Talmud Bavli · Massechet Eduyot · Perek Alef
פֶּרֶק רִאשׁוֹן

Mishná de Eduyot, primeiro perek — adaptada à trilha Bavli

14 mishnayot · sem Guemará no Talmud Bavli
Nota

Massechet Eduyot não possui Guemará no Talmud Bavli — apenas a Mishná é impressa/estudada nesta trilha. Esta página apresenta a Mishná adaptada ao formato da trilha Bavli; para o estudo devocional completo, com fontes da Torá, halachot dos códigos e o perush dos mefarshim, veja a versão completa na Mishná.

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Mishná 1A regra para contar a impureza da mulher
A disputa sobre até quando retroage a impureza

Shamai diz: para todas as mulheres, basta o seu momento. E Hilel diz: de exame para exame, ainda que sejam muitos dias. E os Sábios dizem: nem segundo as palavras deste, nem segundo as palavras daquele — mas sim: o período de vinte e quatro horas diminui em favor do período de exame para exame, e o período de exame para exame diminui em favor do período de vinte e quatro horas. Toda mulher que tem veset [período regular], basta o seu momento. Aquela que usa panos de exame, eis que isto é como um exame: diminui tanto o período de vinte e quatro horas quanto o de exame para exame.Esta é a primeira das disputas registradas em Eduyot, e trata de até quando retroage a impureza de uma mulher que, ao se examinar, encontra sangue: Shamai é o mais leniente, considerando impuro apenas o que ela tocou a partir do próprio momento em que percebeu o sangue; Hilel é o mais rigoroso, retroagindo até o exame anterior, ainda que distante muitos dias; e os Sábios adotam a posição intermediária, aplicando sempre o período mais curto entre "vinte e quatro horas" e "de exame a exame" — poupando assim os objetos puros que ela tocou fora desse período mais curto. Quando a mulher tem um período menstrual regular (veset), no entanto, todos concordam que basta o seu momento, pois não há razão para temer um sangramento anterior não percebido.

שַׁמַּאי אוֹמֵר, כָּל הַנָּשִׁים דַּיָּן שְׁעָתָן. וְהִלֵּל אוֹמֵר, מִפְּקִידָה לִפְקִידָה, אֲפִלּוּ לְיָמִים הַרְבֵּה. וַחֲכָמִים אוֹמְרִים, לֹא כְדִבְרֵי זֶה וְלֹא כְדִבְרֵי זֶה, אֶלָּא מֵעֵת לְעֵת מְמַעֶטֶת עַל יַד מִפְּקִידָה לִפְקִידָה, וּמִפְּקִידָה לִפְקִידָה מְמַעֶטֶת עַל יַד מֵעֵת לְעֵת. כָּל אִשָּׁה שֶׁיֶּשׁ לָהּ וֶסֶת, דַּיָּהּ שְׁעָתָהּ. הַמְשַׁמֶּשֶׁת בְּעִדִּים, הֲרֵי זוֹ כִפְקִידָה, מְמַעֶטֶת עַל יַד מֵעֵת לְעֵת וְעַל יַד מִפְּקִידָה לִפְקִידָה:
Mishná 2A medida de farinha obrigada em relação à chalá
A medida de massa obrigada em chalá

Shamai diz: a partir de um cav [de farinha, a massa] está obrigada em relação à chalá. E Hilel diz: a partir de dois cavim. E os Sábios dizem: nem segundo as palavras deste, nem segundo as palavras daquele — mas sim: um cav e meio estão obrigados em relação à chalá. E, depois que as medidas foram aumentadas, disseram: cinco quartos estão obrigados. Rabi Yossei diz: cinco, isentos; cinco e mais, obrigados.A segunda disputa do capítulo segue o mesmo padrão da primeira: duas posições extremas (Shamai leniente com um cav, Hilel exigente com dois) e uma posição intermediária dos Sábios (cav e meio). A mishná acrescenta uma nota histórica: quando as medidas de volume usadas posteriormente (a medida de Tzipori) se tornaram maiores que as anteriores (de Jerusalém), a mesma quantidade real passou a ser expressa como "cinco quartos de cav" — e Rabi Yossei discute a fronteira exata dessa nova medida.

