָּדַיִם טְהוֹרוֹת, וְהַבָּשָׂר טָמֵא. וְאִם נִמְצֵאת בַּפֶּרֶשׁ, הַכֹּל טָהוֹר:
Mishná 4Três coisas declaradas por Rabi Yishmael no vinhedo de Yavneh
O ovo batido sobre verduras, a espiga junto à seara, e o pequeno jardim cercado

Três coisas disse Rabi Yishmael diante dos Sábios no vinhedo de Yavneh: acerca de um ovo batido que está posto sobre verduras de terumá, que ele constitui ligação [para transmitir impureza]; mas se estava em forma de capacete, não constitui ligação. E acerca de uma espiga na seara cuja ponta alcança a plantação de pé, que, se foi colhida junto com a plantação de pé, pertence ao dono da casa; e se não, pertence aos pobres. E acerca de um pequeno jardim cercado por uma fileira de videiras, que, se há nele espaço para o vindimador e seu cesto de um lado e espaço para o vindimador e seu cesto do outro lado, pode ser semeado; e se não, não pode ser semeado."O vinhedo de Yavneh" era o modo pelo qual se designava a academia rabínica de Yavneh, cujos sábios se assentavam em fileiras — como as fileiras de uma vinha. Rabi Yishmael apresenta três casos técnicos e não relacionados entre si, unidos apenas pelo local em que foram ditos: (1) um ovo batido sobre verduras consagradas conecta-as para fins de impureza, salvo se ficou oco por baixo como um capacete, sem contato direto; (2) uma espiga esquecida pelo colhedor pertence ao dono se colhida junto com o restante, ou aos pobres (como "esquecimento", shikchá) se ficou isolada; (3) um jardim pequeno cercado de vinha só pode ser semeado com outra espécie no centro se for grande o bastante para conter, de ambos os lados, o espaço de trabalho do vindimador — caso contrário, a semente pareceria misturada à vinha, configurando kilayim [mistura proibida].

שְׁלֹשָׁה דְבָרִים אָמַר רַבִּי יִשְׁמָעֵאל לִפְנֵי חֲכָמִים בַּכֶּרֶם בְּיַבְנֶה. עַל בֵּיצָה טְרוּפָה שֶׁהִיא נְתוּנָה עַל גַּבֵּי יָרָק שֶׁל תְּרוּמָה, שֶׁהִיא חִבּוּר. וְאִם הָיְתָה כְמִין כּוֹבַע, אֵינָהּ חִבּוּר. וְעַל שִׁבֹּלֶת שֶׁבַּקָּצִיר וְרֹאשָׁהּ מַגִּיעַ לַקָּמָה, אִם נִקְצְרָה עִם הַקָּמָה, הֲרֵי הִיא שֶׁל בַּעַל הַבַּיִת, וְאִם לָאו, הֲרֵי הִיא שֶׁל עֲנִיִּים. וְעַל גִּנָּה קְטַנָּה שֶׁהִיא מֻקֶּפֶת עָרִיס, אִם יֶשׁ בָּהּ כִּמְלֹא בוֹצֵר וְסַלּוֹ מִכָּאן וּמְלֹא בוֹצֵר וְסַלּוֹ מִכָּאן, תִּזָּרֵעַ. וְאִם לָאו, לֹא תִזָּרֵעַ:
Mishná 5O que ficou sem resposta até Rabi Yehoshua ben Matya explicar
A abscesso lancetado, a serpente caçada e as panelas de barro ironianas

