Massechet Bikurim não possui Guemará no Talmud Bavli — apenas a Mishná é impressa/estudada nesta trilha. Esta página apresenta a Mishná adaptada ao formato da trilha Bavli; para o estudo devocional completo, com fontes da Torá, halachot dos códigos e o perush dos mefarshim, veja a versão completa na Mishná.
O andrógino tem, em algumas características, semelhança com os homens; e tem, em outras características, semelhança com as mulheres; e tem, em outras características, semelhança com os homens e com as mulheres; e tem, em outras características, semelhança nem com os homens nem com as mulheres (a mishná de abertura do Perek Dalet anuncia o método que guiará todo o capítulo: o andrógino — pessoa que apresenta simultaneamente características sexuais associadas tanto ao masculino quanto ao feminino — não recebe um único estatuto legal fixo, mas é avaliado halachicamente lei por lei; em algumas áreas do direito, a mishná seguinte mostrará, ele é tratado como homem; em outras, como mulher; em outras ainda, como ambos ao mesmo tempo — sujeito às obrigações e proteções de ambos os sexos; e em outras, por fim, como nenhum dos dois — isento de leis que pressupõem uma identificação sexual inequívoca, seja masculina seja feminina; este esquema de quatro categorias, que as mishnayot 4:2 a 4:5 desenvolverão uma a uma com exemplos concretos, revela o método casuístico da Mishná diante de um caso que não se encaixa nas categorias binárias que estruturam a maior parte da halachá).
De que maneira se assemelha aos homens? Torna-se impuro pelo corrimento branco, como os homens; e obriga ao levirato, como os homens; e se envolve na vestimenta e corta o cabelo, como os homens; e casa mas não é desposado, como os homens; e é obrigado em todos os mandamentos que se dizem na Torá, como os homens (esta mishná desenvolve a primeira das quatro categorias anunciadas em 4:1, listando cinco áreas do direito em que o andrógino recebe, sem ambiguidade, o mesmo tratamento halachico que um homem: primeiro, a impureza ritual — assim como o homem que sofre de zivá (corrimento anormal) torna-se impuro por um corrimento de coloração branca, também o andrógino segue essa mesma regra (diferente da mulher, cuja impureza está ligada ao sangue, como a próxima mishná explicará); segundo, o dever de yibum — se o andrógino falecer sem filhos, sua cunhada (esposa do irmão falecido) fica sujeita à obrigação de casamento levirato ou chalitsá, exatamente como aconteceria com qualquer homem; terceiro, costumes de vestimenta e de corte de cabelo próprios de homens; quarto, a capacidade matrimonial — ele pode desposar uma mulher, mas não pode, ele mesmo, ser desposado por um homem através do ritual de kidushin destinado a mulheres, pois a Torá não reconhece esse tipo de união; e quinto, e mais abrangente, a obrigação plena em todos os preceitos da Torá, incluindo aqueles positivos ligados ao tempo dos quais as mulheres estão isentas — o andrógino, como o homem, não goza dessa isenção).
De que maneira se assemelha às mulheres? Torna-se impuro pelo corrimento vermelho, como as mulheres; e não se recolhe com os homens, como as mulheres; e não transgride "não arredondarás", nem "não destruirás", nem "não te tornarás impuro pelos mortos", como as mulheres; e é desqualificado do testemunho, como as mulheres; e não é violado em transgressão, como as mulheres; e é desqualificado do sacerdócio, como as mulheres (esta mishná desenvolve a segunda categoria de 4:1, espelhando estruturalmente a mishná anterior: primeiro, a impureza pelo corrimento vermelho — o sangue menstrual ou de outros fluxos ligados à mulher — em contraste direto com a impureza branca dos homens mencionada em 4:2; segundo, a restrição de reclusão (yichud) — assim como uma mulher não deve ficar reclusa a sós com um homem que não seja seu marido ou parente próximo, também o andrógino está sujeito a essa mesma restrição; terceiro, três isenções específicas ligadas a mandamentos que a Torá dirige apenas a homens — não arredondar os cantos da cabeça e da barba, não destruir (a barba com navalha), e não se tornar impuro pelo contato com os mortos (proibição dirigida aos sacerdotes) — o andrógino, como a mulher, está isento dessas três proibições, pois seu texto bíblico usa linguagem masculina explícita; quarto, a desqualificação como testemunha em processos judiciais, regra que a Torá reserva a homens; quinto, a isenção de punição por relação sexual forçada — um homem violado sexualmente não é, ele mesmo, punido, mas tampouco fica sujeito às consequências que recairiam sobre uma mulher violada; e sexto, a desqualificação para o sacerdócio, reservado exclusivamente a homens da linhagem de Aharon).
