Seder Moed · Massechet Yoma · Perek Chet · Mishná 1 de 9 — Início do último perek

As cinco proibições de Yom Kipur

יוֹם הַכִּפּוּרִים אָסוּר בַּאֲכִילָה וּבִשְׁתִיָּה
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Abrindo o Perek Chet, último do tratado, a mishná deixa para trás o serviço do Templo e se volta às cinco proibições que recaem sobre toda pessoa em Yom Kipur, com as exceções concedidas ao rei, à noiva e à parturiente, segundo Rabi Eliezer — exceções que os Sábios rejeitam.

Yom Kipur é proibido em comer, e em beber, e em lavar, e em ungir, e em calçar a sandália, e em relação conjugal.A mishná lista as cinco categorias de privação que caracterizam Yom Kipur: abstenção de alimento e bebida, de banho, de untar-se com óleo, de calçar sandálias de couro, e de relações conjugais.

E o rei e a noiva lavarão o rosto, e a parturiente calçará a sandália — palavras de Rabi Eliezer, e os Sábios proíbem.Rabi Eliezer concede três exceções pontuais: o rei pode lavar o rosto, por ser indigno que apareça desalinhado; a noiva, dentro de seus primeiros trinta dias de casada, pode fazer o mesmo, para não se tornar desagradável aos olhos do marido; e a parturiente pode calçar a sandália, por causa do frio que a ameaça em sua condição debilitada. Os Sábios, no entanto, discordam e proíbem também essas exceções, sustentando a integridade das cinco privações mesmo nesses casos.

יוֹם הַכִּפּוּרִים אָסוּר בַּאֲכִילָה וּבִשְׁתִיָּה וּבִרְחִיצָה וּבְסִיכָה וּבִנְעִילַת הַסַּנְדָּל וּבְתַשְׁמִישׁ הַמִּטָּה. וְהַמֶּלֶךְ וְהַכַּלָּה יִרְחֲצוּ אֶת פְּנֵיהֶם, וְהֶחָיָה תִנְעֹל אֶת הַסַּנְדָּל, דִּבְרֵי רַבִּי אֱלִיעֶזֶר, וַחֲכָמִים אוֹסְרִין:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Vayikra 16:29, 16:31 e 23:27
וְהָיְתָה לָכֶם לְחֻקַּת עוֹלָם, בַּחֹדֶשׁ הַשְּׁבִיעִי בֶּעָשׂוֹר לַחֹדֶשׁ תְּעַנּוּ אֶת נַפְשֹׁתֵיכֶם וְכָל מְלָאכָה לֹא תַעֲשׂוּ, הָאֶזְרָח וְהַגֵּר הַגָּר בְּתוֹכְכֶם. / שַׁבַּת שַׁבָּתוֹן הִיא לָכֶם וְעִנִּיתֶם אֶת נַפְשֹׁתֵיכֶם, חֻקַּת עוֹלָם. / אַךְ בֶּעָשׂוֹר לַחֹדֶשׁ הַשְּׁבִיעִי הַזֶּה יוֹם הַכִּפֻּרִים הוּא, מִקְרָא קֹדֶשׁ יִהְיֶה לָכֶם, וְעִנִּיתֶם אֶת נַפְשֹׁתֵיכֶם, וְהִקְרַבְתֶּם אִשֶּׁה לַיהֹוָה.
E será para vós estatuto eterno: no sétimo mês, no décimo dia do mês, afligireis as vossas almas, e nenhum trabalho fareis, tanto o natural como o estrangeiro que habita entre vós. / Sábado de descanso completo será para vós, e afligireis as vossas almas; estatuto eterno. / Mas no décimo dia deste sétimo mês é Yom Kipur, convocação sagrada será para vós, e afligireis as vossas almas, e trareis oferenda de fogo ao Eterno.

A Torá emprega cinco vezes, em cinco versículos distintos entre Vayikra 16 e Vayikra 23, a expressão "afligireis as vossas almas" a respeito de Yom Kipur — repetição que a tradição oral entende não como redundância retórica, mas como fonte para cinco categorias distintas de aflição: comida e bebida, banho, unção, calçados de couro, e relação conjugal. A Torá não descreve o conteúdo específico dessas privações; é a tradição recebida que as identifica e as sistematiza na lista precisa apresentada por esta mishná, com o texto bíblico servindo de mero ponto de apoio ou alusão (asmachta) para cada uma.

Halachot · הֲלָכוֹת

O Rambam detalha como a tradição extrai as cinco proibições dos cinco versículos, e explica a lógica da exceção concedida ao rei e à noiva.

Rambam · Perush HaMishná, Yoma 8:1
לֹא בֵּאֲרָה הַתּוֹרָה מְנִיעָה מֵאֵלּוּ הַדְּבָרִים בְּיוֹם צוֹם כִּפּוּר, אֲבָל אָמַר הַכָּתוּב לְשׁוֹן "עִנּוּי" חָמֵשׁ פְּעָמִים. וּבָאָה הַקַּבָּלָה כִּי בָּאוּ לֶאֱסֹר חֲמִשָּׁה דְבָרִים מֵהֲנָאַת הַגּוּף, וְהֵם: הָאֲכִילָה וְהַשְּׁתִיָּה, וְהָרְחִיצָה בְּמַיִם, וְסִיכָה בְּשֶׁמֶן, וּנְעִילַת הַסַּנְדָּל, וְתַשְׁמִישׁ הַמִּטָּה. וְאָמְרוּ "הַמֶּלֶךְ וְהַכַּלָּה": הַמֶּלֶךְ צָרִיךְ שֶׁיִּהְיֶה עִמּוֹ הַנּוֹי, אָמַר "מֶלֶךְ בְּיָפְיוֹ תֶּחֱזֶינָה עֵינֶיךָ". וְכֵן הַכַּלָּה, כְּדֵי שֶׁלֹּא תִּתְגַּנֶּה עַל בַּעְלָהּ, וּלְפִיכָךְ הִתַּרְנוּ לָהֶם רְחִיצַת פְּנֵיהֶם.

