A primeira oferenda, o primeiro ciúme, o primeiro homicídio — e "a voz do sangue que clama da terra". Mas também a primeira teshuvá depois do crime, e a primeira sepultura, ensinada por um corvo.
1
Sobre o nascimento de Caim, os sábios leem os versos com linguagem velada. Rabi Zeirá ensinou: a "árvore" a que a Torá alude é o ser humano, que é comparado a uma árvore, como está dito: "pois o homem é como a árvore do campo" (Devarim 20:19). E o "jardim" é a mulher, que é comparada a um jardim, como está dito: "jardim fechado é a minha irmã, esposa" (Shir HaShirim 4:12) — pois, assim como o jardim, tudo o que nele se semeia brota e produz, assim a mulher, do que recebe, concebe e dá à luz do seu marido.
תָּנָא: רַבִּי זְעִירָא אוֹמֵר, ״מִפְּרִי הָעֵץ״ – אֵין הָעֵץ הַזֶּה אֶלָּא אָדָם שֶׁנִּמְשַׁל כְּעֵץ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״כִּי הָאָדָם עֵץ הַשָּׂדֶה״. וְאֵין ״גָּן״ אֶלָּא הָאִשָּׁה שֶׁנִּמְשְׁלָה לְגָן, שֶׁנֶּאֱמַר: ״גַּן נָעוּל אֲחֹתִי כַלָּה״. מַה הַגִּנָּה כָּל מַה שֶּׁנִּזְרְעָה הִיא צוֹמַחַת וּמוֹצִיאָה, כָּךְ הָאִשָּׁה הַזֹּאת כָּל מַה שֶּׁנִּזְרַע הָרָה וְיוֹלֶדֶת מִבַּעְלָהּ.
2
Há uma tradição aggádica de que a influência da serpente Samael alcançou Chavá antes, e dela veio Caim; e depois Adam a conheceu, e dela veio Hevel, como está dito: "e o homem conheceu Chavá, sua mulher" (Bereshit 4:1). Rabi Yishmael diz: dali de Caim subiram e descenderam todas as gerações dos ímpios, que se rebelam e transgridem contra o Alto e dizem: "não precisamos da gota da Tua chuva", como está dito: "e disseram a D'us: afasta-te de nós" (Iyov 21:14).
בָּא אֵלֶיהָ רוֹכֵב הַנָּחָשׁ וְעִבְּרָה אֶת קַיִן, וְאַחַר כָּךְ עִבְּרָה אֶת הֶבֶל, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וְהָאָדָם יָדַע אֶת חַוָּה אִשְׁתּוֹ״. רַבִּי יִשְׁמָעֵאל אוֹמֵר: מִשָּׁם עָלוּ וְנִתְיַחֲסוּ כָּל דּוֹרוֹת הָרְשָׁעִים הַמּוֹרְדִים וְהַפּוֹשְׁעִים בַּמָּרוֹם וְאוֹמְרִים: ״אֵין אָנוּ צְרִיכִין לְטִפַּת גַּשְׁמֶיךָ״, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיֹּאמְרוּ לָאֵל סוּר מִמֶּנּוּ״.
Nota — leitura honesta. A imagem de "Samael montado na serpente" como origem de Caim é aggádica e simbólica, não uma genealogia demoníaca literal. Na linha racionalista (que identifica a serpente e Samael com o yetzer hará, a inclinação ao mal — cf. cap. 13), a passagem ensina que Caim trazia em si, desde a origem, a marca do impulso destrutivo — em contraste com Hevel. É um modo poético de dizer que do mal voluntário descende uma "linhagem" de rebeldia, e do bem, uma de retidão; não uma doutrina sobre seres híbridos.
3
Rabi Meiashá diz: Caim nasceu, e a sua irmã gêmea com ele; Hevel nasceu, e a sua irmã gêmea com ele. Disse-lhe Rabi Yishmael: mas não está dito "o homem que tomar a sua irmã, filha de seu pai, é vergonha" (Vayikrá 20:17)?! Respondeu-lhe: destas palavras aprende que não havia outras mulheres no mundo com quem se casarem, e por isso lhes foi permitido. E sobre isso se diz: "pois Eu disse: o mundo se edifica pela bondade (chesed)" (Tehilim 89:3) — com bondade e providência foi o mundo edificado, antes de ser dada a Torá.
רַבִּי מְיָאשָׁא אוֹמֵר: נוֹלַד קַיִן וּתְאוֹמָתוֹ עִמּוֹ. נוֹלַד הֶבֶל וּתְאוֹמָתוֹ עִמּוֹ. אָמַר לוֹ רַבִּי יִשְׁמָעֵאל: וַהֲלֹא כְּבָר נֶאֱמַר ״וְאִישׁ אֲשֶׁר יִקַּח אֶת אֲחֹתוֹ בַּת אָבִיו״! אָמַר לוֹ: מִתּוֹךְ הַדְּבָרִים הָאֵלֶּה תֵּדַע לְךָ שֶׁלֹּא הָיוּ נָשִׁים אֲחֵרוֹת בָּעוֹלָם שֶׁיִּשָּׂאוּ לָהֶן, וְהִתִּירָן לָהֶם. וְעַל זֶה נֶאֱמַר ״כִּי אָמַרְתִּי עוֹלָם חֶסֶד יִבָּנֶה״, בְּחֶסֶד נִבְרָא הָעוֹלָם עַד שֶׁלֹּא נִתְּנָה תּוֹרָה.
4
E Caim amava lavrar a terra e semear, e Hevel amava apascentar o rebanho. Este dava da sua produção para alimentar aquele, e aquele dava da sua para alimentar este. Chegou o dia festivo de Pessach. Disse Adam aos seus filhos: "nesta noite, no futuro, Israel oferecerá os sacrifícios de Pessach; oferecei também vós diante do vosso Criador".
וְהָיָה קַיִן אוֹהֵב לַעֲבֹד אֲדָמָה לִזְרֹעַ, וְהֶבֶל הָיָה אוֹהֵב לִרְעוֹת צֹאן. זֶה נוֹתֵן מִמְּלַאכְתּוֹ מַאֲכִיל לָזֶה, וְזֶה נוֹתֵן מִמְּלַאכְתּוֹ מַאֲכִיל לָזֶה. הִגִּיעַ יוֹם טוֹב שֶׁל פֶּסַח. אָמַר לָהֶם אָדָם לְבָנָיו: ״בַּלַּיְלָה זֶה עֲתִידִין יִשְׂרָאֵל לְהַקְרִיב קָרְבְּנוֹת פְּסָחִים, הַקְרִיבוּ גַּם אַתֶּם לִפְנֵי בּוֹרַאֲכֶם״.
5
Trouxe Caim o que sobrava do seu alimento, grãos torrados, semente de linho. E trouxe Hevel dos primogênitos do seu rebanho e das suas gorduras, cordeiros que não tinham sido tosquiados. E foi rejeitada a oferenda de Caim, e aceita a oferenda de Hevel, como está dito: "e atentou o Eterno para Hevel e para a sua oferenda" (Bereshit 4:4).
הֵבִיא קַיִן מוֹתַר מַאֲכָלוֹ קְלָיוֹת, זֶרַע פִּשְׁתָּן. וְהֵבִיא הֶבֶל מִבְּכוֹרוֹת צֹאנוֹ וּמֵחֶלְבֵיהֶן, כְּבָשִׂים שֶׁלֹּא נִגְזְזוּ לְצֶמֶר. וְנִתְעַב מִנְחַת קַיִן, וְנִרְצֵית מִנְחַת הֶבֶל, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיִּשַׁע ה' אֶל הֶבֶל וְאֶל מִנְחָתוֹ״.
Nota — por que a oferenda de Caim foi rejeitada. O texto é preciso: Caim trouxe "o que sobrava do seu alimento" — restos —, enquanto Hevel trouxe "os primogênitos e as gorduras", o melhor. A diferença não está no tipo de oferenda (vegetal × animal), mas na atitude do coração: Hevel deu o que tinha de melhor; Caim, o que lhe era indiferente. D'us "olha para o coração" — e a oferenda relutante não é oferenda. (O §6 acrescenta, com base em Hevel × Caim, a raiz da proibição do shaatnez: não misturar lã de Hevel, o pastor e linho de Caim, o lavrador.)
6
Rabi Yehoshua ben Korchá diz: disse o Santo, bendito seja: "nunca se misturem as oferendas de Caim e de Hevel, nem mesmo na tecitura de uma veste" — como está dito: "não vestirás shaatnez mistura de lã e linho" (Devarim 22:11); e ainda que as fibras estejam fiadas juntas, "não subirá sobre ti", como está dito: "nem veste de duas espécies misturadas, shaatnez, subirá sobre ti" (Vayikrá 19:19).
רַבִּי יְהוֹשֻׁעַ בֶּן קָרְחָה אוֹמֵר: אָמַר הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא, ״אַל יִתְעָרְבוּ מִנְחַת קַיִן וְהֶבֶל לְעוֹלָם״, שֶׁנֶּאֱמַר: ״לֹא תִלְבַּשׁ שַׁעַטְנֵז״, וְאֲפִלּוּ הִיא מְעֹרֶבֶת לֹא יַעֲלֶה עָלֶיךָ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וּבֶגֶד כִּלְאַיִם שַׁעַטְנֵז לֹא יַעֲלֶה עָלֶיךָ״.
7
Rabi Tzadok diz: entrou inveja e grande rancor no coração de Caim, por ter sido aceita a oferenda de Hevel. E não só isso, mas a mulher gêmea de Hevel era a mais bela das mulheres. Disse Caim: "matarei Hevel, meu irmão, e tomarei a sua mulher", como está dito: "e disse Caim a Hevel, seu irmão; e sucedeu que, estando eles no campo..." (Bereshit 4:8).
רַבִּי צָדוֹק אוֹמֵר: נִכְנְסָה קִנְאָה וְשִׂטְנָה גְּדוֹלָה בְּלִבּוֹ שֶׁל קַיִן עַל שֶׁנִּרְצֵית מִנְחָתוֹ שֶׁל הֶבֶל. וְלֹא עוֹד, אֶלָּא שֶׁהָיְתָה אִשְׁתּוֹ תְּאוֹמָתוֹ יָפָה בַּנָּשִׁים. אָמַר: ״אֲנִי אֶהֱרֹג אֶת הֶבֶל אָחִי וְאֶקַּח אֶת אִשְׁתּוֹ״, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיֹּאמֶר קַיִן אֶל הֶבֶל אָחִיו וַיְהִי בִּהְיוֹתָם בַּשָּׂדֶה״.
Nota. Os sábios apontam as três forças que armaram a mão de Caim — exatamente "a inveja, o desejo e a honra" que "tiram o homem do mundo" (Avot 4:21; cf. cap. 13): inveja (a oferenda de Hevel aceita), desejo (a esposa de Hevel) e o ferimento do orgulho. O primeiro homicídio da história não nasce de necessidade, mas dessas paixões não dominadas. É o aviso permanente da Torá: quem não governa a inveja acaba governado por ela.
8
Tomou a pedra e a cravou na testa de Hevel e o matou, como está dito: "e levantou-se Caim contra Hevel, seu irmão, e o matou" (Bereshit 4:8).
לָקַח הָאֶבֶן וְטָבַע בְּמִצְחוֹ שֶׁל הֶבֶל וַהֲרָגוֹ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיָּקָם קַיִן אֶל הֶבֶל אָחִיו וַיַּהַרְגֵהוּ״.
9
Rabi Yochanan disse: não sabia Caim que o oculto está revelado diante do Onipresente. Que fez? Tomou o cadáver do seu irmão e o enterrou na terra. Disse-lhe o Santo, bendito seja: "onde está Hevel, teu irmão?" Respondeu: "Senhor do mundo, puseste-me por guarda de campo e vinha; acaso sou guarda do meu irmão?", como está dito: "acaso sou eu o guarda do meu irmão?" (Bereshit 4:9). Disse-lhe o Santo, bendito seja: "mataste e também tomaste posse? A voz do sangue do teu irmão clama a Mim desde a terra" (cf. Melachim I 21:19; Bereshit 4:10). Quando Caim ouviu isto, ficou apavorado. E D'us o amaldiçoou a ser errante na terra, pelo derramamento de sangue.
רַבִּי יוֹחָנָן אָמַר: לֹא הָיָה יוֹדֵעַ קַיִן שֶׁהַנִּסְתָּרוֹת גְּלוּיוֹת לִפְנֵי הַמָּקוֹם. מֶה עָשָׂה? נָטַל אֶת נִבְלָתוֹ שֶׁל אָחִיו וְחָפַר וְטָמַן אוֹתוֹ בָּאָרֶץ. אָמַר לוֹ הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא: ״אֵי הֶבֶל אָחִיךָ?״ אָמַר לְפָנָיו: ״רִבּוֹנוֹ שֶׁל עוֹלָם, שׁוֹמֵר שָׂדֶה וְכֶרֶם שַׂמְתַּנִי, הֲשֹׁמֵר אָחִי אָנֹכִי?״ אָמַר לוֹ הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא: ״הֲרָצַחְתָּ וְגַם יָרַשְׁתָּ? קוֹל דְּמֵי אָחִיךָ צוֹעֲקִים אֵלַי״. כֵּיוָן שֶׁשָּׁמַע קַיִן הַדָּבָר, נִבְהַל. וַאֲרָרוֹ שֶׁיִּהְיֶה נוֹדֵד בָּאָרֶץ עַל שְׁפִיכוּת דָּמִים.
10
Disse Caim diante Dele: "Senhor dos mundos, grande é a minha culpa, demais para ser carregada" (Bereshit 4:13). E isto lhe foi considerado como um princípio de teshuvá. Que fez o Santo, bendito seja? Tomou uma letra das vinte e duas da Torá e a inscreveu no braço de Caim, para que não fosse morto, como está dito: "e pôs o Eterno em Caim um sinal" (Bereshit 4:15). E Adam e a sua companheira sentavam-se, choravam e pranteavam por Hevel, e não sabiam o que fazer com ele, pois não conheciam a sepultura. Veio um corvo cujo companheiro morrera; tomou-o, cavou na terra e o enterrou diante deles. Disse Adam: "farei como o corvo". De imediato tomou o cadáver de Hevel, cavou na terra e o enterrou. E o Santo, bendito seja, deu boa recompensa aos corvos neste mundo: quando clamam por chuva e alimento, Ele os atende, como está dito: "Ele dá ao animal o seu sustento, e aos filhotes do corvo que clamam" (Tehilim 147:9).
אָמַר קַיִן לְפָנָיו: ״רִבּוֹן הָעוֹלָמִים, גָּדוֹל עֲוֹנִי מִנְּשׂוֹא״. וְנֶחְשַׁב לוֹ הַדָּבָר הַזֶּה כִּתְשׁוּבָה, שֶׁנֶּאֱמַר: ״גָּדוֹל עֲוֹנִי מִנְּשׂוֹא״. מֶה עָשָׂה הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא? נָטַל אוֹת אַחַת מֵעֶשְׂרִים וּשְׁתַּיִם אוֹתִיּוֹת שֶׁבַּתּוֹרָה וְכָתַב עַל זְרוֹעוֹ שֶׁל קַיִן שֶׁלֹּא יֵהָרֵג, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיָּשֶׂם ה' לְקַיִן אוֹת״. וְהָיוּ אָדָם וְעֶזְרוֹ יוֹשְׁבִים וּבוֹכִים וּמִתְאַבְּלִים עָלָיו, וְלֹא הָיוּ יוֹדְעִים מַה לַּעֲשׂוֹת לְהֶבֶל שֶׁלֹּא הָיוּ נְהוּגִים בִּקְבוּרָה. בָּא עוֹרֵב אֶחָד שֶׁמֵּת לוֹ אֶחָד מֵחֲבֵרָיו, לָקַח אוֹתוֹ וְחָפַר בָּאָרֶץ וְטָמְנוֹ לְעֵינֵיהֶם. אָמַר אָדָם: ״כָּעוֹרֵב אֲנִי עוֹשֶׂה״. מִיָּד לָקַח נִבְלָתוֹ שֶׁל הֶבֶל וְחָפַר בָּאָרֶץ וּטְמָנָהּ. וְשִׁלֵּם הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא שָׂכָר טוֹב לָעוֹרְבִים, שֶׁנֶּאֱמַר: ״נוֹתֵן לִבְהֵמָה לַחְמָהּ לִבְנֵי עֹרֵב אֲשֶׁר יִקְרָאוּ״.
Os Sábios sobre este capítulo · פֵּרוּשִׁים
A oferenda do coração
A diferença entre as duas oferendas é a chave moral do capítulo. Hevel trouxe "os primogênitos e as gorduras" — o seu melhor; Caim, "o que sobrava" — restos. A Torá ensina que D'us não pesa o tamanho do dom, mas a intenção: "o Misericordioso quer o coração" (cf. Sanhedrin 106b). A mesma oferenda, dada com amor ou com indiferença, é aceita ou rejeitada. E quando a sua foi rejeitada, Caim não corrigiu o coração — alimentou a inveja.
As três forças e o primeiro crime
Os sábios mostram que o primeiro homicídio nasceu de "a inveja, o desejo e a honra" (Avot 4:21) — as mesmas forças da queda (cap. 13). Caim foi advertido por D'us antes do ato: "à porta jaz o pecado... mas tu o dominarás" (Bereshit 4:7). Tinha livre-arbítrio; escolheu não dominar. O capítulo é, assim, um estudo da responsabilidade: ninguém é arrastado ao mal — a inclinação convida, mas a mão é nossa.
"Acaso sou o guarda do meu irmão?"
A resposta de Caim a D'us tornou-se o emblema da indiferença moral — e a tradição responde com um sonoro sim: somos, sim, guardas uns dos outros. "A voz do sangue do teu irmão clama" ensina que o crime contra um ser humano não é privado: clama ao céu. E a Mishná (Sanhedrin 4:5) extrai da forma plural "os sangues de teu irmão" que quem destrói uma vida destrói um mundo inteiro — pois cada pessoa é única.
A teshuvá de Caim e o corvo
Mesmo Caim, o primeiro assassino, encontra uma porta: "grande é a minha culpa" é lido como princípio de arrependimento, e D'us mitiga a sua pena. É a afirmação radical da tradição: nenhuma falta fecha de todo o caminho do retorno (cf. cap. 15, as quatro portas). E o fecho — o corvo que ensina Adam a sepultar — mostra D'us instruindo a humanidade, por meio da própria natureza, no respeito devido ao morto (a raiz da kevurá e do chesed shel emet do cap. 17). Do primeiro luto nasce a primeira sepultura.
Sobre esta tradução
Texto hebraico: edição vocalizada de domínio público de Pirkei deRabbi Eliezer (Sefaria). A tradução ao português foi feita a partir do hebraico e cotejada com a tradução inglesa de G. Friedlander (Londres, 1916, domínio público). Os trechos aggádicos sensíveis (a origem de Caim; as alusões veladas) foram traduzidos com discrição e contextualizados na nota; pequenos acréscimos entre colchetes esclarecem o sentido.
A tradução, as notas e a coletânea de perushim (apoiada em comentários clássicos, como o do Radal — Rabi David Luria) são originais. Eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.