Três coisas disseram diante de Rabi Yishmael, e ele não se pronunciou sobre elas nem como proibidas nem como permitidas; e Rabi Yehoshua ben Matya as explicou: aquele que lanceta um abscesso no Shabat — se para lhe fazer uma abertura, é culpado; e se para extrair dele a secreção, está isento. E acerca daquele que caça uma serpente no Shabat — se está ocupado para que ela não o morda, está isento; mas se é para fins medicinais, é culpado. E acerca das panelas ironianas [de barro], que estão puras sob a tenda do morto e impuras pelo carregamento do zav. Rabi Elazar ben Tzadok diz: mesmo pelo carregamento do zav estão puras, porque seu trabalho não foi concluído.Este é o primeiro dos casos em que Rabi Yishmael, embora tenha ouvido a pergunta, absteve-se de julgar — e coube a Rabi Yehoshua ben Matya fornecer a distinção que permitiu decidir. No caso do abscesso: a intenção de "abrir" (criar uma abertura permanente) é uma forma da melacha "construir", e por isso proibida; mas quem apenas busca aliviar a dor extraindo a secreção não tem interesse na abertura em si, e por isso está isento. No caso da serpente: caçar por necessidade médica é proibido como "caçar"; mas afastar o perigo, sem intenção de aproveitar o animal, é isento. As panelas ironianas eram vasos de barro fabricados em pares esféricos ocos, cortados ao meio depois de cozidos no forno, formando dois recipientes; antes de cortadas, não têm "boca" (abertura) pela qual receberiam impureza sob uma tenda com um cadáver — pois vaso de barro só recebe impureza por sua abertura, nunca pelo exterior — mas tornam-se impuras pelo simples deslocamento causado pelo carregamento de um zav, já que essa impureza (hesset) não depende de abertura alguma.

שְׁלֹשָׁה דְבָרִים אָמְרוּ לִפְנֵי רַבִּי יִשְׁמָעֵאל, וְלֹא אָמַר בָּהֶם לֹא אִסּוּר וְהֶתֵּר, וּפֵרְשָׁן רַבִּי יְהוֹשֻׁעַ בֶּן מַתְיָא. הַמֵּפִיס מֻרְסָא בְּשַׁבָּת, אִם לַעֲשׂוֹת לָהּ פֶּה, חַיָּב, וְאִם לְהוֹצִיא מִמֶּנָּה לֵחָה, פָּטוּר. וְעַל הַצָּד נָחָשׁ בַּשַּׁבָּת, אִם מִתְעַסֵּק שֶׁלֹּא יִשְּׁכֶנּוּ, פָּטוּר, וְאִם לִרְפוּאָה, חַיָּב. וְעַל לְפָסִין אִירוֹנִיּוֹת, שֶׁהֵם טְהוֹרוֹת בְּאֹהֶל הַמֵּת וּטְמֵאוֹת בְּמַשָּׂא הַזָּב. רַבִּי אֶלְעָזָר בֶּן צָדוֹק אוֹמֵר, אַף בְּמַשָּׂא הַזָּב, טְהוֹרוֹת, מִפְּנֵי שֶׁלֹּא נִגְמְרָה מְלַאכְתָּן:
Mishná 6Alho, uvas verdes e espigas esmagados na véspera do Shabat
Rabi Yishmael discorda de Rabi Akiva sobre completar o esmagamento após escurecer

Três coisas disse Rabi Yishmael, e Rabi Akiva não concordou com ele: o alho, a uva verde e as espigas verdes [meliot] que alguém esmagou ainda de dia — Rabi Yishmael diz: pode terminar de esmagar depois que escurecer; mas Rabi Akiva diz: não pode terminar.O caso pressupõe alguém que começou, ainda de dia (antes do início do Shabat), a esmagar alho, uvas verdes ou espigas de grão ainda não maduras, extraindo delas líquido — uma atividade normalmente proibida no Shabat, pois se assemelha a espremer (mefarek). A pergunta é se pode continuar e terminar esse esmagamento já depois de escurecido, quando o Shabat já começou. Rabi Yishmael permite, por entender que, já tendo começado o processo antes do Shabat, terminá-lo não constitui uma transgressão nova — diferentemente de líquidos que escorrem espontaneamente de frutas, que os Sábios proibiram por receio de que se venha a espremer deliberadamente no Shabat propriamente dito. Rabi Akiva discorda e proíbe terminar depois que o dia sagrado começou, equiparando o caso aos demais líquidos escorridos, proibidos por decreto. A halachá segue Rabi Yishmael.

