Esta mishná trata de um acidente físico incomum: peças que, já sobre o altar e em processo de queima, saltam para fora dele por causa do próprio fogo. A regra geral é que não há obrigação de devolvê-las — mas a mishná abre uma exceção importante para membros inteiros de um sacrifício ainda antes da meia-noite, introduzindo também a questão de meilá, o uso indevido de bens consagrados ao Templo.
E todos esses que saltaram para fora do altar, não os devolve. — Referindo-se aos itens da mishná anterior — a lã, o pelo, os ossos, os tendões, os chifres, as unhas — que subiram corretamente unidos ao corpo do animal e começaram a ser consumidos pelo fogo: se, no processo da queima, alguma parte salta para fora do altar e cai ao chão, não há obrigação de recolhê-la e devolvê-la.
E do mesmo modo a brasa que saltou para fora do altar. — A mesma regra se aplica a uma simples brasa do próprio fogo do altar que salta para fora: também ela não precisa ser devolvida.
Membros que saltaram para fora do altar — antes da meia-noite, devolve, e há meilá por eles; depois da meia-noite, não devolve, e não há meilá por eles. — A mishná introduz uma exceção significativa: quando se trata de membros inteiros de um sacrifício de holocausto — ainda substanciais, não meras cinzas — que saltam do altar antes da meia-noite (o limite dentro do qual, segundo a exigência rabínica, o processo de queima deveria estar praticamente concluído), o sacerdote deve devolvê-los ao fogo, pois eles ainda pertencem plenamente ao Templo, e usar essa carne indevidamente constitui meilá — a apropriação ilícita de bens consagrados. Mas se já passou da meia-noite, considera-se que o "mandamento" da queima já foi essencialmente cumprido, e por isso não há mais obrigação de devolver os membros, nem mais aplicação da proibição de meilá sobre eles.
Rambam esclarece que "todos esses que saltaram" refere-se aos mesmos membros mencionados na mishná anterior como "não descem" — se eles próprios saltam do altar pela ação do fogo, não há obrigação de recolocá-los, assim como uma brasa que salta. Explica que "pakéu" significa literalmente "voaram", como se observa quando a umidade interna de algo em combustão o faz saltar do fogo. E explica a razão pela qual a mishná fala em "antes da meia-noite", e não em "toda a noite" como o versículo literalmente permite: os Sábios estabeleceram a meia-noite como limite prático, para afastar a pessoa da transgressão de deixar a queima incompleta até muito perto do amanhecer.
Bartenura precisa o alcance de "todos esses": tanto os desqualificados que subiram e não descem quanto os ossos e tendões que subiram unidos e começaram a ser consumidos pelo fogo. Explica ainda o ponto mais delicado da mishná: se os membros que saltaram ainda têm substância real, com carne reconhecível, devem ser devolvidos mesmo depois da meia-noite, pois não houve ainda consumo completo pelo fogo; e se, ao contrário, já se tornaram brasa pura, sem substância, não são devolvidos nem antes da meia-noite. O caso próprio da mishná é intermediário: membros que endureceram pela ação do fogo e foram queimados, mas sem se transformar em carvão — permanecendo, por dentro, como madeira seca.
Rashi confirma que "todos esses" são os itens desqualificados listados anteriormente como "não descem", assim como ossos e tendões que subiram unidos e foram consumidos pelo fogo. Sobre a razão da meilá antes da meia-noite, explica que os membros ainda pertencem ao altar; e sobre a ausência de meilá depois da meia-noite, explica que, uma vez consumidos pelo fogo dessa forma, tornaram-se "algo cujo mandamento já foi cumprido", categoria isenta de meilá. Explica ainda o termo "shririm" — os pedaços endurecidos pela ação do fogo que os percorreu por inteiro, queimados mas ainda não transformados em carvão, permanecendo por dentro como madeira seca — e esclarece que o segundo período de referência para o consumo desses pedaços é a meia-noite da noite seguinte.