Talmud Bavli · Massechet Bikurim · Perek Guimel
פֶּרֶק שְׁלִישִׁי

Mishná de Bikurim, terceiro perek — adaptada à trilha Bavli

12 mishnayot · sem Guemará no Talmud Bavli
Nota

Massechet Bikurim não possui Guemará no Talmud Bavli — apenas a Mishná é impressa/estudada nesta trilha. Esta página apresenta a Mishná adaptada ao formato da trilha Bavli; para o estudo devocional completo, com fontes da Torá, halachot dos códigos e o perush dos mefarshim, veja a versão completa na Mishná.

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Mishná 1"Como se separam os bikurim"
Abertura do Perek Guimel: depois de dois capítulos dedicados a comparar bikurim com terumá e maasser sheni, e a resolver as dúvidas classificatórias do koi, a mishná retoma o fio do Perek Alef — o próprio ato de separar os bikurim no campo — e descreve o gesto concreto de reconhecer e atar o fruto que amadureceu primeiro

Como se separam os bikurim? Desce o homem ao meio de seu campo e vê uma figueira que amadureceu primeiro, um cacho de uvas que amadureceu primeiro, uma romã que amadureceu primeiro, ata-o com junco e diz: eis que estes são bikurim (o gesto de separação é simples e concreto: o dono do campo caminha por sua própria terra, identifica visualmente o primeiro fruto de cada espécie a atingir o estágio de bikur — o início do amadurecimento — e o marca fisicamente com uma tira de junco, ao mesmo tempo em que pronuncia a fórmula verbal que lhe confere, a partir daquele momento, o estatuto sagrado de bikurim, primícias destinadas ao Templo). Rabi Shimon diz: ainda assim, volta e os chama de bikurim depois que tenham sido arrancados do solo (Rabi Shimon discorda quanto ao momento em que a designação verbal realmente produz efeito prático completo: para ele, é insuficiente proclamar "eis que estes são bikurim" enquanto o fruto ainda está preso à árvore ou à videira — é necessário repetir essa proclamação no momento em que o fruto é efetivamente colhido e separado da terra, pois somente então ele se torna, de fato, um objeto apto a receber plenamente o estatuto de bikurim).

כֵּיצַד מַפְרִישִׁין הַבִּכּוּרִים. יוֹרֵד אָדָם בְּתוֹךְ שָׂדֵהוּ וְרוֹאֶה תְּאֵנָה שֶׁבִּכְּרָה, אֶשְׁכּוֹל שֶׁבִּכֵּר, רִמּוֹן שֶׁבִּכֵּר, קוֹשְׁרוֹ בְגֶמִי, וְאוֹמֵר, הֲרֵי אֵלּוּ בִּכּוּרִים. רַבִּי שִׁמְעוֹן אוֹמֵר, אַף עַל פִּי כֵן חוֹזֵר וְקוֹרֵא אוֹתָם בִּכּוּרִים מֵאַחַר שֶׁיִּתָּלְשׁוּ מִן הַקַּרְקָע:
Mishná 2"Como se sobem os bikurim"
Da separação individual no campo (Mishná 1) para a subida coletiva a Jerusalém: a mishná descreve a reunião das aldeias de um mesmo maamad na cidade central, a pernoite pública, e o chamado do responsável na manhã seguinte

Como se sobem os bikurim? Todas as cidades que pertencem a um maamad se reúnem na cidade do maamad, e pernoitam na praça da cidade, e não entravam nas casas (o maamad era uma divisão administrativa e litúrgica de Israel — vinte e quatro grupos correspondentes às vinte e quatro turmas sacerdotais — e todos os moradores das aldeias vinculadas a um mesmo maamad se congregavam previamente na cidade principal daquela região antes de subir juntos a Jerusalém; a pernoite era feita coletivamente na praça pública, e não nas casas particulares, evitando o risco de contrair impureza por permanecer sob o mesmo teto que um cadáver). E ao amanhecer, dizia o responsável: levantai-vos e subamos a Tzion, à casa do Senhor nosso Deus (citação de Yirmeyáhu 31; na madrugada, o funcionário encarregado de organizar a peregrinação convocava formalmente o grupo reunido, dando início solene à jornada coletiva rumo a Jerusalém com estas palavras proféticas).

