Pirkei deRabbi Eliezer · Capítulo 31

A Ligação de Yitzchak (Akedat Yitzchak): a prova suprema

פֶּרֶק ל״א
Hebraico (domínio público) · tradução do hebraico cotejada com o inglês · PT-BR

A décima e maior provação. D’us pede a Avraham o que ele tem de mais querido — e Avraham, que discutira por Sodoma, aqui obedece em silêncio. Mas a história não termina em sangue: um anjo detém o cutelo, um carneiro toma o lugar de Yitzchak, e a Torá proclama, para todas as gerações, que D’us não quer o sacrifício humano. Pai e filho descem do monte vivos.

1
A décima provação: “e sucedeu, depois destas coisas, que D’us provou Avraham” etc. (Bereshit 22:1). D’us o provava a cada vez, para conhecer o seu coração — se seria capaz de se manter firme e guardar os mandamentos da Torá, ou não. E, ainda antes de a Torá ser dada, Avraham guardou os seus mandamentos, como está dito: “porque (ékev) Avraham ouviu a Minha voz e guardou a Minha guarda, os Meus mandamentos, os Meus estatutos e as Minhas leis” (Bereshit 26:5). E Yishmael saíra do deserto para ver Avraham, seu pai.
הַנִּסָּיוֹן הָעֲשִׂירִי, ״וַיְהִי אַחַר הַדְּבָרִים הָאֵלֶּה וְהָאֱלֹהִים נִסָּה אֶת אַבְרָהָם״ וְכוּ', הָיָה מְנַסֶּה בְּכָל פַּעַם וּפַעַם לֵידַע אֶת לִבּוֹ אִם יָכוֹל לַעֲמֹד וְלִשְׁמֹר הַמִּצְווֹת שֶׁל תּוֹרָה וְאִם לָאו. וְעַד שֶׁנִּתְּנָה הַתּוֹרָה שָׁמַר אַבְרָהָם מִצְווֹתֶיהָ, שֶׁנֶּאֱמַר ״עֵקֶב אֲשֶׁר שָׁמַע אַבְרָהָם בְּקוֹלִי״. וַיֵּצֵא יִשְׁמָעֵאל מִן הַמִּדְבָּר לִרְאוֹת אֶת אַבְרָהָם אָבִיו.
2
Rabi Yehudá diz: naquela noite revelou-se-lhe o Santo, bendito seja, e disse-lhe: “Avraham, toma agora o teu filho”. E Avraham, compadecido de Yitzchak, disse perante Ele: “Senhor de todos os mundos, a respeito de qual filho me ordenas? Ao filho incircunciso Yishmael ou ao filho da circuncisão Yitzchak?”. Disse-lhe: “o teu único”. Disse-lhe: “este é único para a sua mãe e aquele é único para a sua mãe”. Disse-lhe: “aquele que amas”. Disse-lhe: “a ambos eu amo”. Disse-lhe: “a Yitzchak”.
רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר: בְּאוֹתָהּ הַלַּיְלָה נִגְלָה הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא עָלָיו וְאָמַר לוֹ, ״אַבְרָהָם, קַח נָא אֶת בִּנְךָ״. וְאַבְרָהָם חָס עַל יִצְחָק, אָמַר לְפָנָיו: ״רִבּוֹן כָּל הָעוֹלָמִים, לְאֵי זֶה בֵּן אַתָּה גּוֹזֵר אֵלַי? לַבֵּן הֶעָרֵל אוֹ לַבֵּן הַמִּילָה?״ אָמַר לוֹ: ״אֶת יְחִידְךָ״. אָמַר לוֹ: ״זֶה יָחִיד לְאִמּוֹ וְזֶה יָחִיד לְאִמּוֹ״. אָמַר לוֹ: ״אֲשֶׁר אָהַבְתָּ״. אָמַר לוֹ: ״שְׁנֵיהֶם אֲנִי אוֹהֵב״. אָמַר לוֹ: ״אֶת יִצְחָק״.
Nota — o sentido da provação. Por que D’us “prova” quem tudo sabe? Os sábios e o Rambam explicam que a provação não serve para D’us descobrir algo, mas para revelar e realizar a grandeza de Avraham — fazê-la passar do potencial ao ato, como modelo para as gerações (cf. o cap. 26). O diálogo, em que D’us nomeia o filho aos poucos (“o teu filho, o teu único, aquele que amas, Yitzchak”), não é tormento gratuito: é o modo de o texto medir, palavra a palavra, a gravidade do que se pede — e a serenidade com que Avraham a recebe.
3
“E oferece-o ali em holocausto” (Bereshit 22:2). Disse-lhe: “Senhor de todos os mundos, em qual monte me disseste?”. Disse-lhe: “no lugar em que vires a Minha Glória de pé, esperando por ti; ali se dirá: este é o monte Moriá”, como está dito: “sobre um dos montes que Eu te direi” (Bereshit 22:2).
וְהַעֲלֵהוּ שָׁם לְעוֹלָה, אָמַר לוֹ: ״רִבּוֹן כָּל הָעוֹלָמִים, בְּאֵי זֶה הַר אָמַרְתָּ לִי?״ אָמַר לוֹ: ״בְּכָל מָקוֹם שֶׁתִּרְאֶה אֶת כְּבוֹדִי עוֹמֵד וּמַמְתִּין לְךָ שָׁם, וְאוֹמֵר: זֶה הוּא הַר הַמּוֹרִיָּה״, שֶׁנֶּאֱמַר: ״עַל אַחַד הֶהָרִים אֲשֶׁר אֹמַר אֵלֶיךָ״.
4
Madrugou Avraham pela manhã e tomou consigo Yishmael, Eliezer e Yitzchak, seu filho, e albardou o jumento. Este é o jumento sobre o qual Avraham montou; é o jumento, filho da jumenta, que foi criado no crepúsculo da criação, como está dito: “e madrugou Avraham pela manhã” (Bereshit 22:3). É o mesmo jumento sobre o qual montou Moshe ao voltar ao Egito, como está dito: “e tomou Moshe a sua mulher e os seus filhos e os fez montar no jumento” (Shemot 4:20). É o jumento sobre o qual o filho de David há de montar, como está dito: “humilde e montado num jumento” (Zechariá 9:9).
הִשְׁכִּים אַבְרָהָם בַּבֹּקֶר וְלָקַח אֶת יִשְׁמָעֵאל וְאֶת אֱלִיעֶזֶר וְאֶת יִצְחָק בְּנוֹ עִמּוֹ, וְחָבַשׁ אֶת הַחֲמוֹר. הוּא שֶׁרָכַב עָלָיו אַבְרָהָם, הוּא הַחֲמוֹר בֶּן הָאָתוֹן שֶׁנִּבְרֵאת בֵּין הַשְּׁמָשׁוֹת, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיַּשְׁכֵּם אַבְרָהָם בַּבֹּקֶר״. הוּא הַחֲמוֹר שֶׁרָכַב עָלָיו מֹשֶׁה בְּבֹאוֹ לְמִצְרַיִם, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיִּקַּח מֹשֶׁה אֶת אִשְׁתּוֹ וְאֶת בָּנָיו וַיַּרְכִּבֵם עַל הַחֲמוֹר״. הוּא הַחֲמוֹר שֶׁעָתִיד בֶּן דָּוִד לִרְכֹּב עָלָיו, שֶׁנֶּאֱמַר (זכריה ט, ט): ״עָנִי וְרֹכֵב עַל חֲמוֹר״.
5
Yitzchak tinha trinta e sete anos quando foi ao monte Moriá, e Yishmael, cinquenta anos. Surgiu uma contenda entre Eliezer e Yishmael. Disse Yishmael a Eliezer: “agora Avraham oferecerá Yitzchak, seu filho, em chamas sobre o altar, e eu, o seu primogênito, herdarei Avraham”. Disse-lhe Eliezer: “ele já te expulsou, como a mulher que é divorciada do seu marido, e te enviou ao deserto; mas eu sou o seu servo, que o serve de dia e de noite, e eu é que herdarei Avraham”. E o espírito santo (rúach hakódesh) lhes responde, dizendo: “nem este herda nem aquele herda”.
בֶּן שְׁלֹשִׁים וָשֶׁבַע שָׁנָה הָיָה יִצְחָק בְּלֶכְתּוֹ אֶל הַר הַמּוֹרִיָּה, וְיִשְׁמָעֵאל בֶּן חֲמִשִּׁים שָׁנָה. נִכְנַס תַּחֲרוּת בֵּין אֱלִיעֶזֶר וְיִשְׁמָעֵאל. אָמַר יִשְׁמָעֵאל לֶאֱלִיעֶזֶר: ״עַכְשָׁו אַבְרָהָם הִקְרִיב אֶת יִצְחָק בְּנוֹ מוֹקְדָה עַל הַמִּזְבֵּחַ, וַאֲנִי בְּכוֹרוֹ יוֹרֵשׁ אַבְרָהָם״. אָמַר לוֹ אֱלִיעֶזֶר: ״כְּבָר גֵּרְשָׁךְ כְּאִשָּׁה שֶׁהִיא מְגֹרֶשֶׁת מִבַּעְלָהּ וְשִׁלְּחֲךָ לַמִּדְבָּר, אֲבָל אֲנִי עַבְדּוֹ מְשָׁרֵת אוֹתוֹ בַּיּוֹם וּבַלַּיְלָה, וַאֲנִי הוּא הַיּוֹרֵשׁ אֶת אַבְרָהָם״. וְרוּחַ הַקֹּדֶשׁ מְשִׁיבָה אוֹתָם וְאוֹמֶרֶת לָהֶם: ״לֹא זֶה יוֹרֵשׁ וְלֹא זֶה יוֹרֵשׁ״.
6
Ao terceiro dia, chegaram a Tzofim; e, ao chegarem a Tzofim, Avraham viu a Glória da Shechiná de pé sobre o monte, como está dito: “ao terceiro dia, levantou Avraham os seus olhos e viu o lugar de longe” (Bereshit 22:4). E o que viu? Uma coluna de fogo de pé, da terra até aos céus. E entendeu Avraham que o jovem Yitzchak havia de ser aceito como holocausto perfeito. Disse a Yishmael e a Eliezer: “vedes algo sobre algum destes montes?”. Disseram-lhe: “não”. E os considerou como o jumento. Disse: “visto que nada vedes, ficai aqui com o jumento” — com os que neste momento se assemelham ao jumento no não perceber, como está dito: “ficai-vos aqui com o jumento” (Bereshit 22:5).
בַּיּוֹם הַשְּׁלִישִׁי הִגִּיעוּ לַצּוֹפִים, וְכֵיוָן שֶׁהִגִּיעוּ לַצּוֹפִים רָאָה כְּבוֹד הַשְּׁכִינָה עוֹמֵד עַל גַּבֵּי הָהָר, שֶׁנֶּאֱמַר: ״בַּיּוֹם הַשְּׁלִישִׁי וַיִּשָּׂא אַבְרָהָם אֶת עֵינָיו וַיַּרְא אֶת הַמָּקוֹם״. וּמָה רָאָה? עַמּוּד שֶׁל אֵשׁ עוֹמֵד מִן הָאָרֶץ וְעַד הַשָּׁמַיִם. וְהֵבִין אַבְרָהָם שֶׁנִּתְרַצָּה הַנַּעַר לְעוֹלָה תְּמִימָה. אָמַר לְיִשְׁמָעֵאל וְלֶאֱלִיעֶזֶר: ״רוֹאִים אַתֶּם מְאוּמָה בְּאַחַד מִן הֶהָרִים הַלָּלוּ?״ אָמְרוּ לוֹ: ״לָאו״. וְחָשַׁב אוֹתָם כַּחֲמוֹר. אָמַר: ״הוֹאִיל וְאֵין אַתֶּם רוֹאִים מְאוּמָה, שְׁבוּ לָכֶם פֹּה עִם הַחֲמוֹר״, עִם הַדּוֹמִים לַחֲמוֹר.
Nota — a coluna de fogo e “os que ficam com o jumento”. Avraham e Yitzchak percebem a coluna de fogo (a presença da Shechiná) sobre o monte; Yishmael e Eliezer nada veem. A expressão dura — “ficai com o jumento, com os que se assemelham ao jumento” — é um jogo de palavras sobre o versículo “ficai aqui com o jumento” (Bereshit 22:5): refere-se à percepção espiritual naquele momento, não ao valor humano de ninguém (o próprio capítulo anterior exaltou o amor de Avraham por Yishmael). O que o midrash ensina é que há visões que só se abrem a quem está pronto para elas.
7
Tomou a lenha e a pôs sobre Yitzchak, seu filho, e tomou o fogo e o cutelo na sua mão, e iam ambos juntos. Disse Yitzchak a seu pai: “meu pai, eis o fogo e a lenha; onde está o cordeiro para o holocausto?”. Disse-lhe: “meu filho, tu és o cordeiro para o holocausto”, como está dito: “e disse Avraham: D’us proverá para Si o cordeiro para o holocausto, meu filho” (Bereshit 22:8).
נָטַל אֶת הָעֵצִים וְנָתְנָן עַל גַּבֵּי יִצְחָק בְּנוֹ, וְלָקַח אֶת הָאֵשׁ וְאֶת הַמַּאֲכֶלֶת בְּיָדוֹ וְהָיוּ מְהַלְּכִין שְׁנֵיהֶם יַחְדָּו. אָמַר יִצְחָק לְאָבִיו: ״אַבָּא, הֲרֵי הָאֵשׁ וְהָעֵצִים, הֵיכָן הוּא הַכֶּבֶשׂ לָעֹלָה?״ אָמַר לוֹ: ״בְּנִי, אַתָּה הוּא הַכֶּבֶשׂ לָעֹלָה״, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיֹּאמֶר אַבְרָהָם אֱלֹהִים יִרְאֶה לּוֹ הַשֶּׂה״.
8
Rabi Shimon diz: com o dedo mostrou o Santo, bendito seja, a Avraham, nosso pai, o altar, e disse-lhe: “este é o altar”. E era o altar em que ofereceram Caim e Hevel, e o altar em que ofereceram Noach e os seus filhos, como está dito: “e edificou ali Avraham o altar” (Bereshit 22:9) — não está escrito aqui “edificou um altar”, mas “edificou ali o altar” — é o altar em que ofereceram os primeiros.
רַבִּי שִׁמְעוֹן אוֹמֵר: בָּאֶצְבַּע הֶרְאָה הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא לְאַבְרָהָם אָבִינוּ הַמִּזְבֵּחַ וְאָמַר לוֹ ״זֶה הוּא הַמִּזְבֵּחַ״. וְהוּא הָיָה הַמִּזְבֵּחַ שֶׁהִקְרִיבוּ קַיִן וְהֶבֶל, וְהוּא הַמִּזְבֵּחַ שֶׁהִקְרִיבוּ נֹחַ וּבָנָיו, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיִּבֶן שָׁם אַבְרָהָם אֶת הַמִּזְבֵּחַ״. אֵין כְּתִיב כָּאן אֶלָּא ״וַיִּבֶן שָׁם אַבְרָהָם אֶת הַמִּזְבֵּחַ״ – הוּא הַמִּזְבֵּחַ שֶׁהִקְרִיבוּ בּוֹ הָרִאשׁוֹנִים.
9
Disse Yitzchak a seu pai: “meu pai, ata-me as duas mãos e os dois pés, para que eu não me debata involuntariamente, por causa da angústia da morte, e me ache profanando a honra do pai”. E Avraham atou-lhe as duas mãos e os dois pés e o ligou (akad) sobre o altar, e firmou os seus dois braços e os seus dois joelhos sobre ele, e dispôs o fogo e a lenha, e estendeu a mão e tomou o cutelo. E, como um sumo sacerdote, apresentou a sua oferenda e a sua libação; e o Santo, bendito seja, está sentado e vê o pai ligando de todo o coração e o filho sendo ligado de todo o seu coração. E os anjos do serviço clamam e choram, como está dito: “eis que os seus heróis (erelim) clamam de fora” (Yeshayá 33:7). E disseram os anjos do serviço diante do Santo, bendito seja: “Senhor de todos os mundos, és chamado misericordioso e clemente, cuja misericórdia é sobre todas as Suas obras; tem misericórdia de Yitzchak, que é homem e filho de homem, e está ligado diante de Ti como um animal. ‘Ao homem e ao animal Tu salvas, ó Eterno’”, como está dito: “a Tua justiça é como os montes de D’us, os Teus juízos são um grande abismo; ao homem e ao animal Tu salvas, ó Eterno” (Tehilim 36:7).
אָמַר יִצְחָק לְאָבִיו: ״אַבָּא, קְשֹׁר לִי שְׁתֵּי יָדַי וּשְׁתֵּי רַגְלַי, שֶׁלֹּא אוֹתְךָ כְּגוֹן הַדִּבּוּר הַיּוֹצֵא מִן הַפֶּה עַל שׁוּם אֹנֶס מִיתָה, וְנִמְצֵאתִי מְחַלֵּל כְּבוֹד אָב״. וְקָשַׁר שְׁתֵּי יָדָיו וּשְׁתֵּי רַגְלָיו וַעֲקָדוֹ עַל גַּבֵּי הַמִּזְבֵּחַ, וְאִמֵּץ אֶת שְׁתֵּי זְרוֹעוֹתָיו וְאֶת שְׁתֵּי אַרְכֻּבּוֹתָיו עָלָיו, וְעָרַךְ אֶת הָאֵשׁ וְאֶת הָעֵצִים, וְשָׁלַח יָדוֹ וְלָקַח אֶת הַמַּאֲכֶלֶת. וּכְכֹהֵן גָּדוֹל הִגִּישׁ אֶת מִנְחָתוֹ וְאֶת נִסְכּוֹ, וְהַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא יוֹשֵׁב וְרוֹאֶה הָאָב מְעַקֵּד בְּכָל לֵב וְהַבֵּן נֶעֱקָד בְּכָל לִבּוֹ. וּמַלְאֲכֵי הַשָּׁרֵת צוֹעֲקִים וּבוֹכִים, שֶׁנֶּאֱמַר: ״הֵן אֶרְאֶלָּם צָעֲקוּ חֻצָה״. וְאָמְרוּ מַלְאֲכֵי הַשָּׁרֵת לִפְנֵי הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא: ״רִבּוֹן כָּל הָעוֹלָמִים, נִקְרֵאתָ רַחוּם וְחַנּוּן, מִי שֶׁרַחֲמָיו עַל מַעֲשָׂיו, רַחֵם עַל יִצְחָק שֶׁהוּא אָדָם וּבֶן אָדָם וְנֶעֱקַד לְפָנֶיךָ כִּבְהֵמָה. אָדָם וּבְהֵמָה תּוֹשִׁיעַ ה'״, שֶׁנֶּאֱמַר: ״צִדְקָתְךָ כְּהַרְרֵי אֵל, מִשְׁפָּטֶיךָ תְּהוֹם רַבָּה, אָדָם וּבְהֵמָה תּוֹשִׁיעַ ה'״.
Nota — a ligação de dois corações. Yitzchak não é uma criança levada à força: tem, segundo a tradição, trinta e sete anos, e pede ele mesmo para ser atado, “para não me debater e profanar a honra do meu pai”. A Akedá é, por isso, a ligação de dois: “o pai ligando de todo o coração e o filho sendo ligado de todo o coração”. É um ato de devoção mútua e consentida — pai e filho juntos diante de D’us —, e não a vitimização de um inocente. Por isso os próprios anjos choram e clamam por misericórdia.
10
Rabi Yehudá diz: quando o cutelo tocou o seu pescoço, voou e saiu a alma de Yitzchak. E, quando D’us fez ouvir a Sua voz dentre os querubins e lhe disse “não estendas a tua mão contra o jovem” (Bereshit 22:12), a sua alma voltou ao seu corpo; e Yitzchak levantou-se e pôs-se de pé. E soube Yitzchak que assim os mortos hão de reviver no futuro, e abriu a boca e disse: “Bendito és Tu, ó Eterno, que ressuscita os mortos”.
רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר: כֵּיוָן שֶׁהִגִּיעַ הַחֶרֶב עַל צַוָּארוֹ, פָּרְחָה וְיָצְאָה נַפְשׁוֹ שֶׁל יִצְחָק. וְכֵיוָן שֶׁהִשְׁמִיעַ קוֹלוֹ מִבֵּין הַכְּרוּבִים וְאָמַר לוֹ ״אַל תִּשְׁלַח יָדְךָ״, נַפְשׁוֹ חָזְרָה לְגוּפוֹ, וְקָם וְעָמַד יִצְחָק עַל רַגְלָיו. וְיָדַע יִצְחָק שֶׁכָּךְ הַמֵּתִים עֲתִידִים לְהֵחָיוֹת, וּפָתַח וְאָמַר: ״בָּרוּךְ אַתָּה ה' מְחַיֵּה הַמֵּתִים״.
Nota — a alma que parte e retorna. No sentido simples da Torá, Yitzchak não é ferido: a voz o detém a tempo. O midrash, porém, ousa dizer que a sua alma “saiu e voltou” — uma imagem para ensinar a imortalidade da alma e a ressurreição dos mortos: tendo chegado às portas da morte e regressado, Yitzchak teria sido o primeiro a proclamar “Bendito és Tu... que ressuscita os mortos”. A Akedá torna-se, assim, também uma meditação sobre a vida que não termina na morte.
11
Rabi Zecharyá diz: aquele carneiro que foi criado no crepúsculo da criação veio para ser oferecido em lugar de Yitzchak; e Samael a força acusadora estava de pé e o acusava, para anular a oferenda de Avraham, nosso pai; e o carneiro ficou preso pelos seus dois chifres entre as árvores no matagal. Que fez aquele carneiro? Estendeu a sua pata e segurou o talit de Avraham, nosso pai, chamando a sua atenção, e ficou preso pelos seus dois chifres entre as árvores, como está dito: “e levantou Avraham os seus olhos e viu, e eis um carneiro preso depois, pelos seus chifres, num matagal” (Bereshit 22:13). E olhou Avraham e viu o carneiro, e foi e o soltou e o ofereceu em lugar de Yitzchak, seu filho, como está dito: “e foi Avraham e tomou o carneiro e o ofereceu em holocausto em lugar de seu filho” (Bereshit 22:13).
רַבִּי זְכַרְיָה אוֹמֵר: אוֹתוֹ הָאַיִל שֶׁנִּבְרָא בֵּין הַשְּׁמָשׁוֹת הָיָה, וּבָא לְהִתְקָרֵב תַּחַת יִצְחָק, וְהָיָה סָמָאֵל עוֹמֵד וּמַסְטִינוֹ כְּדֵי לְבַטֵּל קָרְבָּנוֹ שֶׁל אַבְרָהָם אָבִינוּ, וְנֶאֱחַז בִּשְׁנֵי קַרְנוֹתָיו בֵּין הָאִילָנוֹת, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיִּשָּׂא אַבְרָהָם אֶת עֵינָיו וַיַּרְא וְהִנֵּה אַיִל אַחַר נֶאֱחַז בַּסְּבַךְ בְּקַרְנָיו״. מֶה עָשָׂה אוֹתוֹ הָאַיִל? פָּשַׁט אֶת יָדוֹ וְאָחַז בְּטַלִּיתוֹ שֶׁל אַבְרָהָם אָבִינוּ וְנֶאֱחַז בִּשְׁתֵּי קַרְנוֹתָיו בֵּין הָאִילָנוֹת, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיִּשָּׂא אַבְרָהָם אֶת עֵינָיו וַיַּרְא וְהִנֵּה אַיִל אַחַר״. וְהִבִּיט אַבְרָהָם וְרָאָה הָאַיִל וְהָלַךְ וְהִתִּירוֹ וְהִקְרִיבוֹ תַּחַת יִצְחָק בְּנוֹ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיֵּלֶךְ אַבְרָהָם וַיִּקַּח אֶת הָאַיִל״ וְכוּ'.
Nota essencial — o carneiro que encerra a prova. Aqui está o coração de tudo: a Akedá não termina em sangue. A voz do Céu detém o cutelo, e um carneiro toma o lugar de Yitzchak. Para a leitura racionalista (Rambam, Guia III:24), este é o sentido decisivo da provação: num mundo em que se sacrificavam crianças aos ídolos, a Torá proclama, de uma vez por todas, que D’us não quer o sacrifício humano — Ele quer a entrega do coração, não a morte do filho. A prova mediu a devoção de Avraham; o desfecho ensinou a todos que a verdadeira oferenda é a vida consagrada, não destruída. (“Samael”, a “força acusadora”, é, na leitura filosófica, a imagem da dúvida e do obstáculo, não um demônio literal.)
12
Rabi Berechiá diz: subiu a oferenda do carneiro como aroma agradável diante do Santo, bendito seja, como se fosse o aroma agradável de Yitzchak; e D’us jurou abençoá-lo neste mundo e no mundo vindouro, como está dito: “por Mim mesmo jurei, diz o Eterno, que, certamente, te abençoarei e multiplicarei grandemente a tua descendência como as estrelas dos céus” (Bereshit 22:16-17). “Certamente te abençoarei” — neste mundo; “e multiplicarei” — no mundo vindouro; “a tua descendência como as estrelas dos céus” — no porvir.
רַבִּי בְּרֶכְיָה אוֹמֵר: עָלָה קָרְבַּן הָאַיִל לְרֵיחַ נִיחוֹחַ לִפְנֵי הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא כְּאִלּוּ הָיָה רֵיחַ נִיחוֹחַ שֶׁל יִצְחָק, וְנִשְׁבַּע לְבָרְכוֹ בָּעוֹלָם הַזֶּה וּבָעוֹלָם הַבָּא, שֶׁנֶּאֱמַר: ״בִּי נִשְׁבַּעְתִּי נְאֻם ה' כִּי בָרֵךְ אֲבָרֶכְךָ וְהַרְבָּה אַרְבֶּה אֶת זַרְעֲךָ כְּכוֹכְבֵי הַשָּׁמַיִם״. ״כִּי בָרֵךְ״ – בָּעוֹלָם הַזֶּה, ״אֲבָרֶכְךָ״ – לָעוֹלָם הַבָּא, ״וְהַרְבָּה אַרְבֶּה אֶת זַרְעֲךָ כְּכוֹכְבֵי הַשָּׁמַיִם״ – לֶעָתִיד לָבֹא.
13
Rabi Chananyá ben Dosa diz: daquele carneiro que foi criado no crepúsculo nada saiu em vão. A cinza do carneiro é o fundamento sobre o altar interior; os tendões do carneiro são as dez cordas da lira com que David tocava; a pele do carneiro é o cinto dos lombos de Eliyahu, de abençoada memória, como está dito: “um homem vestido de pelos e cingido com um cinto de couro nos lombos” (Melachim II 1:8); o chifre do carneiro — o esquerdo, com o qual se tocou no monte Sinai, como está dito: “e sucedeu, ao prolongar-se o toque do chifre do jubileu” (Shemot 19:13); e o direito, que é maior do que o esquerdo, com o qual Ele há de tocar no porvir, como está dito: “e sucederá, naquele dia, que se tocará um grande shofar ... e o Eterno será Rei sobre toda a terra” (Yeshayá 27:13; Zechariá 14:9).
רַבִּי חֲנַנְיָא בֶּן דּוֹסָא אוֹמֵר: אוֹתוֹ הָאַיִל שֶׁנִּבְרָא בֵּין הַשְּׁמָשׁוֹת לֹא יָצָא מִמֶּנּוּ דָּבָר לְבַטָּלָה. אֶפְרוֹ שֶׁל אַיִל הוּא יְסוֹד עַל גַּבֵּי הַמִּזְבֵּחַ הַפְּנִימִי, גִּידֵי הָאַיִל אֵלּוּ עֲשָׂרָה נְבָלִים שֶׁל כִּנּוֹר שֶׁהָיָה דָּוִד מְנַגֵּן בָּהֶם, עוֹרוֹ שֶׁל אַיִל הוּא אֵזוֹר מָתְנָיו שֶׁל אֵלִיָּהוּ זָכוּר לַטּוֹב, שֶׁנֶּאֱמַר: ״אִישׁ בַּעַל שֵׂעָר״ וְכוּ', קַרְנָיו שֶׁל אַיִל, שֶׁל שְׂמֹאל שֶׁתָּקַע בּוֹ בְּהַר סִינַי שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיְהִי בִּמְשֹׁךְ בְּקֶרֶן הַיּוֹבֵל״, וְשֶׁל יָמִין שֶׁהִיא גְּדוֹלָה מִשֶּׁל שְׂמֹאל שֶׁהוּא עָתִיד לִתְקֹעַ בָּהּ לֶעָתִיד לָבֹא, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וְהָיָה בַּיּוֹם הַהוּא יִתָּקַע בְּשׁוֹפָר גָּדוֹל וְהָיָה ה' לְמֶלֶךְ עַל כָּל הָאָרֶץ״.
Nota — o carneiro, o shofar e a memória. Nada do carneiro se perdeu: a tradição vê nos seus restos símbolos que atravessam a história — até os seus dois chifres. O chifre esquerdo teria soado no Sinai; o direito, maior, será o “grande shofar” da redenção futura. Daqui o costume: tocamos o shofar de carneiro em Rosh haShaná para recordar a Akedá (zichron Akedá) — a devoção de Avraham e de Yitzchak invocada como mérito diante de D’us. O monte Moriá, onde tudo se deu, será o lugar do Templo.
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Rabi Yitzchak diz: tudo foi criado apenas por causa das prostrações da reverência humilde. Avraham não saiu do monte Moriá senão pelo mérito da prostração, como está dito: “e nos prostraremos e voltaremos a vós” (Bereshit 22:5). O Templo não foi estabelecido senão pelo mérito da prostração, como está dito: “exaltai o Eterno, nosso D’us, e prostrai-vos diante do escabelo dos Seus pés” (Tehilim 99:5).
רַבִּי יִצְחָק אוֹמֵר: הַכֹּל לֹא נִבְרָא אֶלָּא בִּשְׁבִיל הַשְׁתַּחֲוָיוֹת. אַבְרָהָם לֹא יָצָא מֵהַר הַמּוֹרִיָּה אֶלָּא בִּזְכוּת הַשְׁתַּחֲוָיָה, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וְנִשְׁתַּחֲוֶה וְנָשׁוּבָה אֲלֵיכֶם״. בֵּית הַמִּקְדָּשׁ לֹא נִבְרָא אֶלָּא בִּזְכוּת הַשְׁתַּחֲוָיָה, שֶׁנֶּאֱמַר: ״רוֹמְמוּ ה' אֱלֹהֵינוּ וְהִשְׁתַּחֲווּ לַהֲדֹם רַגְלָיו״.

Os Sábios sobre este capítulo · פֵּרוּשִׁים

A décima provação: o que a Akedá ensina

A Ligação de Yitzchak é a prova suprema — e a mais difícil de ler. A tradição racionalista (Rambam, Guia III:24) extrai dela dois ensinamentos. Primeiro, o limite extremo a que pode chegar o amor e o temor de D’us: Avraham, que ousara discutir com D’us por Sodoma, aqui obedece em silêncio ao que mais lhe custa. Segundo — e decisivo —, o desfecho: D’us detém o sacrifício. Num mundo que imolava crianças aos seus deuses, a Torá grava para sempre que o D’us de Avraham abomina o sacrifício humano. A prova revelou a grandeza de um homem; o seu fim revelou a vontade de D’us.

A ligação de dois

O midrash insiste que Yitzchak não é vítima passiva: adulto, ele pede para ser atado, e pai e filho agem “de todo o coração”. A Akedá é a entrega conjunta de dois justos. O Radal e os comentadores clássicos sublinham que essa é a sua força moral: não a violência de um sobre o outro, mas a devoção partilhada — e, ainda assim, os anjos choram, porque a tradição nunca celebra a morte, mesmo a mais santa.

A morte vencida

Que a alma de Yitzchak “saia e volte” é leitura homilética — no texto, ele permanece vivo. Mas os sábios usam a imagem para ensinar a ressurreição e a continuidade da alma: quem se entregou inteiramente recebe a vida de volta. A Akedá, que parecia caminhar para a morte, termina em vida — e por isso Yitzchak é ligado, na tradição, à bênção “que ressuscita os mortos”.

O carneiro, o shofar e o monte

O carneiro do crepúsculo (Avot 5:6) substitui Yitzchak, e dele “nada se perde”: o seu chifre direito será o “grande shofar” do porvir. Daí soarmos o shofar de carneiro em Rosh haShaná, para recordar a Akedá. E tudo se deu no monte Moriá, futuro lugar do Templo, “pelo mérito da prostração” (§13): a reverência humilde diante de D’us é, para os sábios, o eixo invisível sobre o qual o mundo se sustenta.

Sobre esta tradução

Texto hebraico: edição vocalizada de domínio público de Pirkei deRabbi Eliezer (Sefaria). A tradução ao português foi feita a partir do hebraico e cotejada com a tradução inglesa de G. Friedlander (Londres, 1916, domínio público). Pequenos acréscimos entre colchetes esclarecem o sentido.

A tradução, as notas e a coletânea de perushim (apoiada em comentadores clássicos, como o Radal — Rabi David Luria) são originais. A leitura racionalista da Akedá segue, em especial, o Rambam (Guia dos Perplexos III:24). Eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.