O capítulo final do Maamar I enumera as oito raízes que se ramificam dos três princípios: quatro da existência de D'us, três da Torá vinda do Céu, uma da recompensa e do castigo. Albo apresenta o cômputo total e justifica, item a item, por que cada coisa é princípio, raiz ou nenhum dos dois.
1 As raízes que pendem dos três princípios que mencionamos e que deles se ramificam são oito. Pois do primeiro princípio, que é a existência de D'us, ramificam-se dele quatro raízes que abrangem todas as coisas que pendem da existência de D'us, que é o existente necessário; e são: a unidade achdut, do modo que escrevemos; e que Ele não é corpo nem força num corpo; e que não tem dependência do tempo; e que ele, bendito seja, é removido das deficiências mesulak min hachesronot.
2 E cada uma destas quatro raízes é claro do seu assunto que é necessária ao princípio da existência de D'us. Pois, se ele, bendito seja, não for um sem nenhuma composição, não será existente necessário; e assim se for corpo ou força num corpo; e assim se tiver dependência do tempo — a saber que esteja como existente num tempo e não em outro tempo, de modo que o tempo seja anterior a ele ou posterior a ele, como virá —, não será, então, eterno nem perpétuo; e por isso contamos esta raiz, a de que não tem dependência do tempo, e não contamos a eternidade kadmut, como contou o Rambam, de abençoada memória, a fim de que se inclua nesta raiz a eternidade e a perpetuidade; pois, conforme as suas palavras, já que contou a eternidade como raiz por si mesma, lhe caberia contar a perpetuidade nitzchiut também como raiz por si mesma.
3 E assim contamos uma raiz, a de que ele, bendito seja, é removido das deficiências, para explicar que ao existente necessário não recaem o sono, e o esquecimento, e o cansaço, e semelhantes; e para incluir nisto que todos os atributos que é forçoso achar nele, bendito seja — como o poder e a vontade e os demais atributos, tais que, se não se achassem nele, Ele seria deficiente —, eis que se lhe atribuem, bendito seja, só do lado em que não decorra disto deficiência no seu respeito. Porém, de que lado é possível que se lhe atribuam estes atributos e outros, eis que isto é do que explicaremos no Maamar II, com a ajuda da Rocha.
הַשָּׁרָשִׁים הַנִּתְלִים בִּשְׁלֹשֶׁת הָעִקָּרִים הֵם שְׁמוֹנָה. כִּי מִן הָעִקָּר הָרִאשׁוֹן יִסְתָּעֲפוּ אַרְבָּעָה שָׁרָשִׁים: הָאַחְדוּת, וְשֶׁאֵינוֹ גּוּף וְלֹא כֹחַ בְּגוּף, וְשֶׁאֵין לוֹ הִתְלוּת בַּזְּמָן, וְשֶׁהוּא מְסֻלָּק מִן הַחֶסְרוֹנוֹת. וְלֹא מָנִינוּ הַקַּדְמוּת כְּמוֹ שֶׁמָּנָה הָרַמְבַּ״ם, כְּדֵי שֶׁיִּהְיֶה נִכְלָל בְּשֹׁרֶשׁ ״אֵין לוֹ הִתְלוּת בַּזְּמָן״ הַקַּדְמוּת וְהַנִּצְחִיּוּת.
4 E as raízes que pendem do segundo princípio, que é a Torá vinda do Céu, e que dele se ramificam, são três: que são o conhecimento do Nome yediat haShem, e a profecia nevuá, e a missão do enviado shlichut hashaliach. E também estas três é claro do seu assunto serem necessárias ao princípio da Torá vinda do Céu. E isto é assim porque, se o Nome não conhece os existentes inferiores, não haverá ali profecia da parte dele nem Torá vinda do Céu; e, ainda que conheça os existentes inferiores, não é forçoso que chegue uma Torá vinda do Céu, se não há ali profecia e saber que chega de D'us ao homem; e, ainda que haja ali profecia para dar a conhecer o futuro, ou para ordenar ao homem ordens particulares que ele faça, e os seus filhos e os de sua casa depois dele — como ordenou a Abraão o mandamento da circuncisão —, não serão os homens obrigados a obedecer-lhe se não se confirmar ser ele enviado de D'us a fim de ordenar aos homens ordens divinas. E por isso a confirmação da missão do enviado foi um princípio universal a todas as religiões divinas. Pois, quando se confirma a missão do enviado — quer o enviado seja muito maior no seu grau, quer não esteja naquele grau —, será possível que se dê por sua mão uma ordenação divina, universal e suficiente, a fim de fazer os homens chegarem à felicidade eterna; e é este o assunto da Torá vinda do Céu.