כֵּיצַד מַעֲלִין אֶת הַבִּכּוּרִים. כָּל הָעֲיָרוֹת שֶׁבַּמַּעֲמָד מִתְכַּנְּסוֹת לָעִיר שֶׁל מַעֲמָד, וְלָנִין בִּרְחוֹבָהּ שֶׁל עִיר, וְלֹא הָיוּ נִכְנָסִין לַבָּתִּים. וְלַמַּשְׁכִּים, הָיָה הַמְמֻנֶּה אוֹמֵר (ירמיה לא), קוּמוּ וְנַעֲלֶה צִיּוֹן אֶל בֵּית ה' אֱלֹהֵינוּ:
Mishná 3O boi coroado e a chegada perto de Jerusalém
A caravana em marcha: o tipo de fruto trazido conforme a distância, o boi enfeitado que abre o caminho, a música da flauta, e a recepção solene ao se aproximar de Jerusalém

Os próximos trazem os figos e as uvas, e os distantes trazem figos secos e passas (a distância da viagem determinava o tipo de fruta que era prático transportar: quem morava perto de Jerusalém podia levar figos e uvas frescos, que se estragam rapidamente, enquanto quem vinha de longe trazia as mesmas espécies já secas — grogarot e tsimukim — capazes de suportar dias de viagem sem apodrecer). E o boi ia à frente deles, com seus chifres cobertos de ouro e uma coroa de oliveira em sua cabeça (um boi vivo, destinado a ser oferecido como sacrifício de paz, encabeçava a procissão, adornado com chifres dourados e uma grinalda de ramos de oliveira — um dos sete tipos de frutos pelos quais a Terra de Israel é elogiada — anunciando visualmente a natureza da oferenda que se aproximava). A flauta tocava diante deles, até chegarem perto de Jerusalém (a música instrumental acompanhava toda a extensão do trajeto, criando uma atmosfera festiva e solene ao longo de toda a jornada). Ao chegarem perto de Jerusalém, enviavam [mensageiros] à frente deles, e enfeitavam seus bikurim (perto da cidade, a caravana enviava avisos antecipados de sua chegada iminente, e aproveitava para dar um último e cuidadoso arranjo decorativo aos cestos de primícias, preparando-os para a entrada solene). Os governadores, os prefeitos e os tesoureiros saíam ao encontro deles; conforme a honra dos que entravam, assim saíam [para recebê-los] (as autoridades de Jerusalém organizavam sua recepção proporcionalmente à importância e ao tamanho do grupo que chegava, um sinal de honra recíproca entre a cidade santa e seus peregrinos). E todos os artesãos de Jerusalém se levantavam diante deles e perguntavam por seu bem-estar: "nossos irmãos, homens de tal lugar, vieram em paz" (mesmo os trabalhadores comuns da cidade, ocupados em seus ofícios, interrompiam o trabalho para saudar os peregrinos com uma fórmula de boas-vindas fraternal, identificando-os por sua cidade de origem).

