Pirkei deRabbi Eliezer · Capítulo 33

O poder da tzedacá e a ressurreição dos mortos

פֶּרֶק ל״ג
Hebraico (domínio público) · tradução do hebraico cotejada com o inglês · PT-BR

Dois grandes temas se entrelaçam: o poder da tzedacá (a caridade, a justiça) e a ressurreição dos mortos. De Yitzchak, que “semeou” caridade, às crianças revividas por Eliyahu e Elishá, até o vale dos ossos secos de Yechezkel — o capítulo afirma que a bondade tem poder de dar vida, e que a morte não é a última palavra.

1
“E Yitzchak semeou naquela terra” (Bereshit 26:12). Rabi Eliezer diz: acaso Yitzchak semeou grão? D’us nos livre! Mas tomou todo o dízimo do seu dinheiro e semeou tzedacá (caridade) aos pobres e necessitados, conforme dizes: “semeai para vós em justiça (tzedacá), colhei à medida da bondade (chéssed)” (Hoshea 10:12). E, por cada coisa que dizimou, o Santo, bendito seja, abriu-lhe cem portas de toda sorte de bênçãos, como está dito: “e achou, naquele ano, cem medidas” (Bereshit 26:12).
״וַיִּזְרַע יִצְחָק בָּאָרֶץ הַהִיא״, רַבִּי אֱלִיעֶזֶר אוֹמֵר: וְכִי זֶרַע דָּגָן זָרַע יִצְחָק? חַס וְשָׁלוֹם! אֶלָּא לָקַח כָּל מַעְשַׂר מָמוֹנוֹ וְזָרַע צְדָקָה לַעֲנִיִּים וְלָאֶבְיוֹנִים, כְּשֵׁם שֶׁאַתָּה אוֹמֵר: ״זִרְעוּ לָכֶם לִצְדָקָה, קִצְרוּ לְפִי חֶסֶד״. וְכָל דָּבָר וְדָבָר שֶׁעִשֵּׂר פָּתַח לוֹ הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא מֵאָה שְׁעָרִים שֶׁל מִינֵי בְרָכוֹת, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיִּמְצָא בַּשָּׁנָה הַהִיא מֵאָה שְׁעָרִים״.
2
Rabi Shimon diz: pela força da tzedacá os mortos hão de reviver. De onde aprendemos? De Eliyahu, o tishbita, que foi a Tzarefat e o recebeu uma mulher viúva com grande honra — a mãe de Yoná —, e do seu pão e do seu azeite comiam e bebiam, ele, ela e o seu filho, como está dito: “e comeram, ela e ele e a sua casa, por muitos dias” (Melachim I 17:15).
רַבִּי שִׁמְעוֹן אוֹמֵר: מִכֹּחַ צְדָקָה הַמֵּתִים עֲתִידִים לְהַחֲיוֹת. מִנַּיִן אָנוּ לְמֵדִין? מֵאֵלִיָּהוּ הַתִּשְׁבִּי, שֶׁהָלַךְ לוֹ לְצָרְפַת וְקִבְּלַתּוֹ אִשָּׁה אַלְמָנָה בְּכָבוֹד גָּדוֹל. אִמּוֹ שֶׁל יוֹנָה, וּמִפִּתּוֹ וּמִשֶּׁמֶן יִצְהָרוֹ הָיוּ אוֹכְלִין וְשׁוֹתִין הוּא וְהִיא וּבְנָהּ, שֶׁנֶּאֱמַר (מלכים א יז, טו): ״וַתֹּאכַל הִיא וָהוּא״.
Nota — “Yitzchak semeou tzedacá”. O capítulo abre dando à palavra “semear” um sentido moral: Yitzchak não plantou trigo, mas caridade — e colheu cem vezes. Para a tradição racionalista, o “poder” da tzedacá não é mágico: é o valor real da justiça e da bondade no plano moral e providencial — “a tzedacá salva da morte” (Mishlei 10:2). A caridade que dá vida ao necessitado torna-se, no capítulo, a imagem da própria força que vence a morte (cf. os ensaios sobre a tzedacá e a bondade).
3
Disse Rabi Levi: está escrito “ele e ela” no texto e lê-se “ela e ele” — pelo mérito de Eliyahu comeram. Depois de alguns dias, adoeceu o filho da mulher e morreu, como está dito: “e sucedeu, depois destas coisas, que adoeceu o filho da mulher” etc. (Melachim I 17:17). Disse-lhe a mulher: “vieste a mim como hóspede e com a tua presença recordaste a minha culpa, e o meu filho morreu; toma, pois, tudo o que me trouxeste e devolve-me o meu filho”. Levantou-se Eliyahu, de abençoada memória, e orava diante do Santo, bendito seja, e disse perante Ele: “Senhor de todos os mundos! Não bastam todos os males que passaram sobre a minha cabeça, mas ainda esta mulher — que eu sei que, na aflição do seu filho, falou o que não era — me acusa? Agora, que aprendam todas as gerações que há ressurreição dos mortos: devolve a alma deste menino ao seu corpo!”. E D’us o atendeu, como está dito: “e o Eterno ouviu a voz de Eliyahu” etc. (Melachim I 17:22).
אָמַר רַבִּי לֵוִי: ״הוּא וְהִיא״ כְּתִיב, וְ״הִיא וָהוּא״ קָרִינַן, בִּזְכוּת אֵלִיָּהוּ אָכְלוּ. לְאַחַר יָמִים חָלָה בֶּן הָאִשָּׁה וָמֵת, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיְהִי אַחֲרֵי הַדְּבָרִים הָאֵלֶּה חָלָה בֶּן הָאִשָּׁה״ וְכוּ'. אָמְרָה לוֹ הָאִשָּׁה: ״בָּאתָ אֵלַי בְּתַשְׁמִישׁ הַמִּטָּה וְהִזְכַּרְתָּ עֲוֹנִי עָלַי וּמֵת בְּנִי, אֶלָּא טוֹל כָּל מַה שֶּׁהֵבֵאתָ לִי וְתֵן לִי אֶת בְּנִי״. עָמַד אֵלִיָּהוּ זָכוּר לַטּוֹב וְהָיָה מִתְפַּלֵּל לִפְנֵי הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא וְאָמַר לְפָנָיו: ״רִבּוֹן כָּל הָעוֹלָמִים! לֹא דַּי כָּל הָרָעוֹת שֶׁעָבְרוּ עַל רֹאשִׁי, אֶלָּא אַף הָאִשָּׁה הַזֹּאת שֶׁאֲנִי יוֹדֵעַ שֶׁמִּתּוֹךְ צָרַת בְּנָהּ דִּבְּרָה דָּבָר שֶׁלֹּא נַעֲשָׂה, הֵבִיאָה עָלַי לְעָשְׁקֵנִי. עַכְשָׁו יִלְמְדוּ כָל הַדּוֹרוֹת שֶׁיֵּשׁ תְּחִיַּת הַמֵּתִים. הָשֵׁב הַנֶּפֶשׁ הַיֶּלֶד הַזֶּה לְקִרְבּוֹ!״. וְנֶעְתַּר לוֹ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיִּשְׁמַע ה' בְּקוֹל אֵלִיָּהוּ״ וְכוּ'. וְכָתוּב אַחֵר אוֹמֵר: ״וַיִּקַּח אֵלִיָּהוּ אֶת הַיֶּלֶד״ וְכוּ'.