וְהַשָּׁרָשִׁים הַנִּתְלִים בָּעִקָּר הַשֵּׁנִי, תּוֹרָה מִן הַשָּׁמַיִם, הֵם שְׁלֹשָׁה: יְדִיעַת הַשֵּׁם, וְהַנְּבוּאָה, וּשְׁלִיחוּת הַשָּׁלִיחַ. כִּי אִם אֵין הַשֵּׁם יוֹדֵעַ, לֹא תִהְיֶה נְבוּאָה; וְאַף אִם תִּהְיֶה נְבוּאָה, לֹא יִתְחַיְּבוּ הָאֲנָשִׁים לְהִשָּׁמַע אִם לֹא יִתְאַמֵּת הֱיוֹתוֹ שְׁלִיחַ הָאֵל.
5 E por isso não contamos a profecia de Moisés no conjunto dos princípios nem nas raízes, como fez o Rambam, de abençoada memória; pois não cabe contar como princípio senão aquilo tal que não se imagine uma Torá divina sem ele, nem como raiz senão o que é necessário ao princípio por força; e isto a profecia de Moisés não é necessário à missão do enviado por força, mas é um ramo que decorre dele; e, se se contasse, eis que é um princípio particular à Torá de Moisés. Mas, porque a confirmação da missão do enviado é particular a cada religião, e é um princípio particular a ela, e conforme a força da confirmação da missão do enviado será a força da crença naquela religião, não nos pareceu contar a profecia de Moisés como princípio particular à Torá de Moisés; pois, depois de confirmada a sua missão, não se precisa confirmar o grau da sua profecia. Porém, como será a confirmação da missão do enviado, a fim de que não recaia nele dúvida alguma, isto é do que se explicará no que vier, com a ajuda do Nome. E quanto a por que contamos a Torá vinda do Céu como princípio e a profecia como raiz que dela decorre, isto se explicará no Maamar III, com a ajuda do Nome.
וְלָזֶה לֹא מָנִינוּ נְבוּאַת מֹשֶׁה בִּכְלַל הָעִקָּרִים, כִּי אֵין רָאוּי לִמְנוֹת עִקָּר אֶלָּא מַה שֶּׁלֹּא יְדֻמֶּה תּוֹרָה אֱלֹהִית זוּלָתוֹ, וְלֹא שֹׁרֶשׁ אֶלָּא הַמִּתְחַיֵּב לְעִקָּר בְּהֶכְרֵחַ. אֲבָל לְפִי שֶׁהִתְאַמְּתוּת שְׁלִיחוּת הַשָּׁלִיחַ עִקָּר פְּרָטִי, אַחַר הִתְאַמֵּת שְׁלִיחוּתוֹ אֵין צָרִיךְ לְאַמֵּת מַדְרֵגַת נְבוּאָתוֹ.
6 E o terceiro princípio, que é a recompensa e o castigo — eis que a raiz que o precede e que lhe é necessária por força é a providência hashgachá. E isto é assim porque, ainda que já nos tenha precedido a raiz do conhecimento, e a de que D'us conhece a obra dos filhos do homem e ordena os seus assuntos na Torá vinda do Céu de modo que se mantenha a sua reunião e se conserte a sua vida, já seria possível dizer que, por ser o homem baixo e desprezível aos olhos do Nome, o indivíduo estaria abandonado e deixado e não retribuído pelas suas obras particulares que são entre ele e o seu Criador, exceto do lado de ser parte do conjunto — não no exame do indivíduo do lado de si mesmo. E por isso pusemos a providência como raiz anterior à recompensa e ao castigo, para despertar a noção de que a providência divina é sobre cada indivíduo, a fim de dar-lhe castigo e recompensa, até pelas coisas que são entre ele e o Nome — assim como não atentou a Caim e à sua oferta —, e com muito mais razão pelas coisas que são entre um homem e o seu companheiro, conforme as palavras do profeta "grande em conselho e poderoso em obra, cujos olhos estão abertos sobre todos os caminhos dos filhos do homem, a fim de dar a cada um conforme os seus caminhos e conforme o fruto das suas obras" (Jeremias 32:19).
וְהָעִקָּר הַשְּׁלִישִׁי, הַשָּׂכָר וְהָעֹנֶשׁ, הַשֹּׁרֶשׁ הַמִּתְחַיֵּב אֵלָיו הוּא הַהַשְׁגָּחָה. וְלָזֶה שַׂמְנוּ הַהַשְׁגָּחָה שֹׁרֶשׁ קוֹדֵם, לְהָעִיר שֶׁהַהַשְׁגָּחָה הִיא עַל כָּל פְּרָט וּפְרָט, ״אֲשֶׁר עֵינֶיךָ פְקֻחוֹת עַל כָּל דַּרְכֵי בְּנֵי אָדָם לָתֵת לְאִישׁ כִּדְרָכָיו״.