שְׁלֹשָׁה דְבָרִים אָמַר רַבִּי יִשְׁמָעֵאל וְלֹא הוֹדָה לוֹ רַבִּי עֲקִיבָא. הַשּׁוּם וְהַבֹּסֶר וְהַמְּלִילוֹת שֶׁרִסְּקָן מִבְּעוֹד יוֹם, שֶׁרַבִּי יִשְׁמָעֵאל אוֹמֵר, יִגְמֹר מִשֶּׁתֶּחְשָׁךְ, וְרַבִּי עֲקִיבָא אוֹמֵר, לֹא יִגְמֹר:
Mishná 7A cidade de ouro, os que soltam pombos, e o réptil na boca da doninha
Três coisas ditas diante de Rabi Akiva, em nome de Rabi Eliezer e de Rabi Yehoshua

Três coisas disseram diante de Rabi Akiva, duas em nome de Rabi Eliezer e uma em nome de Rabi Yehoshua. Duas em nome de Rabi Eliezer: a mulher pode sair [no Shabat, adornada] com uma "cidade de ouro"; e os que soltam pombos [para competição] são inaptos para testemunhar. E uma em nome de Rabi Yehoshua: se havia um réptil na boca de uma doninha, e ela caminhou sobre pães de terumá, e há dúvida se ela os tocou ou não os tocou — a dúvida se resolve pela pureza.Três decisões independentes, transmitidas em nome de outros sábios, são apresentadas a Rabi Akiva para confirmação ou julgamento. A "cidade de ouro" era um adorno feminino em forma de coroa representando os muros de Jerusalém; permitida para uso no Shabat como qualquer outra joia fixa, sem receio de que a mulher a tire para mostrar e acabe carregando-a quatro côvados em domínio público. Os "que soltam pombos" — que praticavam um jogo de apostas envolvendo pombos adestrados — eram desqualificados para testemunhar, por se dedicarem a uma forma de jogo de azar vizinha do roubo. O terceiro caso trata de impureza duvidosa: como a impureza carregada na boca de um animal em movimento não permanece fixa em lugar algum, a dúvida quanto ao contato resolve-se sempre pela pureza — mesmo em domínio privado, onde normalmente a dúvida seria resolvida pela impureza.

שְׁלֹשָׁה דְבָרִים אָמְרוּ לִפְנֵי רַבִּי עֲקִיבָא, שְׁנַיִם מִשּׁוּם רַבִּי אֱלִיעֶזֶר וְאֶחָד מִשּׁוּם רַבִּי יְהוֹשֻׁעַ. שְׁנַיִם מִשּׁוּם רַבִּי אֱלִיעֶזֶר, יוֹצֵאת אִשָּׁה בְעִיר שֶׁל זָהָב, וּמַפְרִיחֵי יוֹנִים פְּסוּלִים לְעֵדוּת. וְאֶחָד מִשּׁוּם רַבִּי יְהוֹשֻׁעַ, הַשֶּׁרֶץ בְּפִי חֻלְדָּה וּמְהַלֶּכֶת עַל גַּבֵּי כִכָּרוֹת שֶׁל תְּרוּמָה, סָפֵק נָגַע סָפֵק לֹא נָגַע, סְפֵקוֹ טָהוֹר:
Mishná 8A sandália dos caiadores e os restos do forno
Três coisas de Rabi Akiva: duas aceitas pelos Sábios, uma rejeitada