Nota — os profetas e a ressurreição. Eliyahu, ao reviver o filho da viúva, declara o propósito: “que aprendam todas as gerações que há ressurreição dos mortos”. Os profetas não agem por poder próprio, mas como instrumentos de D’us, que “faz morrer e faz viver” (Shmuel I 2:6). A ressurreição (techiyat hametim) é, para o Rambam, um dos princípios da fé — embora o “como” permaneça velado (cf. o ensaio sobre o que acontece à alma). O capítulo reúne os relatos bíblicos para firmar essa esperança.
4
Rabi Yehoshua ben Korchá diz: e disso te admiras? Não te admires! Vem e vê de Elishá ben Shafat, tão santo que nenhuma mulher conseguia fitar o seu rosto sem temer morrer. E ia de monte em monte e de caverna em caverna, e foi a Shunem, e o recebeu uma mulher com grande honra — irmã de Avishag, a sunamita, mãe de Odéd, o profeta —, como está dito: “e sucedeu um dia que Elishá passou por Shunem” (Melachim II 4:8). Disse a mulher ao seu marido: “este homem de D’us — nenhuma mulher consegue fitá-lo sem temer morrer; façamos, pois, um pequeno quarto de paredes e ponhamos-lhe ali uma cama, uma mesa, uma cadeira e um candeeiro, e, cada vez que passar, recolher-se-á ali” (cf. Melachim II 4:10). ... Chamou a sunamita, e ela ficou de pé à porta. E por que ficou à porta? Porque não conseguia ficar diante dele sem temer morrer. Disse-lhe:
רַבִּי יְהוֹשֻׁעַ בֶּן קָרְחָה אוֹמֵר: וְעַל זֶה אַתָּה תָּמֵהַּ? אַל תִּתְמַהּ! בֹּא וּרְאֵה מֵאֱלִישָׁע בֶּן שָׁפָט, שֶׁלֹּא הָיְתָה אִשָּׁה יְכוֹלָה לְהִסְתַּכֵּל בְּפָנָיו שֶׁלֹּא תָּמוּת. וְהָיָה מְהַלֵּךְ מֵהַר אֶל הַר וּמִמְּעָרָה אֶל מְעָרָה, וְהָלַךְ לְשׁוּנֵם וְקִבְּלַתּוּ אִשָּׁה בְּכָבוֹד גָּדוֹל. אֲחוֹתָהּ שֶׁל אֲבִישַׁג הַשּׁוּנַמִּית, אִמּוֹ שֶׁל עוֹדֵד הַנָּבִיא, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיְהִי הַיּוֹם וַיַּעֲבֹר אֱלִישָׁע אֶל שׁוּנֵם״. אָמְרָה הָאִשָּׁה לְבַעְלָהּ: ״אִישׁ הָאֱלֹהִים הַזֶּה, אֵין אִשָּׁה יְכוֹלָה לְהִסְתַּכֵּל לְפָנָיו שֶׁלֹּא תָּמוּת. אֶלָּא נַעֲשֶׂה נָּא עֲלִיַּת קִיר קְטַנָּה וְנָשִׂים לוֹ שָׁם מִטָּה וְשֻׁלְחָן וְכִסֵּא וּמְנוֹרָה, וְכָל פַּעַם שֶׁהוּא עוֹבֵר יָסוּר שָׁם אֶל הָעֲלִיָּה״, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיְהִי הַיּוֹם וַיָּבֹא שָׁמָּה״. קָרָא לַשּׁוּנַמִּית, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיֹּאמֶר קְרָא לָהּ, וַיִּקְרָא לָהּ וַתַּעֲמֹד בַּפָּתַח״. וְלָמָּה עָמְדָה בַּפֶּתַח? אֶלָּא שֶׁלֹּא הָיְתָה יְכוֹלָה לַעֲמֹד בְּפָנָיו שֶׁלֹּא תָּמוּת. אָמַר לָהּ:
5
“neste tempo determinado, daqui a um ano, abraçarás um filho” (Melachim II 4:16), do fruto do teu ventre. Disse-lhe ela: “meu senhor é muito velho, e cessou de mim o costume das mulheres, e é impossível acontecer esta coisa. Não, meu senhor, homem de D’us, não mintas à tua serva”.
״לַמּוֹעֵד הַזֶּה כָּעֵת חַיָּה אַתְּ חוֹבֶקֶת בֵּן״, מִפְּרִי מֵעֶיךְ. אָמְרָה לוֹ: ״אֲדֹנִי זָקֵן מְאֹד וְחָדְלָה מִמֶּנִּי אֹרַח נָשִׁים וְאִי אֶפְשָׁר לַעֲשׂוֹת הַדָּבָר הַזֶּה. אַל, אֲדֹנִי, אִישׁ הָאֱלֹהִים, אַל תְּכַזֵּב בְּשִׁפְחָתֶךָ״.
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Rabi Zecharyá diz: “a vontade dos que O temem Ele faz” (Tehilim 145:19) — fez o Santo, bendito seja, a vontade do profeta, e ela concebeu e deu à luz, e cresceu o menino. E saiu um dia para tomar ar, para ver os ceifeiros, e sobreveio-lhe um mal e morreu, como está dito: “e sucedeu um dia que ele saiu a seu pai, aos ceifeiros” (Melachim II 4:18) ... “e sentou-se sobre os seus joelhos até o meio-dia, e morreu” (Melachim II 4:20).
רַבִּי זְכַרְיָה אוֹמֵר: ״רְצוֹן יְרֵאָיו יַעֲשֶׂה״, עָשָׂה הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא רְצוֹנוֹ שֶׁל נָבִיא וְהָרְתָה וְיָלְדָה וְגָדַל הַנַּעַר. וְיָצָא לוֹ לְפוּגַת נֶפֶשׁ לִרְאוֹת בַּקּוֹצְרִים וְקָרָהוּ אָסוֹן וָמֵת, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיְהִי הַיּוֹם וַיֵּצֵא אֶל אָבִיו אֶל הַקּוֹצְרִים״. הֲדָא כָּלְהוֹן עַד מָטֵי, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיֵּשֶׁב עַל בִּרְכֶּיהָ עַד הַצָּהֳרַיִם וַיָּמֹת״.
