Pirkei deRabbi Eliezer · Capítulo 35

A escada de Yaakov: o sonho em Beit El e a Pedra Fundamental

פֶּרֶק ל״ה
Hebraico (domínio público) · tradução do hebraico cotejada com o inglês · PT-BR

Fugindo de Esav, Yaakov detém-se no “Lugar” e sonha com uma escada que une a terra e o céu, anjos que sobem e descem, e os impérios que se erguem e caem. Desperta tomado de temor — “esta é a porta do céu” —, unge a pedra que se torna a Pedra Fundamental do Templo, e o capítulo encerra com a bênção do “D’us santo”.

1
“Melhor o fim de uma coisa do que o seu princípio” (Kohelet 7:8). As primeiras bênçãos, que Yitzchak abençoou a Yaakov, foram sobre os orvalhos dos céus e sobre o trigo da terra, como está dito: “D’us te dê do orvalho dos céus” (Bereshit 27:28). Mas as bênçãos últimas ao enviá-lo foram bênçãos de fundamento do mundo, sem interrupção, nem neste mundo nem no mundo vindouro, como está dito: “e o D’us Todo-Poderoso (El Shadai) te abençoe” (Bereshit 28:3); e ainda lhe acrescentou a bênção de Avraham, como está dito: “e te dê a bênção de Avraham, a ti e à tua descendência contigo” (Bereshit 28:4). Eis: “melhor o fim de uma coisa do que o seu princípio”. “Melhor o paciente (érech apayim) do que o de espírito altivo” (Kohelet 7:8): isto se aplica a Yaakov, nosso pai, que a cada dia alongava o seu espírito com paciência e proferia palavras de louvor. “Do que o de espírito altivo”: este é Esav, o ímpio, que a cada dia comia da sua caça e, pela sua arrogância, nada do seu alimento dava a Yaakov. Certa vez, saiu a caçar e nada conseguiu, e viu Yaakov comendo um prato de lentilhas, e o cobiçou no seu coração, e disse-lhe: “deixa-me, peço-te, engolir desse guisado vermelho, vermelho” (Bereshit 25:30). Disse-lhe Yaakov: vermelho saíste do ventre de tua mãe, e alimento vermelho cobiçaste comer; por isso se chamou o seu nome Edom.
״טוֹב אַחֲרִית דָּבָר מֵרֵאשִׁיתוֹ״ (קהלת ז, ח), הַבְּרָכוֹת הָרִאשׁוֹנוֹת שֶׁבֵּרַךְ יִצְחָק לְיַעֲקֹב עַל טַלְלֵי שָׁמַיִם וְעַל דְּגַן הָאָרֶץ, שֶׁנֶּאֱמַר ״וְיִתֶּן לְךָ הָאֱלֹהִים מִטַּל הַשָּׁמַיִם״. הַבְּרָכוֹת הָאַחֲרוֹנוֹת בִּרְכוֹת יְסוֹד עוֹלָם וְאֵין בָּהֶם הֶפְסֵק לֹא בָּעוֹלָם הַזֶּה וְלֹא בָּעוֹלָם הַבָּא, שֶׁנֶּאֱמַר ״וְאֵל שַׁדַּי יְבָרֵךְ אֹתְךָ״, וְעוֹד הוֹסִיף לוֹ אֶת בִּרְכַּת אַבְרָהָם שֶׁנֶּאֱמַר ״וְיִתֶּן לְךָ אֶת בִּרְכַּת אַבְרָהָם לְךָ וּלְזַרְעֲךָ אִתָּךְ״ הֱוֵי אוֹמֵר טוֹב אַחֲרִית דָּבָר מֵרֵאשִׁיתוֹ. ״טוֹב אֶרֶךְ אַפַּיִם מִגְּבַהּ רוּחַ״, דָּבָר זֶה אָמַר יַעֲקֹב אָבִינוּ שֶׁבְּכָל יוֹם וָיוֹם הוּא מַאֲרִיךְ אֶת רוּחוֹ וְאוֹמֵר כָּל דִּבְרֵי נְגִינוֹת. ״מִגְּבַהּ רוּחַ״ זֶה עֵשָׂו הָרָשָׁע שֶׁבְּכָל יוֹם וָיוֹם הָיָה אוֹכֵל מִצֵּידוֹ וּמִגַּסּוּת רוּחוֹ לֹא הָיָה נוֹתֵן מִמַּאֲכָלוֹ לְיַעֲקֹב מְאוּמָה. פַּעַם אַחַת יָצָא לָצוּד צַיִד וְלֹא עָלְתָה בְיָדוֹ וְרָאָה יַעֲקֹב אוֹכֵל מַאֲכַל עֲדָשִׁים וְחָמַד אוֹתָם בְּלִבּוֹ וְאָמַר לוֹ ״הַלְעִיטֵנִי נָא מִן הָאָדֹם הָאָדֹם הַזֶּה״. אָמַר לוֹ יַעֲקֹב: אָדֹם יָצָאתָ מִמְּעֵי אִמֶּךָ וּמַאֲכָל אָדֹם חָמַדְתָּ לֶאֱכֹל, עַל כֵּן קָרָא שְׁמוֹ אֱדוֹם.
2
Rabi Eliezer diz: as lentilhas são alimento de aflição e de luto. Conhece isto: quando Hevel foi morto, os seus pais comeram, no luto por ele, alimento de lentilhas, em luto e aflição; e quando Harán foi queimado em Ur dos Caldeus, os seus pais comeram, no luto por ele, alimento de lentilhas; e Yaakov comia alimento de lentilhas em luto e aflição — pois naquele dia morreu Avraham, nosso pai, seu avô. E também Israel come alimento de lentilhas em luto e aflição pelo luto do Templo e pelo exílio de Israel. Daqui aprendes que os filhos de Esav não cairão até que venha um remanescente de Yaakov e tome deles a soberania do reino e a primogenitura que Yaakov dele adquiriu por juramento, como está dito: “e disse Yaakov: jura-me hoje; e ele lhe jurou” (Bereshit 25:33).
רַבִּי אֱלִיעֶזֶר אוֹמֵר: הָעֲדָשִׁים מַאֲכַל צָרָה הֵם וְאֵבֶל. תֵּדַע לְךָ, כְּשֶׁנֶּהֱרַג הֶבֶל הָיוּ אֲבוֹתָיו אוֹכְלִין עַל אֶבְלוֹ מַאֲכַל עֲדָשִׁים בְּאֵבֶל וּבְצָרָה. וּכְשֶׁנִּשְׂרַף הָרָן בְּאוּר הַכַּשְׂדִּים, הָיוּ הוֹרָיו אוֹכְלִין עַל אֶבְלוֹ מַאֲכַל עֲדָשִׁים בְּאֵבֶל וּבְצָרָה. וְיַעֲקֹב הָיָה אוֹכֵל מַאֲכַל עֲדָשִׁים בְּאֵבֶל וְצָרָה עַל שֶׁהָיְתָה מַלְכוּת וְשְׂרָרָה וּבְכוֹרָה שֶׁל עֵשָׂו, וּבְאוֹתוֹ הַיּוֹם מֵת אַבְרָהָם אָבִינוּ זְקֵנוֹ. וְיִשְׂרָאֵל אוֹכְלִין מַאֲכַל עֲדָשִׁים בְּאֵבֶל וְצָרָה עַל אֵבֶל בֵּית הַמִּקְדָּשׁ וְעַל גָּלוּת יִשְׂרָאֵל. מִכָּאן אַתָּה לָמֵד שֶׁאֵין בְּנֵי עֵשָׂו נוֹפְלִין עַד שֶׁיָּבֹא שָׂרִיד מִיַּעֲקֹב וְיִתֵּן לִבְנֵי עֵשָׂו מַאֲכַל עֲדָשִׁים בְּאֵבֶל וּבְצָרָה, וְיִקַּח מֵהֶם שְׂרָרַת מַלְכוּת וּבְכוֹרָה שֶׁקָּנָה יַעֲקֹב מִמֶּנּוּ בִּשְׁבוּעָה, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיֹּאמֶר יַעֲקֹב הִשָּׁבְעָה לִּי כַּיּוֹם וַיִּשָּׁבַע לוֹ״.
Nota — as lentilhas, o luto e Edom. As lentilhas, redondas e “sem boca”, são na tradição o alimento do enlutado (que, como elas, fica sem palavras) e a imagem da roda que gira — hoje em cima, amanhã embaixo. O capítulo contrasta o paciente (Yaakov, que “alonga o espírito”) e o arrogante (Esav). Na linguagem dos sábios, “Esav/Edom” veio a designar o poder imperial hostil (Roma e seus herdeiros), e não um povo vivo de hoje: o contraste é moral — entre a via da humildade e da Torá e a via da soberba e da força.