Três coisas disse Rabi Akiva: sobre duas concordaram com ele, e sobre uma não concordaram com ele. Sobre a sandália dos caiadores, que é suscetível à impureza de midrás [o que se pisa]. E sobre os restos de um forno [quebrado], que precisam ter quatro palmos de altura [para reter impureza] — enquanto diziam três; e concordaram com ele. E sobre uma [coisa] não concordaram com ele: sobre um banquinho do qual foram removidas duas de suas tábuas de cobertura, uma ao lado da outra, que Rabi Akiva declara suscetível à impureza, mas os Sábios declaram não suscetível.Três opiniões de Rabi Akiva em leis de pureza de utensílios: a sandália de madeira usada pelos caiadores para proteger os pés da cal é suscetível à impureza de midrás (transmitida por sentar, pisar ou recostar-se), como qualquer calçado, e nisso os Sábios concordaram. Quanto aos restos de um forno de barro quebrado — que, enquanto inteiro, é suscetível à impureza — Rabi Akiva ensinou que os fragmentos continuam suscetíveis até que sua altura restante seja inferior a quatro palmos (e não três, como se dizia antes); nisso também concordaram. Mas quanto ao banquinho ao qual foram retiradas duas tábuas adjacentes de seu assento — deixando-o, tecnicamente, incapaz de servir para sentar, mas ainda capaz de reter objetos pequenos como romãs — Rabi Akiva o considera ainda suscetível à impureza como recipiente, mas os Sábios discordam, considerando que, uma vez anulada sua função principal (sentar), anula-se também sua função secundária (conter). A lei segue os Sábios neste terceiro ponto.

שְׁלֹשָׁה דְבָרִים אָמַר רַבִּי עֲקִיבָא, עַל שְׁנַיִם הוֹדוּ לוֹ וְעַל אֶחָד לֹא הוֹדוּ לוֹ. עַל סַנְדָּל שֶׁל סַיָּדִים, שֶׁהוּא טָמֵא מִדְרָס. וְעַל שְׁיָרֵי תַנּוּר אַרְבָּעָה, שֶׁהָיוּ אוֹמְרִים שְׁלֹשָׁה. וְהוֹדוּ לוֹ. וְעַל אֶחָד לֹא הוֹדוּ לוֹ, עַל כִּסֵּא שֶׁנִּטְּלוּ שְׁנַיִם מֵחִפּוּיָיו זֶה בְּצַד זֶה, שֶׁרַבִּי עֲקִיבָא מְטַמֵּא וַחֲכָמִים מְטַהֲרִין:
Mishná 9O que o pai transmite ao filho: beleza, força, riqueza, sabedoria e anos
Rabi Akiva ensinava sobre herança de qualidades e o número de gerações

Ele costumava dizer: o pai transmite ao filho beleza, força, riqueza, sabedoria e anos [de vida]. E o número das gerações diante dele — isso é o prazo determinado, pois está dito (Isaías 41): "que chama as gerações desde o princípio". Ainda que esteja dito (Bereshit 15): "e os escravizarão, e os afligirão por quatrocentos anos", também está dito (ali): "e na quarta geração voltarão para cá".Este ensinamento de Rabi Akiva — que encerra a sequência de "três coisas" da mishná anterior — trata da transmissão hereditária de qualidades naturais e mesmo espirituais: assim como um filho tende a herdar do pai a compleição física (beleza, força), tende também a herdar riqueza, sabedoria (entendida como inclinação natural para o raciocínio correto) e longevidade. O segundo ensinamento é mais sutil: quando D'us promete a um pai um bem que se cumprirá numa geração futura determinada, o mérito do próprio pai é o que garante que essa geração o receba — o "número de gerações diante dele" é, ele mesmo, o prazo fixado ("kets"), à semelhança do versículo de Isaías sobre D'us chamar as gerações desde o princípio. A prova disso está na aparente contradição entre "quatrocentos anos" de escravidão prometidos a Avraham e a promessa de que "na quarta geração voltarão" — mostrando que a contagem por gerações e a contagem por anos são, no fundo, uma mesma medida do tempo determinado por D'us.