7
Foi a mulher ao monte Carmel e prostrou o rosto em terra diante de Elishá, e clamou, como quem diz: “quem dera nunca me tivesses dado um filho, em vez de me dar e vê-lo tirado”. Disse o profeta: “toda coisa que o Santo, bendito seja, faz, Ele me anuncia, mas esta coisa Ele me ocultou, como está dito: e veio ao homem de D’us, ao monte...” (Melachim II 4:27). Gueichazi quis afastá-la, e a tradição lê que a tratou de modo indevido; por isso disse o homem de D’us: “deixa-a, porque a sua alma está amargurada, e o Eterno mo ocultou e não mo anunciou” (Melachim II 4:27). Tomou o báculo que tinha na mão e o deu a Gueichazi, e disse-lhe: “não fales palavra alguma com a tua boca, até ires e pores este báculo sobre o rosto do menino, e ele viverá”.
הָלְכָה הָאִשָּׁה לְהַר הַכַּרְמֶל וְנָפְלָה פָנֶיהָ אַרְצָה לִפְנֵי אֱלִישָׁע, וְאָמְרָה: ״הַלְוַאי שֶׁיִּהְיֶה כְּלִי רֵיקָם אֶלָּא שֶׁנִּתְמַלֵּא וְנִשְׁפַּךְ״. אָמַר הַנָּבִיא: ״כָּל דָּבָר שֶׁהַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא עוֹשֶׂה הוּא מַגִּיד לִי וְזֶה הַדָּבָר הֶעֱלִים מִמֶּנִּי, שֶׁנֶּאֱמַר: וַתָּבֹא אֶל אִישׁ״ וְכוּ'. מַה הוּא ״לְהָדְפָהּ״? מְלַמֵּד שֶׁנָּתַן אֶת יָדוֹ בַּהוֹד שֶׁעַל גַּבֵּי דַּדֶּיהָ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיֹּאמֶר אִישׁ הָאֱלֹהִים הֶעְלִים מִמֶּנִּי וְלֹא אָמַר לִי״. לָקַח אֶת הַמִּשְׁעֶנֶת אֲשֶׁר בְּיָדוֹ וְנָתַן לְגֵיחֲזִי, וְאָמַר לוֹ: ״אַל תְּדַבֵּר בְּפִיךָ כָּל דָּבָר מְאוּמָה, עַד שֶׁאַתָּה הוֹלֵךְ וְנוֹתֵן אֶת הַמִּשְׁעֶנֶת הַזֹּאת עַל פְּנֵי הַנַּעַר וְיִחְיֶה״.
8
Mas a coisa era como motivo de riso aos olhos de Gueichazi, e a todo homem que encontrava dizia: “acreditas que este báculo ressuscita o morto?”. Por isso não logrou êxito, até que Elishá mesmo foi com os seus próprios pés e pôs a sua boca sobre a boca do menino e os seus olhos sobre os seus olhos, e começou a orar diante do Santo, bendito seja, dizendo: “Senhor de todos os mundos! Assim como fizeste milagres por meio do meu senhor Eliyahu, e ele ressuscitou o morto, assim viva este menino!”. E o Santo, bendito seja, o atendeu, como está dito: “e voltou e andou pela casa de uma a outra parte ... e se debruçou sobre ele, e o menino espirrou até sete vezes” (Melachim II 4:35).
הָיָה הַדָּבָר כִּשְׂחוֹק בְּעֵינָיו, וְכָל אָדָם שֶׁהָיָה פּוֹגֵעַ הָיָה אוֹמֵר: ״הֲתַאֲמִין שֶׁהַמַּטֶּה הַזֶּה מְחַיֶּה אֶת הַמֵּת?״ לְפִיכָךְ לֹא עָלְתָה בְּיָדוֹ עַד שֶׁהָלַךְ הוּא בְּרַגְלָיו וְנָתַן פִּיו עַל פִּיו וְעֵינָיו עַל עֵינָיו, וְהִתְחִיל מִתְפַּלֵּל לִפְנֵי הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא וְאוֹמֵר לְפָנָיו: ״רִבּוֹן כָּל הָעוֹלָמִים! כְּשֵׁם שֶׁעָשִׂיתָ נִסִּים עַל יְדֵי אֲדֹנִי אֵלִיָּהוּ וְהֶחֱיָה אֶת הַמֵּת, כָּךְ יִחְיֶה הַנַּעַר הַזֶּה!״ וְנֶעְתַּר לוֹ הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיָּשָׁב וַיֵּלֶךְ בַּבַּיִת אַחַת הֵנָּה וְאַחַת הֵנָּה״ ״וַיִּגְהַר עָלָיו, וַיְזוֹרֵר הַנַּעַר עַד שֶׁבַע פְּעָמִים״.
9
Rabi Zeirá diz: conhece o poder da tzedacá. Vem e vê de Shalum ben Tikvá, que era dos grandes da sua geração e fazia tzedacá todos os dias. E o que fazia? Enchia o odre de água e sentava-se à porta da cidade, e a todo aquele que vinha do caminho dava de beber e lhe restaurava a alma. E pelo mérito das tzedacot que fazia, repousou o espírito santo sobre a sua mulher, como está dito: “e foi Chilkiyahu, o sacerdote ... a Chuldá, a profetisa, mulher de Shalum ben Tikvá” (Melachim II 22:14). E, quando o seu marido morreu, faltaram as suas tzedacot à cidade, e saíram todos os de Israel para prestar-lhe bondade (gemilut chéssed); e viram a tropa inimiga que vinha contra eles, e às pressas lançaram o homem morto na sepultura de Elishá. Tocou o homem nos ossos de Elishá e reviveu, como está dito: “e tocou o homem nos ossos de Elishá, e reviveu e se pôs em pé” (Melachim II 13:21). E depois gerou Chanamel, como está dito: “eis que Chanamel, filho de Shalum, teu tio” etc. (Yirmiyá 32:7).