שַׁמַּאי אוֹמֵר, מִקַּב לְחַלָּה. וְהִלֵּל אוֹמֵר, מִקַּבָּיִם. וַחֲכָמִים אוֹמְרִים, לֹא כְדִבְרֵי זֶה וְלֹא כְדִבְרֵי זֶה, אֶלָּא קַב וּמֶחֱצָה חַיָּבִים בְּחַלָּה. וּמִשֶּׁהִגְדִּילוּ הַמִּדּוֹת אָמְרוּ, חֲמֵשֶׁת רְבָעִים חַיָּבִין. רַבִּי יוֹסֵי אוֹמֵר, חֲמִשָּׁה, פְּטוּרִין. חֲמִשָּׁה וָעוֹד, חַיָּבִין:
Mishná 3A medida de águas retiradas que invalidam o mikvê
O testemunho que decidiu a medida das águas retiradas

Hilel diz: um hin cheio de águas retiradas invalida o mikvê — mas a pessoa é obrigada a falar na língua de seu mestre. E Shamai diz: nove cavim. E os Sábios dizem: nem segundo as palavras deste, nem segundo as palavras daquele — até que vieram dois tecelões do Portão do Lixo, que havia em Jerusalém, e testemunharam em nome de Shemaiá e Avtalyon: três login de águas retiradas invalidam o mikvê. E os Sábios confirmaram as suas palavras.Terceira disputa da série sobre medidas: aqui, porém, a questão não se resolve pela lógica intermediária habitual dos Sábios, mas por um testemunho externo — dois tecelões de ofício humilde, vindos de um bairro humilde, que relataram a tradição recebida de Shemaiá e Avtalyon (os mestres de Hilel e Shamai) fixando a medida em apenas três login, muito menor que as propostas anteriores. Este caso prepara o terreno para a mishná seguinte, que explica por que se registram opiniões rejeitadas.

הִלֵּל אוֹמֵר, מְלֹא הִין מַיִם שְׁאוּבִין פּוֹסְלִין אֶת הַמִּקְוֶה, אֶלָּא שֶׁאָדָם חַיָּב לוֹמַר בִּלְשׁוֹן רַבּוֹ. וְשַׁמַּאי אוֹמֵר, תִּשְׁעָה קַבִּין. וַחֲכָמִים אוֹמְרִים, לֹא כְדִבְרֵי זֶה וְלֹא כְדִבְרֵי זֶה, אֶלָּא עַד שֶׁבָּאוּ שְׁנֵי גַרְדִּיִּים מִשַּׁעַר הָאַשְׁפּוֹת שֶׁבִּירוּשָׁלַיִם וְהֵעִידוּ מִשּׁוּם שְׁמַעְיָה וְאַבְטַלְיוֹן, שְׁלֹשֶׁת לֻגִּין מַיִם שְׁאוּבִין פּוֹסְלִין אֶת הַמִּקְוֶה, וְקִיְּמוּ חֲכָמִים אֶת דִּבְרֵיהֶם:
Mishná 4Por que se registram as opiniões de Shamai e Hilel em vão
A primeira razão: ensinar a não se apegar às próprias opiniões

E por que se registram as palavras de Shamai e Hilel em vão? Para ensinar às gerações vindouras que uma pessoa não deve se apegar às suas palavras — pois eis que os pais do mundo não se apegaram às suas próprias palavras.Depois de três disputas seguidas em que nem Shamai nem Hilel prevaleceram integralmente, a Mishná faz uma pausa programática para explicar o próprio método do tratado: por que preservar, por escrito, opiniões que a lei prática rejeitou? A primeira resposta é pedagógica e moral — mesmo os maiores sábios de uma geração ("os pais do mundo", forma de tratamento para Shamai e Hilel) não insistiram teimosamente em suas posições quando os Sábios decidiram de outro modo, e essa disposição de ceder deve ser um modelo para todas as gerações futuras.

