Pirkei deRabbi Eliezer · Capítulo 14

O pecado de Adam e Chavá: o julgamento e as consequências

פֶּרֶק י״ד
Hebraico (domínio público) · tradução do hebraico cotejada com o inglês · PT-BR

As dez "descidas" de D'us à história, e o julgamento do primeiro pecado: a veste de glória que se perde, a cadeia de culpas que ninguém quer assumir, e as consequências que tornam a vida mortal o que ela é.

1
Dez "descidas" desceu o Santo, bendito seja, sobre a terra, e são estas: uma no Gan Éden; uma na geração da Dispersão a Torre de Bavel; uma em Sodoma; uma na sarça ardente; uma no Egito; uma no Sinai; uma na fenda da rocha a Moshé; duas na Tenda do Encontro; e uma no porvir a redenção futura.
עֲשָׂרָה יְרִידוֹת יָרַד הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא עַל הָאָרֶץ, וְאֵלּוּ הֵן: אַחַת בְּגַן עֵדֶן, וְאַחַת בְּדוֹר הַפְּלַגָּה, וְאַחַת בִּסְדוֹם, וְאַחַת בַּסְּנֶה, וְאַחַת בְּמִצְרַיִם, וְאַחַת בְּסִינַי, וְאַחַת בְּנִקְרַת הַצּוּר, וּשְׁתַּיִם בְּאֹהֶל מוֹעֵד, וְאַחַת לֶעָתִיד לָבֹא.
Nota — o que é "descer". D'us não tem lugar nem corpo, e não Se "move" no espaço. As "dez descidas" são manifestações — momentos em que a Presença divina se revela na história: do Éden ao Sinai, até a redenção futura. "Descer" é a linguagem da Torá para a aproximação reveladora de D'us ao mundo dos homens, não um deslocamento físico (cf. o ensaio sobre a onipresença).
2
Uma no Gan Éden. De onde sabemos? Do que está dito: "e ouviram a voz do Eterno D'us que percorria o jardim" (Bereshit 3:8); e está escrito: "o meu amado desceu ao seu jardim, aos canteiros de bálsamo" (Shir HaShirim 6:2). Ali sentou-Se em juízo e julgou com reto juízo. Disse-lhe a Adam: "por que fugiste de diante de Mim?" Respondeu: "ouvi a Tua voz no jardim e temi, porque estava nu, e me escondi" (Bereshit 3:10).
אַחַת בְּגַן עֵדֶן. מִנַּיִן? שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיִּשְׁמְעוּ אֶת קוֹל ה' אֱלֹהִים מִתְהַלֵּךְ בַּגָּן״. וּכְתִיב: ״דּוֹדִי יָרַד לְגַנּוֹ לַעֲרוּגוֹת הַבֹּשֶׂם״. יָשַׁב בְּדִין וְשָׁפַט בְּדִין. אָמַר לוֹ: ״מִפְּנֵי מָה אַתָּה בָּרַחְתָּ מִלְּפָנַי?״ אָמַר: ״אֶת קוֹלְךָ שָׁמַעְתִּי בַּגָּן וָאִירָא כִּי עֵירֹם אָנֹכִי וָאֵחָבֵא״.
3
Qual era a veste do primeiro homem? Uma pele luminosa como a da unha, e uma nuvem de glória que o cobria. E, quando comeu dos frutos da árvore, despiu-se dele aquela pele de unha, e retirou-se de sobre ele a nuvem de glória, e ele viu-se nu, como está dito: "e disse D'us: quem te contou que estavas nu?" (Bereshit 3:11).
מָה הָיָה לְבוּשׁוֹ שֶׁל אָדָם הָרִאשׁוֹן? עוֹר צִפֹּרֶן וַעֲנַן כָּבוֹד הַמְכַסֶּה עָלָיו. וְכֵיוָן שֶׁאָכַל מִפֵּרוֹת הָאִילָן, נִפְשַׁט עוֹרוֹ וְצִפֹּרֶן מֵעָלָיו וְנִסְתַּלְּקָה עֲנַן כָּבוֹד מֵעָלָיו, וְרָאָה עַצְמוֹ עָרוֹם, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיֹּאמֶר מִי הִגִּיד לְךָ כִּי עֵירֹם אָתָּה?״
Nota — a veste de glória. Antes do pecado, o ser humano era envolto numa "nuvem de glória" — uma dignidade luminosa. Os comentadores leem aqui um símbolo: a clareza original do espírito, que vestia o homem antes que o desejo tomasse a frente. Ao "comer", essa veste se retira, e surge a vergonha da nudez — o despertar da consciência do corpo e do apetite (cf. Rambam, Guia I:2: antes, Adam via com nitidez o verdadeiro e o falso; depois, passou a julgar pelo agradável e o repugnante). A "nudez" não é só física: é a perda da cobertura interior.
4
Disse Adam diante do Santo, bendito seja: "Senhor de todos os mundos, quando eu estava só, não pequei contra Ti; foi a mulher que puseste comigo que me desviou dos Teus caminhos", como está dito: "a mulher que me deste por companheira, ela me deu da árvore, e comi" (Bereshit 3:12). Chamou o Santo, bendito seja, a mulher e disse-lhe: "não te bastou pecares por ti mesma, senão que fizeste pecar também a Adam?" Respondeu ela diante Dele: "Senhor de todos os mundos, a serpente desviou a minha mente para pecar diante de Ti", como está dito: "a serpente me enganou, e comi" (Bereshit 3:13). E trouxe os três e proferiu sobre eles uma sentença de nove maldições e a morte.
אָמַר אָדָם לִפְנֵי הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא: רִבּוֹן כָּל הָעוֹלָמִים, כְּשֶׁהָיִיתִי לְבַדִּי לֹא חָטָאתִי לְךָ, אֶלָּא שֶׁהָאִשָּׁה שֶׁהֵבֵאתָ אֶצְלִי הִיא הִדִּיחָה אוֹתִי מִדְּרָכֶיךָ, שֶׁנֶּאֱמַר ״הָאִשָּׁה אֲשֶׁר נָתַתָּ עִמָּדִי״ וְכוּ'. קָרָא הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא לָאִשָּׁה וְאָמַר לָהּ: ״לֹא דַּיֵּךְ שֶׁחָטָאת אֶת עַצְמֵךְ, אֶלָּא שֶׁחָטָאת אֶת אָדָם?״ אָמְרָה לְפָנָיו: רִבּוֹן כָּל הָעוֹלָמִים, הַנָּחָשׁ הִסִּיחַ דַּעְתִּי לַחֲטֹא לְפָנֶיךָ, שֶׁנֶּאֱמַר ״הַנָּחָשׁ הִשִּׁיאַנִי וָאֹכֵל״. וְהֵבִיא שְׁלָשְׁתָּן וְנָתַן עֲלֵיהֶם גְּזַר דִּין מִתִּשְׁעָה קְלָלוֹת וּמָוֶת.
Nota — a cadeia de culpas. Eis o coração ético do capítulo: Adam culpa a mulher (e, de passagem, o próprio D'us — "a mulher que Tu me deste"); a mulher culpa a serpente. Ninguém diz "eu errei". Os sábios veem aqui o oposto da teshuvá: o pecado pode ser perdoado, mas a recusa de assumir o ato perpetua-o. O primeiro passo do arrependimento é parar de transferir a culpa.
5
E lançou Samael e o seu bando do seu lugar de santidade nos céus; cortou os pés da serpente, e decretou que ela trocasse de pele, sofrendo com grande dor uma vez a cada sete anos; e a amaldiçoou a rastejar sobre o ventre, e que o seu alimento se transformasse em pó nas suas entranhas, e tivesse o fel de víboras e a morte na boca; e pôs inimizade entre ela e os filhos da mulher, que lhe esmagariam a cabeça; e, depois de tudo isso, a morte. E deu à mulher nove aflições e a morte: as dores do parto, as do sangue dos ciclos, as da gravidez e as de criar os filhos; e outras provações ligadas à condição social da época; e, depois de tudo isso, a morte.