רַבִּי זְעִירָא אוֹמֵר: תֵּדַע לְךָ כֹּחַ הַצְּדָקָה. בֹּא וּרְאֵה מִשַּׁלּוּם בֶּן תִּקְוָה שֶׁהָיָה מִגְּדוֹלֵי הַדּוֹר וְהָיָה עוֹשֶׂה צְדָקוֹת בְּכָל יוֹם. וּמֶה הָיָה עוֹשֶׂה? הָיָה מְמַלֵּא אֶת הַחֵמֶת מַיִם וְהָיָה יוֹשֵׁב עַל פֶּתַח הָעִיר, וְכָל אָדָם שֶׁהָיָה בָּא מִן הַדֶּרֶךְ הָיָה מַשְׁקֶה אוֹתוֹ וּמֵשִׁיב נַפְשׁוֹ עָלָיו. וּבִזְכוּת צְדָקוֹת שֶׁעָשָׂה שָׁרְתָה רוּחַ הַקֹּדֶשׁ עַל אִשְׁתּוֹ, שֶׁנֶּאֱמַר (מלכים ב כב, יד): ״וַיֵּלֶךְ חִלְקִיָּהוּ הַכֹּהֵן... אֶל חֻלְדָּה הַנְּבִיאָה אֵשֶׁת שַׁלֻּם בֶּן תִּקְוָה״. וּלְמַפְרֵעַ נִקְרָא שְׁמוֹ בֶּן סַחְרָה, כְּשֵׁם שֶׁאַתָּה אוֹמֵר ״כִּי טוֹב סַחְרָהּ״, וְכָתוּב אַחֵר אוֹמֵר ״בֶּן סַחְרָה״. וּכְשֶׁמֵּת בַּעְלָהּ חָסְרָה צְדָקוֹת בְּעָלֶיהָ וְיָצְאוּ כָל יִשְׂרָאֵל לִגְמֹל חֶסֶד עִם שַׁלּוּם בֶּן תִּקְוָה, וְרָאוּ אֶת הַגְּדוּד שֶׁבָּא אֲלֵיהֶם, וְהִשְׁלִיכוּ אֶת הָאִישׁ בְּקֶבֶר אֱלִישָׁע. הָלַךְ הָאִישׁ וְנָגַע בְּעַצְמוֹת אֱלִישָׁע וְחָיָה, שֶׁנֶּאֱמַר ״וַיִּגַּע הָאִישׁ״ וְכוּ'. וְאַחַר כָּךְ הוֹלִיד אֶת חֲנַמְאֵל, שֶׁנֶּאֱמַר ״הִנֵּה חֲנַמְאֵל בֶּן שַׁלֻּם דֹּדְךָ״ וְכוּ'.
10
Rabi Eliezer diz: conhece também outro sinal do poder do Céu sobre a morte. Vem e vê de Shaul ben Kish, que removera da terra os necromantes (ovot) e os adivinhos (yidonim), e no fim voltou a buscar aquilo que antes aborrecera, e foi a Ein Dor ..., e ela consultou para ele o ov, e fez subir Shmuel, o profeta. E os mortos viram Shmuel subir e subiram com ele, supondo que chegara a ressurreição dos mortos. E viu aquilo a mulher e assustou-se muito, como está dito: “e disse-lhe o rei: não temas; que vês?” (Shmuel I 28:13). E há quem diga: muitos justos como ele subiram com ele naquela hora.
רַבִּי אֱלִיעֶזֶר אוֹמֵר: תֵּדַע לְךָ כֹּחַ הַצְּדָקָה. בֹּא וּרְאֵה מִשָּׁאוּל בֶּן קִישׁ שֶׁהֵסִיר אֶת הָאוֹבוֹת וְהַיִּדְּעוֹנִים מִן הָאָרֶץ, וְחָזַר וְאָהַב אֲשֶׁר שָׂנָא, וְהָלַךְ לוֹ לְעֵין דּוֹר לְאֵשֶׁת צְפַנְיָה אִמּוֹ שֶׁל אַבְנֵר, וְשָׁאֲלָה לוֹ בָּאוֹב. וְהֶעֱלָה אֶת שְׁמוּאֵל הַנָּבִיא, וְרָאוּ הַמֵּתִים אֶת שְׁמוּאֵל עוֹלֶה וְעָלוּ עִמּוֹ, סְבוּרִים שֶׁהִגִּיעַ תְּחִיַּת הַמֵּתִים. וְרָאֲתָה הָאִשָּׁה וְנִבְהֲלָה הַרְבֵּה מְאֹד, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיֹּאמֶר לָהּ הַמֶּלֶךְ אַל תִּירְאִי כִּי מָה רָאִית״. וְיֵשׁ אוֹמְרִים: צַדִּיקִים רַבִּים כַּיּוֹצֵא בּוֹ עָלוּ עִמּוֹ בְּאוֹתָהּ שָׁעָה.
Nota — Ein Dor e a necromancia proibida. A Torá proíbe terminantemente consultar os mortos e praticar a necromancia (o ov e o yidoni — Vayikrá 19:31; Devarim 18:11), e a tradição racionalista vê nessas práticas ilusão e engano, não verdadeiro poder. O episódio de Ein Dor é discutido pelos sábios e comentadores: muitos o leem com cautela — não como aprovação da necromancia, mas como um sinal extraordinário concedido para repreender o próprio Shaul (que abolira essas práticas e a elas recorreu na aflição). A lição do capítulo não é o ov, mas que a vida e a morte estão na mão de D’us (cf. o ensaio sobre a necromancia).
11
Rabi Eliezer diz: todos os mortos se erguerão, na ressurreição, vestidos com as suas mortalhas. Conhece que é assim: vem e vê daquele que semeia na terra — semeia as sementes nuas, e elas sobem vestidas de muitas cascas. Ora, os que descem à sepultura vestidos, não subirão vestidos? E não só isso: vem e vê de Chananyá, Mishael e Azaryá, que desceram à fornalha de fogo vestidos com as suas vestes, como está dito: “e se ajuntaram os sátrapas” etc. (Daniel 3:27). Aprenderam de Shmuel, o profeta, que subiu envolto no seu manto, como está dito: “e disse a mulher: um homem velho sobe, e ele está envolto num manto” (Shmuel I 28:14).
רַבִּי אֱלִיעֶזֶר אוֹמֵר: כָּל הַמֵּתִים עוֹמְדִים בִּתְחִיַּת הַמֵּתִים לְבוּשִׁים תַּכְרִיכֵיהֶם. תֵּדַע לְךָ שֶׁהוּא כֵּן, בֹּא וּרְאֵה מִן הַזּוֹרֵעַ בָּאָרֶץ שֶׁהוּא זוֹרֵעַ עֲרֻמִּים וְעוֹלִים לְבוּשִׁים כַּמָּה קְלִפּוֹת. וְהַיּוֹרְדִים לְבוּשִׁים אֵין עוֹלִין לְבוּשִׁים? וְלֹא עוֹד, אֶלָּא בֹּא וּרְאֵה מִן חֲנַנְיָה מִישָׁאֵל וַעֲזַרְיָה שֶׁיָּרְדוּ לְתוֹךְ כִּבְשַׁן שֶׁל אֵשׁ לְבוּשִׁים בְּתַכְרִיכֵיהֶן, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וּמִתְכַּנְּשִׁין אֲחַשְׁדַּרְפְּנַיָּא״ וְכוּ'. לִמְדוּ מִשְּׁמוּאֵל הַנָּבִיא שֶׁעָלָה וְהוּא מְעֻטָּף מְעִילוֹ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַתֹּאמֶר אִישׁ זָקֵן עֹלֶה וְהוּא עֹטֶה מְעִיל״ וְכוּ'.