הוּא הָיָה אוֹמֵר, הָאָב זוֹכֶה לַבֵּן, בַּנּוֹי, וּבַכֹּחַ, וּבָעֹשֶׁר, וּבַחָכְמָה, וּבַשָּׁנִים, וּבְמִסְפַּר הַדּוֹרוֹת לְפָנָיו, וְהוּא הַקֵּץ, שֶׁנֶּאֱמַר (ישעיה מא) קֹרֵא הַדֹּרוֹת מֵרֹאשׁ, אַף עַל פִּי שֶׁנֶּאֱמַר (בראשית טו), וַעֲבָדוּם וְעִנּוּ אֹתָם אַרְבַּע מֵאוֹת שָׁנָה, וְנֶאֱמַר (שם), וְדוֹר רְבִיעִי יָשׁוּבוּ הֵנָּה:
Mishná 10As cinco coisas que duram doze meses
O julgamento do dilúvio, de Jó, do Egito, de Gog e Magog, e dos ímpios na Gehinom

Também costumava dizer: cinco coisas duram doze meses. O julgamento da geração do dilúvio [durou] doze meses; o julgamento de Jó, doze meses; o julgamento dos egípcios, doze meses; o julgamento de Gog e Magog no futuro por vir [durará] doze meses; o julgamento dos ímpios na Gehinom [dura] doze meses, pois está dito (Isaías 66): "e será, de mês em mês". Rabi Yochanan ben Nuri diz: [dura tanto] quanto de Pessach até Shavuot, pois está dito: "e de sábado em sábado".A última mishná do capítulo — e a última coisa que Rabi Akiva "costumava dizer" — reúne cinco julgamentos que, segundo a tradição, tiveram ou terão duração de exatamente doze meses: o julgamento da geração do dilúvio (o período entre o início das chuvas e a secagem completa da terra), o julgamento de Jó (o período de seu sofrimento), o julgamento dos egípcios (as pragas), o julgamento futuro de Gog e Magog (a guerra escatológica final) e — o mais relevante halachicamente — o julgamento dos ímpios na Gehinom, cuja duração máxima de doze meses passou a fundamentar o costume de recitar o Kadish e observar o luto (avelut) pelos pais por esse mesmo período. Rabi Yochanan ben Nuri discorda apenas quanto à Gehinom, propondo uma duração menor — equivalente ao período entre Pessach e Shavuot (sete semanas, quarenta e nove dias) — com base numa leitura diferente do mesmo versículo de Isaías, que menciona tanto "mês" quanto "sábado".

אַף הוּא הָיָה אוֹמֵר, חֲמִשָּׁה דְבָרִים שֶׁל שְׁנֵים עָשָׂר חֹדֶשׁ. מִשְׁפַּט דּוֹר הַמַּבּוּל, שְׁנֵים עָשָׂר חֹדֶשׁ. מִשְׁפַּט אִיּוֹב, שְׁנֵים עָשָׂר חֹדֶשׁ. מִשְׁפַּט הַמִּצְרִיִּים, שְׁנֵים עָשָׂר חֹדֶשׁ. מִשְׁפַּט גּוֹג וּמָגוֹג לֶעָתִיד לָבֹא, שְׁנֵים עָשָׂר חֹדֶשׁ. מִשְׁפַּט רְשָׁעִים בְּגֵיהִנֹּם, שְׁנֵים עָשָׂר חֹדֶשׁ, שֶׁנֶּאֱמַר (ישעיה סו), וְהָיָה מִדֵּי חֹדֶשׁ בְּחָדְשׁוֹ. רַבִּי יוֹחָנָן בֶּן נוּרִי אוֹמֵר, מִן הַפֶּסַח וְעַד הָעֲצֶרֶת, שֶׁנֶּאֱמַר וּמִדֵּי שַׁבָּת בְּשַׁבַּתּוֹ: