A mishná toma o caso mais grave das duas primeiras mishnayot do capítulo — a olá feita embaixo, segundo o procedimento e em nome da chatat, ou seja, transformada em chatat em todos os aspectos exceto na espécie original — e disputa se ela ainda gera apropriação indevida como olá, ou se, tendo se tornado uma chatat em tudo, perde esse estatuto.
A oferenda de subida da ave que ele realizou embaixo, segundo o procedimento da oferenda de pecado, em nome da oferenda de pecado — Rabi Eliezer diz: há nela apropriação indevida. Rabi Yehoshua diz: não há nela apropriação indevida. — Este é o caso extremo já mencionado em 7:2 como desqualificado: uma olá que, em lugar, procedimento e nome, tornou-se idêntica a uma chatat. Rabi Eliezer sustenta que ela continua sendo, em essência, uma olá desqualificada, sujeita a meilá. Rabi Yehoshua sustenta que, tendo mudado tudo, ela assumiu inteiramente o estatuto de chatat — que, quando desqualificada, também gera meilá, mas por outra razão, como se verá na disputa.
Disse Rabi Eliezer: se quanto à oferenda de pecado, na qual não há apropriação indevida quando oferecida em seu nome, quando ele mudou o seu nome passa a haver nela apropriação indevida — quanto à oferenda de subida, na qual há apropriação indevida mesmo em seu nome, não é justo que, quando ele mudou o seu nome, haja nela apropriação indevida? — Um argumento a fortiori (kal vachomer): se mudar o nome basta para criar meilá onde antes não havia (chatat correta → chatat incorreta), com mais razão deveria manter a meilá onde ela já existia (olá correta, que sempre tem meilá).
Disse-lhe Rabi Yehoshua: não; se disseste isso da oferenda de pecado que mudou o seu nome para o nome da oferenda de subida, é porque ela mudou o seu nome para algo em que há apropriação indevida — dirás o mesmo da oferenda de subida que mudou o seu nome para o nome da oferenda de pecado, sendo que ela mudou o seu nome para algo em que não há apropriação indevida? — Rabi Yehoshua refuta a analogia: a direção da mudança importa. A chatat, ao mudar para olá, migra para uma categoria com meilá; mas a olá, ao mudar para chatat, migra para uma categoria sem meilá (ao menos quando válida) — por isso ela deveria perder a meilá, não mantê-la.
Disse-lhe Rabi Eliezer: eis que as oferendas de santidade suprema que ele abateu no sul e as abateu em nome de oferendas de santidade leve o provam — pois ele mudou o seu nome para algo em que não há apropriação indevida, e ainda assim há apropriação indevida nelas; também tu não te espantes quanto à oferenda de subida, que, embora ele tenha mudado o seu nome para algo em que não há apropriação indevida, haja apropriação indevida nela. — Rabi Eliezer traz um precedente: oferendas de santidade suprema (cuja carne pertence apenas aos sacerdotes, sem meilá para o dono) abatidas no lugar errado com intenção de oferendas de santidade leve (cuja carne é permitida ao dono, sem meilá) continuam gerando meilá — prova de que mudar para uma categoria sem meilá não necessariamente cancela a meilá original.
Disse-lhe Rabi Yehoshua: não; se disseste isso das oferendas de santidade suprema que ele abateu no sul e as abateu em nome de oferendas de santidade leve, é porque ele mudou o seu nome para algo em que há proibição e permissão — dirás o mesmo da oferenda de subida, que mudou o seu nome para algo que é inteiramente permissão? — Rabi Yehoshua refuta também este precedente: as oferendas de santidade leve, embora sua carne seja permitida, ainda têm meilá sobre os órgãos queimados no altar — uma categoria mista de proibição e permissão. Já a chatat ha-of, quando válida, é inteiramente permitida aos sacerdotes, sem nenhum resíduo de meilá — por isso a olá que se torna chatat deveria perder a meilá por completo. A halachá segue Rabi Yehoshua.
Rambam observa que toda a disputa gira em torno de dois conceitos já explicados: a chatat válida é toda comida pelos sacerdotes, sem meilá; a olá é inteiramente queimada, com meilá mesmo sobre a menor porção; e as oferendas de santidade suprema, abatidas no norte, diferem das de santidade leve, cuja carne é permitida aos donos ou sacerdotes mas cujos órgãos queimados permanecem sob meilá — uma categoria mista de “proibição e permissão” que distingue o precedente de Rabi Eliezer do caso da olá, inteiramente permitida quando se torna chatat. Rambam encerra com a decisão explícita: a halachá segue Rabi Yehoshua.
Bartenura explica a lógica de cada posição: para Rabi Eliezer, a olá continua sendo olá em essência, e nunca teve momento de permissão aos sacerdotes — logo, a meilá persiste. Para Rabi Yehoshua, tendo mudado nome, procedimento e lugar todos para a chatat, ela realmente se torna uma chatat. Precisa também o precedente das oferendas de santidade suprema abatidas no sul em nome de oferendas de paz (shelamim), e explica por que a chatat ha-of é “inteiramente permissão”, sem nenhum resíduo de meilá — ao contrário das oferendas de santidade leve, cujos órgãos queimados sempre têm meilá. Conclui: a halachá segue Rabi Yehoshua.
Rashi confirma a explicação das duas primeiras posições quase palavra por palavra com Bartenura, e acrescenta uma precisão importante: mesmo Rabi Yehoshua concorda que a própria chatat, quando desqualificada por mudança de nome (para olá), gera meilá — pois ela nunca chegou a ter o seu momento de permissão aos sacerdotes. A disputa é apenas sobre o caminho inverso: a olá que se torna chatat em tudo.