Seder Kodashim · Massechet Zevachim · Perek Chet · Mishná 7 de 12

O sangue misturado com sangue desqualificado

נִתְעָרֵב בְּדַם פְּסוּלִין
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A sétima mishná introduz um decreto rabiníco: ainda que o critério da aparência, estabelecido na mishná anterior, pudesse em princípio se aplicar também aqui, os Sábios proibiram testar visualmente misturas com sangue de sacrifícios já desqualificados ou com o sangue de exsudação, por receio de que isso levasse, no futuro, a aspergir sangue desqualificado puro.

Por decreto, não se aplica o teste da aparência a misturas com sangue de desqualificados ou sangue de exsudação — tudo vai para o canal; Rabi Eliezer discorda apenas quanto ao sangue de exsudação; e se o sacerdote já aspergiu sem consultar, o ato é válido.

Se se misturou com sangue de desqualificados, irá para o canal.Quando o sangue válido se mistura com o sangue de sacrifícios já desqualificados por algum defeito de procedimento — abatidos fora do tempo ou fora do lugar devidos, por exemplo — não se recorre ao teste de aparência da mishná anterior; toda a mistura é simplesmente despejada no canal de água que atravessa o átrio e desce ao vale de Kidron, pois os Sábios temeram que, se permitissem o teste aqui, alguém viesse a aspergir sangue puramente desqualificado por engano.

Com sangue de exsudação, irá para o canal.O sangue de exsudação é aquele que continua a escorrer lentamente do pescoço após cessar o primeiro jorro do abate; por decreto biforme, mesmo não sendo tecnicamente sangue de um sacrifício desqualificado, ele também não é válido para a aspersão — pois a Torá associa a expiação ao sangue no qual reside a vida, e o sangue de exsudação, que sai depois que a vida já se retirou, não cumpre essa condição.

Rabi Eliezer declara válido.Rabi Eliezer discorda apenas quanto ao sangue de exsudação: como esse tipo de sangue raramente é abundante o bastante para predominar sobre o sangue válido da mistura, ele considera desnecessário o decreto neste caso específico, e permite aplicar o teste de aparência normalmente.

Se não consultou e ofertou, é válido.Mesmo segundo a opinião restritiva dos Sábios, o decreto vale apenas como orientação prévia: se o sacerdote, sem perguntar ao tribunal se deveria aspergir a mistura, simplesmente o fez por conta própria, o ato já realizado permanece válido retroativamente — pois o decreto é apenas preventivo, não retroativo.

נִתְעָרֵב בְּדַם פְּסוּלִין, יִשָּׁפֵךְ לָאַמָּה. בְּדַם תַּמְצִית, יִשָּׁפֵךְ לָאַמָּה. רַבִּי אֱלִיעֶזֶר מַכְשִׁיר. אִם לֹא נִמְלַךְ וְנָתַן, כָּשֵׁר:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Zevachim 8:7
נִתְעָרֵב בְּדַם פְּסוּלִין יִשָּׁפֵךְ לָאַמָּה בְּדַם תַּמְצִית כוֹ': הָאַמָּה — הַמַּעֲבָר שֶׁשּׁוֹתִים וְנִגָּרִין עָלָיו הַדָּמִים אַחַר זְרִיקָתָן עַל הַמִּזְבֵּחַ וְיוֹצְאִין לְנַחַל קִדְרוֹן, נִקְרֵאת אַמָּה… וְאָמַר רַבִּי אֱלִיעֶזֶר שֶׁהַתַּמְצִית יֵשׁ בּוֹ מִדַּם הַנֶּפֶשׁ, וּלְפִיכָךְ כָּשֵׁר לְכַתְּחִלָּה… וְעִנְיַן אִם לֹא נִמְלַךְ, שֶׁלֹּא יִשְׁאַל אוֹתָנוּ אִם יִזְרֹק מִמֶּנּוּ אִם לֹא, אֲבָל אִם שָׁאַל פִּי בֵית דִּין מוֹרִין שֶׁיִּשָּׁפֵךְ אֶל מְקוֹם שֶׁפֶךְ הַדָּמִים… וְאֵין הֲלָכָה כְּרַבִּי אֱלִיעֶזֶר.

