De Shet, a linhagem dos justos; de Caim, a dos rebeldes. O capítulo descreve a corrupção que precedeu o dilúvio — e o aviso de Noach, recusado por uma geração que se julgava invencível.
1
Está escrito: "e viveu Adam cento e trinta anos, e gerou um filho à sua semelhança, conforme a sua imagem" (Bereshit 5:3). Daqui aprendes que Caim não era da verdadeira linhagem de Adam, nem da sua semelhança, nem da sua imagem, e que os seus atos não se assemelhavam aos de Hevel, seu irmão — até que nasceu Shet, que era da sua linhagem e da sua semelhança, e cujos atos se assemelhavam aos de Hevel, como está dito: "e gerou à sua semelhança, conforme a sua imagem".
כְּתִיב: ״וַיְחִי אָדָם שְׁלֹשִׁים וּמְאַת שָׁנָה וַיּוֹלֶד בִּדְמוּתוֹ כְּצַלְמוֹ״. מִכָּאן אַתָּה לָמֵד שֶׁלֹּא הָיָה קַיִן מִזַּרְעוֹ וְלֹא מִדְּמוּתוֹ וְלֹא מִצַּלְמוֹ שֶׁל אָדָם, וְלֹא מַעֲשָׂיו דּוֹמִים לְמַעֲשֵׂה הֶבֶל אָחִיו, עַד שֶׁנּוֹלַד שֵׁת שֶׁהָיָה מִזַּרְעוֹ וּדְמוּתוֹ וּמַעֲשָׂיו דּוֹמִין לְמַעֲשֵׂה הֶבֶל אָחִיו, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיּוֹלֶד בִּדְמוּתוֹ כְּצַלְמוֹ״.
2
Rabi Yishmael diz: de Shet subiram e descenderam todas as criaturas e todas as gerações dos justos; e de Caim subiram e descenderam todas as gerações dos ímpios, que transgridem e se rebelam, que se revoltaram contra o Onipresente e disseram: "não precisamos da gota da Tua chuva, nem de conhecer os Teus caminhos", como está dito: "e disseram a D'us: afasta-te de nós" (Iyov 21:14).
רַבִּי יִשְׁמָעֵאל אוֹמֵר: מִשֵּׁת עָלוּ וְנִתְיַחֲסוּ כָּל הַבְּרִיּוֹת וְכָל דּוֹרוֹת הַצַּדִּיקִים, וּמִקַּיִן עָלוּ וְנִתְיַחֲסוּ כָּל דּוֹרוֹת הָרְשָׁעִים הַפּוֹשְׁעִים וְהַמּוֹרְדִים, שֶׁמָּרְדוּ בַּמָּקוֹם וְאָמְרוּ: ״אֵין אָנוּ צְרִיכִין לְטִפַּת גְּשָׁמֶיךָ וְלֹא לָדַעַת אֶת דְּרָכֶיךָ״, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיֹּאמְרוּ לָאֵל סוּר מִמֶּנּוּ״.
Nota. A "imagem e semelhança" (cap. 11) reaparece aqui como categoria moral, não biológica: dizer que Caim "não era da imagem de Adam" significa que ele abandonou o que define o humano — a razão posta a serviço do bem. Shet "à semelhança" é quem retoma a vocação. As duas "linhagens" (de Shet e de Caim) são, no fundo, dois caminhos (cf. cap. 15): o da retidão e o da rebeldia que diz a D'us "afasta-te de nós".
3
Rabi Meir diz: as gerações descendentes de Caim andavam na desnudez e na devassidão — homens e mulheres como animais —, e contaminavam-se com toda imoralidade, abertamente, nas ruas, conforme a inclinação ao mal e os pensamentos do seu coração, como está dito: "e viu o Eterno que era grande a maldade do homem na terra" (Bereshit 6:5).
רַבִּי מֵאִיר אוֹמֵר: גִּלּוּי בָּשָׂר עֶרְוָה הָיוּ הוֹלְכִין דּוֹרוֹת שֶׁל קַיִן, הָאֲנָשִׁים וְהַנָּשִׁים כַּבְּהֵמָה, וּמְטַמְּאִין בְּכָל זְנוּת, גִּלּוּי בָּרְחוֹבוֹת בְּיֵצֶר הָרַע וּבְמַחְשְׁבוֹת לִבָּם, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיַּרְא ה' כִּי רַבָּה רָעַת הָאָדָם בָּאָרֶץ״.