הַקְּרוֹבִים מְבִיאִים הַתְּאֵנִים וְהָעֲנָבִים, וְהָרְחוֹקִים מְבִיאִים גְּרוֹגָרוֹת וְצִמּוּקִים. וְהַשּׁוֹר הוֹלֵךְ לִפְנֵיהֶם, וְקַרְנָיו מְצֻפּוֹת זָהָב, וַעֲטֶרֶת שֶׁל זַיִת בְּרֹאשׁוֹ. הֶחָלִיל מַכֶּה לִפְנֵיהֶם, עַד שֶׁמַּגִּיעִים קָרוֹב לִירוּשָׁלָיִם. הִגִּיעוּ קָרוֹב לִירוּשָׁלַיִם, שָׁלְחוּ לִפְנֵיהֶם, וְעִטְּרוּ אֶת בִּכּוּרֵיהֶם. הַפַּחוֹת, הַסְּגָנִים וְהַגִּזְבָּרִים יוֹצְאִים לִקְרָאתָם. לְפִי כְבוֹד הַנִּכְנָסִים הָיוּ יוֹצְאִים. וְכָל בַּעֲלֵי אֻמָּנִיּוֹת שֶׁבִּירוּשָׁלַיִם עוֹמְדִים לִפְנֵיהֶם וְשׁוֹאֲלִין בִּשְׁלוֹמָם, אַחֵינוּ אַנְשֵׁי הַמָּקוֹם פְּלוֹנִי, בָּאתֶם לְשָׁלוֹם:
Mishná 4Do Har haBáit à Azará, mesmo o rei Agripa
Da recepção ao portão da cidade até o coração da Azará: a igualdade radical de todos os peregrinos, mesmo o rei, e o canto litúrgico dos leviim ao receber os cestos de bikurim

A flauta tocava diante deles até chegarem ao Monte do Templo (a música instrumental, que já os acompanhava desde antes de entrar em Jerusalém — mencionada na Mishná 3:3 — continuava soando por toda a cidade, agora em direção ao Har haBáit, o platô sagrado onde se erguia o Templo). Ao chegarem ao Monte do Templo, mesmo o rei Agripa carregava o cesto sobre seu ombro e entrava, até chegar à Azará (este é o ponto culminante simbólico da mishná: absolutamente ninguém estava isento do gesto físico e humilde de carregar pessoalmente o próprio cesto de primícias nos ombros — nem mesmo o rei Agripa, o monarca mais ilustre do período do Segundo Templo, cuja disposição em realizar esse trabalho manual ilustrava que, diante desta mitzvá, toda hierarquia social se dissolvia). Ao chegar à Azará, os leviim entoavam em canto: "Exaltar-te-ei, Senhor, pois me elevaste, e não permitiste que meus inimigos se alegrassem à minha custa" (Tehilim 30) (a chegada final ao pátio interno do Templo — a Azará — era marcada por um canto litúrgico específico entoado pelos leviim, extraído do Salmo 30, cujo tema de elevação e salvação ressoava apropriadamente com o momento de entrega solene das primícias).

הֶחָלִיל מַכֶּה לִפְנֵיהֶם עַד שֶׁמַּגִּיעִין לְהַר הַבָּיִת. הִגִּיעוּ לְהַר הַבַּיִת, אֲפִלּוּ אַגְרִיפַּס הַמֶּלֶךְ נוֹטֵל הַסַּל עַל כְּתֵפוֹ וְנִכְנָס, עַד שֶׁמַּגִּיעַ לָעֲזָרָה. הִגִּיעַ לָעֲזָרָה וְדִבְּרוּ הַלְוִיִּם בַּשִּׁיר, אֲרוֹמִמְךָ ה' כִּי דִלִּיתָנִי וְלֹא שִׂמַּחְתָּ אֹיְבַי לִי (תהלים ל):
Mishná 5Os pombos dos cestos e das mãos
Uma mishná breve que resolve, com precisão cirúrgica, o destino de dois grupos distintos de aves trazidas junto aos bikurim — as penduradas nos cestos e as carregadas nas mãos

As pombas que estavam sobre os cestos subiam [ao altar] como oferendas de holocausto; e as que estavam em suas mãos, davam aos cohanim (a mishná distingue dois destinos completamente diferentes conforme a forma como as aves eram transportadas: as pendentes — presas às laterais externas dos cestos de bikurim, servindo primariamente como adorno — eram consagradas e oferecidas como olá, um sacrifício totalmente queimado no altar; já as que os peregrinos carregavam soltas nas próprias mãos não eram oferendas sacrificiais, mas presentes concretos entregues diretamente aos cohanim que atendiam no Templo).

הַגּוֹזָלוֹת שֶׁעַל גַּבֵּי הַסַּלִּים, הָיוּ עוֹלוֹת. וּמַה שֶּׁבְּיָדָם, נוֹתְנִים לַכֹּהֲנִים:
Mishná 6A leitura completa e a tenufá do cesto
O ritual central da mitzvá: a proclamação de Devarim 26, o debate sobre em que ponto exato o cesto desce do ombro para a tenufá conjunta com o cohen, e o gesto final de prostração

Ainda com o cesto sobre seu ombro, ele recita, desde "declarei hoje ao Senhor teu Deus" (Devarim 26), até terminar toda a parashá (o trazedor mantém o cesto sobre o próprio ombro — o mesmo gesto humilde exigido até do rei Agripa, descrito na Mishná 3:4 — enquanto recita em voz alta a totalidade da declaração bíblica de bikurim, começando pela fórmula de abertura "higadti hayom" e prosseguindo até completar a parashá inteira). Rabi Yehudá diz: até "um arameu errante era meu pai" (Rabi Yehudá discorda quanto à extensão do trecho recitado enquanto o cesto ainda está sobre o ombro: para ele, essa primeira fase da leitura vai apenas até o início da segunda parte da parashá — "arami oved avi" — e não a parashá inteira). Ao chegar a "um arameu errante era meu pai", desce o cesto de seu ombro e o segura por suas bordas, e o cohen coloca sua mão por baixo dele e o balança [em tenufá]; e recita desde "um arameu errante era meu pai" até terminar toda a parashá, e o coloca ao lado do altar, prostra-se e sai (no ponto exato de "arami oved avi", ocorre a transição ritual central: o trazedor abaixa o cesto do ombro, mas continua segurando-o pelas bordas, enquanto o cohen coloca sua própria mão sob o cesto e o balança de um lado a outro — o gesto de tenufá, movimento ritual de elevação e vibração que consagra formalmente a oferenda; a leitura prossegue então até o fim da parashá, o trazedor deposita o cesto junto ao altar, prostra-se em reverência, e finalmente se retira, encerrando o rito).

עוֹדֵהוּ הַסַּל עַל כְּתֵפוֹ, קוֹרֵא מֵהִגַּדְתִּי הַיּוֹם לַה' אֱלֹהֶיךָ (דברים כו), עַד שֶׁגּוֹמֵר כָּל הַפָּרָשָׁה. רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר עַד אֲרַמִּי אֹבֵד אָבִי. הִגִּיעַ לַאֲרַמִּי אֹבֵד אָבִי, מוֹרִיד הַסַּל מֵעַל כְּתֵפוֹ וְאוֹחֲזוֹ בְשִׂפְתוֹתָיו, וְכֹהֵן מַנִּיחַ יָדוֹ תַחְתָּיו וּמְנִיפוֹ, וְקוֹרֵא מֵאֲרַמִּי אֹבֵד אָבִי עַד שֶׁהוּא גוֹמֵר כָּל הַפָּרָשָׁה, וּמַנִּיחוֹ בְּצַד הַמִּזְבֵּחַ, וְהִשְׁתַּחֲוָה וְיָצָא:
Mishná 7A instituição que poupou a vergonha de quem não sabia ler
Uma reforma litúrgica motivada pela sensibilidade social: como o Beit Din igualou a leitura de todos os trazedores de bikurim para poupar a vergonha de quem não sabia ler

No início, todo aquele que sabia recitar, recitava; e todo aquele que não sabia recitar, era instruído [palavra por palavra] (originalmente, a leitura da parashá de bikurim descrita na mishná anterior (3:6) seguia uma prática dupla e visivelmente desigual: quem tinha conhecimento suficiente do texto recitava a declaração sozinho, de memória ou por leitura, enquanto quem não sabia recebia a ajuda de alguém que ia lhe ditando cada palavra, para que a repetisse em voz alta). Deixaram de trazer [bikurim]; instituíram que instruíssem tanto o que sabe quanto o que não sabe (essa distinção pública entre os dois grupos gerou um efeito colateral indesejado: por vergonha de expor publicamente sua falta de instrução, muitas pessoas simplesmente pararam de trazer seus bikurim ao Templo. Diante desse problema, o Beit Din instituiu uma solução elegante — de agora em diante, todos, sem exceção, sabendo ou não de cor a recitação, seriam igualmente instruídos palavra por palavra por um auxiliar, eliminando qualquer diferença visível entre os dois grupos e restaurando a disposição de todos em cumprir a mitzvá).

