Seder Kodashim · Massechet Zevachim · Perek Zayin · Mishná 4 de 6

A disputa entre Rabi Eliezer e Rabi Yehoshua sobre a apropriação indevida

עוֹלַת הָעוֹף שֶׁעֲשָׂאָהּ לְמַטָּה כְּמַעֲשֵׂה חַטָּאת לְשֵׁם חַטָּאת
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná toma o caso mais grave das duas primeiras mishnayot do capítulo — a olá feita embaixo, segundo o procedimento e em nome da chatat, ou seja, transformada em chatat em todos os aspectos exceto na espécie original — e disputa se ela ainda gera apropriação indevida como olá, ou se, tendo se tornado uma chatat em tudo, perde esse estatuto.

Um debate clássico em quatro rodadas entre Rabi Eliezer e Rabi Yehoshua, cada um respondendo ao argumento anterior com uma nova analogia, até que a halachá se fixa como Rabi Yehoshua.

A oferenda de subida da ave que ele realizou embaixo, segundo o procedimento da oferenda de pecado, em nome da oferenda de pecado — Rabi Eliezer diz: há nela apropriação indevida. Rabi Yehoshua diz: não há nela apropriação indevida.Este é o caso extremo já mencionado em 7:2 como desqualificado: uma olá que, em lugar, procedimento e nome, tornou-se idêntica a uma chatat. Rabi Eliezer sustenta que ela continua sendo, em essência, uma olá desqualificada, sujeita a meilá. Rabi Yehoshua sustenta que, tendo mudado tudo, ela assumiu inteiramente o estatuto de chatat — que, quando desqualificada, também gera meilá, mas por outra razão, como se verá na disputa.

Disse Rabi Eliezer: se quanto à oferenda de pecado, na qual não há apropriação indevida quando oferecida em seu nome, quando ele mudou o seu nome passa a haver nela apropriação indevida — quanto à oferenda de subida, na qual há apropriação indevida mesmo em seu nome, não é justo que, quando ele mudou o seu nome, haja nela apropriação indevida?Um argumento a fortiori (kal vachomer): se mudar o nome basta para criar meilá onde antes não havia (chatat correta → chatat incorreta), com mais razão deveria manter a meilá onde ela já existia (olá correta, que sempre tem meilá).

Disse-lhe Rabi Yehoshua: não; se disseste isso da oferenda de pecado que mudou o seu nome para o nome da oferenda de subida, é porque ela mudou o seu nome para algo em que há apropriação indevida — dirás o mesmo da oferenda de subida que mudou o seu nome para o nome da oferenda de pecado, sendo que ela mudou o seu nome para algo em que não há apropriação indevida?Rabi Yehoshua refuta a analogia: a direção da mudança importa. A chatat, ao mudar para olá, migra para uma categoria com meilá; mas a olá, ao mudar para chatat, migra para uma categoria sem meilá (ao menos quando válida) — por isso ela deveria perder a meilá, não mantê-la.

Disse-lhe Rabi Eliezer: eis que as oferendas de santidade suprema que ele abateu no sul e as abateu em nome de oferendas de santidade leve o provam — pois ele mudou o seu nome para algo em que não há apropriação indevida, e ainda assim há apropriação indevida nelas; também tu não te espantes quanto à oferenda de subida, que, embora ele tenha mudado o seu nome para algo em que não há apropriação indevida, haja apropriação indevida nela.Rabi Eliezer traz um precedente: oferendas de santidade suprema (cuja carne pertence apenas aos sacerdotes, sem meilá para o dono) abatidas no lugar errado com intenção de oferendas de santidade leve (cuja carne é permitida ao dono, sem meilá) continuam gerando meilá — prova de que mudar para uma categoria sem meilá não necessariamente cancela a meilá original.

Disse-lhe Rabi Yehoshua: não; se disseste isso das oferendas de santidade suprema que ele abateu no sul e as abateu em nome de oferendas de santidade leve, é porque ele mudou o seu nome para algo em que há proibição e permissão — dirás o mesmo da oferenda de subida, que mudou o seu nome para algo que é inteiramente permissão?Rabi Yehoshua refuta também este precedente: as oferendas de santidade leve, embora sua carne seja permitida, ainda têm meilá sobre os órgãos queimados no altar — uma categoria mista de proibição e permissão. Já a chatat ha-of, quando válida, é inteiramente permitida aos sacerdotes, sem nenhum resíduo de meilá — por isso a olá que se torna chatat deveria perder a meilá por completo. A halachá segue Rabi Yehoshua.

עוֹלַת הָעוֹף שֶׁעֲשָׂאָהּ לְמַטָּה כְּמַעֲשֵׂה חַטָּאת לְשֵׁם חַטָּאת, רַבִּי אֱלִיעֶזֶר אוֹמֵר, מוֹעֲלִין בָּהּ. רַבִּי יְהוֹשֻׁעַ אוֹמֵר, אֵין מוֹעֲלִין בָּהּ. אָמַר רַבִּי אֱלִיעֶזֶר, מָה אִם חַטָּאת, שֶׁאֵין מוֹעֲלִין בָּהּ לִשְׁמָהּ, כְּשֶׁשִּׁנָּה אֶת שְׁמָהּ, מוֹעֲלִין בָּהּ, עוֹלָה, שֶׁמּוֹעֲלִין בָּהּ לִשְׁמָהּ, כְּשֶׁשִּׁנָּה אֶת שְׁמָהּ, אֵינוֹ דִין שֶׁיִּמְעֲלוּ בָהּ. אָמַר לוֹ רַבִּי יְהוֹשֻׁעַ, לֹא, אִם אָמַרְתָּ בְחַטָּאת שֶׁשִּׁנָּה אֶת שְׁמָהּ לְשֵׁם עוֹלָה שֶׁכֵּן שִׁנָּה אֶת שְׁמָהּ לְדָבָר שֶׁיֶּשׁ בּוֹ מְעִילָה, תֹּאמַר בְּעוֹלָה שֶׁשִּׁנָּה אֶת שְׁמָהּ לְשֵׁם חַטָּאת, שֶׁכֵּן שִׁנָּה אֶת שְׁמָהּ לְדָבָר שֶׁאֵין בּוֹ מְעִילָה. אָמַר לוֹ רַבִּי אֱלִיעֶזֶר, וַהֲרֵי קָדְשֵׁי קָדָשִׁים שֶׁשְּׁחָטָן בַּדָּרוֹם וּשְׁחָטָן לְשֵׁם קָדָשִׁים קַלִּים יוֹכִיחוּ, שֶׁכֵּן שִׁנָּה אֶת שְׁמָן לְדָבָר שֶׁאֵין בּוֹ מְעִילָה, וּמוֹעֲלִין בָּהֶן, אַף אַתָּה אַל תִּתְמַהּ עַל הָעוֹלָה, שֶׁאַף עַל פִּי שֶׁשִּׁנָּה אֶת שְׁמָהּ לְדָבָר שֶׁאֵין בּוֹ מְעִילָה, שֶׁיִּמְעֲלוּ בָהּ. אָמַר לוֹ רַבִּי יְהוֹשֻׁעַ, לֹא, אִם אָמַרְתָּ בְקָדְשֵׁי קָדָשִׁים, שֶׁשְׁחָטָן בַּדָּרוֹם וּשְׁחָטָן לְשֵׁם קָדָשִׁים קַלִּים, שֶׁכֵּן שִׁנָּה אֶת שְׁמָן בְּדָבָר שֶׁיֶּשׁ בּוֹ אִסּוּר וְהֶתֵּר, תֹּאמַר בְּעוֹלָה שֶׁשִּׁנָּה אֶת שְׁמָהּ בְּדָבָר שֶׁכֻּלּוֹ הֶתֵּר:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Zevachim 7:4
עוֹלַת הָעוֹף שֶׁעֲשָׂאָהּ לְמַטָּן כְּמַעֲשֵׂה חַטָּאת כוֹ': דִּבְרֵיהֶן וּמַחֲלֹקְתָּם אֵינוֹ אֶלָּא בְּשִׁנּוּי מָקוֹם וְשִׁנּוּי שֵׁם… שֶׁחַטַּאת הָעוֹף כְּשֶׁהִיא כְּשֵׁרָה הִיא נֶאֱכֶלֶת כֻּלָּהּ, וְאֵין לַמִּזְבֵּחַ אֶלָּא דָּמָהּ, וְכֻלָּהּ לַכֹּהֲנִים, לְפִיכָךְ אֵין בָּהּ מְעִילָה… וְהָעוֹלָה כָּלִיל לָאִשִּׁים, וַאֲפִלּוּ הִיא כְּשֵׁרָה הָאוֹכֵל מִמֶּנָּה שׁוּם דָּבָר חַיָּב מְעִילָה… וְקָדְשֵׁי קָדָשִׁים שְׁחִיטָתָן בַּצָּפוֹן, וְקָדָשִׁים קַלִּים שְׁחִיטָתָן בְּכָל מָקוֹם, וְיָדוּעַ שֶׁקָּדָשִׁים קַלִּים יֵאָכֵל לַבְּעָלִים אוֹ לַכֹּהֲנִים… לְפִיכָךְ אֵין בָּהֶם מְעִילָה בַּבָּשָׂר, אֲבָל יֵשׁ בָּהּ אִסּוּר וְהֶתֵּר, לְפִי שֶׁהָאֵימוּרִים מֵהֶן אֲסוּרִים… וְהַלָּכָה כְּרַבִּי יְהוֹשֻׁעַ.

Rambam observa que toda a disputa gira em torno de dois conceitos já explicados: a chatat válida é toda comida pelos sacerdotes, sem meilá; a olá é inteiramente queimada, com meilá mesmo sobre a menor porção; e as oferendas de santidade suprema, abatidas no norte, diferem das de santidade leve, cuja carne é permitida aos donos ou sacerdotes mas cujos órgãos queimados permanecem sob meilá — uma categoria mista de “proibição e permissão” que distingue o precedente de Rabi Eliezer do caso da olá, inteiramente permitida quando se torna chatat. Rambam encerra com a decisão explícita: a halachá segue Rabi Yehoshua.

Bartenura · Zevachim 7:4
רַבִּי אֱלִיעֶזֶר אוֹמֵר מוֹעֲלִים בָּהּ. דְּהָא עוֹלָה הִיא וּמִי הוֹצִיאָהּ מִמְּעִילָתָהּ, וַהֲלֹא שְׁעַת הֶתֵּר לַכֹּהֲנִים לֹא הָיָה לָהּ: רַבִּי יְהוֹשֻׁעַ אוֹמֵר אֵין מוֹעֲלִים בָּהּ. דְּכֵיוָן דְּשִׁנָּה שְׁמָהּ וּמַעֲשֶׂיהָ וּמְקוֹמָהּ לְשֵׁם חַטָּאת, נַעֲשֵׂית חַטָּאת… לְדָבָר שֶׁיֶּשׁ בּוֹ מְעִילָה. לְשֵׁם עוֹלָה: שֶׁשָּׁחֲטָן בַּדָּרוֹם. לְשֵׁם שְׁלָמִים, יוֹכִיחוּ… אִסּוּר וְהֶתֵּר. קָדָשִׁים קַלִּים יֵשׁ בְּאֵמוּרֵיהֶן מִשּׁוּם מְעִילָה וְאֵין בִּבְשָׂרָן מִשּׁוּם מְעִילָה: בְּדָבָר שֶׁכֻּלּוֹ הֶתֵּר. בְּחַטַּאת הָעוֹף שֶׁאֵין בּוֹ צַד מְעִילָה. וַהֲלָכָה כְּרַבִּי יְהוֹשֻׁעַ.

Bartenura explica a lógica de cada posição: para Rabi Eliezer, a olá continua sendo olá em essência, e nunca teve momento de permissão aos sacerdotes — logo, a meilá persiste. Para Rabi Yehoshua, tendo mudado nome, procedimento e lugar todos para a chatat, ela realmente se torna uma chatat. Precisa também o precedente das oferendas de santidade suprema abatidas no sul em nome de oferendas de paz (shelamim), e explica por que a chatat ha-of é “inteiramente permissão”, sem nenhum resíduo de meilá — ao contrário das oferendas de santidade leve, cujos órgãos queimados sempre têm meilá. Conclui: a halachá segue Rabi Yehoshua.

Perush — os Mefarshim · פֵּרוּשׁ הַמְּפָרְשִׁים

Rashi רש״י
Zevachim 66b, sobre a Guemará desta mishná
רַבִּי אֱלִיעֶזֶר אוֹמֵר מוֹעֲלִין בָּהּ — דְּהָא עוֹלָה הִיא וּמִי הוֹצִיאָהּ מִמְּעִילָתָהּ, שְׁעַת הֶתֵּר לַכֹּהֲנִים אֵין לָהּ: רַבִּי יְהוֹשֻׁעַ אוֹמֵר אֵין מוֹעֲלִין — דְּכֵיוָן דְּשִׁנָּה שְׁמָהּ וּמַעֲשֶׂיהָ וּמְקוֹמָהּ לְשֵׁם חַטָּאת, נַעֲשֵׂית חַטָּאת כִּדְמְפָרֵשׁ בַּגְּמָרָא: וּמַה חַטַּאת הָעוֹף שֶׁאֵין מוֹעֲלִין לְשֵׁמָה — שֶׁהֲרֵי נֶאֱכֶלֶת לַכֹּהֲנִים: שִׁנָּה אֶת שְׁמָהּ — וּפְסָלָהּ וְלֹא בָאָה לִכְלַל הֶתֵּר, מוֹעֲלִין בָּהּ, דְּהָא רַבִּי יְהוֹשֻׁעַ גּוּפֵיהּ לֹא פָּלֵיג עָלֶיהָ: לְדָבָר שֶׁיֶּשׁ בּוֹ מְעִילָה — לְשֵׁם עוֹלָה: לְדָבָר שֶׁיֶּשׁ בּוֹ מְעִילָה — לְשֵׁם עוֹלָה:

Rashi confirma a explicação das duas primeiras posições quase palavra por palavra com Bartenura, e acrescenta uma precisão importante: mesmo Rabi Yehoshua concorda que a própria chatat, quando desqualificada por mudança de nome (para olá), gera meilá — pois ela nunca chegou a ter o seu momento de permissão aos sacerdotes. A disputa é apenas sobre o caminho inverso: a olá que se torna chatat em tudo.