וְלָמָּה מַזְכִּירִין אֶת דִּבְרֵי שַׁמַּאי וְהִלֵּל לְבַטָּלָה, לְלַמֵּד לַדּוֹרוֹת הַבָּאִים שֶׁלֹּא יְהֵא אָדָם עוֹמֵד עַל דְּבָרָיו, שֶׁהֲרֵי אֲבוֹת הָעוֹלָם לֹא עָמְדוּ עַל דִּבְרֵיהֶם:
Mishná 5Por que se menciona a opinião do indivíduo entre a dos muitos
A segunda razão: para que um tribunal futuro possa se apoiar nela

E por que se menciona a opinião do indivíduo entre a dos muitos, visto que a lei não é senão segundo as palavras dos muitos? Para que, se um tribunal vir as palavras do indivíduo e nelas se apoiar [possa fazê-lo] — pois um tribunal não pode anular as palavras de outro tribunal, a menos que seja maior do que ele em sabedoria e em número. Se era maior do que ele em sabedoria, mas não em número; em número, mas não em sabedoria — não pode anular as suas palavras, a menos que seja maior do que ele em sabedoria e em número.Esta é a mishná mais citada de todo o tratado Eduyot, e explica o próprio propósito da obra: preservar por escrito as opiniões minoritárias, ainda que a halachá siga sempre a maioria, porque um tribunal futuro — maior tanto em sabedoria quanto em número que o tribunal que decidiu contra aquele indivíduo — pode legitimamente reabrir a questão e adotar a opinião antes rejeitada. A mishná estabelece, de passagem, a regra geral sobre quando um tribunal pode anular a decisão de outro: apenas quando reúne as duas condições simultaneamente, superioridade em sabedoria e em número — nunca apenas uma delas.

וְלָמָּה מַזְכִּירִין דִּבְרֵי הַיָּחִיד בֵּין הַמְרֻבִּין, הוֹאִיל וְאֵין הֲלָכָה אֶלָּא כְדִבְרֵי הַמְרֻבִּין. שֶׁאִם יִרְאֶה בֵית דִּין אֶת דִּבְרֵי הַיָּחִיד וְיִסְמֹךְ עָלָיו, שֶׁאֵין בֵּית דִּין יָכוֹל לְבַטֵּל דִּבְרֵי בֵית דִּין חֲבֵרוֹ עַד שֶׁיִּהְיֶה גָדוֹל מִמֶּנּוּ בְחָכְמָה וּבְמִנְיָן. הָיָה גָדוֹל מִמֶּנּוּ בְחָכְמָה אֲבָל לֹא בְמִנְיָן, בְּמִנְיָן אֲבָל לֹא בְחָכְמָה, אֵינוֹ יָכוֹל לְבַטֵּל דְּבָרָיו, עַד שֶׁיִּהְיֶה גָדוֹל מִמֶּנּוּ בְחָכְמָה וּבְמִנְיָן:
Mishná 6A objeção de Rabi Yehudá
A terceira razão, segundo Rabi Yehudá: refutar falsas alegações de tradição

Disse Rabi Yehudá: se assim é, por que se mencionam as palavras do indivíduo entre a dos muitos, em vão? Para que, se um homem disser: "Assim eu recebi por tradição" — se lhe diga: "Segundo as palavras de fulano tu ouviste".Rabi Yehudá reconhece a razão dada na mishná anterior (que um tribunal futuro maior pode se apoiar na opinião individual), mas nota que ela não explica por que ainda se registram opiniões que já foram definitivamente rejeitadas mesmo por esse critério — casos em que nenhum tribunal jamais decidirá segundo elas. Sua resposta acrescenta uma função adicional: preservar essas opiniões por escrito permite identificar e refutar quem, mais tarde, alegar falsamente ter recebido uma tradição diferente da halachá estabelecida — mostrando que aquilo que ele "recebeu" é, na verdade, a opinião já rejeitada de um sábio específico.

אָמַר רַבִּי יְהוּדָה, אִם כֵּן לָמָּה מַזְכִּירִין דִּבְרֵי הַיָּחִיד בֵּין הַמְרֻבִּין לְבַטָּלָה. שֶׁאִם יֹאמַר הָאָדָם כָּךְ אֲנִי מְקֻבָּל, יֵאָמֵר לוֹ, כְּדִבְרֵי אִישׁ פְּלוֹנִי שָׁמָעְתָּ:
Mishná 7A medida de ossos que contamina sob o mesmo teto
Quanto osso, e de quantos corpos, contamina sob o teto

Beit Shamai diz: um quarto de cav de ossos, dentre os ossos, seja de dois [cadáveres] seja de três. E Beit Hilel diz: um quarto de cav de ossos do corpo, da maior parte da estrutura ou da maior parte do número. Shamai diz: mesmo de um só osso.Depois da pausa metodológica das mishnayot 4-6, o capítulo retorna ao tema das medidas de pureza e impureza. Aqui a disputa é sobre a lei do "teto" (ohel): a Torá ensina que um quarto de cav de ossos de cadáver contamina tudo o que está sob o mesmo teto. Beit Shamai permite somar ossos de vários cadáveres diferentes para completar essa medida; Beit Hilel exige que os ossos venham de um único corpo, e ainda assim apenas se constituírem a maior parte da estrutura óssea ou a maior parte do número de ossos do esqueleto humano. Shamai, em posição isolada e ainda mais rigorosa, considera que um único osso que por si só ocupe o volume de um quarto de cav já basta para contaminar.

בֵּית שַׁמַּאי אוֹמְרִים, רֹבַע עֲצָמוֹת מִן הָעֲצָמִים, בֵּין מִשְּׁנַיִם בֵּין מִשְּׁלֹשָׁה. וּבֵית הִלֵּל אוֹמְרִים, רֹבַע עֲצָמוֹת מִן הַגְּוִיָּה, מֵרֹב הַבִּנְיָן אוֹ מֵרֹב הַמִּנְיָן. שַׁמַּאי אוֹמֵר, אֲפִלּוּ מֵעֶצֶם אֶחָד:
Mishná 8As vícias de terumá: quando se pode torná-las impuras
As etapas de preparo das vícias de terumá

Vícias de terumá: Beit Shamai diz: encharcam-se e esfregam-se em pureza, e dão-se para comer em impureza. Beit Hilel diz: encharcam-se em pureza, e esfregam-se e dão-se para comer em impureza. Shamai diz: devem ser comidas secas. Rabi Akivá diz: todas as suas operações [podem ser feitas] em impureza.As vícias (karshinim) eram um alimento de animais, dos quais também se separava terumá, pois em anos de escassez chegavam a ser consumidas por pessoas. A disputa gira em torno de três etapas do processamento antes de servi-las ao gado — encharcar na água, esfregar sobre a casca, e finalmente dar de comer — e em qual dessas etapas passa a ser permitido torná-las impuras (já que, sendo destinadas ao consumo animal, não há necessidade de preservar sua pureza indefinidamente). Beit Shamai permite tornar impuro a partir da alimentação; Beit Hilel já permite a partir do esfregar; Shamai, isoladamente, exige que sejam comidas secas, sem nenhum líquido; e Rabi Akivá, na posição mais permissiva, dispensa a pureza desde o início, mesmo no encharcamento.

כַּרְשִׁינֵי תְרוּמָה, בֵּית שַׁמַּאי אוֹמְרִים, שׁוֹרִין וְשָׁפִין בְּטָהֳרָה, וּמַאֲכִילִין בְּטֻמְאָה. בֵּית הִלֵּל אוֹמְרִים, שׁוֹרִין בְּטָהֳרָה, וְשָׁפִין וּמַאֲכִילִין בְּטֻמְאָה. שַׁמַּאי אוֹמֵר, יֵאָכְלוּ צָרִיד. רַבִּי עֲקִיבָא אוֹמֵר, כָּל מַעֲשֵׂיהֶם בְּטֻמְאָה:
Mishná 9Trocar uma sela do segundo dízimo por moedas
Trocando moedas do segundo dízimo fora de Jerusalém

Aquele que troca uma sela das moedas de maasser sheni [segundo dízimo]: Beit Shamai diz: por toda a sela, moedas. E Beit Hilel diz: por um shekel de prata e um shekel de moedas. Rabi Meir diz: não se resgata prata e frutos sobre a prata. E os Sábios permitem.Esta mishná abre uma série de três disputas sobre a troca de dinheiro do segundo dízimo — moedas cuja santidade exige que sejam eventualmente gastas em Jerusalém com alimentos consumidos em pureza. Aqui, o caso é de alguém que possui moedas de cobre do dízimo e deseja trocá-las por uma sela de prata (mais fácil de transportar) antes de subir a Jerusalém: Beit Shamai permite trocar tudo por moedas de cobre novamente; Beit Hilel exige manter metade em prata e metade em moedas miúdas. Rabi Meir, à parte, proíbe combinar prata e frutos do dízimo para resgatá-los juntos sobre uma única moeda de prata, mas os Sábios permitem.