3
Rabi Akiva diz: em todo lugar aonde iam os nossos pais, o poço caminhava diante deles. E cavavam, e o faziam aflorar diante deles. E Yitzchak cavou na terra e o achou diante de si, como está dito: “e Yitzchak tornou a cavar os poços de água” (Bereshit 26:18); cavaram os servos de Yitzchak no vale e o acharam diante de si, como está dito: “e cavaram os servos de Yitzchak no vale” (Bereshit 26:19). E está escrito sobre Jerusalém: “e sucederá, naquele dia, que sairão águas vivas de Jerusalém” (Zechariá 14:8): é o poço que há de subir em Jerusalém e regar todos os seus arredores. E, por o terem encontrado associado ao número sete, chamaram-no “Shivá” (sete), como está dito: “e chamou-o Shivá” (Bereshit 26:33); e, pelo nome do poço, chamou-se a cidade Be’er Sheva até hoje.
רַבִּי עֲקִיבָא אוֹמֵר: כָּל מָקוֹם שֶׁהָיוּ אֲבוֹתֵינוּ הוֹלְכִים, הָיְתָה הַבְּאֵר מְהַלֶּכֶת לִפְנֵיהֶם. וְחוֹפְרִין שָׁלֹשׁ פְּעָמִים וּמוֹצִיאִין אוֹתָהּ לִפְנֵיהֶם. וְחָפַר יִצְחָק בָּאָרֶץ שָׁלֹשׁ פְּעָמִים וּמָצָא אוֹתָהּ לְפָנָיו, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיָּשָׁב יִצְחָק וַיַּחְפֹּר אֶת בְּאֵרֹת הַמַּיִם״. חָפַר בָּאָרֶץ שְׁנֵי פְעָמִים וּמָצָא אוֹתָהּ לְפָנָיו, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיַּחְפְּרוּ עַבְדֵי יִצְחָק בַּנָּחַל״. וְכָתוּב בִּירוּשָׁלַיִם: ״וְהָיָה בַּיּוֹם הַהוּא יֵצְאוּ מַיִם חַיִּים מִירוּשָׁלַיִם״. הִיא הַבְּאֵר שֶׁעֲתִידָה לַעֲלוֹת בִּירוּשָׁלַיִם וּלְהַשְׁקוֹת אֶת כָּל סְבִיבוֹתֶיהָ. וְעַל שֶׁמָּצְאוּ אוֹתָהּ שֶׁבַע פְּעָמִים, קָרְאוּ אוֹתָהּ שִׁבְעָה, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיִּקְרָא אֹתָהּ שִׁבְעָה״. וְעַל שֵׁם הַבְּאֵר נִקְרֵאת הָעִיר בְּאֵר שֶׁבַע עַד הַיּוֹם הַזֶּה.
4
Tinha setenta e sete anos Yaakov ao sair da casa de seu pai, e o poço caminhava diante dele, de Be’er Sheva até o monte Moriá, caminho de dois dias. E chegou lá ao meio-dia, e o Santo, bendito seja, o encontrou, como está dito: “e encontrou o Lugar (haMakom) e ali pernoitou, porque o sol se pusera” (Bereshit 28:11). E por que D’us é chamado “Makom” (Lugar)? Porque, em todo lugar em que estão os justos, Ele se encontra com eles, como está dito: “em todo lugar em que Eu fizer recordar o Meu Nome virei a ti e te abençoarei” (Shemot 20:21). Disse-lhe o Santo, bendito seja: “Yaakov, o pão está no teu alforje e o poço diante de ti, para comeres e beberes neste lugar”. Disse perante Ele: “Senhor do mundo, ainda não é a hora, e eu haveria de deitar-me já neste lugar?”. E eis que fora do seu tempo veio o sol no poente; e olhou Yaakov e viu o sol pôr-se, e ali pernoitou, como está dito: “e ali pernoitou, porque o sol se pusera”.
