Pirkei deRabbi Eliezer · Capítulo 10

A história de Yoná: a fuga, o grande peixe e a teshuvá das profundezas

פֶּרֶק י׳
Hebraico (domínio público) · tradução do hebraico cotejada com o inglês · PT-BR

Por que Yoná fugiu? A tradição lê o livro de Jonas como um drama do arrependimento — a impossibilidade de fugir de D'us, a oração lançada do fundo do abismo, e até marinheiros idólatras que se voltam ao D'us de Israel.

1
No quinto dia, Yoná fugiu de diante de D'us. E por que fugiu? Na primeira vez, D'us o enviara para restaurar a fronteira de Israel, e as suas palavras se cumpriram, como está dito: "ele restaurou a fronteira de Israel desde a entrada de Chamat..." (Melachim II 14:25). Na segunda vez, enviou-o a Jerusalém para profetizar a sua destruição; mas, como fizeram teshuvá, o Santo, bendito seja, agiu segundo a abundância da Sua bondade e Se arrependeu do mal, e ela não foi destruída — e os de Israel passaram a chamá-lo "profeta mentiroso". Na terceira vez, enviou-o a Nínive. Yoná julgou consigo mesmo: "eu sei que esta nação é dada à teshuvá; agora farão teshuvá, e o Santo, bendito seja, lançará a Sua ira sobre Israel que não se arrepende. E não basta que Israel me chame de profeta mentiroso, mas até os povos? Eis que vou fugir para um lugar onde não se diz que está a Sua glória." Mas, se sobre os céus está dito que ali está a Sua glória — "sobre os céus está a Sua glória" (Tehilim 113:4) — e sobre a terra está dito que ali está a Sua glória — "a terra inteira está cheia da Sua glória" (Yeshayahu 6:3) —, "eis que fugirei para um lugar onde não se diz que está a Sua glória". Desceu Yoná a Yafo e não achou ali navio para embarcar; e o navio em que viria a embarcar estava a dois dias de viagem de Yafo — para pôr Yoná à prova. Que fez o Santo, bendito seja? Trouxe sobre ele uma tempestade no mar e o fez voltar a Yafo. E Yoná viu e alegrou-se no coração, dizendo: "agora sei que o meu caminho está aplainado diante de mim".
בַּחֲמִישִׁי בָּרַח יוֹנָה מִפְּנֵי אֱלֹהִים, וְלָמָּה בָּרַח? אֶלָּא פַּעַם רִאשׁוֹן שְׁלָחוֹ לְהָשִׁיב אֶת גְּבוּל יִשְׂרָאֵל וְעָמְדוּ דְּבָרָיו, שֶׁנֶּאֱמַר: ״הוּא הֵשִׁיב אֶת גְּבוּל יִשְׂרָאֵל מִלְּבוֹא חֲמָת״ וְכוּ'. פַּעַם שְׁנִיָּה שְׁלָחוֹ לִירוּשָׁלַיִם לְהַחֲרִיבָהּ, כֵּיוָן שֶׁעָשׂוּ תְּשׁוּבָה הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא עָשָׂה כְּרוֹב חֲסָדָיו וְנִחַם עַל הָרָעָה וְלֹא חָרְבָה, וְהָיוּ יִשְׂרָאֵל קוֹרְאִין אוֹתוֹ נְבִיא שֶׁקֶר. פַּעַם שְׁלִישִׁית שְׁלָחוֹ לְנִינְוֵה, דָּן יוֹנָה דִּין בֵּינוֹ לְבֵין עַצְמוֹ, אָמַר: אֲנִי יוֹדֵעַ שֶׁזֶּה הַגּוֹי קְרוֹבֵי הַתְּשׁוּבָה הֵם, עַכְשָׁיו עוֹשִׂין תְּשׁוּבָה וְהַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא שׁוֹלֵחַ רֻגְזוֹ עַל יִשְׂרָאֵל, וְלֹא דַי שֶׁיִּשְׂרָאֵל קוֹרִין אוֹתִי נְבִיא הַשֶּׁקֶר אֶלָּא אַף הָעַכּוּ״ם. הֲרֵינִי בּוֹרֵחַ לִי לְמָקוֹם שֶׁלֹּא נֶאֱמַר כְּבוֹדוֹ שָׁם; אִם עַל הַשָּׁמַיִם נֶאֱמַר שֶׁכְּבוֹדוֹ שָׁם, שֶׁנֶּאֱמַר: ״עַל הַשָּׁמַיִם כְּבוֹדוֹ״, עַל הָאָרֶץ נֶאֱמַר שֶׁכְּבוֹדוֹ שָׁם, שֶׁנֶּאֱמַר: ״מְלֹא כָל הָאָרֶץ כְּבוֹדוֹ״, הֲרֵינִי בּוֹרֵחַ לִי לְמָקוֹם שֶׁלֹּא נֶאֱמַר כְּבוֹדוֹ שָׁם. יָרַד יוֹנָה לְיָפוֹ וְלֹא מָצָא שָׁם אֳנִיָּה לִירֵד בָּהּ, וְהָאֳנִיָּה שֶׁיָּרַד בָּהּ יוֹנָה הָיְתָה רְחוֹקָה מִיָּפוֹ מַהֲלַךְ שְׁנֵי יָמִים לְנַסּוֹת אֶת יוֹנָה. מֶה עָשָׂה הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא? הֵבִיא עָלֶיהָ רוּחַ סְעָרָה בַּיָּם וְהֶחֱזִירָהּ לְיָפוֹ, וְרָאָה יוֹנָה וְשָׂמַח בְּלִבּוֹ וְאָמַר: עַכְשָׁיו אֲנִי יוֹדֵעַ שֶׁדַּרְכִּי מְיֻשָּׁרָה לְפָנַי.
Nota — por que Yoná fugiu. A tradição dá a Yoná um motivo nobre, não covardia: ele temia que o arrependimento de Nínive (uma nação "pronta a se arrepender") envergonhasse Israel, que resistia à teshuvá — e que ele fosse de novo tachado de "profeta mentiroso". E o capítulo sublinha, com fina ironia, a impossibilidade da fuga: Yoná procura "um lugar onde não esteja a glória de D'us" — mas os céus e a terra estão cheios dela (Tehilim 113:4; Yeshayahu 6:3). Não há para onde fugir de D'us (cf. Tehilim 139:7). Até a "sorte" do navio que aparece é, na verdade, uma prova.
2
Disse-lhes aos marinheiros: "descerei convosco". Responderam: "eis que vamos para as ilhas do mar, a Társis". Disse-lhes: "irei convosco". Ora, o costume de todos os navios é que, quando alguém desembarca, paga então a sua passagem; mas Yoná, na alegria do seu coração, adiantou-se e pagou a passagem, como está dito: "e levantou-se Yoná para fugir a Társis, de diante do Eterno; e desceu a Yafo, achou um navio que ia a Társis, pagou a sua passagem e desceu nele..." (Yoná 1:3).
אָמַר לָהֶם: ״אֵרֵד עִמָּכֶם״. אָמְרוּ לוֹ: ״הֲרֵי אָנוּ הוֹלְכִים לְאִיֵּי הַיָּם תַּרְשִׁישָׁה״. אָמַר לָהֶם: ״אָבֹא עִמָּכֶם״. וְדֶרֶךְ כָּל הָאֳנִיּוֹת כְּשֶׁאָדָם יוֹצֵא מִמֶּנָּה הוּא נוֹתֵן שְׂכָרָהּ, וְיוֹנָה בְּשִׂמְחַת לִבּוֹ הִקְדִּים וְנָתַן שְׂכָרָהּ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיָּקָם יוֹנָה לִבְרֹחַ תַּרְשִׁישָׁה מִלִּפְנֵי ה' וַיֵּרֶד יָפוֹ״ וְכוּ'.
3
Navegaram a distância de um dia, e levantou-se sobre eles uma tempestade no mar, à sua direita e à sua esquerda; e, enquanto todos os outros navios iam e voltavam em paz, num mar tranquilo, o navio em que Yoná descera estava em grande aflição, como está dito: "e o navio ameaçava quebrar-se" (Yoná 1:4).