Nota — a ressurreição e o grão semeado. A tradição prova a ressurreição com uma imagem da própria natureza: o grão é semeado nu e brota vestido; o que parece morto na terra ressurge com vida nova. É uma analogia cara à leitura racionalista — D’us, que faz a semente reviver a cada estação, pode fazer reviver os que dormem no pó. A natureza, com a sua ordem constante, é a primeira testemunha do poder do Criador sobre a morte.
12
Rabi Yochanan diz: todos os profetas profetizaram em vida; mas Shmuel profetizou em vida e depois da morte, pois disse Shmuel a Shaul: “se ouvires o meu conselho de cair pela espada, a tua morte será expiação por ti, e o teu quinhão será comigo, no lugar em que eu estou”. E Shaul ouviu o seu conselho e caiu pela espada, ele e os seus filhos, como está dito: “e morreu Shaul e os seus três filhos” (Shmuel I 31:6). Por quê? Para que o seu quinhão fosse com Shmuel, o profeta, no porvir, como está dito: “e amanhã tu e os teus filhos estareis comigo” (Shmuel I 28:19). Que é “comigo”? Rabi Yochanan diz: comigo, na minha morada.
רַבִּי יוֹחָנָן אוֹמֵר: כָּל הַנְּבִיאִים נִתְנַבְּאוּ בְּחַיֵּיהֶם, וּשְׁמוּאֵל נִתְנַבֵּא בְּחַיָּיו וּלְאַחַר מוֹתוֹ, שֶׁאָמַר שְׁמוּאֵל לְשָׁאוּל ״אִם אַתָּה שׁוֹמֵעַ לַעֲצָתִי לִנְפֹּל בַּחֶרֶב וּתְהֵא מִיתָתְךָ כַּפָּרָה עָלֶיךָ וִיהֵא גוֹרָלְךָ עִמִּי בַּמָּקוֹם שֶׁאֲנִי שָׁם״, וְשָׁמַע שָׁאוּל לַעֲצָתוֹ וְנָפַל בַּחֶרֶב הוּא וְכָל בָּנָיו, שֶׁנֶּאֱמַר ״וַיָּמָת שָׁאוּל וּשְׁלֹשֶׁת בָּנָיו״. לָמָּה? שֶׁיְּהֵא חֶלְקוֹ עִם שְׁמוּאֵל הַנָּבִיא לֶעָתִיד לָבֹא, שֶׁנֶּאֱמַר ״וּמָחָר אַתָּה וּבָנֶיךָ עִמִּי״. מַה הוּא ״עִמִּי״? רַבִּי יוֹחָנָן אוֹמֵר: עִמִּי בִּמְחִיצָתִי.
13
Hilel, o Ancião, diz: disse Shmuel a Shaul: “não te bastou não teres ouvido a Sua voz nem executado o Seu furor contra Amalek, mas ainda foste consultar o ov? Ai do pastor, ai do seu rebanho! Por tua causa entregou o Santo, bendito seja, Israel, o teu povo, na mão dos filisteus”, como está dito: “e entregou o Eterno também Israel contigo na mão dos filisteus” (Shmuel I 28:19).
הִלֵּל הַזָּקֵן אוֹמֵר: אָמַר שְׁמוּאֵל לְשָׁאוּל, ״לֹא דַיֶּךָ שֶׁלֹּא שָׁמַעְתָּ בְּקוֹלוֹ וְלֹא עָשִׂיתָ חֲרוֹן אַפּוֹ בַּעֲמָלֵק, אֶלָּא גַּם לִשְׁאוֹל לְךָ בָּאוֹב? אוֹי לָרוֹעֶה, אוֹי לַצֹּאנוֹ! בִּשְׁבִילְךָ נָתַן הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא אֶת יִשְׂרָאֵל עַמְּךָ בְּיַד פְּלִשְׁתִּים״, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיִּתֵּן ה' גַּם אֶת יִשְׂרָאֵל״.
14
Rabi Tachaná diz: foram Israel exilados para Bavel e não abandonaram os seus maus feitos. Achav ben Kolayá e Tzidkiyahu ben Maasseyá fizeram-se médicos — médicos da mentira — e, a pretexto de cura, pecavam com as mulheres dos caldeus. Ouviu o rei e ordenou queimá-los. Disseram ambos: “digamos que Yehoshua ben Yehotzadak estava conosco, e ele nos salvará da queima do fogo”. Disseram ao rei: “meu senhor rei, este homem estava conosco em tudo”. E ordenou o rei queimar os três; e desceu Michael, o anjo, e salvou Yehoshua ben Yehotzadak da queima do fogo, e o elevou diante do Trono da Glória, como está dito: “e mostrou-me Yehoshua ben Yehotzadak o sumo sacerdote” (Zechariá 3:1); e os dois falsos foram queimados no fogo. Não está escrito “a quem o rei de Bavel queimou (kelalam) no fogo”, mas “a quem ele assou (kalam)” (Yirmiyá 29:22). Daqui aprendemos que a Yehoshua foram apenas chamuscados os cabelos, pelas iniquidades deles — “não é este um tição arrancado do fogo?” (Zechariá 3:2).
רַבִּי תַּחֲנָא אוֹמֵר: גָּלוּ יִשְׂרָאֵל לְבָבֶל וְלֹא הִנִּיחוּ מַעֲשֵׂיהֶם הָרָעִים. אַחְאָב בֶּן קוֹלָיָה וְצִדְקִיָּה בֶּן מַעֲשֵׂיָּה נַעֲשׂוּ רוֹפְאִים רוֹפְאֵי שֶׁקֶר, וְהָיוּ מְרַפְּאִים אֶת נְשֵׁי כַשְׂדִּים וּבָאִין עֲלֵיהֶם בְּתַשְׁמִישׁ הַמִּטָּה. שָׁמַע הַמֶּלֶךְ וְצִוָּה לְשָׂרְפָן. אָמְרוּ שְׁנֵיהֶם: ״יְהוֹשֻׁעַ בֶּן יְהוֹצָדָק נֹאמַר שֶׁהָיָה עִמָּנוּ, וְהוּא מַצִּילֵנוּ מִשְּׂרֵפַת הָאֵשׁ״. אָמְרוּ לוֹ: ״אֲדֹנִי הַמֶּלֶךְ, הָאִישׁ הַזֶּה הָיָה עִמָּנוּ בְּכָל דָּבָר״. וְצִוָּה הַמֶּלֶךְ לִשְׂרֹף אֶת שְׁלָשְׁתָּן, וְיָרַד מִיכָאֵל הַמַּלְאָךְ וְהִצִּיל אֶת יְהוֹשֻׁעַ בֶּן יְהוֹצָדָק מִשְּׂרֵפַת הָאֵשׁ, וְהֶעֱלָהוּ לִפְנֵי כִּסֵּא הַכָּבוֹד, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיַּרְאֵנִי אֶת יְהוֹשֻׁעַ בֶּן יְהוֹצָדָק״ וְכוּ', וּשְׁנֵיהֶם נִשְׂרְפוּ בָאֵשׁ וְלֻקַּח מֵהֶם קְלָלָה. ״אֲשֶׁר קְלָלָם מֶלֶךְ בָּבֶל בָּאֵשׁ״ אֵין כְּתִיב כָּאן, אֶלָּא ״אֲשֶׁר קָלָם״. הָא לָמַדְנוּ שֶׁנִּתְחַתּוּ שַׂעֲרוֹתָיו בַּעֲוֹנוֹתֵיהֶם, שֶׁנֶּאֱמַר: ״בְּגַאֲוַת רָשָׁע יִדְלַק עָנִי״ וְכוּ'. הֲלֹא זֶה אוּד מֻצָּל מֵאֵשׁ.
