Este é um dos textos mais célebres do Rav Kook sobre a tolerância e a pluralidade das fés. Diante da "guerra das ideias", ele recusa tanto a polêmica raivosa quanto o relativismo morno, e propõe uma terceira via: reconhecer a centelha de luz divina presente em toda crença sincera, e responder não com a rejeição, mas com mais luz. O que segue é uma tradução inédita ao português da seção inteira (sete trechos), a partir do hebraico original (de domínio público).
O grito que não basta
As ideias ficam atônitas diante da torrente de concepções estranhas que avança e inunda. Elas irrompem como uma enxurrada para dentro do acampamento, conquistam muitos corações, distorcem os caminhos e desviam muitos dos nossos jovens das veredas da vida. Os que defendem as ideias do judaísmo erguem um grito, refutam as concepções que julgam más, desmascaram a sua falsidade esclarecendo os limites do judaísmo. Mas é muito duvidoso que, neste estilo, consigam fazer recuar aquilo que começou a irromper como uma torrente que rompe diques.
O Rav Kook começa por uma constatação honesta: a polêmica — refutar, desmascarar, traçar fronteiras — não detém uma maré de ideias. Pode ter razão e, ainda assim, fracassar. É preciso outra coisa. O resto do texto procura essa "outra coisa".
Não se define o que é infinito
Erram, sobretudo, os que procuram definir o judaísmo por definições fixas quanto à sua alma e ao seu conteúdo espiritual. Ele inclui tudo na sua alma; todas as inclinações espirituais, reveladas e ocultas, estão nele guardadas numa inclusão suprema — como tudo está incluído na Divindade absoluta. Toda definição estreita é, para ele, um "cortar das suas plantações", e como que erguer um ídolo no lugar do caráter divino.
Nisto, o valor de Israel — que porta o judaísmo entre os povos — é como o valor do ser humano entre todas as criaturas. Muitas criaturas têm vantagens que o homem não tem; mas a combinação geral das qualidades, e a elevação espiritual por meio delas, é o que faz do homem uma unidade suprema no mundo. Assim também há muitos povos cujo talento particular é maior do que esse mesmo talento em Israel; mas Israel, como a quintessência de toda a humanidade, reúne em si as qualidades de todos os povos, e nele elas se unem numa forma ideal e sagrada.
Note-se a generosidade da imagem: assim como o ser humano não é a criatura mais forte, nem a mais veloz, mas a que reúne e eleva as qualidades de todas, Israel é descrito não como superior em cada talento, mas como o que "reúne as qualidades de todos os povos". É uma visão inclusiva, não excludente: a vocação não é negar os outros, mas integrá-los. Por isso o judaísmo não se deixa "definir" em fronteiras estreitas — definir o infinito seria fazer dele um ídolo.
A tolerância que nasce da certeza
Precisamos, sobre tudo isto, de uma contemplação mais penetrante — geral e abrangente, e capaz, ao mesmo tempo, de chegar ao íntimo de toda a multidão de ideias de fé que há no mundo. Pois toda revelação geral do espírito, quanto mais forte a generalidade que há nela, tanto mais se fortalece a sua certeza; e, na medida da sua certeza, assim como não dá lugar à dúvida, também não admite associar-se a outras concepções: a generalidade, a certeza e a unicidade dependem uma da outra. (É como na ciência: enquanto a astronomia antiga descrevia só fenômenos limitados, dizia-se que os seus modelos eram apenas um modo possível de explicar os céus; mas a gravitação, por ser uma lei geral do cosmo, lançou de si a dúvida — e já não admite que se explique parte dos fenômenos por ela e o resto por modelos antigos.)
Assim também nas coisas do espírito: a idolatria era tolerante, e o reconhecimento da Unidade [o monoteísmo] parecia "zeloso" — porque é geral e não particular, certo e não duvidoso, e portanto único. Mas a generalidade não é tolerante na forma exterior da tolerância; dentro do seu zelo, esconde-se o grão do verdadeiro fundamento da tolerância. A tolerância fraca, que enfraquece a vida [o relativismo], vem de visões particulares não regadas pelo orvalho da generalidade; e o zelo maligno [o fanatismo] vem da grosseria de espírito, que toma uma visão particular como se fosse a verdade inteira — e, por ser apenas particular, não consegue dar vida ao que está fora do seu círculo, e, na sua inveja, apenas diminui a vida.
Mas a inclusão suprema dá, justamente pela sua amplitude e pela sua certeza, o zelo louvável — o que remove toda pequenez, toda dúvida e toda associação. E, justamente por ser geral — porque dentro dela tudo está incluído —, ela não pode, por sua natureza, excluir coisa alguma: a tudo dá lugar. Mas, ao fazê-lo, apenas multiplica as aparições da luz dentro de todos os estilos de vida; e o seu desejo fundamental é dar lugar a toda inclinação de luz, de vida e de espírito.
Esta é a distinção genial do capítulo, e desfaz um falso dilema. Há a tolerância fraca (o relativismo: "tudo dá no mesmo"), que não vem de largueza mas de frouxidão, e empobrece a vida. Há o zelo maligno (o fanatismo), que toma a sua parte pelo todo e por isso precisa esmagar o resto. E há uma terceira coisa: a verdade verdadeiramente geral, que é, ao mesmo tempo, certa e acolhedora — porque, abraçando tudo, não tem nada a excluir. A tolerância mais profunda não nasce da dúvida; nasce de uma certeza tão ampla que cabe nela toda luz.
A centelha em toda fé
Ela sabe que em tudo há uma centelha de luz: a centelha divina interior brilha em cada uma das diversas fés — que são como diferentes ordens de educação para a cultura humana, para a reparação do espírito e da matéria, do indivíduo e da comunidade —, embora em graus diversos. Assim como a força vegetativa é uma e se manifesta tanto no cedro do Líbano quanto no hissopo da parede — no primeiro de modo rico e abundante, no segundo de modo pobre e escasso —, assim a luz da centelha divina vem nas mais altas das fés de modo rico e elevado, e nas mais humildes de modo turvo e pobre.
A maldade e a ignorância humanas distorceram os caminhos da inclinação humana geral, que aspira ao bem, à verdade e à felicidade espiritual no seu sentido mais profundo. Mas mesmo nas profundezas das "cascas" mais grosseiras está oculta e guardada aquela centelha do bem — a luz de D'us, a luz das luzes, que não podemos exprimir, e que não se deixa vestir nas letras de nenhuma palavra, nem sequer de nenhuma ideia. E o mundo vai-se adoçando: a opinião reta alarga o seu caminho, a lógica sã e as muitas experiências vão desobstruindo a via, os erros vão diminuindo. E começam a cintilar as poeiras de verdade e de luz espalhadas por entre todas as diversas fés — que todas brotam da única fonte viva.
Eis o coração do texto, e uma das mais generosas teologias das religiões já escritas. Não se trata de dizer que "todas as fés são iguais" (o relativismo que o Rav Kook recusou), mas algo mais fino: a mesma luz brilha em todas, em graus diferentes — como a única seiva da vida sobe tanto no cedro majestoso quanto no humilde hissopo. Até "nas cascas mais grosseiras" há uma centelha do divino. Quem aprende a vê-la deixa de ver, no outro, só o erro a combater — e passa a ver a luz a resgatar.
Aumentar a luz, não rejeitar
Por isso, em vez de rejeitar todo o tecido de pensamento de onde as pequenas centelhas do bem começam a brilhar — coisa que, na verdade, não há de funcionar —, cabe-nos aumentar a luz original: revelar a amplitude e a profundidade, a generalidade e a eternidade que há na luz de Israel; e mostrar como cada centelha de bem revelada em outro mundo de ideias brota da mesma fonte e a ela se liga por uma ligação natural. Então, de todas as centelhas que de novo se revelam, somar-se-ão luz e vida; e os corações sedentos de luz olharão e resplandecerão, e não irão mais procurar noutro campo aquilo que afinal tem aqui a sua raiz.
A conclusão prática inverte o instinto polêmico. Diante de uma ideia que nos parece errada, a tentação é rejeitá-la em bloco. O Rav Kook propõe o oposto: procurar a centelha de verdade que nela brilha, mostrar de onde ela vem, e aumentar a luz em vez de multiplicar a sombra. Não se vence a escuridão alheia com mais escuridão própria — vence-se com luz. É a mesma lição de "Fogo Estranho", aplicada agora ao encontro entre as fés.
Uma língua clara para todos
E a tolerância há de espalhar-se, até que o espírito humano, no seu conjunto, possa encontrar a centelha oculta em todas [as fés]; e então toda a escória será lançada fora:
E todas as centelhas se juntarão num facho ainda maior; e então "transformar-se-ão os povos numa língua clara, para que todos invoquem o nome do Senhor". Como está dito: "tira da prata a escória, e sairá um vaso para o ourives" (Mishlei 25:4).
O horizonte final não é a vitória de uns sobre os outros, nem a uniformização — é a reunião: que cada centelha de verdade, dispersa por todas as fés, seja recolhida "num facho ainda maior", depurada da escória que a desfigurava. O verso escolhido é eloquente: removida a violência ("o sangue da boca"), até o antigo inimigo "restará para o nosso D'us". E o fim de tudo é "uma língua clara para todos os povos" — não que todos pensem igual, mas que todos, juntos, reconheçam a mesma luz.
Texto: Rav Avraham Yitzchak HaCohen Kook, Orot — "Sementes" (Zer'onim), "A guerra das ideias" (Milchemet ha-De'ot). O original hebraico é de domínio público.
Tradução inédita ao português, feita a partir do hebraico e cotejada com a base de textos do Sefaria. Traduziu-se a seção inteira (sete trechos); a longa analogia astronômica foi condensada (entre parênteses) para a leitura, preservando-se o argumento. Os versos citados são de Devarim 32:12, Melachim I 5:13, Zechariá 9:7 e Mishlei 25:4; o horizonte da "língua clara" remete a Tzefaniá 3:9. As notas e os títulos de seção são originais. Eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.