7 E a recompensa e o castigo são de dois gêneros: ou corporal, ou da alma; e o princípio da recompensa e do castigo inclui ambos como um só. Mas não nos pareceu contar o corporal como raiz por si mesmo e o da alma como raiz por si mesmo; pois o corporal não cabe contá-lo como raiz por si mesmo, conforme a minha opinião, já que eis que há dentre os nossos mestres, de abençoada memória, os que disseram "recompensa de mandamento, neste mundo, não há" sechar mitzvá behai alma leka. E por isso pusemos a recompensa e o castigo como um único princípio, em geral, a fim de incluir os dois gêneros da recompensa: seja o da alma, para os que pensam que o fundamento da recompensa é para a alma e não para o corpo; e, para os que dizem que há recompensa da alma e corporal, incluirá ambos como um só.
וְהַשָּׂכָר וְהָעֹנֶשׁ שְׁנֵי מִינִים, אִם גּוּפִיִּי וְאִם נַפְשִׁיִּי, וְעִקַּר הַשָּׂכָר יִכְלֹל שְׁנֵיהֶם כְּאֶחָד. כִּי הַגּוּפִיִּי אֵין רָאוּי לִמְנוֹתוֹ שֹׁרֶשׁ בִּפְנֵי עַצְמוֹ, שֶׁהֲרֵי יֵשׁ מֵרַבּוֹתֵינוּ שֶׁאָמְרוּ ״שְׂכַר מִצְוָה בְּהַאי עָלְמָא לֵיכָּא״.
8 E será o número dos princípios e das raízes da religião divina, em geral, conforme este caminho, onze. A existência de D'us e as quatro raízes que dela decorrem — que são a unidade, e que não é corpo nem força num corpo, e que não tem dependência do tempo, e que é removido das deficiências. E assim a Torá vinda do Céu e as três raízes que dela pendem — que são o conhecimento do Nome, e a profecia, e a missão do enviado. E a recompensa e o castigo e a raiz que dele pende, que é a providência. E, se contarmos o conhecimento e a providência como um único princípio — como os incluiu o Rambam, de abençoada memória, num único princípio —, será o número dos princípios e das raízes dez, e não mais.
וְיִהְיֶה מִנְיַן הָעִקָּרִים וְהַשָּׁרָשִׁים לַדָּת הָאֱלֹהִית לְפִי דֶרֶךְ זֶה י״א. וְאִם נִמְנֶה הַיְדִיעָה וְהַהַשְׁגָּחָה עִקָּר אֶחָד, יִהְיֶה מִנְיַן הָעִקָּרִים וְהַשָּׁרָשִׁים עֲשָׂרָה וְלֹא יוֹתֵר.
9 E está claro que não cabe chamá-los a todos "princípios", porque a sua necessidade à Torá divina não é igual. Pois quem crê na dualidade, ou que Ele é corpo ou força num corpo, ou que Ele tem dependência do tempo — não cai a Torá divina em geral por isto, exceto do lado de essas crenças penderem do princípio da existência de D'us, e de o que nega uma delas ser como quem nega o princípio, visto que não crê no princípio como cabe. E por isso não os contamos a todos como princípios em igualdade, como os pôs o Rambam, de abençoada memória.
וְהוּא מְבֹאָר שֶׁאֵין רָאוּי לִקְרֹאתָם כֻּלָּם עִקָּרִים, לְפִי שֶׁאֵין הֶכְרֵחִיּוּתָם לַתּוֹרָה הָאֱלֹהִית בְּשָׁוֶה. וְהַכּוֹפֵר בְּאֶחָד מֵהֶם כְּכוֹפֵר בָּעִקָּר, אַחַר שֶׁאֵינוֹ מַאֲמִין הָעִקָּר כְּמוֹ שֶׁרָאוּי.
10 E não contamos a profecia de Moisés nem que a Torá não se reformule como princípios nem como raízes, porque estes não são princípios nem raízes necessários à religião divina por força, mas são ramos e crenças que decorrem da missão do enviado; e, se fossem princípios ou raízes, eis que seriam princípios próprios à Torá de Moisés e não à religião divina em geral — assim como a vinda do Messias e a ressurreição dos mortos são princípios próprios à religião dos cristãos, tal que não se concebe a sua existência sem eles; mas quanto à profecia de Moisés e a que a Torá não se reformule, já se concebe a existência da Torá de Moisés sem eles, e por isso é mais cabido que digamos que são ramos e crenças que decorrem da missão do enviado, não princípios por si mesmos — assim como a ressurreição dos mortos e a vinda do Messias são ramos que se ramificam da recompensa e do castigo, não princípios nem raízes por si mesmos, nem universais à Torá divina nem próprios à Torá de Moisés. Também não contamos "que cabe servi-lo e não a outro", porque é um mandamento próprio, e não cabe contá-lo entre os princípios nem entre as raízes, pela razão que escrevemos no capítulo anterior a este. E contamos o conhecimento e a providência como duas raízes distintas, porque são assuntos diferentes, como escreveu o Rambam, de abençoada memória, no Guia, e como concordaram todos os posteriores, de abençoada memória — ainda que o Rambam os tenha incluído num único princípio.