וְהִפִּיל אֶת סָמָאֵל וְאֶת כַּת שֶׁלּוֹ מִמְּקוֹם קְדֻשָּׁתָן מִן הַשָּׁמַיִם, וְקִצֵּץ רַגְלָיו שֶׁל נָחָשׁ, וּפָקַד עָלָיו לִהְיוֹת מַפְשִׁיט אֶת עוֹרוֹ וּמִצְטַעֵר אַחַת לְשִׁבְעָה שָׁנִים בְּעִצָּבוֹן גָּדוֹל. וְאָרְרוֹ שֶׁיִּהְיֶה שׁוֹאֵף בְּמֵעָיו, וּמְזוֹנוֹ נֶהְפַּךְ בְּמֵעָיו לְעָפָר, וּמְרוֹרַת פְּתָנִים מָוֶת בְּפִיהוּ. תִּתֵּן שִׂנְאָה בֵּינוֹ לְבֵין בְּנֵי הָאִשָּׁה שֶׁהָיוּ רוֹצְצִין אֶת רֹאשׁוֹ, וְאַחַר מִמֶּנּוּ הַמָּוֶת. וְנָתַן לָאִשָּׁה מִתֵּשַׁע קְלָלוֹת וָמָוֶת: עִנּוּי לֵידָה וְעִנּוּי דַּם בְּתוּלִים וְעִנּוּי הֵרָיוֹן וְעִנּוּי גִּדּוּל בָּנִים, וּמְכַסָּה אֶת רֹאשָׁהּ כְּאָבֵל, וְאֵינָהּ מְגַלַּחַת אוֹתָהּ כִּי אִם בִּזְנוּת, וְרָצַע אֶת אָזְנָהּ כְּעֶבֶד עוֹלָם, וּכְשִׁפְחָה מְשָׁרֶתֶת בַּעְלָהּ, וְאֵינָהּ נֶאֱמֶנֶת בְּעֵדוּת, וְאַחַר כָּל אֵלֶּה מָוֶת.
Nota — leitura honesta das "maldições". O capítulo enumera nove aflições e a morte para cada um dos três — a serpente, a mulher e o homem (§6) —, ecoando as palavras de Bereshit 3:14-19. É preciso lê-las com honestidade. Várias das aflições atribuídas à mulher (cobrir a cabeça, o rito da sotá, as regras de testemunho, a sujeição ao marido) descrevem a realidade jurídica e social do mundo antigo em que o midrash foi escrito — não constituem um decreto divino da inferioridade feminina, e a própria tradição honra a sabedoria e a dignidade das mulheres (as matriarcas, Devorá, Chuldá). A lista é do gênero "aflições da vida mortal pós-Éden", e a sua estrutura simétrica (também o homem recebe nove + a morte) mostra o ponto real: a saída do Éden inaugurou a condição humana de esforço, dor e finitude — para todos.
6
E impôs a Adam nove aflições e a morte: encurtou a sua força, encurtou a sua estatura, as impurezas ligadas ao corpo; semear trigo e colher espinhos; o seu alimento tirado da erva do campo, como o do animal; o seu pão com fadiga, o seu sustento com suor; e, depois de tudo isso, a morte.
וְהוֹצִיא דּוֹמִיס לְאָדָם מִתֵּשַׁע קְלָלוֹת וּמָוֶת: וְקִצֵּר כֹּחוֹ, וְקִצֵּר קוֹמָתוֹ, טֻמְאַת הַזָּב, טֻמְאַת הַקֶּרִי, טֻמְאַת תַּשְׁמִישׁ הַמִּטָּה, זוֹרֵעַ חִטִּים וְקוֹצֵר קוֹצִים, וּמַאֲכָלוֹ בְּעֵשֶׂב הָאָרֶץ כַּבְּהֵמָה, לַחְמוֹ בִּדְאָבָה, מְזוֹנוֹתָיו בְּזֵיעַ, וְאַחַר כָּל אֵלּוּ מָוֶת.
7
Se Adam pecou, em que pecou a terra, para ser amaldiçoada? Mas foi porque ela não denunciou o que se fez ou: não cumpriu como devia; por isso foi amaldiçoada. E, na hora em que os filhos do homem pecam com transgressões mais leves, D'us fere os frutos da terra por causa dos filhos do homem, como está dito: "maldita é a terra por tua causa" (Bereshit 3:17).
אִם אָדָם חָטָא, מָה חָטְאָה אֶרֶץ שֶׁנֶּאֶרְרָה? אֶלָּא עַל שֶׁלֹּא הִגִּיד אֶת מַעֲשֶׂיהָ, לְפִיכָךְ נֶאֶרְרָה. וּבְשָׁעָה שֶׁבְּנֵי אָדָם חוֹטְאִין בַּעֲבֵירוֹת הַקַּלּוֹת, הוּא מַכֶּה פֵּרוֹתֶיהָ שֶׁל אֶרֶץ בַּעֲבוּר בְּנֵי אָדָם, שֶׁנֶּאֱמַר: ״אֲרוּרָה הָאֲדָמָה בַּעֲבוּרֶךָ״.
Nota. A pergunta — "se Adam pecou, por que a terra é amaldiçoada?" — aponta para um princípio profundo: a interligação entre o ser humano e o mundo. As escolhas humanas repercutem na criação inteira. E há uma calibragem: às faltas graves correspondem golpes diretos; às mais leves, uma diminuição nos frutos da terra — um chamado à correção, não uma destruição. (Há também uma recensão variante deste capítulo, na edição de Veneza de 1544, que reordena a lista das "dez descidas".)