בֶּן שִׁבְעִים וָשֶׁבַע שָׁנָה הָיָה יַעֲקֹב בְּצֵאתוֹ מִבֵּית אָבִיו, וְהָיְתָה הַבְּאֵר מְהַלֶּכֶת לְפָנָיו מִבְּאֵר שֶׁבַע עַד הַר הַמּוֹרִיָּה מַהֲלַךְ שְׁנֵי יָמִים. וְהִגִּיעַ בַּחֲצִי הַיּוֹם לְשָׁם, וּפָגַע בּוֹ הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיִּפְגַּע בַּמָּקוֹם וַיָּלֶן שָׁם כִּי בָא הַשֶּׁמֶשׁ״. וְלָמָּה נִקְרָא שְׁמוֹ מָקוֹם? אֶלָּא בְּכָל מָקוֹם שֶׁהַצַּדִּיקִים שָׁם, הוּא נִמְצָא עִמָּהֶם, שֶׁנֶּאֱמַר: ״בְּכָל הַמָּקוֹם אֲשֶׁר אַזְכִּיר אֶת שְׁמִי״. אָמַר לוֹ הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא: ״יַעֲקֹב, הַלֶּחֶם בְּצִקְלוֹנְךָ וְהַבְּאֵר לְפָנֶיךָ, לֶאֱכֹל וְלִשְׁתּוֹת בַּמָּקוֹם הַזֶּה״. אָמַר לְפָנָיו: ״רִבּוֹנוֹ שֶׁל עוֹלָם, עַד עַכְשָׁו לֹא יָרַד הַשֶּׁמֶשׁ חֲמִשִּׁים יְרִידוֹת, וַאֲנִי שׁוֹכֵב בַּמָּקוֹם, וּבְלֹא עִתּוֹ בָּא הַשֶּׁמֶשׁ בַּמַּעֲרָב״. וְהִבִּיט יַעֲקֹב וְרָאָה אֶת הַשֶּׁמֶשׁ בָּא בַּמַּעֲרָב, וַיָּלֶן שָׁם, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיָּלֶן שָׁם כִּי בָא הַשֶּׁמֶשׁ״.
Nota — por que D’us é “o Lugar” (haMakom). Um dos nomes de D’us na tradição é haMakom, “o Lugar”. Por quê? Porque “Ele é o Lugar do mundo, e o mundo não é o Seu lugar” (Bereshit Rabá 68): D’us não está contido no espaço — é o espaço que existe Nele. Para a leitura racionalista, isto exprime a Sua incorporeidade e a Sua presença em toda parte: “em todo lugar em que estão os justos, Ele se encontra com eles” (cf. o ensaio sobre por que D’us não tem forma). D’us não está num ponto do mapa; está onde o coração O busca.
5
Tomou Yaakov doze pedras das pedras do altar sobre o qual fora ligado Yitzchak, seu pai, e as pôs à sua cabeceira naquele lugar, para lhe dar a conhecer que dele haveriam de surgir doze tribos. E todas se tornaram uma só pedra, para lhe dar a conhecer que todas haveriam de ser uma só nação na terra, como está dito: “e quem é como o teu povo Israel, uma só nação na terra?” (Divrei haYamim I 17:21).
לָקַח יַעֲקֹב שְׁתֵּים עֶשְׂרֵה אֲבָנִים מֵאַבְנֵי הַמִּזְבֵּחַ שֶׁנֶּעֱקַד עָלָיו יִצְחָק אָבִיו, וַיָּשֶׂם אוֹתָם מְרַאֲשֹׁתָיו בְּאוֹתוֹ הַמָּקוֹם לְהוֹדִיעוֹ שֶׁעֲתִידִין לַעֲמֹד מִמֶּנּוּ שְׁנֵים עָשָׂר שְׁבָטִים. וְנַעֲשׂוּ כֻלָּן אֶבֶן אַחַת לְהוֹדִיעוֹ שֶׁכֻּלָּם עֲתִידִין לִהְיוֹת גּוֹי אֶחָד בָּאָרֶץ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וּמִי כְּעַמְּךָ יִשְׂרָאֵל גּוֹי אֶחָד בָּאָרֶץ״.
6