הַפּוֹרֵט סֶלַע מִמְּעוֹת מַעֲשֵׂר שֵׁנִי, בֵּית שַׁמַּאי אוֹמְרִים, בְּכָל הַסֶּלַע מָעוֹת, וּבֵית הִלֵּל אוֹמְרִים, בְּשֶׁקֶל כֶּסֶף וּבְשֶׁקֶל מָעוֹת. רַבִּי מֵאִיר אוֹמֵר, אֵין מְחַלְּלִין כֶּסֶף וּפֵרוֹת עַל הַכֶּסֶף. וַחֲכָמִים מַתִּירִין:
Mishná 10Trocar uma sela do segundo dízimo em Jerusalém
Trocando moedas do segundo dízimo já em Jerusalém

Aquele que troca uma sela do segundo dízimo em Jerusalém: Beit Shamai diz: por toda a sela, moedas. E Beit Hilel diz: por um shekel de prata e um shekel de moedas. Os que discutiam perante os Sábios dizem: por três dinares de prata e um dinar de moedas. Rabi Akivá diz: por três dinares de prata e por um quarto [de dinar] em prata, um quarto em moedas. E Rabi Tarfon diz: quatro asperes de prata. Shamai diz: deixe-a na loja e coma contra ela.Enquanto a mishná anterior tratava da troca antes da subida a Jerusalém, esta trata do inverso: já em Jerusalém, alguém quer trocar uma sela de prata por moedas miúdas para as compras diárias da refeição do dízimo. As posições se multiplicam em proporções cada vez mais refinadas — de metade (Beit Hilel) a um quarto (Rabi Akivá) a um vigésimo (Rabi Tarfon, calculando pelo aspero grego) — todas buscando equilibrar a conveniência das moedas miúdas com o risco de perdas ao dízimo pela variação do câmbio. Shamai propõe uma solução alternativa: não trocar nada, mas deixar a sela em depósito com o lojista e ir "descontando" dela aos poucos, à medida que compra.

הַפּוֹרֵט סֶלַע שֶׁל מַעֲשֵׂר שֵׁנִי בִּירוּשָׁלַיִם, בֵּית שַׁמַּאי אוֹמְרִים, בְּכָל הַסֶּלַע מָעוֹת, וּבֵית הִלֵּל אוֹמְרִים, בְּשֶׁקֶל כֶּסֶף וּבְשֶׁקֶל מָעוֹת. הַדָּנִים לִפְנֵי חֲכָמִים אוֹמְרִים, בִּשְׁלֹשָׁה דִינָרִים כֶּסֶף וּבְדִינָר מָעוֹת. רַבִּי עֲקִיבָא אוֹמֵר, בִּשְׁלֹשָׁה דִינָרִים כֶּסֶף וּבִרְבִיעִית כֶּסֶף בִּרְבִיעִית מָעוֹת. וְרַבִּי טַרְפוֹן אוֹמֵר, אַרְבָּעָה אַסְפְּרֵי כָסֶף. שַׁמַּאי אוֹמֵר, יַנִּיחֶנָּה בַחֲנוּת וְיֹאכַל כְּנֶגְדָּהּ:
Mishná 11A cadeira da noiva e a impureza de objetos incompletos
Quando um móvel incompleto ainda contamina como assento