15
Rabi Yehoshua diz: quando Nevuchadnetzar trouxe acusações falsas contra Israel para matá-los, ergueu uma estátua um ídolo no vale de Dura e mandou proclamar: “todo aquele que não se prostrar diante desta estátua será queimado no fogo”. E Israel não confiou na sombra proteção do seu Criador, e vieram eles e as suas mulheres e se prostraram à idolatria. E a Daniel, a quem os gentios chamavam “o seu deus”, era-lhes vergonha queimá-lo no fogo (cf. Daniel 3). E tomaram Chananyá, Mishael e Azaryá e os lançaram na fornalha de fogo, e veio Gavriel, o anjo, e os salvou da fornalha. Disse-lhes o rei: “sabíeis que tendes um D’us que livra e salva — por que abandonastes o vosso D’us e vos prostrastes à idolatria, que não tem poder de salvar? Pois, do mesmo modo que fizestes na vossa terra, ao destruí-la pelos pecados, assim quereis fazer nesta terra”. E ordenou o rei, e mataram muitos. E de onde sabemos que foram mortos pela espada? Do que está dito: “e disse-me: filho do homem, profetiza sobre estes mortos, e que vivam”.
רַבִּי יְהוֹשֻׁעַ אוֹמֵר: כְּשֶׁהֵבִיא נְבוּכַדְנֶצַּר עֲלִילוֹת שֶׁל דְּבָרִים עַל יִשְׂרָאֵל לְהָרְגָן, הֶעֱמִיד צֶלֶם בְּבִקְעַת דּוּרָא וְהוֹצִיא כָּרוֹז וְאָמַר: ״כָּל מִי שֶׁלֹּא יִשְׁתַּחֲוֶה לַצֶּלֶם הַזֶּה יִשָּׂרֵף בָּאֵשׁ״. וְיִשְׂרָאֵל לֹא בָטְחוּ בְּצֵל יוֹצְרָם וּבָאוּ הֵם וּנְשֵׁיהֶם וְהִשְׁתַּחֲווּ לַעֲבוֹדָה זָרָה. וְדָנִיֵּאל, שֶׁהָיוּ קוֹרְאִים אוֹתוֹ אֱלֹהֵיהֶם, הָיָה גְּנַאי לָהֶם לְשָׂרְפוֹ בָאֵשׁ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וְעַד אָחֳרָן״ וְכוּ'. וְנָטְלוּ אֶת חֲנַנְיָה מִישָׁאֵל וַעֲזַרְיָה וְנָתְנוּ אוֹתָם לְתוֹךְ כִּבְשַׁן הָאֵשׁ, וּבָא גַּבְרִיאֵל הַמַּלְאָךְ וְהִצִּילוֹ מִכִּבְשַׁן הָאֵשׁ. אָמַר לָהֶם הַמֶּלֶךְ: ״הֱיִיתֶם יוֹדְעִים שֶׁיֵּשׁ לָכֶם אֱלוֹהַּ מְשֵׁזִיב וּמַצִּיל, לָמָּה שְׁבַקְתּוֹן לֵאלֹהֵיכֶם וְהִשְׁתַּחֲוִיתֶם לַעֲבוֹדָה זָרָה שֶׁאֵין בּוֹ כֹּחַ לְהַצִּיל? אֶלָּא כְּדֶרֶךְ שֶׁעֲשִׂיתֶם בְּאַרְצְכֶם וְהֶחֱרַבְתֶּם אוֹתָהּ, כֵּן אַתֶּם מְבַקְּשִׁים לַעֲשׂוֹת בָּאָרֶץ הַזֹּאת וּלְהַחֲרִיב אוֹתָהּ״. וְצִוָּה הַמֶּלֶךְ וְהָרְגוּ כֻּלָּם. וּמִנַּיִן שֶׁהָיוּ כֻלָּם הֲרוּגֵי חֶרֶב? שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיֹּאמֶר אֵלַי בֶּן אָדָם, הִנָּבֵא בַּהֲרוּגִים הָאֵלֶּה וְחָיוּ״.
Nota — a honestidade da tradição sobre a própria falha. O texto não embeleza: diz claramente que “Israel não confiou na sombra do seu Criador, e se prostrou à idolatria” diante da estátua de Dura — só Chananyá, Mishael e Azaryá resistiram. A tradição registra os seus próprios fracassos sem disfarce: é sinal de verdade, não de derrota. E é justamente dessa geração de mortos que nascerá, no capítulo seguinte, a visão da ressurreição — porque mesmo a queda não está além do alcance da esperança.
16
Rabi Pinchas diz: vinte anos depois de mortos os mortos em Bavel, repousou o espírito santo sobre Yechezkel, e o levou ao vale de Dura e lhe mostrou muitíssimos ossos secos. Disse-lhe: “filho do homem, que vês?”. Disse: “vejo aqui ossos secos”. Disse-lhe D’us: “tenho poder de ressuscitar ainda mais do que estes”; mas, como Yechezkel respondeu “ó Eterno D’us, Tu o sabes” (Yechezkel 37:3) — como quem hesita em acreditar —, por isso os seus ossos não foram sepultados em terra pura, mas em terra impura, conforme se diz: “e tu morrerás sobre terra impura” (Amós 7:17). E começaram a aproximar-se “osso ao seu osso” (Yechezkel 37:7).
רַבִּי פִּינְחָס אוֹמֵר: לְאַחַר עֶשְׂרִים שָׁנָה שֶׁנֶּהֶרְגוּ הֲרוּגִים בְּבָבֶל, שָׁרְתָה רוּחַ הַקֹּדֶשׁ עַל יְחֶזְקֵאל, וְהוֹצִיאוֹ לְבִקְעַת דּוּרָא וְהֶרְאָהוּ עֲצָמוֹת יְבֵשׁוֹת הַרְבֵּה מְאֹד. אָמַר לוֹ: בֶּן אָדָם מָה אַתָּה רוֹאֶה? אָמַר לוֹ: אֲנִי רוֹאֶה כָּאן עֲצָמוֹת יְבֵשׁוֹת. אָמַר לוֹ: יֵשׁ בִּי כֹּחַ לְהַחֲיוֹת יוֹתֵר מִכָּאן, אֶלָּא ״אָמַר ה' אֱלֹהִים אַתָּה יָדַעְתָּ״, כְּאִלּוּ לֹא הֶאֱמִין. לְפִיכָךְ לֹא נִקְבְּרוּ עַצְמוֹתָיו בְּאֶרֶץ טְהוֹרָה אֶלָּא בְּאֶרֶץ טְמֵאָה, כְּמָה דְאַתְּ אָמַר ״וְאַתָּה עַל אֶרֶץ טְמֵאָה תָּמוּת״. אָמַר לוֹ: רִבּוֹן כָּל הָעוֹלָמִים! מָה הַנְּבוּאָה מְבִיאָה עֲלֵיהֶם עֶצֶם וּבָשָׂר, שֶׁאָכְלוּ מֵהֶם וּמֵתוּ בְּאֶרֶץ אַחֶרֶת הָיְתָה מְקָרֶבֶת ״עֶצֶם אֶל עַצְמוֹ״.