11 E não contamos o livre-arbítrio e a finalidade universal no conjunto dos princípios nem nas raízes, ainda que sejam necessários a uma Torá divina tal que não se conceba a sua existência sem eles; pois, visto que não são necessários a ela enquanto é divina, como precedeu, não cabe contá-los como raízes dela. Mas a finalidade própria à Torá divina, que é a recompensa e o castigo da alma, já se contou no conjunto dos princípios, por ser necessária a uma Torá divina por força. Porém o livre-arbítrio, visto que não é necessário a ela enquanto é divina, não foi contado no conjunto dos princípios nem nas raízes; e, de todo modo, visto que é necessário a uma Torá divina e a precede por força, explicaremos o seu assunto no Maamar IV, com a ajuda do Nome. E é isto o que quisemos explicar no número dos princípios e das raízes. E bendito seja o que ajuda e o que decreta. Amém e amém.
וְלֹא מָנִינוּ נְבוּאַת מֹשֶׁה וְלֹא ״שֶׁלֹּא תְנֻסַּח הַתּוֹרָה״ עִקָּרִים, אֲבָל הֵם עֲנָפִים נִמְשָׁכִים לִשְׁלִיחוּת הַשָּׁלִיחַ, כְּמוֹ שֶׁתְּחִיַּת הַמֵּתִים וּבִיאַת הַמָּשִׁיחַ עֲנָפִים מִן הַשָּׂכָר וְהָעֹנֶשׁ. וְלֹא מָנִינוּ הַבְּחִירָה וְהַתַּכְלִית, אַחַר שֶׁאֵינָם הֶכְרֵחִיִּים לָהּ בְּמַה שֶּׁהִיא אֱלֹהִית. וְזֶהוּ מַה שֶּׁרָצִינוּ לְבָאֲרוֹ, וּבָרוּךְ הָעוֹזֵר וְהַגּוֹזֵר, אָמֵן וְאָמֵן.
Total: 3 princípios + 8 raízes = 11 fundamentos. Ramos (anafim) que dependem deles: profecia de Moisés, imutabilidade da Torá, Messias, ressurreição. O livre-arbítrio e a finalidade precedem a religião divina, mas não são fundamentos dela enquanto divina.
Este capítulo conclui o Maamar I dando a forma final ao edifício conceitual de Albo: três princípios-raiz (ikkarim), oito raízes derivadas (shorashim) e os ramos (anafim) que pendem mais abaixo. O número total — onze, ou dez se conhecimento e providência forem fundidos — contrasta deliberadamente com os treze de Maimônides, não por rivalidade, mas por rigor: cada item ocupa exatamente o nível que sua necessidade lógica determina.
Albo aprimora a lista do Rambam em vários pontos. Onde Maimônides contava "eternidade" como princípio isolado, Albo prefere "independência do tempo" — que engloba de uma vez a eternidade (sem começo) e a perpetuidade (sem fim). A "ausência de deficiências" é uma raiz sintética que recolhe todos os atributos positivos (poder, vontade) e negativos (sem sono, sem esquecimento) num só princípio. E a profecia de Moisés é rebaixada de princípio a ramo: uma vez confirmada a missão do profeta, não é preciso um artigo de fé separado sobre o grau da sua profecia.
A distinção mais fecunda do sistema reaparece no fecho: estes onze são os fundamentos da religião divina enquanto tal — comuns a toda revelação. O que é específico da Torá de Moisés (sua imutabilidade) ou do cristianismo (o Messias como raiz) são ramos particulares, não fundamentos universais. Assim Albo constrói uma gramática da fé que vale para além de uma única tradição, sem por isso relativizar a verdade da Torá.
Com o "amém e amém" que encerra o capítulo, fecha-se o Maamar I — o discurso sobre "os princípios em geral: quantos são e quais são". Albo deixa anunciado o plano dos três discursos seguintes: o Maamar II investigará a fundo o primeiro princípio (a existência de D'us e suas raízes); o Maamar III, o segundo (a Torá vinda do Céu, a profecia, a missão); e o Maamar IV, o terceiro (a recompensa e o castigo, a providência, e também o livre-arbítrio, que precede a religião sem ser seu fundamento). Está lançado o alicerce de toda a obra.