Pirkei deRabbi Eliezer · Capítulo 32

Os nomes anunciados e a bênção de Yaakov

פֶּרֶק ל״ב
Hebraico (domínio público) · tradução do hebraico cotejada com o inglês · PT-BR

Nomes e destino. Seis foram chamados pelo nome antes mesmo de nascer — entre eles, o Mashiach. Depois o capítulo passa à geração seguinte: a morte de Sará, o casamento de Yitzchak com Rivka, o nascimento dos gêmeos que lutam desde o ventre e a noite das bênçãos — onde a Torá ensina que a verdadeira força de Yaakov é “a voz”, não “as mãos”.

1
Seis foram chamados pelos seus nomes antes de nascerem, e são estes: Yitzchak, Yishmael, Moshe, nosso mestre, Shlomo, Yoshiyahu, e o nome do Mashiach, que o Santo, bendito seja, há de trazer em breve, em nossos dias.
שִׁשָּׁה נִקְרְאוּ בִּשְׁמוֹתָן עַד שֶׁלֹּא נוֹלְדוּ, וְאֵלּוּ הֵן: יִצְחָק, וְיִשְׁמָעֵאל, וּמֹשֶׁה רַבֵּינוּ, וּשְׁלֹמֹה, וְיֹאשִׁיָּהוּ, וּשְׁמוֹ שֶׁל מָשִׁיחַ שֶׁיָּבִיא הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא בִּמְהֵרָה בְיָמֵינוּ.
2
Yitzchak, de onde? Do que está dito: “e chamarás o seu nome Yitzchak” (Bereshit 17:19). E por que foi chamado o seu nome Yitzchak יצחק? O yod (=10) — as dez provações com que foi provado Avraham, nosso pai; o tzadi (=90) — os noventa anos que tinha Sará, nossa mãe; o chet (=8) — os oito dias em que foi circuncidado; o kuf (=100) — os cem anos que tinha Avraham, nosso pai, como está dito: “e Avraham tinha cem anos quando lhe nasceu Yitzchak, seu filho” (Bereshit 21:5).
יִצְחָק מִנַּיִן? שֶׁנֶּאֱמַר: ״וְקָרָאתָ אֶת שְׁמוֹ יִצְחָק״. וְלָמָּה נִקְרָא שְׁמוֹ יִצְחָק? י' – עֲשָׂרָה נִסְיוֹנוֹת שֶׁנִּתְנַסָּה אַבְרָהָם אָבִינוּ. צ' – תִּשְׁעִים שָׁנָה, שֶׁהָיְתָה שָׂרָה אִמֵּנוּ בַּת תִּשְׁעִים. ח' – לִשְׁמוֹנָה יָמִים שֶׁנִּמּוֹל. ק' – מֵאָה שָׁנָה שֶׁהָיוּ לְאַבְרָהָם אָבִינוּ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וְאַבְרָהָם בֶּן מְאַת שָׁנָה״.
3
Yishmael, de onde? Do que está dito: “e chamarás o seu nome Yishmael” (Bereshit 16:11). E por que foi chamado o seu nome Yishmael? Porque o Santo, bendito seja, há de ouvir (yishmá) o clamor do povo, aflito pelo que os filhos de Yishmael viriam a fazer na terra no fim dos dias. Por isso foi chamado o seu nome Yishmael, como está dito: “D’us ouvirá (yishmá El) e os responderá” (Tehilim 55:20).
יִשְׁמָעֵאל מִנַּיִן? שֶׁנֶּאֱמַר: ״וְקָרָאת שְׁמוֹ יִשְׁמָעֵאל״. וְלָמָּה נִקְרָא שְׁמוֹ יִשְׁמָעֵאל? שֶׁעָתִיד הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא לִשְׁמֹעַ נַאֲקַת הָעָם מִמַּה שֶּׁעֲתִידִין בְּנֵי יִשְׁמָעֵאל לַעֲשׂוֹת בָּאָרֶץ בְּאַחֲרִית הַיָּמִים. לְפִיכָךְ נִקְרָא שְׁמוֹ יִשְׁמָעֵאל, שֶׁנֶּאֱמַר: ״יִשְׁמַע אֵל וְיַעֲנֵם״.