De que maneira se assemelha aos homens e às mulheres? São responsáveis por feri-lo e por amaldiçoá-lo, como os homens e como as mulheres; e quem o mata sem intenção é exilado, e com intenção é morto, como os homens e as mulheres; e sua mãe traz por ele oferenda de sangue impuro e de sangue puro, como os homens e como as mulheres; e ele participa das coisas santíssimas, como os homens e como as mulheres; e herda toda herança, como os homens e como as mulheres; e se disse "eis que sou nazireu de que este é homem e mulher", eis que este é nazireu (esta mishná desenvolve a terceira categoria de 4:1: aqui, o andrógino não recebe apenas o tratamento de um sexo ou de outro, mas a soma cumulativa das proteções e status de ambos; primeiro, a responsabilidade penal por feri-lo ou amaldiçoá-lo aplica-se integralmente, como se aplicaria a qualquer homem ou mulher; segundo, quem o mata está sujeito às mesmas consequências que se aplicariam à morte de um homem ou de uma mulher — exílio numa cidade de refúgio por homicídio não intencional, ou pena capital por homicídio intencional; terceiro, sua mãe, ao dá-lo à luz, deve trazer os mesmos sacrifícios de purificação pós-parto, contando os dias de sangue impuro e de sangue puro segundo o padrão aplicável tanto ao nascimento de um menino quanto ao de uma menina; quarto, ele pode participar das partes das oferendas mais sagradas do Templo, permitidas tanto a homens quanto a mulheres (em contraste com a mishná 4:3, que o isentou apenas das porções reservadas exclusivamente "aos filhos de Aharon"); quinto, ele herda normalmente qualquer tipo de herança, sem prejuízo por sua condição ambígua; e sexto, um caso curioso de linguagem: se alguém formular um voto de nazireado condicionando-o à afirmação "que este [o andrógino] é homem e mulher" — uma afirmação verdadeira, já que ele realmente possui características de ambos — o voto se cumpre e a pessoa torna-se nazireu, pois a condição foi corretamente satisfeita).
De que maneira não se assemelha nem aos homens nem às mulheres? Não são responsáveis por feri-lo e por amaldiçoá-lo, nem como os homens nem como as mulheres; e não é avaliado, nem como os homens nem como as mulheres; e se disse "eis que sou nazireu de que este não é homem nem mulher", não é nazireu. Rabi Yose diz: o andrógino é uma criatura à parte, e os sábios não puderam decidir a seu respeito se é homem ou se é mulher. Mas o tumtum não é assim — às vezes é homem, às vezes é mulher (a mishná final desenvolve a quarta e última categoria: casos em que o andrógino escapa por completo das regras aplicáveis tanto a homens quanto a mulheres, precisamente porque essas regras exigem, em sua formulação bíblica, uma identificação sexual inequívoca em uma direção ou outra — a responsabilidade penal por feri-lo ou amaldiçoá-lo (contraste direto com a mishná 4:4, em que essa mesma responsabilidade era afirmada quando aplicada de forma cumulativa) e a avaliação monetária de arachin (Vayicrá 27), que a Torá vincula a categorias explícitas de "macho" ou "fêmea" e da qual, portanto, o andrógino fica inteiramente fora — não porque seja isento por leniência, mas porque a própria estrutura da lei não tem categoria para ele; o caso do voto de nazireado espelha, por oposição, o de 4:4: se a condição do voto for "que este não é nem homem nem mulher" — uma afirmação falsa, pois o andrógino tem características de ambos — o voto não se cumpre, e a pessoa não se torna nazireu; a mishná encerra com a opinião de Rabi Yose, que resume filosoficamente todo o capítulo: o andrógino não é um caso de dúvida a ser resolvido caso a caso, mas uma "criatura à parte" (בְּרִיָּה בִּפְנֵי עַצְמָהּ), uma terceira categoria com identidade jurídica própria diante da qual os próprios sábios reconheceram sua incapacidade de decidir definitivamente entre macho e fêmea — e a mishná fecha o tratado inteiro com uma distinção final e esclarecedora: diferentemente do tumtum, cujos órgãos estão apenas fisicamente ocultos por uma membrana de carne e cuja identidade sexual real é uma questão de fato que poderia, em princípio, ser resolvida por exame ou cirurgia — "às vezes é homem, às vezes é mulher", isto é, cada tumtum individual É definitivamente um ou outro, apenas desconhecido —, o andrógino apresenta ambos os conjuntos de características simultaneamente e de modo permanente, uma dúvida de identidade, não de fato).