Rambam identifica o "canal" como o duto de água que atravessa o átrio e recebe os resíduos de sangue já aspergido, descendo até o vale de Kidron. Explica que Rabi Eliezer permite o sangue de exsudação porque, apesar de tudo, ele contém traços do sangue vital que jorrou no início do abate. Sobre "se não consultou", esclarece que o decreto é apenas uma orientação prévia do tribunal: se o sacerdote consultasse, seria instruído a despejar no canal; mas se agiu sozinho e já aspergiu, o resultado permanece válido. Conclui que a halachá não segue Rabi Eliezer.

Bartenura · Zevachim 8:7
יִשָּׁפֵךְ לָאַמָּה. לְאַמַּת הַמַּיִם הָעוֹבֶרֶת בָּעֲזָרָה וְיוֹרֶדֶת לְנַחַל קִדְרוֹן. וְלֹא אָמְרִינַן רוֹאִים אוֹתוֹ כְּאִלּוּ הוּא מַיִם וְאִם דָּם הַכָּשֵׁר נִכָּר בָּהֶם יִזָּרֵק, דְּגָזְרִינַן דִּלְמָא אָתֵי לְאַכְשׁוֹרֵי דַם פְּסוּלִים בְּעֵינַיְהוּ… רַבִּי אֱלִיעֶזֶר מַכְשִׁיר לְכַתְּחִלָּה בְּדַם הַתַּמְצִית שֶׁנִּתְעָרֵב עִם דַּם הַנֶּפֶשׁ, דְּסָבַר אֵין דַּם הַתַּמְצִית שֶׁל בְּהֵמָה מָצוּי לִהְיוֹת רַבֶּה עַל דַּם הַנֶּפֶשׁ… וְכִי אָתֵי לְאִמְּלוֹכֵי, אָמְרִינַן לֵיהּ לְשָׁפְכוֹ לָאַמָּה מִשּׁוּם גְּזֵרָה. וַהֲלָכָה כַּחֲכָמִים.

Bartenura confirma que a proibição de aplicar o teste visual aqui é um decreto preventivo, distinto do princípio da mishná anterior: mesmo que a aparência de sangue esteja presente, os Sábios temeram que, se permitido, o povo passasse a aspergir sangue puramente desqualificado, confiando erroneamente que "se há aparência, está bom". Rabi Eliezer limita sua leniência ao sangue de exsudação, por raramente ser abundante o bastante para representar risco real. E precisa a lógica do decreto meramente preventivo: se o sacerdote perguntar antes de agir, o tribunal instrui a despejar no canal por causa do decreto; mas se já agiu sem perguntar, o resultado é válido de fato.

Perush — os Mefarshim · פֵּרוּשׁ הַמְּפָרְשִׁים

Rashi רש״י
Zevachim 79b, sobre a Guemará desta mishná
בְּגוֹזְרִין גְּזֵרָה בַּמִּקְדָּשׁ פְּלִיגִי — אִם עוֹשִׂין סְיָג בְּקָדָשִׁים לְהַרְחִיק מִן הָעֲבֵרָה, וְלֹא חָיְישִׁינַן לְהֶפְסֵד קָדָשִׁים… תָּנָּא קַמָּא סָבַר גּוֹזְרִין — הִלְכָּךְ נִתְעָרֵב דָּם כָּשֵׁר בְּדָם פָּסוּל אוֹ בְּדָם הַתַּמְצִית, וְאַף עַל פִּי שֶׁאֵין בַּפָּסוּל וְלֹא בַתַּמְצִית כְּדֵי לְבַטֵּל אֶת הַכָּשֵׁר, יִשָּׁפֵךְ לָאַמָּה, גְּזֵרָה דִּלְמָא אָתֵי לְאַכְשׁוֹרֵי נַמִּי הֵיכָא דְּיֵשׁ.

Rashi situa a disputa dentro de um debate mais amplo da Guemará sobre se os Sábios costumam decretar cercas protetoras em torno das leis dos consagrados, mesmo à custa de eventual prejuízo material. Explica que, para o primeiro sábio (tâna kama) desta mishná, decreta-se sim: mesmo quando o sangue desqualificado ou de exsudação está presente em quantidade insuficiente para de fato comprometer a validade visual da mistura, ainda assim tudo vai para o canal, por receio de que, com o tempo, alguém viesse a validar também os casos em que a proporção desqualificada é maior.