Nota — o nome “Yishmael” e a leitura responsável. O nome significa “D’us ouvirá” (yishmá El). O midrash, composto na era das primeiras conquistas árabes, lê nele também o clamor por socorro em meio à turbulência daquele tempo — uma leitura apocalíptica do seu próprio momento histórico, não um juízo sobre qualquer povo de hoje (ver a nota detalhada no cap. 30). O sentido raiz permanece luminoso: D’us ouve — o grito do aflito não passa despercebido ao Céu.
4
Moshe, de onde? Do que está dito: “não contenderá o Meu espírito com o homem para sempre, porquanto (beshagam) ele também é carne” (Bereshit 6:3). “Beshagam” בשגם, em valor numérico, equivale a “Moshe” (345), cujos dias foram cento e vinte anos, como está dito: “e os seus dias serão cento e vinte anos” (ibid.).
מֹשֶׁה מִנַּיִן? שֶׁנֶּאֱמַר: ״לֹא יָדוֹן רוּחִי בָאָדָם לְעוֹלָם בְּשַׁגַּם״. בְּשַׁגַּם בְּגִימַטְרִיָּא מֹשֶׁה, שֶׁהָיוּ חַיָּיו מֵאָה וְעֶשְׂרִים שָׁנָה, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וְהָיוּ יָמָיו מֵאָה וְעֶשְׂרִים שָׁנָה״.
5
Shlomo, de onde? Do que está dito: “eis que te nascerá um filho ... Shlomo será o seu nome” (Divrei haYamim I 22:9). E por que foi chamado o seu nome Shlomo? Pelo que está dito: “paz (shalom) e tranquilidade darei a Israel nos seus dias” (ibid.).
שְׁלֹמֹה מִנַּיִן? שֶׁנֶּאֱמַר: ״הִנֵּה בֵן נוֹלָד לָךְ (וְקָרָאתָ אֶת שְׁמוֹ שְׁלֹמֹה) [כִּי שְׁלֹמֹה יִהְיֶה שְׁמוֹ]״. וְלָמָּה נִקְרָא שְׁמוֹ שְׁלֹמֹה בִּלְשׁוֹן אֲרַמִּית? עַל שֵׁם שֶׁנֶּאֱמַר: ״שָׁלוֹם וָשֶׁקֶט אֶתֵּן עַל יִשְׂרָאֵל בְּיָמָיו״.
6
Yoshiyahu, de onde? Do que está dito: “eis que nascerá um filho à casa de David, Yoshiyahu será o seu nome” (Melachim I 13:2). E por que foi chamado o seu nome Yoshiyahu? Porque foi aceito como dádiva agradável ao altar — “yaê shai hu” (formosa dádiva é ele) diante de Ti.
יֹאשִׁיָּהוּ מִנַּיִן? שֶׁנֶּאֱמַר: ״הִנֵּה בֵן נוֹלָד לְבֵית דָּוִד, יֹאשִׁיָּהוּ שְׁמוֹ״. וְלָמָּה נִקְרָא שְׁמוֹ יֹאשִׁיָּהוּ? שֶׁנִּרְצָה כְּשַׁי לַמִּזְבֵּחַ, יָאֵי שַׁי הוּ לְפָנֶיךָ.
7
O Rei Mashiach, de onde? Do que está dito: “diante do sol, o seu nome se perpetuará (yinnon)” (Tehilim 72:17). E por que foi chamado o seu nome Yinnon? Porque ele há de reavivar (leyanen) os que dormem no pó.
מֶלֶךְ הַמָּשִׁיחַ מִנַּיִן? שֶׁנֶּאֱמַר: ״לִפְנֵי שֶׁמֶשׁ יִנּוֹן שְׁמוֹ״. וְלָמָּה נִקְרָא שְׁמוֹ יִנּוֹן? שֶׁהוּא עָתִיד לְיַנֵּן יְשֵׁנֵי עָפָר.
8
E, quando Avraham voltou do monte Moriá, irou-se Samael a força acusadora, ao ver que não lograra o desejo do seu coração de anular a oferenda de Avraham. Que fez? Foi e disse a Sará: “ó Sará, não ouviste o que se fez no mundo?”. Disse-lhe ela: “não”. Disse-lhe: “o teu velho marido tomou o jovem Yitzchak e o ofereceu em holocausto, e o jovem chorava e gemia, sem poder salvar-se”. Imediatamente ela começou a chorar e a gemer: chorou três prantos, correspondentes aos três toques do shofar, e três gemidos, correspondentes às três notas entrecortadas (yevavot); e voou a sua alma e morreu.
וּכְשֶׁבָּא אַבְרָהָם מֵהַר הַמּוֹרִיָּה, חָרָה אַפּוֹ שֶׁל סָמָאֵל, שֶׁרָאָה שֶׁלֹּא עָלְתָה בְּיָדוֹ תַּאֲוַת לִבּוֹ לְבַטֵּל קָרְבָּנוֹ שֶׁל אַבְרָהָם. מֶה עָשָׂה? הָלַךְ וְאָמַר לְשָׂרָה: ״אִי שָׂרָה, לֹא שָׁמַעַתְּ מַה שֶּׁנַּעֲשָׂה בָּעוֹלָם?״ אָמְרָה לוֹ: ״לָאו״. אָמַר לָהּ: ״לָקַח אִישֵׁךְ הַזָּקֵן לַנַּעַר יִצְחָק וְהִקְרִיבוֹ לְעוֹלָה, וְהַנַּעַר בּוֹכֶה וּמְיַלֵּל שֶׁלֹּא יָכוֹל לְהִנָּצֵל״. מִיָּד הִתְחִילָה בּוֹכָה וּמְיַלֶּלֶת, בָּכְתָה שָׁלֹשׁ בְּכִיּוֹת כְּנֶגֶד שָׁלֹשׁ תְּקִיעוֹת, שָׁלֹשׁ יְלָלוֹת כְּנֶגֶד שָׁלֹשׁ יְבָבוֹת, וּפָרְחָה נִשְׁמָתָהּ וּמֵתָה.
Nota — a morte de Sará e o som do shofar. Samael (a “força acusadora”) leva a Sará a notícia, descrita de modo cruel, de que Yitzchak fora sacrificado — e o choque a mata. A tradição extrai daqui o quanto uma palavra pode ferir e até matar. E há um fio comovente: os três prantos e os três gemidos de Sará são ligados, pelos sábios, às notas do shofar (os toques inteiros e as notas entrecortadas). Assim a Akedá, a morte de Sará e o shofar de Rosh haShaná se entrelaçam: o som que tocamos carrega a memória do amor e da dor dos patriarcas. (“Samael” é, na leitura racionalista, a imagem da acusação e da crueldade, não um demônio literal.)
9
Veio Avraham, nosso pai, e a encontrou morta, como está dito: “e veio Avraham para prantear Sará e para chorá-la” (Bereshit 23:2). De onde veio? Do monte Moriá.
בָּא אַבְרָהָם אָבִינוּ וּמְצָאָהּ שֶׁמֵּתָה, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיָּבֹא אַבְרָהָם לִסְפֹּד לְשָׂרָה וְלִבְכֹּתָהּ״. מֵהֵיכָן בָּא? מֵהַר הַמּוֹרִיָּה.
10
Rabi Yossi diz: três anos fez Yitzchak luto por Sará, sua mãe. Depois de três anos, tomou Rivka e consolou-se do luto de sua mãe. Daqui aprendes: antes de o homem tomar esposa, o seu amor segue os seus pais; tomada a esposa, o seu amor segue a sua esposa, como está dito: “por isso o homem deixa o seu pai e a sua mãe e se apega à sua mulher” (Bereshit 2:24). E acaso deixa o homem o seu pai e a sua mãe eximindo-se da mitsvá de honrá-los? Não, mas que o amor da sua alma se apega à sua esposa, como está dito: “e se apega à sua mulher”.