פָּרְשׂוּ מַהֲלַךְ יוֹם אֶחָד וְעָמַד עֲלֵיהֶם רוּחַ סְעָרָה בַּיָּם מִימִינָם וּמִשְּׂמֹאלָם, וְדֶרֶךְ כָּל הָאֳנִיּוֹת עוֹבְרוֹת וְשָׁבוֹת בְּשָׁלוֹם בִּשְׁתִיקוֹת הַיָּם, וְהָאֳנִיָּה שֶׁיָּרַד בָּהּ יוֹנָה הָיְתָה בְּצָרָה גְדוֹלָה, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וְהָאֳנִיָּה חִשְּׁבָה לְהִשָּׁבֵר״.
4
Rabi Chanina diz: havia no navio homens das setenta línguas todos os povos, e cada um tinha o seu ídolo na mão, como está dito: "e temeram os marinheiros, e clamaram cada um ao seu deus" (Yoná 1:5). E prostraram-se e disseram: "clame cada um ao seu deus, e o deus que responder e nos livrar desta aflição, esse é o verdadeiro D'us". E clamou cada um ao seu deus, e nada adiantou. E Yoná, na angústia da sua alma, adormecera e dormia. Veio a ele o capitão e disse: "eis que estamos entre a morte e a vida, e tu dormes? De que povo és tu?" Respondeu: "hebreu sou eu". Disse-lhe: "não ouvimos que o D'us dos hebreus é grande? Levanta-te, clama ao teu D'us; talvez Ele Se compadeça de nós e faça conosco milagres como os que fez por vós no Mar de Suf". Disse-lhes: "não vos ocultarei: por minha causa veio sobre vós esta aflição; tomai-me e lançai-me ao mar, e o mar se aquietará sobre vós", como está dito: "tomai-me e lançai-me ao mar..." (Yoná 1:12).
רַבִּי חֲנִינָא אוֹמֵר: מִשִּׁבְעִים לְשׁוֹנוֹת הָיוּ בָּאֳנִיָּה, וְכָל אֶחָד וְאֶחָד שִׁקּוּצוֹ בְּיָדוֹ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיִּירְאוּ הַמַּלָּחִים וַיִּזְעֲקוּ אִישׁ אֶל אֱלֹהָיו״. וַיִּשְׁתַּחֲווּ וַיֹּאמְרוּ: ״נִקְרָא אִישׁ אֶל אֱלֹהָיו וְהָיָה אֱלֹהִים אֲשֶׁר יַעֲנֵהוּ וְיַצִּיל אוֹתָנוּ מִצָּרָה זֹאת הוּא הָאֱלֹהִים״. וְקָרְאוּ אִישׁ אֶל אֱלֹהָיו וְלֹא הוֹעִילוּ, וְיוֹנָה בְּצָרַת נַפְשׁוֹ נִרְדָּם וְיָשֵׁן לוֹ. בָּא אֵלָיו רַב הַחוֹבֵל, אָמַר לוֹ: ״הֲרֵי אָנוּ עוֹמְדִים בֵּין מָוֶת לְחַיִּים וְאַתָּה נִרְדָּם וְיָשֵׁן? מֵאֵיזֶה עַם אַתָּה?״ אָמַר לוֹ: ״עִבְרִי אָנֹכִי״. אָמַר לוֹ: ״וַהֲלֹא שָׁמַעְנוּ שֶׁאֱלֹהֵי הָעִבְרִים גָּדוֹל הוּא, קוּם קְרָא אֶל אֱלֹהֶיךָ, אוּלַי יִתְעַשֵּׁת הָאֱלֹהִים לָנוּ וְיַעֲשֶׂה עִמָּנוּ נִסִּים כְּמוֹ שֶׁעָשָׂה לָכֶם בְּיָם סוּף״. אָמַר לָהֶם: ״לֹא אֲכַחֵד מִכֶּם, כִּי בִּשְׁבִילִי הַצָּרָה הַזֹּאת עֲלֵיכֶם; שָׂאוּנִי וַהֲטִילֻנִי אֶל הַיָּם וְיִשְׁתֹּק הַיָּם מֵעֲלֵיכֶם״, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיֹּאמֶר אֲלֵיהֶם שָׂאוּנִי וַהֲטִילֻנִי״ וְכוּ'.
5