Rabi Levi diz: naquela noite o Santo, bendito seja, mostrou-lhe todos os sinais. Mostrou-lhe uma escada (sulam) de pé, da terra até os céus, como está dito: “e sonhou, e eis uma escada” (Bereshit 28:12); e os anjos do serviço subiam e desciam por ela, e viam o rosto de Yaakov e diziam: “este é o rosto semelhante ao da figura que está no Trono da Glória”. Estes subiam e aqueles desciam, como está dito: “e eis os anjos de D’us subindo e descendo por ela” (ibid.). E mostrou-lhe o Santo, bendito seja, os quatro reinos, o seu domínio e a sua queda: mostrou-lhe o anjo príncipe do reino de Bavel subindo setenta degraus e descendo; e o anjo do reino da Média subindo cinquenta e dois degraus e descendo; e o anjo do reino da Grécia subindo cento e oitenta degraus e descendo; e o anjo do reino de Edom subindo, sem descer, e dizendo: “subirei acima das alturas das nuvens, serei semelhante ao Altíssimo” (Yeshayá 14:14). Disse-lhe Yaakov: “mas serás derrubado ao Sheol, aos confins da cova” (Yeshayá 14:15). Disse-lhe o Santo, bendito seja: “ainda que te eleves como a águia ... dali te farei descer” (Ovadiá 1:4).
רַבִּי לֵוִי אוֹמֵר: בְּאוֹתָהּ הַלַּיְלָה הֶרְאָה לוֹ הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא אֶת כָּל הָאוֹתוֹת. הֶרְאָהוּ סֻלָּם עוֹמֵד מִן הָאָרֶץ וְעַד הַשָּׁמַיִם, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיַּחֲלֹם וְהִנֵּה סֻלָּם״ וּמַלְאֲכֵי הַשָּׁרֵת עוֹלִים וְיוֹרְדִים בּוֹ, וְרוֹאִין פָּנָיו שֶׁל יַעֲקֹב וְאוֹמְרִים: ״זֶה הַפָּנִים כִּפְנֵי הַחַיָּה שֶׁבְּכִסֵּא הַכָּבוֹד״. אֵלּוּ עוֹלִים וְאֵלּוּ יוֹרְדִים, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וְהִנֵּה מַלְאֲכֵי אֱלֹהִים עֹלִים וְיֹרְדִים בּוֹ״. וְהֶרְאָהוּ הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא אַרְבַּע מַלְכֻיּוֹת מוֹשְׁלָן וְאוֹבְדָן, וְהֶרְאָהוּ שַׂר מַלְכוּת בָּבֶל עוֹלֶה שִׁבְעִים עֲוָקִים וְיוֹרֵד, וְהֶרְאָהוּ שַׂר מַלְכוּת מָדַי עוֹלֶה חֲמִשִּׁים וּשְׁנַיִם עֲוָקִים וְיוֹרֵד. וְהֶרְאָהוּ שַׂר מַלְכוּת יָוָן עוֹלֶה מֵאָה וּשְׁמוֹנִים עֲוָקִים וְיוֹרֵד. וְהֶרְאָהוּ שַׂר מַלְכוּת אֱדוֹם עוֹלֶה וְאֵינוֹ יוֹרֵד וְאוֹמֵר: ״אֶעֱלֶה עַל בָּמֳתֵי עָב אֶדַּמֶּה לְעֶלְיוֹן״. אָמַר לוֹ יַעֲקֹב: ״אַךְ אֶל שְׁאוֹל תּוּרַד אֶל יַרְכְּתֵי בוֹר״. אָמַר לוֹ הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא: ״אִם תַּגְבִּיהַּ כַּנֶּשֶׁר״.
Nota — a escada de Yaakov. A escada que une a terra ao céu é uma das grandes imagens da Torá. O Rambam (Guia I:15) lê-a como visão da ordem do ser e da profecia: os “anjos” — forças e inteligências, ou os próprios profetas e sábios — sobem em conhecimento rumo a D’us e descem para agir no mundo; a escada é o vínculo entre o alto e o baixo. E, no mesmo sonho, mostram-se os quatro impérios (cf. cap. 28) que sobem e caem — pois todo poder terreno tem o seu termo. A soberba de “Edom” (“serei semelhante ao Altíssimo”) recebe a sua resposta: nenhum império se faz D’us.