רַבִּי יוֹסֵי אוֹמֵר: שָׁלֹשׁ שָׁנִים עָשָׂה יִצְחָק אֵבֶל עַל שָׂרָה אִמּוֹ. לְאַחַר שָׁלֹשׁ שָׁנִים לָקַח אֶת רִבְקָה וְשָׁכַח אֵבֶל אִמּוֹ. מִכָּאן אַתָּה לָמֵד, עַד שֶׁלֹּא לָקַח אָדָם אִשָּׁה, אַהֲבָתוֹ הוֹלֶכֶת אַחַר הוֹרָיו. לָקַח אִשָּׁה, אַהֲבָתוֹ הוֹלֶכֶת אַחַר אִשְׁתּוֹ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״עַל כֵּן יַעֲזֹב אִישׁ אֶת אָבִיו וְאֶת אִמּוֹ וְדָבַק בְּאִשְׁתּוֹ״. וְכִי יַעֲזֹב אִישׁ אֶת אָבִיו וְאֶת אִמּוֹ מִמִּצְוַת כִּבּוּד? אֶלָּא שֶׁאַהֲבַת נַפְשׁוֹ דּוֹבֶקֶת אַחֲרֵי אִשְׁתּוֹ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וְדָבַק בְּאִשְׁתּוֹ״.
Nota — o amadurecimento do amor. Yitzchak consola-se do luto por Sará ao casar-se com Rivka, e daqui os sábios leem o versículo “por isso o homem deixa o pai e a mãe e se apega à sua mulher” (Bereshit 2:24): não que cesse a honra devida aos pais (que é mitsvá perene), mas que o vínculo central do amor adulto passa a ser o do casamento (cf. o ensaio sobre o casamento como aliança). O amor não se perde — amadurece e se redireciona.
11
Rabi Yehudá diz: vinte anos foi Rivka estéril. Depois de vinte anos, tomou-a Yitzchak e foi com ela ao monte Moriá, ao lugar em que fora ligado, e orou pela concepção, e D’us o atendeu, como está dito: “e o Eterno o atendeu” etc. (Bereshit 25:21). Veio a dar à luz, e, pelas suas dores, a sua alma chegou a querer morrer, e foi orar num lugar puro, como está dito: “e foi consultar o Eterno” (Bereshit 25:22). E os filhos estavam no seu ventre como poderosos em força, como está dito: “e os filhos se empurravam dentro dela” (ibid.). Que fez Yaakov, nosso pai? Segurou o calcanhar de Esav, para o derrubar, como está dito: “e a sua mão segurava o calcanhar de Esav” (Bereshit 25:26). Daqui aprendes que os filhos de Esav não cairão até que venha um remanescente de Yaakov e corte os pés de Esav do monte Seir, como está dito: “estiveste olhando, até que uma pedra se desprendeu sem auxílio de mãos” (Daniel 2:34); e outro escrito diz: “Minha é a vingança e a retribuição, ao tempo em que resvalar o seu pé” (Devarim 32:35).
רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר: עֶשְׂרִים שָׁנָה הָיְתָה רִבְקָה עֲקָרָה. לְאַחַר עֶשְׂרִים שָׁנָה לָקַח יִצְחָק וְהָלַךְ עִמָּהּ לְהַר הַמּוֹרִיָּה לַמָּקוֹם שֶׁנֶּעֱקַד שָׁם, וְהִתְפַּלֵּל עַל הַהֵרָיוֹן וְנֶעְתַּר לוֹ, שֶׁנֶּאֱמַר ״וַיֵּעָתֶר לוֹ ה'״ וְכוּ'. בָּאָה לָלֶדֶת וּמֵחֶבְלֶיהָ הִגִּיעָה נַפְשָׁהּ לָמוּת, וְהָלְכָה לְהִתְפַּלֵּל בְּמָקוֹם טָהוֹר, שֶׁנֶּאֱמַר ״וַתֵּלֶךְ לִדְרֹשׁ אֶת ה'״. וְהָיוּ הַבָּנִים בְּתוֹךְ מֵעֶיהָ כְּגִבּוֹרֵי כֹּחַ, שֶׁנֶּאֱמַר ״וַיִּתְרֹצְצוּ הַבָּנִים בְּקִרְבָּהּ״. מֶה עָשָׂה יַעֲקֹב אָבִינוּ? אָחַז בַּעֲקֵב עֵשָׂו לְהַפִּילוֹ, שֶׁנֶּאֱמַר ״וְיָדוֹ אֹחֶזֶת בַּעֲקֵב עֵשָׂו״. מִכָּאן אַתָּה לָמֵד שֶׁאֵין בְּנֵי עֵשָׂו נוֹפְלִים עַד שֶׁיָּבֹא שָׂרִיד מִיַּעֲקֹב וִיקַצֵּץ רַגְלָיו שֶׁל עֵשָׂו מֵהַר שֵׂעִיר, שֶׁנֶּאֱמַר ״חָזֵה הֲוֵית עַד דִּי הִתְנְזֶרֶת אֶבֶן״. וְכָתוּב אַחֵר אוֹמֵר ״לִי נָקָם וְשִׁלֵּם לְעֵת תָּמוּט רַגְלָם״.
12
Disse Rabi Acha: “cresceram os jovens” (Bereshit 25:27) — este foi pelo caminho da vida e aquele pelo caminho da morte. Yaakov, nosso pai, foi pelo caminho da vida, pois habitava em tendas e se ocupava da Torá todos os seus dias; e Esav, o ímpio, ia pelo caminho da morte, chegando a querer matar Yaakov, nosso pai, como está dito: “aproximam-se os dias de luto de meu pai, e então matarei Yaakov, meu irmão” (Bereshit 27:41).
אָמַר רַבִּי אַחָא: גָּדְלוּ הַנְּעָרִים, זֶה הָלַךְ בְּדֶרֶךְ חַיִּים וְזֶה הָלַךְ בְּדֶרֶךְ הַמָּוֶת, שֶׁנֶּאֱמַר ״וַיִּגְדְּלוּ הַנְּעָרִים״. יַעֲקֹב אָבִינוּ הָלַךְ בְּדֶרֶךְ הַחַיִּים, שֶׁהָיָה יוֹשֵׁב אֹהָלִים וְעוֹסֵק בַּתּוֹרָה כָּל יָמָיו, וְעֵשָׂו הָרָשָׁע הָיָה הוֹלֵךְ בְּדֶרֶךְ הַמָּוֶת, לַהֲרֹג אֶת יַעֲקֹב אָבִינוּ, שֶׁנֶּאֱמַר ״יִקְרְבוּ יְמֵי אֵבֶל אָבִי וְאַהַרְגָה אֶת יַעֲקֹב אָחִי״.
Nota — Esav, “Edom” e os dois caminhos. A contenda dos gêmeos é lida como o contraste de dois caminhos: Yaakov, “que habita em tendas e se ocupa da Torá” (o caminho da vida); Esav, que busca a violência (o caminho da morte) — e isso tem base no próprio texto (Esav quis matar Yaakov, Bereshit 27:41). Na linguagem dos sábios, “Esav/Edom” veio a designar também o poder imperial hostil (Roma e seus herdeiros), e não um povo vivo de hoje. O ensino é moral, não étnico: a oposição é entre a via da sabedoria e a via da força bruta.
13
Rabi Shimon diz: no momento em que Yitzchak foi ligado na Akedá, ergueu os olhos para o alto e viu a Shechiná; ora, está escrito: “porque o homem não Me verá e viverá” (Shemot 33:20). Como Yitzchak não morreu então, em lugar da morte, os seus olhos se ofuscaram na velhice, como está dito: “e sucedeu que, sendo Yitzchak velho, os seus olhos se ofuscaram, de modo que não via” (Bereshit 27:1). Daqui aprendes que o cego é considerado como se já tivesse provado a morte.
רַבִּי שִׁמְעוֹן אוֹמֵר: בְּשָׁעָה שֶׁנֶּעֱקַד יִצְחָק, נָשָׂא אֶת עֵינָיו לְמַעְלָה וְרָאָה אֶת הַשְּׁכִינָה, וְכָתוּב ״כִּי לֹא יִרְאַנִי הָאָדָם וָחָי״. אֶלָּא תַּחַת הַמִּיתָה כָּהוּ עֵינָיו לְעֵת זִקְנָתוֹ, שֶׁנֶּאֱמַר ״וַיְהִי כִּי זָקֵן יִצְחָק וַתִּכְהֶיןָ עֵינָיו מֵרְאוֹת״. מִכָּאן אַתָּה לָמֵד שֶׁהַסּוּמָא חָשׁוּב כְּמֵת.
14
Chegou a noite do dia de Pessach, e Yitzchak chamou Esav, seu filho mais velho, e disse-lhe: “meu filho, nesta noite o mundo inteiro recita o Halel, e os tesouros dos orvalhos se abrem nesta noite; faze-me um prato saboroso, para que, enquanto ainda vivo, eu te abençoe”. E o espírito santo responde e diz: “não comas o pão do homem de olhar mau avarento” (Mishlei 23:6). Foi Esav buscar a caça e demorou-se ali. Disse Rivka a Yaakov: “meu filho, nesta noite os tesouros dos orvalhos se abrem, os seres supernos entoam cânticos; nesta noite os teus filhos hão de ser redimidos da servidão, nesta noite hão de entoar o cântico. Faze um prato saboroso a teu pai, para que, enquanto ainda vivo, ele te abençoe”.
הִגִּיעַ לֵיל יוֹם הַפֶּסַח, וְקָרָא יִצְחָק לְעֵשָׂו בְּנוֹ הַגָּדוֹל וְאָמַר לוֹ: ״בְּנִי, זֶה הַלַּיְלָה כָּל הָעוֹלָם כֻּלּוֹ אוֹמְרִים בּוֹ הַלֵּל, וְאוֹצָרוֹת טְלָלִים נִפְתָּחִים בְּזוֹ הַלַּיְלָה. עֲשֵׂה לִי מַטְעַמִּים, עַד שֶׁאֲנִי בְּעוֹדִי אֲבָרֶכְךָ״. וְרוּחַ הַקֹּדֶשׁ מְשִׁיבָה וְאוֹמֶרֶת: ״אַל תִּלְחַם אֶת לֶחֶם רַע עַיִן״. הָלַךְ לְהָבִיא וְנִתְעַכֵּב שָׁם. אָמְרָה רִבְקָה לְיַעֲקֹב: ״בְּנִי, הַלַּיְלָה הַזֶּה אוֹצָרוֹת טְלָלִים נִפְתָּחִים בּוֹ, הָעֶלְיוֹנִים אוֹמְרִין שִׁירָה. הַלַּיְלָה הַזֶּה עֲתִידִין בָּנֶיךָ לְהִגָּאֵל מִיַּד שִׁעְבּוּד, הַלַּיְלָה הַזֶּה עֲתִידִין לוֹמַר שִׁירָה. עֲשֵׂה מַטְעַמִּים לְאָבִיךָ עַד שֶׁהוּא בְּעוֹדוֹ יְבָרֶכְךָ״.
15
Yaakov era versado na Torá, e o seu coração temeu a maldição de seu pai. Disse-lhe a sua mãe: “meu filho, se vierem bênçãos, sobre ti e sobre a tua descendência; e, se maldições, sobre mim e sobre a minha alma”, como está dito: “sobre mim recaia a tua maldição, meu filho” (Bereshit 27:13). Foi e trouxe dois cabritos. E acaso dois cabritos eram a refeição de Yitzchak — não lhe bastaria um, como está dito “o justo come para saciar a sua alma” (Mishlei 13:25)? Mas um era para o cordeiro de Pessach e o outro para fazer-lhe o prato saboroso de comer — pois aprendemos que o sacrifício de Pessach só se come sobre o estômago saciado. Entrou e disse-lhe: “levanta-te, assenta-te e come da minha caça”. Disse Yitzchak: “a voz é a voz de Yaakov” — na proclamação da unidade do Nome de D’us; “a voz é a voz de Yaakov” — no estudo da Torá; “e as mãos são as mãos de Esav” — em todo derramamento de sangue e em toda violência. E não só isso: quando se proclama nos céus “a voz é a voz de Yaakov”, os céus estremecem; e, quando se proclama na terra, todo aquele que ouve e cumpre a Torá tem a sua parte com “a voz de Yaakov”, e todo aquele que não ouve nem cumpre tem a sua parte com “as mãos de Esav”.
יַעֲקֹב הָיָה בָּקִי בַּתּוֹרָה, פָּחַד לִבּוֹ עַל קִלְלַת אָבִיו. אָמְרָה לוֹ אִמּוֹ: ״בְּנִי, בְּרָכוֹת – עָלֶיךָ וְעַל זַרְעֲךָ, וְאִם קְלָלוֹת – עָלַי וְעַל נַפְשִׁי״, שֶׁנֶּאֱמַר: ״עָלַי קִלְלָתְךָ בְּנִי״. הָלַךְ וְהֵבִיא שְׁנֵי גְּדָיֵי עִזִּים, וְכִי שְׁנֵי גְּדָיֵי עִזִּים הָיָה מַאֲכָלוֹ שֶׁל יִצְחָק? וַהֲלֹא דַּי לוֹ בְּאֶחָד, שֶׁנֶּאֱמַר: ״צַדִּיק אֹכֵל לְשֹׂבַע נַפְשׁוֹ״. אֶלָּא אֶחָד כְּנֶגֶד הַפֶּסַח וְאֶחָד לַעֲשׂוֹת לוֹ מַטְעַמִּים לֶאֱכֹל, דְּתָנִינַן הַפֶּסַח אֵינוֹ בָּא אֶלָּא עַל הַשָּׂבַע. נִכְנַס וְאָמַר לוֹ: ״קוּם נָא שְׁבָה וְאָכְלָה מִצֵּידִי״. אָמַר יִצְחָק: ״הַקֹּל קוֹל יַעֲקֹב״ בְּיִחוּד הַשֵּׁם, ״הַקֹּל קוֹל יַעֲקֹב״ בְּהֶגְיוֹן תּוֹרָה, ״וְהַיָּדַיִם יְדֵי עֵשָׂו״ בְּכָל שְׁפִיכוּת דָּמִים וּבְכָל מָוֶת רַע. וְלֹא עוֹד, אֶלָּא כְּשֶׁמַּכְרִיזִין בַּשָּׁמַיִם ״הַקֹּל קוֹל יַעֲקֹב״, הַשָּׁמַיִם רוֹעֲשִׁים, וּכְשֶׁמַּכְרִיזִין בָּאָרֶץ ״הַקֹּל קוֹל יַעֲקֹב״, כָּל מִי שֶׁהוּא שׁוֹמֵעַ וְעוֹשֶׂה חֶלְקוֹ עִם ״הַקֹּל קוֹל יַעֲקֹב״, וְכָל מִי שֶׁאֵינוֹ שׁוֹמֵעַ וְאֵינוֹ עוֹשֶׂה חֶלְקוֹ עִם ״הַיָּדַיִם יְדֵי עֵשָׂו״.
Nota essencial — “a voz é a voz de Yaakov”. Eis o coração do capítulo. Yitzchak distingue duas forças: a voz (de Yaakov) e as mãos (de Esav). A força de Israel está na voz — na Torá, na oração, na proclamação da unidade de D’us, na palavra que apela à verdade —, não nas mãos, na violência. É uma das mais profundas afirmações da tradição: o poder do espírito sobre a força bruta. Quanto à tomada da bênção: os sábios observam que Yaakov, “versado na Torá”, temia agir assim — não é um trapaceiro por índole; Rivka age guiada pela palavra que recebera, “o maior servirá o menor” (Bereshit 25:23), e a bênção recai sobre quem trilha “o caminho da vida”.
16
Rabi Yehudá diz: dez bênçãos abençoou Yitzchak a Yaakov — sobre os orvalhos dos céus e sobre o trigo da terra —, correspondentes às dez palavras (maamarot) com que o mundo foi criado, como está dito: “D’us te dê do orvalho dos céus e da gordura da terra, e abundância de trigo e mosto” etc. (Bereshit 27:28). E, quando Yaakov saiu de diante de Yitzchak, seu pai, saiu coroado como um noivo e como uma noiva nos seus adornos; e desceu sobre ele um orvalho de vida dos céus, e revigoraram-se os seus ossos, e tornou-se também ele um homem de força e poder; por isso se diz: “pelas mãos do Poderoso de Yaakov, dali vem o Pastor, a Pedra de Israel” (Bereshit 49:24).
רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר: עֲשָׂרָה בְרָכוֹת בֵּרַךְ יִצְחָק לְיַעֲקֹב, עַל טַלְלֵי שָׁמַיִם וְעַל דְּגַן הָאָרֶץ, כְּנֶגֶד עֲשָׂרָה מַאֲמָרוֹת שֶׁבָּהֶם נִבְרָא הָעוֹלָם, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וְיִתֶּן לְךָ הָאֱלֹהִים מִטַּל הַשָּׁמַיִם״ וְכוּ'. וּכְשֶׁיָּצָא יַעֲקֹב מֵאֵת פְּנֵי יִצְחָק אָבִיו, יָצָא מְעֻטָּר כְּחָתָן וְכַכַּלָּה בְּקִשּׁוּרֶיהָ, וְיָרַד עָלָיו תְּחִיַּת טַל מִן הַשָּׁמַיִם, וְנִדְשְׁנוּ עַצְמוֹתָיו וְנַעֲשָׂה גַּם הוּא גִּבּוֹר חַיִל וָכֹחַ, לְכָךְ נֶאֱמַר: ״מִידֵי אֲבִיר יַעֲקֹב מִשָּׁם רֹעֶה אֶבֶן יִשְׂרָאֵל״.

Os Sábios sobre este capítulo · פֵּרוּשִׁים

Os nomes anunciados antes do nascimento

Seis nomes foram dados antes de quem os levaria existir — culminando no nome do Mashiach. Os sábios leem nas letras desses nomes um sentido (a guematria de “Yitzchak”, de “beshagam” = Moshe): não como um código cifrado, mas como derash — um modo de extrair significado e ligar o nome ao destino e à missão de cada um. O capítulo ensina que há, na história, um desígnio: certos homens vêm ao mundo com um chamado já inscrito, e o último deles trará a redenção e “reavivará os que dormem no pó”.

A morte de Sará e o shofar

Sará morre ao ouvir, de modo cruel, a notícia da Akedá — lição sobre o poder mortífero de uma palavra. E os seus prantos e gemidos são ligados, pela tradição, às notas do shofar: a Akedá, a morte de Sará e o toque de Rosh haShaná entrelaçam-se. Avraham desce do monte Moriá e a encontra já partida — e é assim que se abre a parashá de Chayei Sará, “a vida de Sará”, justamente ao narrar a sua morte: porque o valor de uma vida não se mede pela sua duração, mas pelo que ela deixa.

“A voz é a voz de Yaakov”

O ponto culminante. Yitzchak, mesmo sem ver, distingue a essência: a voz de Yaakov — Torá, oração, a unidade de D’us — e as mãos de Esav — a violência. Para os sábios, esta é a vocação de Israel: vencer pela palavra e pelo espírito, não pela força. “Quando a voz de Yaakov se faz ouvir, as mãos de Esav não prevalecem.” É um programa moral para todas as gerações.

A bênção e a providência

O episódio da bênção é delicado, e a tradição o lê à luz da providência: Rivka recebera a palavra “o maior servirá o menor” (Bereshit 25:23), e Yaakov — que “temia a maldição” — é, dos dois, o que trilha “o caminho da vida”. As dez bênçãos do orvalho e do trigo correspondem às dez palavras da criação: a bênção que recai sobre Yaakov é a do mundo bem-ordenado, confiado a quem o serve com a voz, e não com a espada.

Sobre esta tradução

Texto hebraico: edição vocalizada de domínio público de Pirkei deRabbi Eliezer (Sefaria). A tradução ao português foi feita a partir do hebraico e cotejada com a tradução inglesa de G. Friedlander (Londres, 1916, domínio público). Pequenos acréscimos entre colchetes esclarecem o sentido.

As designações “Yishmael” e “Esav/Edom”, nas passagens de tom apocalíptico, são termos histórico-simbólicos do midrash e não juízos sobre povos contemporâneos (ver as notas). A tradução, as notas e os perushim (apoiados em comentadores clássicos, como o Radal — Rabi David Luria) são originais. Eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.