Rabi Shimon diz: os homens não consentiram em lançar Yoná ao mar, e lançaram sortes entre si, e a sorte caiu sobre Yoná, como está dito: "e lançaram sortes..." (Yoná 1:7). Que fizeram? Tomaram os utensílios que havia no navio e os atiraram ao mar, para aliviá-lo — e nada adiantou. Quiseram remar de volta à terra seca, e não puderam. Que fizeram? Tomaram Yoná, puseram-se à popa do navio e disseram: "D'us eterno, Eterno, não ponhas sobre nós sangue inocente, pois não sabemos a verdadeira índole deste homem". Disse-lhes Yoná: "por minha causa veio sobre vós esta aflição; tomai-me e lançai-me ao mar".
רַבִּי שִׁמְעוֹן אוֹמֵר: לֹא קִבְּלוּ הָאֲנָשִׁים לְהַפִּיל אֶת יוֹנָה אֶל הַיָּם וְהִפִּילוּ גּוֹרָלוֹת עֲלֵיהֶם וַיִּפֹּל הַגּוֹרָל עַל יוֹנָה, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיַּפִּלוּ גּוֹרָלוֹת״ וְכוּ', מֶה עָשׂוּ? נָטְלוּ אֶת הַכֵּלִים שֶׁבָּאֳנִיָּה וְהִשְׁלִיכוּ אוֹתָם אֶל הַיָּם לְהָקֵל מֵעֲלֵיהֶם וְלֹא הוֹעִיל מְאוּמָה; רָצוּ לַחְתֹּר בַּיַּבָּשָׁה וְלֹא יָכְלוּ; מֶה עָשׂוּ? נָטְלוּ אֶת יוֹנָה וְעָמְדוּ עַל יַרְכְּתֵי הַסְּפִינָה וְאָמְרוּ: ״אֱלֹהֵי עוֹלָם ה', אַל תִּתֵּן עָלֵינוּ דָּם נָקִי, שֶׁאֵין אָנוּ יוֹדְעִין מַה טִּיבוֹ שֶׁל הָאִישׁ הַזֶּה״. אָמַר לָהֶם: ״בִּשְׁבִילִי הַצָּרָה הַזֹּאת עֲלֵיכֶם, שָׂאוּנִי וַהֲטִילוּנִי אֶל הַיָּם״.
6
Imediatamente tomaram-no e o baixaram no mar até os joelhos — e o mar cessou do seu furor; tornaram a recolhê-lo, e o mar voltou a enfurecer-se sobre eles; baixaram-no até o pescoço — e o mar cessou do seu furor; e de novo o recolheram, e o mar ia enfurecendo-se sobre eles; lançaram-no por inteiro, e imediatamente o mar cessou do seu furor.
מִיָּד נְטָלוּהוּ וְהִטִּילוּהוּ עַד אַרְכֻּבּוֹתָיו, וְעָמַד הַיָּם מִזַּעְפּוֹ; לָקְחוּ אוֹתוֹ אֶצְלָם וְהַיָּם סוֹעֵר עֲלֵיהֶם; הִטִּילוּהוּ עַד צַוָּארוֹ וְהֶעֱמִיד הַיָּם מִזַּעְפּוֹ; וְעוֹד הֶעֱלוּ אוֹתוֹ אֶצְלָן וְהַיָּם הוֹלֵךְ וְסוֹעֵר עֲלֵיהֶם; הִטִּילוּהוּ כֻּלּוֹ וּמִיָּד עָמַד הַיָּם מִזַּעְפּוֹ.
Nota. O detalhe da imersão gradual — joelhos, pescoço, todo — mostra os marinheiros tentando, com piedade, salvar Yoná: cada vez que o recolhiam, o mar voltava a bramir, até que não houve dúvida sobre o que fazer. Não eram homens cruéis; agiram só constrangidos, e com temor de "derramar sangue inocente". O capítulo prepara, assim, a sua conversão final (§10).
7
Rabi Tarfon diz: aquele peixe fora designado para engolir Yoná desde os seis dias da criação, como está dito: "e o Eterno preparou um grande peixe para engolir Yoná" (Yoná 2:1). Yoná entrou na sua boca como um homem que entra numa grande sinagoga, e ali ficou; e os dois olhos do peixe eram como janelas que davam luz a Yoná.
רַבִּי טַרְפוֹן אוֹמֵר: מְמֻנֶּה הָיָה אוֹתוֹ הַדָּג לִבְלֹעַ אֶת יוֹנָה מִשֵּׁשֶׁת יְמֵי בְרֵאשִׁית, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיְמַן ה' דָּג גָּדוֹל לִבְלֹעַ אֶת יוֹנָה״. נִכְנַס בְּפִיו כְּאָדָם שֶׁהוּא נִכְנָס בְּבֵית הַכְּנֶסֶת הַגְּדוֹלָה וְעָמַד, וְהָיוּ שְׁתֵּי עֵינָיו שֶׁל דָּג כַּחֲלוֹנוֹת אֲפוּמִיּוֹת מְאִירוֹת לְיוֹנָה.
8
Rabi Meir diz: havia uma pérola pendurada nas entranhas do peixe, que iluminava Yoná como este sol que brilha ao meio-dia, e lhe mostrava tudo o que havia no mar e nos abismos; e sobre ele diz o versículo: "luz é semeada para o justo" (Tehilim 97:11).
רַבִּי מֵאִיר אוֹמֵר: מַרְגָּלִית אַחַת הָיְתָה תְּלוּיָה בִּמְעָיו שֶׁל דָּג מְאִירָה לְיוֹנָה כַּשֶּׁמֶשׁ הַזֶּה שֶׁהוּא מֵאִיר בַּצָּהֳרַיִם וּמַרְאָה לוֹ כָּל מַה שֶּׁבַּיָּם וּבַתְּהוֹמוֹת, וְעָלָיו הַכָּתוּב אוֹמֵר: ״אוֹר זָרֻעַ לַצַּדִּיק״.
9
Disse o peixe a Yoná: "não sabes que chegou o meu dia de ser devorado pela boca do Leviatã?" Disse-lhe Yoná: "leva-me até ele". Disse Yoná ao Leviatã: "por tua causa desci, para ver o lugar da tua morada, pois eu hei de, no futuro, pôr uma corda na tua língua, fazer-te subir e abater-te para o grande banquete dos justos". Mostrou-lhe o selo de Avraham a circuncisão, dizendo: "olha para a aliança!" — e o Leviatã viu, e fugiu de diante de Yoná a distância de dois dias de viagem. Disse Yoná ao peixe: "eis que te salvei da boca do Leviatã; mostra-me tudo o que há no mar e nos abismos". E o peixe mostrou-lhe o grande rio das águas do oceano, como está dito: "o abismo me rodeava" (Yoná 2:6); e mostrou-lhe os caminhos do Mar de Suf por onde Israel passou, como está dito: "as algas se enrolaram à minha cabeça" (Yoná 2:6); e mostrou-lhe o lugar de onde saem as vagas e ondas do mar, como está dito: "todas as tuas vagas e ondas passaram sobre mim" (Yoná 2:4); e mostrou-lhe as colunas da terra e os seus fundamentos, como está dito: "a terra, com os seus ferrolhos, se fechou sobre mim para sempre" (Yoná 2:7); e mostrou-lhe o Guehinom; e mostrou-lhe o Sheol mais profundo, como está dito: "do ventre do Sheol clamei, e ouviste a minha voz" (Yoná 2:3); e mostrou-lhe o Templo do Eterno, como está dito: "desci até as raízes dos montes" (Yoná 2:7) — daqui aprendemos que Jerusalém está sobre sete montes —; e mostrou-lhe a Even Shetiyá a Pedra Fundamental, fixada nos abismos sob o Templo do Eterno, e os filhos de Korach de pé, orando sobre ela. Disse o peixe a Yoná: "Yoná, eis que estás sob o Templo do Eterno; ora, e serás respondido". Disse Yoná ao peixe: "fica no lugar em que