בָּרִאשׁוֹנָה, כָּל מִי שֶׁיּוֹדֵעַ לִקְרוֹת, קוֹרֵא. וְכָל מִי שֶׁאֵינוֹ יוֹדֵעַ לִקְרוֹת, מַקְרִין אוֹתוֹ. נִמְנְעוּ מִלְּהָבִיא, הִתְקִינוּ שֶׁיְּהוּ מַקְרִין אֶת מִי שֶׁיּוֹדֵעַ וְאֶת מִי שֶׁאֵינוֹ יוֹדֵעַ:
Mishná 8Cestos de prata e ouro, cestos de vime
Abertura do bloco final do Perek Guimel: a diferença material entre os cestos dos ricos e dos pobres, e o destino comum — tanto do fruto quanto do próprio recipiente — nas mãos dos cohanim

Os ricos trazem seus bikurim em cestos de prata e de ouro, e os pobres os trazem em cestos de vime de salgueiro descascado; e os cestos e os bikurim são entregues aos cohanim (diferentemente da leitura verbal — igualada para todos na mishná anterior (3:7) precisamente para evitar constrangimento — o recipiente material usado para transportar os bikurim continuava refletindo abertamente a condição econômica de cada trazedor: os abastados usavam cestos ornamentados com metais preciosos, prata e ouro, enquanto os de recursos modestos utilizavam simples cestos trançados de galhos de salgueiro descascados, um material comum e acessível. Apesar dessa diferença visível, ambos os tipos de cesto compartilhavam, à primeira vista, o mesmo destino: eram entregues aos cohanim junto com o próprio fruto — embora, como as mishnayot seguintes esclarecerão, essa regra não fosse absoluta para os cestos de metais preciosos).

הָעֲשִׁירִים מְבִיאִים בִּכּוּרֵיהֶם בִּקְלָתוֹת שֶׁל כֶּסֶף וְשֶׁל זָהָב, וְהָעֲנִיִּים מְבִיאִין אוֹתָם בְּסַלֵּי נְצָרִים שֶׁל עֲרָבָה קְלוּפָה, וְהַסַּלִּים וְהַבִּכּוּרִים נִתָּנִין לַכֹּהֲנִים:
Mishná 9A disputa sobre com que se coroam os bikurim
Uma controvérsia curta e direta entre Rabi Shimon ben Nannas e Rabi Akiva sobre os limites do adorno decorativo permitido nos cestos de bikurim

Rabi Shimon ben Nannas diz: coroam-se os bikurim, exceto com os sete tipos (Rabi Shimon ben Nannas permite adornar os cestos de bikurim com qualquer fruta decorativa disponível — desde que não seja uma das sete espécies pelas quais a Terra de Israel é elogiada (trigo, cevada, videira, figueira, romã, oliveira e tâmara); para ele, o adorno decorativo deve vir de fora dessa categoria especial, reservando os próprios sete tipos exclusivamente para seu papel como o conteúdo sagrado da oferenda em si). Rabi Akiva diz: não se coroam os bikurim senão com os sete tipos (Rabi Akiva inverte completamente a lógica de seu colega: para ele, apenas frutas pertencentes aos próprios sete tipos elogiados podem servir como adorno decorativo dos cestos — talvez por considerar que somente essas espécies possuem a dignidade apropriada para adornar uma oferenda tão sagrada, ou por entender que o próprio adorno deveria refletir e reforçar visualmente a natureza da oferenda que envolve).