Os Sábios sobre este capítulo · פֵּרוּשִׁים

As "dez descidas": D'us na história

O capítulo abre o tema das dez yeridot — momentos em que a Presença divina se manifesta na história, do Éden ao porvir. Os comentadores racionalistas, na linha do Rambam, insistem que "descer" é metáfora: D'us, que não tem lugar nem corpo, não Se desloca. O que "desce" é a revelação — a aproximação de D'us ao mundo humano em horas decisivas. A lista desenha um arco: da queda no jardim, passando pela libertação do Egito e pela Torá no Sinai, até a redenção final. A história tem direção.

A veste de luz e o sentido da "nudez"

A "nuvem de glória" que vestia Adam (§3) e a vergonha da nudez que a sucede recebem, na tradição racionalista, uma leitura espiritual. Para o Rambam (Guia I:2), antes do pecado o ser humano percebia a realidade com clareza — distinguia o verdadeiro do falso; depois, passou a ser dominado pelo agradável e o repugnante, o juízo do desejo. A "veste" perdida é essa nitidez interior; a "nudez" é o desnudamento diante do próprio apetite. Recuperar a veste é reconquistar o domínio da razão sobre o impulso.

A culpa que ninguém assume

O diálogo do julgamento (§4) é uma das passagens mais agudas da Torá: Adam culpa a mulher e, indiretamente, D'us; a mulher culpa a serpente. Os sábios veem aí o avesso do arrependimento. D'us não pergunta para Se informar — pergunta "onde estás?" para abrir a porta da confissão; e ambos a recusam, deslocando a responsabilidade. A lição atravessa toda a tradição ética: a teshuvá começa quando se deixa de dizer "a culpa é do outro" e se diz "eu errei".

As consequências e a terra

As "nove maldições e a morte" para cada parte (a serpente, a mulher, o homem) ecoam Bereshit 3 e descrevem o ingresso na condição mortal: o esforço, a dor, a finitude. Lidas com honestidade, várias das aflições refletem o mundo social antigo, não um ideal eterno — e a simetria das três listas mostra que a queda pesa sobre toda a humanidade. Por fim, a maldição da terra (§7) ensina a interligação de tudo: o ser humano e o mundo partilham um destino, e o nosso agir moral repercute na criação inteira — "maldita é a terra por tua causa" (Bereshit 3:17).

Sobre esta tradução

Texto hebraico: edição vocalizada de domínio público de Pirkei deRabbi Eliezer (Sefaria). A tradução ao português foi feita a partir do hebraico e cotejada com a tradução inglesa de G. Friedlander (Londres, 1916, domínio público). Há uma recensão variante do capítulo (Veneza, 1544); seguimos o texto principal (§§1–7).

A tradução, as notas e a coletânea de perushim (apoiada em comentários clássicos, como o do Radal — Rabi David Luria) são originais. Os trechos sensíveis foram traduzidos com fidelidade e contextualizados com honestidade. Eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.