Uma cadeira de noiva da qual foram retirados os seus revestimentos: Beit Shamai declara impura, e Beit Hilel declara pura. Shamai diz: também a armação [nua] da cadeira é impura. Uma cadeira que se fixou numa gamela: Beit Shamai declara impura, e Beit Hilel declara pura. Shamai diz: também a que foi feita nela [é impura].Esta disputa pertence às leis de midras (a impureza transmitida por um objeto próprio para sentar-se ou deitar-se, quando em contato com um zav). No primeiro caso, uma cadeira ornamentada de noiva perde os painéis decorativos que a tornavam adequada para uso — Beit Shamai a considera ainda apta para sentar-se e, portanto, ainda suscetível a essa impureza; Beit Hilel a considera imprestável, como se estivesse quebrada. Shamai, mais rigoroso ainda, estende a impureza até mesmo à armação nua, sem revestimento algum. No segundo caso — uma cadeira encaixada dentro de uma gamela de amassar pão (que por si só não é suscetível a midras) — a disputa é se a cadeira mantém sua condição própria ou se "se anula" perante o utensílio maior em que foi encaixada.

כִּסֵּא שֶׁל כַּלָּה שֶׁנִּטְּלוּ חִפּוּיָיו, בֵּית שַׁמַּאי מְטַמְּאִין, וּבֵית הִלֵּל מְטַהֲרִין. שַׁמַּאי אוֹמֵר, אַף מַלְבֵּן שֶׁל כִּסֵּא טָמֵא. כִּסֵּא שֶׁקְּבָעוֹ בַעֲרֵבָה, בֵּית שַׁמַּאי מְטַמְּאִין, וּבֵית הִלֵּל מְטַהֲרִין. שַׁמַּאי אוֹמֵר, אַף הֶעָשׂוּי בָּהּ:
Mishná 12A mulher que retorna de terra ultramarina e diz: meu marido morreu
Beit Hilel volta atrás: o testemunho da mulher e a ketubá

Estas são as coisas em que Beit Hilel voltou atrás para ensinar segundo as palavras de Beit Shamai: a mulher que veio de terra ultramarina e disse "Meu marido morreu" — pode se casar; "morreu [sem filhos]" — deve realizar o ibum. Mas Beit Hilel diz: não ouvimos isso senão de quem vem da colheita. Disseram-lhes Beit Shamai: tanto faz quem vem da colheita, quem vem da colheita de azeitonas, ou quem vem de terra ultramarina — não falaram da colheita senão porque era o caso comum. Beit Hilel voltou atrás para ensinar como Beit Shamai. Beit Shamai diz: casa-se e recebe sua ketubá. E Beit Hilel diz: casa-se, mas não recebe sua ketubá. Disseram-lhes Beit Shamai: permitistes o caso grave da relação proibida — não permitireis o caso leve do dinheiro? Disseram-lhes Beit Hilel: encontramos que os irmãos não entram na herança por sua palavra [sozinha]. Disseram-lhes Beit Shamai: acaso não se aprende do texto de sua própria ketubá, em que ele escreve para ela: "que, se te casares com outro, receberás o que está escrito para ti"? Beit Hilel voltou atrás para ensinar segundo as palavras de Beit Shamai.Aqui o tratado muda de registro: em vez de disputas abertas, a mishná lista casos em que Beit Hilel expressamente reconheceu seu erro e passou a ensinar como Beit Shamai — um testemunho notável de humildade intelectual, ecoando o princípio da mishná 4. A base é a confiança dada ao próprio testemunho de uma mulher sobre a morte do marido (permitindo-lhe casar novamente, ou exigindo o levirato se não houver filhos): Beit Hilel inicialmente limitava essa confiança a um cenário específico (retorno da colheita), mas Beit Shamai argumenta que o caso era apenas ilustrativo, não restritivo. Na segunda metade, a disputa avança para o direito da mulher à sua ketubá nessas circunstâncias — Beit Shamai vence com um argumento a fortiori (se se confia nela para o caso grave do casamento, tanto mais para o caso leve do dinheiro) e com a leitura literal do próprio texto da ketubá.