7
Madrugou Yaakov com grande temor e disse: “a casa do Santo, bendito seja, está neste lugar”, como está dito: “e temeu, e disse: quão temível é este lugar!” (Bereshit 28:17). Daqui aprendes que todo aquele que ora neste lugar, em Jerusalém, é como se orasse diante do Trono da Glória, pois ali está a porta dos céus e uma entrada aberta para ouvir a oração, como está dito: “e esta é a porta dos céus” (ibid.).
הִשְׁכִּים יַעֲקֹב בְּפַחַד גָּדוֹל וְאָמַר: ״בֵּיתוֹ שֶׁל הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא בַּמָּקוֹם הַזֶּה״, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיִּירָא וַיֹּאמַר מַה נּוֹרָא הַמָּקוֹם הַזֶּה״. מִכָּאן אַתָּה לָמֵד שֶׁכָּל הַמִּתְפַּלֵּל בַּמָּקוֹם הַזֶּה בִּירוּשָׁלַיִם כְּאִלּוּ הִתְפַּלֵּל לִפְנֵי כִּסֵּא הַכָּבוֹד, שֶׁשַּׁעַר הַשָּׁמַיִם שָׁם הוּא וּפֶתַח פָּתוּחַ לִשְׁמֹעַ תְּפִלָּה, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וְזֶה שַׁעַר הַשָּׁמָיִם״.
8
E Yaakov voltou a recolher as pedras, e encontrou-as todas tornadas uma só pedra, e a pôs por estela (matzevá) no meio do lugar; e desceu sobre ela óleo dos céus, e ele o derramou sobre ela, como está dito: “e derramou óleo sobre a sua cabeça da pedra” (Bereshit 28:18). Que fez o Santo, bendito seja? Estendeu o pé da Sua direita e firmou a pedra até as profundezas dos abismos, e fez dela o esteio da terra, como o homem que põe a pedra de remate de uma abóbada. Por isso é chamada Éven haShetiyá (a Pedra Fundamental), pois dali está o umbigo da terra, e dali se estendeu toda a terra, e sobre ela se ergue o Templo do Eterno, como está dito: “e esta pedra, que pus por estela, será casa de D’us” (Bereshit 28:22).
וַיָּשָׁב יַעֲקֹב לִלְקֹט אֶת הָאֲבָנִים, וּמָצָא אוֹתָם כֻּלָּם אֶבֶן אַחַת, וְשָׂם אוֹתָהּ מַצֵּבָה בְּתוֹךְ הַמָּקוֹם, וַיֵּרֶד לוֹ שֶׁמֶן מִן הַשָּׁמַיִם וַיִּצֹק עָלֶיהָ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיִּצֹק שֶׁמֶן עַל רֹאשָׁהּ״. מֶה עָשָׂה הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא? נָטָה רֶגֶל יְמִינוֹ וְטָבְעָה הָאֶבֶן עַד עִמְקֵי תְהוֹמוֹת, וְעָשָׂה אוֹתָהּ סְנִיף לָאָרֶץ כְּאָדָם שֶׁעוֹשֶׂה סְנִיף לְכִפָּה. לְפִיכָךְ נִקְרָא אֶבֶן הַשְּׁתִיָּה, שֶׁמִּשָּׁם הוּא טַבּוּר הָאָרֶץ, וּמִשָּׁם נִמְתְּחָה כָּל הָאָרֶץ, וְעָלֶיהָ הֵיכַל ה' עוֹמֵד, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וְהָאֶבֶן הַזֹּאת אֲשֶׁר שַׂמְתִּי מַצֵּבָה יִהְיֶה בֵּית אֱלֹהִים״.
Nota — a Pedra Fundamental e o portão do céu. A pedra que Yaakov unge torna-se a Éven haShetiyá, a “Pedra Fundamental” sobre a qual, na tradição, se ergue o Templo, no monte Moriá. Chamá-la “umbigo da terra” é uma imagem: não uma afirmação de geografia, mas do eixo espiritual do mundo — o ponto para onde se volta a oração (Rambam, Hilchot Tefilá). E as doze pedras que se tornam uma (§4) ensinam a unidade de Israel: muitas tribos, “uma só nação na terra”. Beit El é “a porta do céu” — não um lugar onde D’us mora, mas onde o coração se abre para o alto.
9
E Yaakov caiu sobre o seu rosto, em terra, diante da Pedra Fundamental, e orava diante do Santo, bendito seja, e dizia: “Senhor de todos os mundos, se me fizeres voltar a este lugar em paz, oferecerei diante de Ti sacrifícios de ações de graças e holocaustos”, como está dito: “e Yaakov fez um voto, dizendo” (Bereshit 28:20). E ali deixou o poço, e dali levantou os pés, e num abrir e fechar de olhos kefitzat haderech chegou a Charan, como está dito: “e Yaakov levantou os pés” (Bereshit 29:1); e diz: “e saiu Yaakov de Be’er Sheva” etc. (Bereshit 28:10). E o D’us santo foi santificado em justiça (tzedacá), e responderam os seres supernos e disseram: “Bendito és Tu, ó Eterno, o D’us santo (haEl haKadosh)”.
וַיִּפֹּל יַעֲקֹב עַל פָּנָיו אַרְצָה לִפְנֵי אֶבֶן הַשְּׁתִיָּה, וְהָיָה מִתְפַּלֵּל לִפְנֵי הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא וְאוֹמֵר: ״רִבּוֹן כָּל הָעוֹלָמִים, אִם תְּשִׁיבֵנִי לַמָּקוֹם הַזֶּה בְּשָׁלוֹם אֶזְבְּחָה לְפָנֶיךָ זִבְחֵי תוֹדוֹת וְעוֹלוֹת״, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיִּדַּר יַעֲקֹב נֶדֶר לֵאמֹר״. וְשָׁם הִנִּיחַ אֶת הַבְּאֵר וּמִשָּׁם נָשָׂא רַגְלָיו, וּכְהֶרֶף עַיִן בָּא לְחָרָן, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיִּשָּׂא יַעֲקֹב רַגְלָיו״, וְאוֹמֵר: ״וַיֵּצֵא יַעֲקֹב מִבְּאֵר שֶׁבַע״ וְכוּ'. וְהָאֵל הַקָּדוֹשׁ נִקְדָּשׁ בִּצְדָקָה, וְעָנוּ הָעֶלְיוֹנִים וְאָמְרוּ: בָּרוּךְ אַתָּה ה', הָאֵל הַקָּדוֹשׁ.
Nota — “o D’us santo” e as bênçãos da Amidá. O capítulo encerra, de modo notável, com a fórmula “Bendito és Tu, ó Eterno, o D’us santo” — o selo da terceira bênção da Amidá. Tal como o cap. 27 terminou com “escudo de Avraham” (a primeira bênção), aqui a santificação do Nome por meio de Yaakov ecoa na bênção da santidade. A tradição enraíza assim a oração de Israel nos atos dos patriarcas. E a chegada instantânea a Charan (kefitzat haderech, “o saltar do caminho”) é a imagem de que, para quem caminha com D’us, a distância se encurta.