רַבִּי שִׁמְעוֹן בֶּן נַנָּס אוֹמֵר, מְעַטְּרִין אֶת הַבִּכּוּרִים חוּץ מִשִּׁבְעַת הַמִּינִים. רַבִּי עֲקִיבָא אוֹמֵר, אֵין מְעַטְּרִין אֶת הַבִּכּוּרִים אֶלָּא מִשִּׁבְעַת הַמִּינִים:
Mishná 10As três medidas de Rabi Shimon
Rabi Shimon sistematiza três categorias distintas dentro do que popularmente se chama "bikurim", cada uma com consequências práticas próprias quanto à pureza ritual e à obrigação de demai

Rabi Shimon diz: três medidas há em bikurim: os bikurim, o acréscimo de bikurim, e o coroamento de bikurim (Rabi Shimon introduz uma taxonomia formal de três categorias que, até aqui, a mishná vinha tratando de modo mais implícito: o "bikurim" propriamente dito — o fruto original separado no campo, como descrito na Mishná 3:1; a "tosefet habikurim" — um acréscimo posterior de frutos da mesma espécie; e o "itur habikurim" — o coroamento decorativo com frutos de espécie diferente, discutido na controvérsia da mishná anterior entre Rabi Shimon ben Nannas e Rabi Akiva). O acréscimo de bikurim é de espécie igual à sua espécie; e o coroamento de bikurim é de espécie diferente da sua espécie (Rabi Shimon define tecnicamente a diferença entre as duas categorias adicionais: a "tosefet" consiste em acrescentar mais frutos do mesmo tipo já designado como bikurim — por exemplo, mais figos ao lado dos figos já separados — enquanto o "itur" consiste especificamente em adornar com frutos de um tipo diferente, como visto na mishná anterior). O acréscimo de bikurim é comido em pureza, e é isento de demai; e o coroamento de bikurim está sujeito a demai (as duas categorias adicionais têm consequências práticas bem diferentes: a tosefet, por partilhar da mesma espécie e do mesmo processo de designação que os bikurim originais, herda seu status de pureza ritual — deve ser consumida em estado de pureza — e fica isenta da obrigação de separar demai (o dízimo duvidoso separado de produtos comprados de quem talvez não tenha dizimado corretamente); já o itur, por ser de espécie diferente e não ter passado pelo mesmo processo formal de designação, permanece sujeito à obrigação padrão de demai, como qualquer produto agrícola comum).

רַבִּי שִׁמְעוֹן אוֹמֵר, שָׁלֹשׁ מִדּוֹת בַּבִּכּוּרִים, הַבִּכּוּרִים, וְתוֹסֶפֶת הַבִּכּוּרִים, וְעִטּוּר הַבִּכּוּרִים. תּוֹסֶפֶת הַבִּכּוּרִים, מִין בְּמִינוֹ. וְעִטּוּר הַבִּכּוּרִים, מִין בְּשֶׁאֵינוֹ מִינוֹ. תּוֹסֶפֶת הַבִּכּוּרִים נֶאֱכֶלֶת בְּטָהֳרָה, וּפְטוּרָה מִן הַדְּמַאי. וְעִטּוּר הַבִּכּוּרִים חַיָּב בַּדְּמַאי:
Mishná 11Só a Terra de Israel confere o status de bikurim ao acréscimo
Uma qualificação geográfica precisa à categoria de "acréscimo de bikurim" definida na mishná anterior: sua equiparação plena aos bikurim depende de sua origem na Terra de Israel

Quando disseram que o acréscimo de bikurim é como os bikurim? Quando vem da Terra [de Israel] (a mishná retoma a categoria de "tosefet habikurim" — o acréscimo de frutos da mesma espécie, definida na Mishná 3:10 como equiparada aos bikurim quanto à pureza ritual e à isenção de demai — e agora precisa uma condição essencial para essa equiparação: o acréscimo só herda plenamente o status privilegiado dos bikurim quando os frutos adicionais também provêm da Terra de Israel, a mesma origem geográfica exigida para os próprios bikurim). Mas se não vem da Terra, não é como os bikurim (a mishná fecha o raciocínio com sua contrapositiva direta: caso os frutos usados como acréscimo tenham origem fora da Terra de Israel — por exemplo, do Ever haYarden, a região a leste do rio Jordão, cujo status geográfico quanto às mitzvot agrícolas era objeto de discussão especial, como o Bartenura esclarece abaixo — esse acréscimo perde a equiparação total aos bikurim, mesmo sendo da mesma espécie botânica que o fruto original).