אֵלּוּ דְבָרִים שֶׁחָזְרוּ בֵית הִלֵּל לְהוֹרוֹת כְּדִבְרֵי בֵית שַׁמָּאי. הָאִשָּׁה שֶׁבָּאָה מִמְּדִינַת הַיָּם וְאָמְרָה מֵת בַּעְלִי, תִּנָּשֵׂא. מֵת בַּעְלִי, תִּתְיַבֵּם. וּבֵית הִלֵּל אוֹמְרִים, לֹא שָׁמַעְנוּ אֶלָּא בְּבָאָה מִן הַקָּצִיר בִּלְבָד. אָמְרוּ לָהֶם בֵּית שַׁמַּאי, אַחַת הַבָּאָה מִן הַקָּצִיר וְאַחַת הַבָּאָה מִן הַזֵּיתִים וְאַחַת הַבָּאָה מִמְּדִינַת הַיָּם, לֹא דִבְּרוּ בַקָּצִיר אֶלָּא בַהֹוֶה. חָזְרוּ בֵית הִלֵּל לְהוֹרוֹת כְּבֵית שַׁמָּאי. בֵּית שַׁמַּאי אוֹמְרִים, תִּנָּשֵׂא וְתִטֹּל כְּתֻבָּתָהּ. וּבֵית הִלֵּל אוֹמְרִים, תִּנָּשֵׂא וְלֹא תִטֹּל כְּתֻבָּתָהּ. אָמְרוּ לָהֶם בֵּית שַׁמַּאי, הִתַּרְתֶּם אֶת הָעֶרְוָה הַחֲמוּרָה, לֹא תַתִּירוּ אֶת הַמָּמוֹן הַקָּל. אָמְרוּ לָהֶם בֵּית הִלֵּל, מָצִינוּ שֶׁאֵין הָאַחִים נִכְנָסִין לַנַּחֲלָה עַל פִּיהָ. אָמְרוּ לָהֶם בֵּית שַׁמַּאי, וַהֲלֹא מִסֵּפֶר כְּתֻבָּתָהּ נִלְמֹד, שֶׁהוּא כוֹתֵב לָהּ, שֶׁאִם תִּנָּשְׂאִי לְאַחֵר, תִּטְּלִי מַה שֶּׁכָּתוּב לִיךְ. חָזְרוּ בֵית הִלֵּל לְהוֹרוֹת כְּדִבְרֵי בֵית שַׁמָּה:
Mishná 13O escravo meio livre e a ordem correta do mundo
Beit Hilel volta atrás: o escravo parcialmente alforriado

Aquele que é metade escravo e metade livre trabalha para o seu senhor um dia, e para si mesmo um dia — palavras de Beit Hilel. Disseram-lhes Beit Shamai: consertastes [a situação] de seu senhor, mas a dele mesmo não consertastes: casar com uma escrava, ele não pode; com uma mulher livre, ele não pode. Deveria abster-se? Mas o mundo não foi criado senão para procriar e multiplicar-se, como está dito: "Não a criou caos, formou-a para ser habitada." Mas, por causa da correta ordem do mundo, obriga-se o seu senhor, e ele o torna livre, e escreve um documento sobre a metade de seu valor. Beit Hilel voltou atrás para ensinar como Beit Shamai.Este é o segundo dos três casos em que Beit Hilel reconhece o erro de sua posição original. O cenário: um escravo pertencente a dois sócios que foi alforriado apenas por um deles (ou parcialmente alforriado pelo próprio senhor) fica em condição ambígua — metade livre, metade escravo. A solução original de Beit Hilel (trabalhar dias alternados para cada "metade" de si mesmo) resolve o problema do senhor, mas deixa o escravo incapaz de se casar legalmente com ninguém — nem com uma escrava (por seu lado livre) nem com uma mulher livre (por seu lado escravo). Beit Shamai invoca o propósito fundamental da criação, citando Isaías, para justificar uma solução mais drástica: forçar o(s) senhor(es) a completar a alforria, compensados por um documento de dívida pelo valor restante.