4
Rabi Yehudá haNassi diz: aqueles que a Torá chama "os que caíram do seu lugar de santidade" viram as filhas da geração de Caim andarem na desnudez, com os olhos pintados como prostitutas, e se desviaram após elas, e delas tomaram mulheres, como está dito: "e viram os filhos de Elohim as filhas do homem, que eram formosas..." (Bereshit 6:2).
רַבִּי אוֹמֵר: רָאוּ אֵלֶּה שֶׁנָּפְלוּ מִמְּקוֹם קְדֻשָּׁתָן אֶת בְּנוֹת קַיִן מְהַלְּכוֹת גְּלוּיוֹת בָּשָׂר עֶרְוָה וּמְכַחֲלוֹת עֵינֵיהֶן כְּזוֹנוֹת, וְתָעוּ אַחֲרֵיהֶן וַיִּקְחוּ מֵהֶן נָשִׁים, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיִּרְאוּ בְנֵי הָאֱלֹהִים אֶת בְּנוֹת הָאָדָם״ וְכוּ'.
Nota — quem são os "filhos de Elohim". O midrash usa a linguagem dramática de "anjos que caíram". É essencial a leitura racionalista: para o Rambam, os anjos são intelectos separados, sem corpo, sem matéria e sem apetites — não podem, literalmente, "tomar mulheres". Por isso a tradição filosófica (e Ibn Ezra) explica "bnei ha'Elohim" como "os filhos dos poderosos/juízes" ou os descendentes nobres da linhagem de Shet que caíram moralmente ao se misturarem com a corrupção. A "queda" é uma queda ética — homens elevados que se rebaixaram —, não a fábula de seres celestes copulando. O próprio §7 nota que "bnei Elohim" é título dado também a Israel e aos justos (Devarim 14:1), confirmando o sentido humano.
5
Rabi Yehoshua ben Korchá diz: os anjos são fogo flamejante, como está dito: "Ele faz dos Seus servos fogo flamejante" (Tehilim 104:4); e o fogo não se une, na corporeidade, à carne e ao sangue sem queimar o corpo. Antes, trata-se de que, ao caírem moralmente do seu lugar de santidade, a sua força e estatura tornaram-se como as dos filhos do homem, e a sua veste como um torrão de pó, como está dito: "vestiu-se a minha carne de corrupção e de torrão de pó" (Iyov 7:5).
רַבִּי יְהוֹשֻׁעַ בֶּן קָרְחָה אוֹמֵר: הַמַּלְאָכִים אֵשׁ לוֹהֲטִים, שֶׁנֶּאֱמַר: ״מְשָׁרְתָיו אֵשׁ לֹהֵט״, וְהָאֵשׁ בָּאָה בִּבְעִילָה בְּבָשָׂר וָדָם וְאֵינָהּ שׂוֹרֶפֶת אֶת הַגּוּף. אֶלָּא בְּשָׁעָה שֶׁנָּפְלוּ מִן הַשָּׁמַיִם מִמְּקוֹם קְדֻשָּׁתָן, כֹּחָן וְקוֹמָתָן כִּבְנֵי אָדָם, וּלְבוּשָׁן גּוּשׁ עָפָר, שֶׁנֶּאֱמַר: ״לָבַשׁ בְּשָׂרִי רִמָּה וְגוּשׁ עָפָר״.
6
Rabi Tzadok diz: deles nasceram os gigantes (anakim), que andavam com altivez de estatura, e estendiam a mão a todo roubo, violência e derramamento de sangue, como está escrito: "e ali vimos os Nefilim os filhos de Anak..." (Bemidbar 13:33); e diz: "os Nefilim estavam na terra naqueles dias" (Bereshit 6:4).
רַבִּי צָדוֹק אוֹמֵר: מֵהֶם נוֹלְדוּ הָעֲנָקִים הַמְהַלְּכִים בְּגֹבַהּ קוֹמָה, וּמְשַׁלְּחִים יָדָם בְּכָל גָּזֵל וְחָמָס וּשְׁפִיכוּת דָּמִים, דִּכְתִיב: ״וְשָׁם רָאִינוּ אֶת הַנְּפִילִים״ וְכוּ', וְאוֹמֵר: ״הַנְּפִילִים הָיוּ בָאָרֶץ״.
7
Disse Rabi Yehoshua ben Korchá: também Israel é chamado "filhos de Elohim", como está dito: "filhos sois do Eterno, vosso D'us" (Devarim 14:1). E os anjos, enquanto estavam no seu lugar de santidade nos céus, eram chamados "filhos de Elohim", como está dito: "quando juntas cantavam as estrelas da manhã, e exultavam todos os filhos de Elohim" (Iyov 38:7).
אָמַר רַבִּי יְהוֹשֻׁעַ בֶּן קָרְחָה: יִשְׂרָאֵל נִקְרְאוּ בְּנֵי אֱלֹהִים, שֶׁנֶּאֱמַר: ״בָּנִים אַתֶּם לַה' אֱלֹהֵיכֶם״. וְהַמַּלְאָכִים עַד שֶׁהָיוּ בִּמְקוֹם קְדֻשָּׁתָן בַּשָּׁמַיִם נִקְרְאוּ בְּנֵי אֱלֹהִים, שֶׁנֶּאֱמַר: ״בְּרָן יַחַד כּוֹכְבֵי בֹקֶר וַיָּרִיעוּ כָּל בְּנֵי אֱלֹהִים״.
8
Rabi Leví diz: geravam os seus filhos e multiplicavam-se em grande número; e as crianças logo se punham de pé, falavam a língua sagrada e dançavam diante deles, como está dito: "soltam como rebanho os seus pequeninos, e os seus filhos saltam" (Iyov 21:11).
רַבִּי לֵוִי אוֹמֵר: הָיוּ מוֹלִידִים אֶת בְּנֵיהֶן וּפָרִין וְרָבִין, וְעוֹמְדִים עַל רַגְלֵיהֶן וּמְדַבְּרִים בִּלְשׁוֹן הַקֹּדֶשׁ וּמְרַקְּדִים לִפְנֵיהֶם, שֶׁנֶּאֱמַר: ״יְשַׁלְּחוּ כַצֹּאן עֲוִילֵיהֶם״.
9
Disse-lhes Noach: "voltai dos vossos caminhos e das vossas más obras, para que não venha sobre vós as águas do dilúvio e não extermine toda a semente dos filhos do homem". E a geração, na sua corrupção e arrogância, recusou e zombou. Diziam: "se vierem sobre nós as águas do dilúvio, eis que somos de alta estatura, e a água não chegará ao nosso pescoço; e se subirem as águas dos abismos, eis as plantas dos nossos pés para tapar os abismos". Que fizeram? Estenderam as plantas dos pés e taparam os abismos. Que fez o Santo, bendito seja? Aqueceu as águas dos abismos, e elas escaldaram a sua carne, como está dito: "no tempo em que se aquecem, desaparecem; quando calorento, somem do seu lugar" (Iyov 6:17).
אָמַר לָהֶם נֹחַ: ״שׁוּבוּ מִדַּרְכֵיכֶם וּמִמַּעֲשֵׂיכֶם הָרָעִים, שֶׁלֹּא יָבוֹא עֲלֵיכֶם מֵי הַמַּבּוּל וְיַכְרִית כָּל זֶרַע בְּנֵי אָדָם״. אָמְרוּ: ״אִם מֵי הַמַּבּוּל יָבֹא עָלֵינוּ, הֲרֵי אָנוּ גְּבוֹהֵי קוֹמָה וְאֵין הַמַּיִם מַגִּיעִים עַד צַוָּארֵינוּ, וְאִם מֵי תְהוֹמוֹת מַעֲלֶה עָלֵינוּ, הֲרֵי פַּרְסוֹת רַגְלֵינוּ לִסְתֹּם אֶת הַתְּהוֹמוֹת״. מָה הָיוּ עוֹשִׂין? פּוֹשְׁטִין כַּפּוֹת רַגְלֵיהֶם וְסָתְמוּ אֶת כָּל הַתְּהוֹמוֹת. מָה עָשָׂה הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא? הִרְתִּיחַ מֵי תְהוֹמוֹת וְהָיוּ שׁוֹלְקִין אֶת בְּשָׂרָם, שֶׁנֶּאֱמַר: ״בְּעֵת יְזֹרְבוּ נִצְמָתוּ בְּחֻמּוֹ נִדְעֲכוּ מִמְּקוֹמָם״.
Nota — a arrogância que precede a queda. O retrato da geração do dilúvio é, no fundo, um estudo da soberba: gente "de alta estatura" que confia na própria força ("a água não chega ao nosso pescoço", "tapamos os abismos com os pés") e zomba do aviso. Os sábios (cf. Sanhedrin 108a) ensinam que o seu pecado central foi o chamás — a violência e o roubo —, fruto de uma sociedade sem freios morais. E Noach os adverte longamente: a destruição não é um capricho, mas a consequência recusada de gerações de aviso. A soberba que despreza o limite acaba consumida por ele.
Os Sábios sobre este capítulo · פֵּרוּשִׁים
Dois caminhos, duas linhagens
O capítulo desenha a humanidade pré-diluviana em duas correntes: a de Shet, "à imagem", de onde vêm os justos; e a de Caim, a dos que dizem a D'us "afasta-te de nós". A "imagem" (cf. cap. 11) é entendida moralmente: ser humano de verdade é viver à altura da razão e do bem; quem a abandona "sai" da imagem. Não é determinismo de sangue — é a escolha de cada geração entre os dois caminhos (cap. 15).
Os "filhos de Elohim": uma leitura honesta
A passagem dos "filhos de Elohim" e das "filhas do homem" (Bereshit 6) é das mais debatidas. A tradição racionalista, fiel ao princípio de que os anjos são intelectos incorpóreos (Rambam), rejeita a leitura literal de seres celestes que se unem a mulheres. O sentido é humano e moral: "bnei ha'Elohim" são os nobres, os poderosos, os filhos dos juízes — ou a linhagem elevada de Shet — que "caíram" ao abandonar a retidão e usar a força para tomar o que queriam. O próprio capítulo (§7) lembra que "filhos de Elohim" é título de Israel e dos justos. A "queda dos anjos" é a queda de homens que poderiam ter sido luz.
O chamás: quando a sociedade se corrompe
Os "Nefilim/gigantes" que "estendem a mão ao roubo, à violência e ao sangue" personificam o pecado que a Torá nomeia como causa do dilúvio: "encheu-se a terra de chamás" (violência, Bereshit 6:11). Os sábios sublinham que não foi a idolatria, mas a injustiça entre as pessoas, que selou o destino daquela geração — pois a corrupção da convivência humana destrói o mundo por dentro. É o reverso do ensino dos capítulos anteriores: onde falta o chesed e a justiça, o mundo não se sustenta.
O aviso recusado
Noach adverte; a geração zomba, confiante na própria estatura. O capítulo é um retrato atemporal da soberba: a ilusão de invencibilidade ("tapamos os abismos com os pés") que despreza todo limite e todo chamado ao retorno. A tradição vê em Noach, que prega por longos anos sem ser ouvido, o paradoxo do aviso profético — dado com amor, recusado com arrogância. E a lição permanece: a porta da teshuvá estava aberta (cf. cap. 15); foi a geração que escolheu não atravessá-la.
Sobre esta tradução
Texto hebraico: edição vocalizada de domínio público de Pirkei deRabbi Eliezer (Sefaria). A tradução ao português foi feita a partir do hebraico e cotejada com a tradução inglesa de G. Friedlander (Londres, 1916, domínio público). O material aggádico sobre os "filhos de Elohim" foi traduzido com fidelidade e enquadrado pela leitura racionalista (os anjos como intelectos incorpóreos; "bnei ha'Elohim" como os poderosos/a linhagem de Shet).
A tradução, as notas e a coletânea de perushim (apoiada em comentários clássicos, como o do Radal — Rabi David Luria) são originais. Eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.