Os Sábios sobre este capítulo · פֵּרוּשִׁים

A escada que une o céu e a terra

O sonho de Yaakov é uma das visões fundadoras da Torá. Para o Rambam (Guia I:15), a escada figura a ordem do ser e o caminho da profecia: o que sobe em conhecimento rumo a D’us torna a descer para agir no mundo. Não há, na visão racionalista, dois mundos separados — há um vínculo, uma escada: o céu inspira, e a vida terrena realiza. E a presença de D’us no alto da escada lembra que toda elevação tem a sua origem e o seu fim Nele.

D’us, “o Lugar” do mundo

Que D’us seja chamado haMakom — “o Lugar” — encerra uma das ideias mais profundas da tradição: “Ele é o Lugar do mundo, e o mundo não é o Seu lugar” (Bereshit Rabá). D’us não habita um ponto do espaço; é incorpóreo e onipresente, e “encontra-se” onde os justos O buscam. Por isso Yaakov pôde achá-Lo num descampado, ao anoitecer, a caminho do exílio: nenhum lugar está fora do Seu alcance.

A Pedra Fundamental e a unidade de Israel

As doze pedras que se fundem em uma anunciam que as doze tribos serão “uma só nação na terra”. E essa pedra única torna-se a Éven haShetiyá, o eixo do mundo sobre o qual se erguerá o Templo — “a porta do céu”, para onde a oração se volta. A tradição não descreve uma geografia, mas uma orientação: há um centro para o qual o coração de Israel se dirige, e a partir do qual a santidade se difunde.

Os impérios e a oração dos pais

No mesmo sonho, Yaakov vê os quatro reinos subirem e caírem — e a soberba do último, que se quer “semelhante ao Altíssimo”, recebe a sua resposta: nenhum império se faz D’us. O capítulo, que começou no contraste entre o paciente e o arrogante, fecha-se com a santificação do Nome e a fórmula “o D’us santo” — a terceira bênção da Amidá. Assim, como o “escudo de Avraham” (cap. 27), a oração de Israel nasce dos passos dos seus pais.

Sobre esta tradução

Texto hebraico: edição vocalizada de domínio público de Pirkei deRabbi Eliezer (Sefaria). A tradução ao português foi feita a partir do hebraico e cotejada com a tradução inglesa de G. Friedlander (Londres, 1916, domínio público). Pequenos acréscimos entre colchetes esclarecem o sentido.

A designação “Edom” (§§1, 5) é, na tradição, termo histórico-simbólico do poder imperial hostil, e não juízo sobre povos contemporâneos. A tradução, as notas e os perushim (apoiados em comentadores clássicos, como o Radal — Rabi David Luria) são originais. Eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.