estás, pois quero orar". Parou o peixe, e Yoná começou a orar diante do Santo, bendito seja, e disse perante Ele: "Senhor do mundo, chamado és 'o que faz descer e o que faz subir' — desci, faze-me subir; chamado és 'o que mata e o que dá vida' — eis que a minha alma chegou à morte, faze-me viver". E não foi respondido, até que saiu da sua boca esta palavra: "o que votei, cumprirei — votei fazer subir o Leviatã e abatê-lo diante de Ti; cumprirei isso no dia da salvação de Israel". Imediatamente o Santo, bendito seja, fez um aceno, e o peixe lançou Yoná para fora, como está dito: "e falou o Eterno ao peixe, e ele vomitou Yoná em terra seca" (Yoná 2:11).
אָמַר לוֹ הַדָּג לְיוֹנָה: ״אֵין אַתָּה יוֹדֵעַ שֶׁבָּא יוֹמִי לְהֵאָכֵל בְּפִיו שֶׁל לִוְיָתָן?״ אָמַר לוֹ יוֹנָה: ״הוֹלִיכֵנִי אֶצְלוֹ״. אָמַר יוֹנָה לַלִּוְיָתָן: ״בִּשְׁבִילְךָ יָרַדְתִּי לִרְאוֹת מְקוֹם מְדוֹרְךָ שֶׁאֲנִי עָתִיד לִיתֵּן חֶבֶל בִּלְשׁוֹנְךָ וּלְהַעֲלוֹתְךָ וְלִזְבּוֹחַ אוֹתְךָ לַסְּעוּדָה הַגְּדוֹלָה שֶׁל צַדִּיקִים״. הֶרְאָהוּ חוֹתָמוֹ שֶׁל אַבְרָהָם, אָמַר: ״הַבֵּט לַבְּרִית״, וְרָאָה לִוְיָתָן וּבָרַח מִפְּנֵי יוֹנָה מַהֲלַךְ שְׁנֵי יָמִים. אָמַר לוֹ: ״הֲרֵי הִצַּלְתִּיךָ מִפִּיו שֶׁל לִוְיָתָן, הַרְאֵנִי כָּל מַה שֶּׁבַּיָּם וּבַתְּהוֹמוֹת״, וְהֶרְאָהוּ נָהָר גָּדוֹל שֶׁל מֵימֵי אוֹקְיָנוֹס, שֶׁנֶּאֱמַר: ״תְּהוֹם יְסֹבְבֵנִי״, וְהֶרְאָהוּ יַם סוּף שֶׁעָבְרוּ בְתוֹכוֹ יִשְׂרָאֵל, שֶׁנֶּאֱמַר: ״סוּף חָבוּשׁ לְרֹאשִׁי״, וְהֶרְאָהוּ מְקוֹם מִשְׁבְּרֵי יָם וְגַלָּיו יוֹצְאִים מִמֶּנּוּ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״כָּל מִשְׁבָּרֶיךָ וְגַלֶּיךָ עָלַי עָבָרוּ״, וְהֶרְאָהוּ עַמּוּדֵי אֶרֶץ וּמְכוֹנֶיהָ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״הָאָרֶץ בְּרִחֶיהָ בַעֲדִי לְעוֹלָם״, וְהֶרְאָהוּ גֵּיהִנֹּם, וְהֶרְאָהוּ שְׁאוֹל תַּחְתִּית, שֶׁנֶּאֱמַר: ״מִבֶּטֶן שְׁאוֹל שִׁוַּעְתִּי שָׁמַעְתָּ קוֹלִי״, וְהֶרְאָהוּ הֵיכַל ה', שֶׁנֶּאֱמַר: ״לְקִצְבֵי הָרִים יָרַדְתִּי״, מִכָּאן אָנוּ לְמֵדִין שֶׁיְּרוּשָׁלַיִם עַל שִׁבְעָה הָרִים הִיא עוֹמֶדֶת, הֶרְאָהוּ אֶבֶן שְׁתִיָּה קְבוּעָה בַתְּהוֹמוֹת תַּחַת הֵיכַל ה' וּבְנֵי קֹרַח עוֹמְדִים וּמִתְפַּלְּלִין עָלֶיהָ. אָמַר לוֹ הַדָּג: ״יוֹנָה, הֲרֵי אַתָּה עוֹמֵד תַּחַת הֵיכַל ה', הִתְפַּלֵּל וְאַתָּה נַעֲנֶה״. אָמַר יוֹנָה לַדָּג: ״עֲמֹד בִּמְקוֹם עָמְדְּךָ שֶׁאֲנִי מְבַקֵּשׁ לְהִתְפַּלֵּל״. עָמַד הַדָּג וְהִתְחִיל יוֹנָה לְהִתְפַּלֵּל לִפְנֵי הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא, וְאָמַר לְפָנָיו: ״רִבּוֹנוֹ שֶׁל עוֹלָם, נִקְרֵאתָ מוֹרִיד וּמַעֲלֶה, יָרַדְתִּי – הַעֲלֵנִי; נִקְרֵאתָ מֵמִית וּמְחַיֶּה, הֲרֵי נַפְשִׁי הִגִּיעָה לְמָוֶת – הַחֲיֵינִי״, וְלֹא נַעֲנָה, עַד שֶׁיָּצָא מִפִּיו דָּבָר זֶה וְאָמַר: ״אֲשֶׁר נָדַרְתִּי אֲשַׁלֵּמָה, אֲשֶׁר נָדַרְתִּי לְהַעֲלוֹת אֶת לִוְיָתָן וְלִזְבּוֹחַ אוֹתוֹ לְפָנֶיךָ אֲשַׁלֵּם בְּיוֹם יְשׁוּעַת יִשְׂרָאֵל״. מִיָּד רָמַז הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא וְהִשְׁלִיךְ אֶת יוֹנָה, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיֹּאמֶר ה' לַדָּג וַיָּקֵא אֶת יוֹנָה אֶל הַיַּבָּשָׁה״.
Nota — a viagem pelo abismo. Toda a "excursão" de Yoná pelas profundezas é tecida com versículos da sua própria oração (Yoná cap. 2): cada maravilha que ele "vê" corresponde a uma frase que ele dirá a D'us. O peixe não é castigo, mas refúgio e lugar de revelação — Yoná desce ao fundo do mundo (a Pedra Fundamental sob o Templo, o ponto de onde, na tradição, o mundo foi fundado) e dali ergue a sua prece. É a teshuvá lançada do ponto mais baixo: "do ventre do Sheol clamei, e ouviste a minha voz".
10
Viram os marinheiros todos os sinais, milagres e grandes maravilhas que o Santo, bendito seja, fez com Yoná. Imediatamente levantaram-se e cada um lançou o seu ídolo ao mar, como está dito: "os que guardam vaidades vãs abandonam a sua fonte de bondade" (Yoná 2:9). E voltaram a Yafo, subiram a Jerusalém e circuncidaram a carne do seu prepúcio, como está dito: "e temeram os homens com grande temor ao Eterno, e ofereceram um sacrifício ao Eterno" (Yoná 1:16). E acaso ofereceram um sacrifício? Mas não se aceita sacrifício de idólatras! — Trata-se, antes, do sangue da aliança da circuncisão, que é como o sangue de um sacrifício. E fizeram votos e os cumpriram, comprometendo-se a trazer cada um a sua mulher e tudo o que tinha ao temor do D'us de Yoná; e fizeram votos e os cumpriram. E sobre eles se diz: "a recompensa dos convertidos" — os guerei tzédek (prosélitos justos).
רָאוּ הַמַּלָּחִים אֶת כָּל הָאוֹתוֹת וְהַנִּפְלָאוֹת הַגְּדוֹלוֹת שֶׁעָשָׂה הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא עִם יוֹנָה. מִיָּד עָמְדוּ וְהִשְׁלִיכוּ אִישׁ אֶת אֱלֹהָיו בַּיָּם, שֶׁנֶּאֱמַר: ״מְשַׁמְּרִים הַבְלֵי שָׁוְא חַסְדָּם יַעֲזֹבוּ״. וְחָזְרוּ לְיָפוֹ וְעָלוּ לִירוּשָׁלַיִם וּמָלוּ אֶת בְּשַׂר עָרְלָתָם, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיִּירְאוּ הָאֲנָשִׁים יִרְאָה גְדוֹלָה אֶת ה' וַיִּזְבְּחוּ זֶבַח לַה'״. וְכִי זֶבַח זָבְחוּ? וַהֲלֹא אֵין מְקַבְּלִין זֶבַח מִן הָעַכּוּ״ם, אֶלָּא זֶה הוּא דַּם בְּרִית שֶׁהוּא כְּדַם זֶבַח. וְנָדְרוּ וְשִׁלְּמוּ לְהָבִיא אִישׁ אֶת אִשְׁתּוֹ וְאֶת כָּל אֲשֶׁר לוֹ לְיִרְאַת אֱלֹהֵי יוֹנָה, וְנָדְרוּ וְשִׁלְּמוּ. וַעֲלֵיהֶם הוּא אוֹמֵר ״עַל הַגֵּרִים״, גֵּירֵי הַצֶּדֶק.

Os Sábios sobre este capítulo · פֵּרוּשִׁים

Yoná e o livro do arrependimento

Não é por acaso que o livro de Yoná é lido em Yom Kipur, à tarde: ele é o livro da teshuvá. Os sábios leem a sua história como o drama de um profeta que aprende, à força, três verdades: que não há fuga de D'us; que a teshuvá é aceita de qualquer pessoa — até de Nínive, a grande cidade pagã; e que o profeta não é "dono" da sua profecia (uma ameaça que não se cumpre porque o povo se arrependeu não é mentira — é misericórdia). O Radal e os comentadores veem em Yoná não um covarde, mas um homem dilacerado pelo amor a Israel, que precisa aprender a amplitude da compaixão divina.

"Para onde fugiria da Tua presença?"

O capítulo abre desmontando a própria ideia de fuga: Yoná busca "um lugar onde não esteja a glória de D'us", mas os céus e a terra estão cheios dela. É a tradução narrativa do salmo: "para onde irei, longe do Teu espírito? e para onde fugirei da Tua face?" (Tehilim 139:7). A presença de D'us não é um lugar de onde se escapa indo a outro; Ele sustenta toda a realidade. A "descida" de Yoná — a Yafo, ao navio, ao porão, ao mar, ao ventre do peixe, ao fundo dos montes — é uma queda em espiral que só termina quando ele finalmente sobe: na oração.

O peixe: refúgio, não masmorra

A leitura dos sábios transforma o "grande peixe" de prisão em útero de renascimento. Designado "desde os seis dias da criação", iluminado por uma pérola, com olhos como janelas, o peixe leva Yoná numa peregrinação pelas profundezas até a Pedra Fundamental sob o Templo — o ponto a partir do qual, na tradição, o mundo foi fundado. Só do fundo absoluto, no centro espiritual do mundo, Yoná ergue a sua prece. É a lição maior: "luz é semeada para o justo" (Tehilim 97:11) — mesmo no escuro mais cerrado, há luz preparada para quem se volta a D'us.

Os marinheiros: a verdade convence até os idólatras

O fecho é uma das mais belas afirmações universalistas do livro: os marinheiros pagãos, das "setenta línguas", cada um agarrado ao seu ídolo, ao verem os atos de D'us "lançam cada um o seu ídolo ao mar" e se tornam guerei tzédek, prosélitos justos. A verdade, quando se revela, convence o coração honesto de qualquer povo. É o mesmo D'us de toda a humanidade — e, como Nínive que se arrependeu, esses marinheiros mostram que a porta da teshuvá e do reconhecimento do Criador está aberta a todos.

Sobre esta tradução

Texto hebraico: edição vocalizada de domínio público de Pirkei deRabbi Eliezer (Sefaria). A tradução ao português foi feita a partir do hebraico e cotejada com a tradução inglesa de G. Friedlander (Londres, 1916, domínio público). Pequenas notas explicativas entre colchetes foram acrescentadas onde o sentido pedia.

A tradução, as notas e a coletânea de perushim (apoiada em comentários clássicos, como o do Radal — Rabi David Luria) são originais. Eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.