17
Rabi Yehoshua ben Korchá diz: desceu sobre eles um orvalho de ressurreição (tal techiyá) dos céus; e, como uma fonte que jorra e faz brotar água, assim brotavam e subiam sobre eles carne, ossos e tendões, como está dito: “e olhei, e eis sobre eles tendões” etc. (Yechezkel 37:8). Disse-lhe: “profetiza ao espírito (rúach)”, como está dito: “e disse-me: profetiza ao espírito ... dos quatro ventos vem, ó espírito, e sopra sobre estes mortos, e viverão” (Yechezkel 37:9). Naquela hora saíram os quatro ventos dos céus e abriram os tesouros das almas (otzrot haneshamot), e devolveu-se cada espírito ao seu corpo, como era, como está dito: “e profetizei como Ele me ordenara, e o espírito entrou neles, e viveram” (Yechezkel 37:10). Está escrito a respeito do Egito: “e os filhos de Israel frutificaram e pululavam e se fortaleceram em extremo (bime’od me’od)” (Shemot 1:7); que é “em extremo”? Assim como ali se entende seiscentos mil, também aqui seiscentos mil reviveram. E todos se ergueram sobre os seus pés, exceto um homem. Disse o profeta: “Senhor de todos os mundos, qual a natureza deste homem por que não revive?”. Disse-lhe: “emprestou a juros (néshech) e tomou com usura (tarbit); e — vivo Eu — não viverá!”. Naquela hora estavam os de Israel sentados e chorando, dizendo: “esperávamos a luz e veio a escuridão; esperávamos erguer-nos com todo o Israel na ressurreição, e agora se perdeu a nossa esperança”. Naquela hora disse o Santo, bendito seja, ao profeta: “pois dize-lhes: vivo Eu, que vos erguerei na ressurreição dos mortos no porvir e vos reunirei com todo o Israel à vossa terra”, como está dito: “eis que abrirei as vossas sepulturas e vos farei subir ... e porei em vós o Meu espírito” (Yechezkel 37:12-14).
רַבִּי יְהוֹשֻׁעַ בֶּן קָרְחָה אוֹמֵר: יָרַד עֲלֵיהֶם טַל תְּחִיָּה מִן הַשָּׁמַיִם, וּכְמַעְיָן שֶׁהוּא נוֹבֵעַ וְהוֹצִיא מַיִם, כָּךְ הָיוּ נוֹבְעִים וְעוֹלִים עֲלֵיהֶם בָּשָׂר וַעֲצָמוֹת וְגִידִים, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וְרָאִיתִי וְהִנֵּה עֲלֵיהֶם גִּידִים״ וְכוּ'. אָמַר לוֹ: ״הִנָּבֵא אֶל הָרוּחַ״, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיֹּאמֶר אֵלַי הִנָּבֵא אֶל הָרוּחַ, מֵאַרְבַּע רוּחוֹת בֹּאִי הָרוּחַ וּפְחִי בַּהֲרוּגִים הָאֵלֶּה וְיִחְיוּ״. בְּאוֹתָהּ שָׁעָה יָצְאוּ אַרְבַּע רוּחוֹת הַשָּׁמַיִם וּפָתְחוּ אוֹצְרוֹת הַנְּשָׁמוֹת וְהֶחְזִיר כָּל רוּחַ וְרוּחַ לְגוּף כַּאֲשֶׁר הָיָה, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וְהִתְנַבֵּאתִי כַּאֲשֶׁר צִוָּנִי וַתָּבוֹא בָהֶם הָרוּחַ וַיִּחְיוּ״ וְכוּ'. כָּתוּב בְּמִצְרַיִם: ״וּבְנֵי יִשְׂרָאֵל פָּרוּ וַיִּשְׁרְצוּ וַיִּרְבּוּ וַיַּעַצְמוּ בִּמְאֹד מְאֹד״, מַהוּ ״בִּמְאֹד מְאֹד״? מָה לְהַלָּן שִׁשִּׁים רִבּוֹא, אַף כָּאן שִׁשִּׁים רִבּוֹא. וְכֻלְּהוֹן עָמְדוּ עַל רַגְלֵיהוֹן חוּץ מֵאִישׁ אֶחָד. אָמַר הַנָּבִיא: ״רִבּוֹן כָּל הָעוֹלָמִים, מַה טִּיבוֹ שֶׁל זֶה הָאִישׁ?״ אָמַר לוֹ: ״בְּנֶשֶׁךְ נָתַן וּבְתַרְבִּית לָקַח. וְחַי אֲנִי – לֹא יִחְיֶה!״ בְּאוֹתָהּ שָׁעָה הָיוּ יִשְׂרָאֵל יוֹשְׁבִים וּבוֹכִים וְאוֹמְרִים: ״הָיִינוּ מְקַוִּים לְאוֹר וּבָא חֹשֶׁךְ, וְהָיִינוּ מְקַוִּים לַעֲמֹד עִם כָּל יִשְׂרָאֵל בִּתְחִיַּת הַמֵּתִים וְעַכְשָׁו אָבְדָה תִּקְוָתֵנוּ. הָיִינוּ מְקַוִּים לְהִתְקַבֵּץ עִם כָּל יִשְׂרָאֵל וְעַכְשָׁו נִגְזַרְנוּ לָנוּ״. בְּאוֹתָהּ שָׁעָה אָמַר הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא לַנָּבִיא: ״לָכֵן אֱמֹר אֲלֵיהֶם: חַי אֲנִי שֶׁאֲנִי מַעֲמִיד אֶתְכֶם בִּתְחִיַּת הַמֵּתִים לֶעָתִיד לָבוֹא וּמְקַבֵּץ אֶתְכֶם עִם כָּל יִשְׂרָאֵל לָאָרֶץ״, שֶׁנֶּאֱמַר: ״הִנֵּה אָנֹכִי פֹתֵחַ אֶת קִבְרוֹתֵיכֶם וְהַעֲלֵיתִי אֶתְכֶם וְנָתַתִּי אֶת רוּחִי בָכֶם״.
Nota — o vale dos ossos secos. A visão de Yechezkel (cap. 37) é a grande imagem da ressurreição. O Talmud (Sanhedrin 92b) debate se os ossos reviveram literalmente ou se a visão é uma parábola da restauração nacional de Israel — e ambas as leituras convivem na tradição: o renascimento do povo após o exílio e o sinal da ressurreição futura. O detalhe do homem que não revive — punido por usura (néshech) — ensina que a injustiça econômica corrói a alma. Mas a última palavra é de esperança: “eis que abrirei as vossas sepulturas” — a promessa de vida e de retorno (Yechezkel 37:12-14).

Os Sábios sobre este capítulo · פֵּרוּשִׁים

A tzedacá que dá vida

“Yitzchak semeou” — e os sábios leem: semeou caridade. O capítulo faz da tzedacá o seu fio condutor: ela “salva da morte” (Mishlei 10:2), e a sua força moral é tão real que se torna a imagem da própria ressurreição. Dar de beber ao viajante, sustentar a viúva, repartir o dízimo — esses atos, na leitura da tradição, não passam: tecem o mérito que sustenta o mundo e o próprio futuro de quem os pratica.

A ressurreição dos mortos

O capítulo encadeia os relatos bíblicos de revivificação — a viúva de Tzarefat, o menino sunamita, o morto que toca os ossos de Elishá — para firmar um princípio: D’us “faz morrer e faz viver” (Shmuel I 2:6), e a techiyat hametim é parte da fé (Rambam, 13 princípios). Os profetas não têm poder próprio; são instrumentos. E a prova mais serena vem da natureza: o grão semeado nu ressurge vestido.

Ein Dor e os limites do permitido

O episódio de Shaul em Ein Dor exige cuidado: a Torá proíbe a necromancia (Devarim 18:11), e a tradição racionalista nela vê engano, não poder verdadeiro. Os sábios leem a cena como repreensão ao próprio Shaul — que abolira tais práticas e a elas recorreu — e não como aprovação. A vida e a morte estão na mão de D’us, não na do adivinho.

Os ossos secos e a esperança

A visão de Yechezkel coroa o capítulo. Lida como parábola da restauração de Israel (Sanhedrin 92b) e como sinal da ressurreição futura, ela nasce, significativamente, da geração que falhara em Dura — pois a tradição não esconde os seus erros, e ensina que nem a queda fecha a porta da esperança. O homem que não revive, punido pela usura, lembra que a injustiça custa caro; mas a promessa final — “abrirei as vossas sepulturas” — é de vida e de retorno.

Sobre esta tradução

Texto hebraico: edição vocalizada de domínio público de Pirkei deRabbi Eliezer (Sefaria). A tradução ao português foi feita a partir do hebraico e cotejada com a tradução inglesa de G. Friedlander (Londres, 1916, domínio público). Pequenos acréscimos entre colchetes esclarecem o sentido; alguns trechos (em especial o final do §15) são textualmente obscuros e foram traduzidos com cautela. Passagens delicadas foram vertidas com discrição.

A tradução, as notas e a coletânea de perushim (apoiada em comentadores clássicos, como o Radal — Rabi David Luria) são originais. A necromancia (§9, §12) é proibida pela Torá e enquadrada nas notas. Eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.