אֵימָתַי אָמְרוּ תּוֹסֶפֶת הַבִּכּוּרִים כַּבִּכּוּרִים, בִּזְמַן שֶׁהִיא בָאָה מִן הָאָרֶץ. וְאִם אֵינָהּ בָּאָה מִן הָאָרֶץ, אֵינָהּ כַּבִּכּוּרִים:
Mishná 12"Bens do cohen": com que se compram até um Sefer Torá
Mishná de encerramento do Perek Guimel: o estatuto legal dos bikurim, uma vez nas mãos do cohen, como propriedade plena e transferível, comparável apenas a um Sefer Torá em dignidade

Por que disseram que os bikurim são como bens do cohen? Porque ele adquire com eles escravos, terras e animais impuros; e o credor os toma por sua dívida, e a esposa por sua ketubá, como um Sefer Torá (a mishná final do capítulo explica o princípio jurídico subjacente a tudo que foi descrito: uma vez entregues ao cohen, os bikurim tornam-se propriedade plena e absolutamente equivalente a qualquer outro bem de sua posse — ele pode utilizá-los como meio de pagamento para adquirir servos, propriedades imobiliárias, ou mesmo animais ritualmente impuros (que, evidentemente, não poderia comer, mas cujo valor comercial permanece útil); um credor pode legalmente tomar bikurim do cohen como forma de saldar uma dívida que este lhe deve, e da mesma forma uma esposa pode recebê-los como parte do pagamento de sua ketubá em caso de divórcio ou viuvez — a comparação final com um Sefer Torá, um rolo da Torá, sublinha o quão elevada e irrestrita é essa liberdade de disposição, comparável ao mais sagrado e valioso dos bens materiais).

E Rabi Yehudá diz: não os dão senão a um chaver, como favor (Rabi Yehudá restringe a distribuição prática dos bikurim recebidos: apenas um "chaver" — um erudito ou pessoa escrupulosa e confiável em matéria de pureza ritual e leis agrícolas — deveria recebê-los, e mesmo assim apenas como um gesto de favor ou generosidade, e não como uma distribuição automática e obrigatória). E os sábios dizem: dão-nos aos homens do maamad, e eles os dividem entre si, como as coisas sagradas do Templo (os sábios anônimos discordam, propondo um sistema de distribuição mais amplo e formal: os bikurim recebidos eram entregues aos "homens do maamad" — a mesma instituição descrita na Mishná 3:2, os representantes leigos organizados regionalmente que se revezavam semanalmente — que então os dividiam entre si segundo o mesmo procedimento usado para repartir outras oferendas consagradas do Templo, um sistema equitativo e institucionalizado, em contraste com o critério mais pessoal e discricionário de Rabi Yehudá).

לְמָה אָמְרוּ הַבִּכּוּרִים כְּנִכְסֵי כֹהֵן, שֶׁהוּא קוֹנֶה מֵהֶם עֲבָדִים וְקַרְקָעוֹת וּבְהֵמָה טְמֵאָה, וּבַעַל חוֹב נוֹטְלָן בְּחוֹבוֹ, וְהָאִשָּׁה בִכְתֻבָּתָהּ, כְּסֵפֶר תּוֹרָה. וְרַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר, אֵין נוֹתְנִים אוֹתָם אֶלָּא לְחָבֵר בְּטוֹבָה. וַחֲכָמִים אוֹמְרִים, נוֹתְנִין אוֹתָם לְאַנְשֵׁי מִשְׁמָר, וְהֵם מְחַלְּקִין בֵּינֵיהֶם, כְּקָדְשֵׁי הַמִּקְדָּשׁ: