Seder Kodashim · Massechet Zevachim · Perek Dalet · Mishná 1 de 6

Uma aplicação basta: a controvérsia sobre o altar externo

אֵין הַמַּחֲשָׁבָה פוֹסֶלֶת אֶלָּא חוּץ לִזְמַנּוֹ וְחוּץ לִמְקוֹמוֹ
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

O Perek Dalet abre com uma controvérsia formal entre Beit Shammai e Beit Hillel sobre quantas aplicações de sangue são estritamente indispensáveis para a expiação em cada tipo de oferenda oferecida sobre o altar externo — e usa essa controvérsia para estabelecer, em cada caso, quando uma segunda aplicação feita com intenção errada tem, ou não tem, o poder de invalidar a oferenda por pigul.

Beit Shammai dizem: quanto a todas [as oferendas] cujo sangue é dado sobre o altar externo — se o deu numa única aplicação, expiou; mas na oferenda de pecado, duas aplicações.A maioria das oferendas oferecidas sobre o altar externo tem, por preceito, duas aplicações de sangue (que, por serem feitas em cantos opostos do altar, tocam de fato os quatro lados, e por isso contam como "duas que valem por quatro"); a oferenda de pecado tem, por preceito, quatro aplicações distintas, uma em cada canto. Mas Beit Shammai sustenta que essa exigência é apenas para a mitsvá ideal — se, de fato, o sacerdote aplicou o sangue numa única vez, a expiação já se consumou bedieavad (depois do fato), exceto na oferenda de pecado, onde ao menos duas aplicações são indispensáveis para que haja expiação alguma.

E Beit Hillel dizem: também na oferenda de pecado, se a deu numa única aplicação, expiou.Beit Hillel estende o mesmo princípio até à oferenda de pecado: mesmo ali, uma única aplicação, se foi a única realizada, já expia depois do fato — embora, tal como Beit Shammai, exijam por preceito o número pleno de aplicações.

Por isso, se deu a primeira em sua forma correta e a segunda com intenção de fora de seu tempo, expiou. [Mas se] deu a primeira com intenção de fora de seu tempo e a segunda com intenção de fora de seu lugar, é pigul, e ficam sujeitos por ele à excisão.Desse princípio decorre uma consequência prática decisiva para o pigul: como uma única aplicação já basta para expiar e habilitar a carne para consumo, uma segunda aplicação — realizada depois que a primeira já cumpriu sua função — não é mais indispensável, e por isso uma intenção errada tida nela não contamina a oferenda. Mas se foi justamente a primeira aplicação — a única que de fato habilitou a oferenda — que foi feita com a intenção de comer fora do tempo devido, a oferenda torna-se pigul por completo, e essa condição já não se desfaz mesmo que a segunda aplicação, agora supérflua, seja realizada com outra intenção errada (fora do lugar).

בֵּית שַׁמַּאי אוֹמְרִים, כָּל הַנִּתָּנִין עַל מִזְבֵּחַ הַחִיצוֹן, שֶׁאִם נְתָנָן מַתָּנָה אַחַת, כִּפֵּר. וּבְחַטָּאת, שְׁתֵּי מַתָּנוֹת. וּבֵית הִלֵּל אוֹמְרִים, אַף חַטָּאת שֶׁנְּתָנָהּ מַתָּנָה אַחַת, כִּפֵּר. לְפִיכָךְ, אִם נָתַן אֶת הָרִאשׁוֹנָה כְתִקְנָהּ וְאֶת הַשְּׁנִיָּה חוּץ לִזְמַנָּהּ, כִּפֵּר. נָתַן אֶת הָרִאשׁוֹנָה חוּץ לִזְמַנָּהּ וְאֶת הַשְּׁנִיָּה חוּץ לִמְקוֹמָהּ, פִּגּוּל, וְחַיָּבִין עָלָיו כָּרֵת:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Zevachim 4:1
וְעָלָה בְיָדֵינוּ מֵהַמַּחֲלוֹקֶת הַזֹּאת שֶׁבֵּית הִלֵּל שֶׁאוֹמְרִים מַתָּנָה אַחַת הוּא הָעִקָּר וְעָלָיו רָאוּי לִסְמֹךְ, וְהַשְּׁאָר לְמִצְוָה. לְפִיכָךְ אִם זָרַק רִאשׁוֹנָה כְּתִקְנָהּ לֹא הִפְסִיד הַקָּרְבָּן וַאֲפִלּוּ הִפְסִיד הַמַּחֲשָׁבָה בַּהֲזָאָה שְׁנִיָּה וּמַה שֶּׁאַחֲרֶיהָ; וְאִם נָתַן הָרִאשׁוֹנָה חוּץ לִזְמַנָּהּ יִהְיֶה הַקָּרְבָּן פִּגּוּל, וַאֲפִלּוּ נָתַן הַשְּׁנִיָּה חוּץ לִמְקוֹמָהּ, לְפִי שֶׁהַשְּׁנִיָּה וּמַה שֶּׁאַחֲרֶיהָ אֵינָן אֶלָּא תַשְׁלוּם הַמִּצְוָה וְאֵינָן מִתְּנָאֵי הַכַּפָּרָה.

Rambam explica a lógica que decide a lei conforme Beit Hillel: como uma única aplicação de sangue já é o requisito essencial — o mínimo indispensável para a expiação —, e todas as demais são apenas o cumprimento ideal do preceito (não indispensáveis), segue-se que só a intenção tida na primeira aplicação tem poder de invalidar. Se o sacerdote aspergiu a primeira corretamente, o restante do processo já não pode desfazer a expiação, mesmo que ele erre na intenção das aplicações seguintes; mas se já a primeira foi feita com intenção de fora do tempo, a oferenda torna-se pigul de modo irreversível, pois foi justamente essa aplicação — a essencial — que carregou a intenção errada.

Bartenura · Zevachim 4:1
נָתַן אֶת הָרִאשׁוֹנָה כְתִקְּנָהּ וְאֶת הַשְּׁנִיָּה בְּמַחֲשֶׁבֶת אֲכִילַת בָּשָׂר חוּץ לִזְמַנָּהּ, כִּפֵּר, וְכָשֵׁר הַקָּרְבָּן לִקָּרֵב עַל יְדֵי מַתָּנָה רִאשׁוֹנָה, דְּאֵין הַשְּׁנִיָּה מַתֶּרֶת הַבָּשָׂר, שֶׁהֲרֵי הֻתַּר עַל יְדֵי מַתָּנָה רִאשׁוֹנָה, הִלְכָּךְ אֵינָהּ מְפַגֶּלֶת. נָתַן אֶת הָרִאשׁוֹנָה חוּץ לִזְמַנָּהּ... פִּגּוּל וְחַיָּבִין עָלָיו כָּרֵת, שֶׁאֵין מַחֲשֶׁבֶת חוּץ לִמְקוֹמוֹ דִּשְׁנִיָּה מוֹצִיאָתוֹ מִידֵי פִגּוּל, שֶׁהֲרֵי הֻקְבַּע בָּרִאשׁוֹנָה שֶׁקָּרְבוּ כָּל מַתִּירָיו.

Bartenura esclarece o mecanismo em termos de "habilitadores" (matirin): a carne da oferenda só se torna permitida para consumo depois que o sangue é aspergido corretamente. Como a primeira aplicação já cumpre essa função de habilitar a carne, a segunda não acrescenta habilitação alguma — apenas completa o preceito ideal —, e por isso uma intenção errada nela não invalida nada. Mas se a intenção errada estava na primeira aplicação, a condição de pigul já se fixou naquele instante, e nada do que acontece depois — nem mesmo outra intenção errada na segunda aplicação — pode reverter essa fixação.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi רַשִׁ״י
Rashi sobre a Guemará de Zevachim, 36b
מַתְנִי׳ בֵּית שַׁמַּאי אוֹמְרִים — מַתָּנָה אַחַת. זְרִיקָה אַחַת כִּפֵּר אַף עַל פִּי שֶׁרֻבָּן טְעוּנִים שְׁתֵּי מַתָּנוֹת שֶׁהֵן אַרְבַּע. וּבְחַטָּאת שְׁתֵּי מַתָּנוֹת — מַתָּנוֹת אֶצְבַּע מַמָּשׁ, וּבַגְּמָרָא יָלֵיף טַעְמָא. לְפִיכָךְ — חַטָּאת וְכָל הַזְּבָחִים לְבֵית הִלֵּל, וּלְבֵית שַׁמַּאי שְׁאָר זְבָחִים חוּץ מֵחַטָּאת. נָתַן אֶת הָרִאשׁוֹנָה כְתִקְנָהּ — בִּשְׁתִיקָה, וְאֶת הַשְּׁנִיָּה בְּמַחֲשֶׁבֶת אֲכִילַת בָּשָׂר חוּץ לִזְמַנּוֹ, כִּפֵּר וְכָשֵׁר הַקָּרְבָּן, שֶׁכְּבָר נִיתַּר הַקָּרְבָּן לִקָּרֵב עַל יְדֵי מַתָּנָה רִאשׁוֹנָה, וְאֵין הַשְּׁנִיָּה מַתֶּרֶת אֶת הַבָּשָׂר, לְפִיכָךְ אֵינָהּ מְפַגֶּלֶת. פִּגּוּל וְחַיָּבִין עָלָיו כָּרֵת — שֶׁאֵין מַחֲשֶׁבֶת חוּץ לִמְקוֹמוֹ דִּשְׁנִיָּה מוֹצִיאָתוֹ מִידֵי פִגּוּל, שֶׁכְּבָר הֻקְבַּע בָּרִאשׁוֹנָה שֶׁכְּבָר קָרְבוּ כָּל מַתִּירָיו.

Rashi esclarece que a única aplicação mencionada por Beit Shammai é uma verdadeira aspersão (não meramente derramar), e que, embora a maioria das oferendas exija por preceito duas aplicações que tocam quatro lados do altar, uma única já expia depois do fato. Explica também que "duas aplicações" na oferenda de pecado significa aplicações distintas, feitas com o dedo, cuja razão a Guemará desenvolve mais adiante. Sobre "por isso", nota que essa regra vale, para Beit Hillel, tanto na oferenda de pecado quanto em todas as demais, e para Beit Shammai, em todas as oferendas exceto a de pecado — que ali exige duas aplicações indispensáveis. E confirma que a fixação do pigul na primeira aplicação é irreversível justamente porque foi ela que, de fato, habilitou toda a oferenda a ser trazida ao altar.