A Torá não explicitou a proibição desses itens no dia do jejum de Yom Kipur, mas o texto usou a expressão "aflição" cinco vezes. E veio a tradição recebida esclarecer que vieram proibir cinco itens de prazer corporal, que são: comer e beber, banhar-se em água, ungir-se com óleo, calçar a sandália, e relação conjugal. E disseram "o rei e a noiva": o rei precisa ter beleza consigo, como está dito "os teus olhos verão o rei em sua formosura". E o mesmo vale para a noiva, para que não se torne repugnante a seu marido; por isso permitimos a ambos lavar o rosto.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Bartenura liga cada uma das cinco proibições da mishná aos cinco versículos correspondentes na Torá; Rashi identifica a "noiva" com a mulher em seus primeiros trinta dias de casamento.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Yoma 8:1
יוֹם הַכִּפּוּרִים אָסוּר בַּאֲכִילָה וּבִשְׁתִיָּה. אַף עַל גַּב דְּבַאֲכִילָה וּשְׁתִיָּה עָנוּשׁ כָּרֵת, מִשּׁוּם דְּבָעֵי לְמִתְנֵי שְׁאָר עִנּוּיִין דְּלֵית בְּהוּ כָּרֵת תָּנָא "אָסוּר". וְהָנֵי חֲמִשָּׁה עִנּוּיִין כְּנֶגֶד חֲמִשָּׁה עִנּוּיִין הַכְּתוּבִים בַּתּוֹרָה, דְּ"שַׁבַּת שַׁבָּתוֹן" דֶּ"אֱמֹר אֶל הַכֹּהֲנִים", וְ"שַׁבַּת שַׁבָּתוֹן" דְּ"אַחֲרֵי מוֹת", וּ"בֶעָשׂוֹר לַחֹדֶשׁ" דְּחֻמַּשׁ הַפְּקוּדִים, וְ"אַךְ בֶּעָשׂוֹר לַחֹדֶשׁ" דֶּ"אֱמֹר אֶל הַכֹּהֲנִים", וְ"הָיְתָה זֹּאת לָכֶם לְחֻקַּת עוֹלָם" דְּ"אַחֲרֵי מוֹת", בְּכֻלְּהוּ כְּתִיב "תְּעַנּוּ" וְ"עִנִּיתֶם". וְהָנֵי דְּמַתְנִיתִין נַמִּי חֲמִשָּׁה עִנּוּיִין נִינְהוּ, דִּשְׁתִיָּה וַאֲכִילָה אַחַת הֵן.

"Yom Kipur é proibido em comer e em beber" — embora comer e beber sejam punidos com carrét, como a mishná precisa ensinar as demais aflições que não têm carrét, ela ensinou "é proibido" [para todas juntas]. E estas cinco aflições correspondem a cinco menções de "aflição" escritas na Torá — em todas se escreve "afligireis" e "afligirão". E as desta mishná também são cinco aflições, pois beber e comer contam como uma só.

Rashi · רַשִׁ״י
Talmud Bavli, Yoma 73b
מַתְנִי׳ יוֹם הַכִּפּוּרִים אָסוּר בַּאֲכִילָה וּבִשְׁתִיָּה וְכוּ׳. מְפָרֵשׁ בַּגְּמָרָא דְּכָל הָנֵי אִיקְּרוּ עִנּוּי, וְגַבֵּי יוֹם הַכִּפּוּרִים חֲמִשָּׁה עִנּוּיִים כְּתִיבֵי, וְהָנֵי חֲמִשָּׁה כְּנֶגְדָּן: מֶלֶךְ. דַּרְכּוֹ וְשִׁבְחוֹ לִהְיוֹת נָאֶה, שֶׁנֶּאֱמַר "מֶלֶךְ בְּיָפְיוֹ תֶּחֱזֶינָה עֵינֶיךָ": וְהַכַּלָּה. צְרִיכָה נוֹי עַד שֶׁתִּתְחַבֵּב עַל בַּעְלָהּ, וְכָל שְׁלֹשִׁים יוֹם לְחֻפָּתָהּ הִיא קְרוּיָה כַּלָּה: וְהֶחָיָה. יוֹלֶדֶת.

"Mishná: Yom Kipur é proibido em comer e em beber etc." — a Guemará explica que todos estes são chamados "aflição", e a respeito de Yom Kipur estão escritas cinco aflições, e estas cinco lhes correspondem. "O rei" — é seu costume e seu louvor ser formoso, como está dito "os teus olhos verão o rei em sua formosura". "E a noiva" — precisa de beleza até que se torne querida a seu marido, e durante todos os trinta dias após seu casamento ela é chamada "noiva". "E a parturiente" — é a que deu à luz.