מִי שֶׁחֶצְיוֹ עֶבֶד וְחֶצְיוֹ בֶּן חוֹרִין, עוֹבֵד אֶת רַבּוֹ יוֹם אֶחָד וְאֶת עַצְמוֹ יוֹם אֶחָד, דִּבְרֵי בֵית הִלֵּל. אָמְרוּ לָהֶם בֵּית שַׁמַּאי, תִּקַּנְתֶּם אֶת רַבּוֹ, וְאֶת עַצְמוֹ לֹא תִקַּנְתֶּם. לִשָּׂא שִׁפְחָה, אֵינוֹ יָכוֹל. בַּת חוֹרִין, אֵינוֹ יָכוֹל. לִבָּטֵל, וַהֲלֹא לֹא נִבְרָא הָעוֹלָם אֶלָּא לִפְרִיָּה וּרְבִיָּה, שֶׁנֶּאֱמַר לֹא תֹהוּ בְרָאָהּ לָשֶׁבֶת יְצָרָהּ. אֶלָּא, מִפְּנֵי תִקּוּן הָעוֹלָם, כּוֹפִין אֶת רַבּוֹ וְעוֹשֶׂה אוֹתוֹ בֶן חוֹרִין וְכוֹתֵב שְׁטָר עַל חֲצִי דָמָיו. חָזְרוּ בֵית הִלֵּל לְהוֹרוֹת כְּבֵית שַׁמָּא:
Mishná 14O vaso de barro que protege tudo o que está dentro dele
Beit Hilel volta atrás: o alcance da proteção do vaso selado

Um vaso de barro protege tudo [o que está dentro dele] — palavras de Beit Hilel. E Beit Shamai diz: não protege senão os alimentos, as bebidas e os vasos de barro. Disseram-lhes Beit Hilel: por que razão? Disseram-lhes Beit Shamai: porque ele está impuro por causa do am ha'aretz, e vaso impuro não interpõe. Disseram-lhes Beit Hilel: acaso não declarastes puros os alimentos e as bebidas que estão dentro dele? Disseram-lhes Beit Shamai: quando declaramos puros os alimentos e as bebidas que estão dentro dele, declaramos puro para ele mesmo; mas quando tu declaraste puro o vaso, declaraste puro para ti e para ele. Beit Hilel voltou atrás para ensinar segundo as palavras de Beit Shamai.A mishná final do capítulo — e o terceiro e último caso de reversão de Beit Hilel — trata de um princípio da Torá (Bemidbar 19:15): um vaso aberto envolto numa "tampa bem ajustada" (tzamid patil) protege seu conteúdo da impureza do teto do morto. A questão é se essa proteção se estende a qualquer objeto dentro do vaso (posição original de Beit Hilel) ou apenas a alimentos, bebidas e outros vasos de barro (Beit Shamai). O argumento decisivo de Beit Shamai é sutil: como os pertences de um am ha'aretz (pessoa não versada nas leis de pureza) são presumidos impuros, e vaso impuro não protege nada, o vaso de barro de um am ha'aretz não poderia, a rigor, proteger coisa alguma — mas os Sábios permitiram, como leniência prática, declarar puros apenas os alimentos e bebidas que não têm purificação de outro modo, sem estender essa leniência a vasos que um erudito poderia pedir emprestado e usar por engano, pensando-os puros de fato.

כְּלִי חֶרֶס מַצִּיל עַל הַכֹּל, כְּדִבְרֵי בֵית הִלֵּל. וּבֵית שַׁמַּאי אוֹמְרִים, אֵינוֹ מַצִּיל אֶלָּא עַל הָאֳכָלִין וְעַל הַמַּשְׁקִין וְעַל כְּלֵי חָרֶס. אָמְרוּ לָהֶם בֵּית הִלֵּל, מִפְּנֵי מָה. אָמְרוּ לָהֶם בֵּית שַׁמַּאי, מִפְּנֵי שֶׁהוּא טָמֵא עַל גַּב עַם הָאָרֶץ, וְאֵין כְּלִי טָמֵא חוֹצֵץ. אָמְרוּ לָהֶם בֵּית הִלֵּל, וַהֲלֹא טִהַרְתֶּם אֳכָלִים וּמַשְׁקִין שֶׁבְּתוֹכוֹ. אָמְרוּ לָהֶם בֵּית שַׁמַּאי, כְּשֶׁטִּהַרְנוּ אֳכָלִים וּמַשְׁקִין שֶׁבְּתוֹכוֹ, לְעַצְמוֹ טִהַרְנוּ. אֲבָל כְּשֶׁטִּהַרְתָּ אֶת הַכְּלִי, טִהַרְתָּ לְךָ וָלוֹ. חָזְרוּ בֵית הִלֵּל לְהוֹרוֹת כְּדִבְרֵי בֵית שַׁמָּא: