Seder Moed · Massechet Yoma · Perek Vav · Mishná 6 de 8

A língua de lã escarlate

מֶה הָיָה עוֹשֶׂה, חוֹלֵק לָשׁוֹן שֶׁל זְהוֹרִית
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná chega ao momento culminante do envio: o condutor, sozinho, amarra a língua de lã escarlate, empurra o bode do penhasco, e a queda o despedaça antes mesmo de chegar à metade do monte; a mishná encerra com a disputa sobre a partir de que momento o ato de enviar o bode passa a contaminar as roupas de quem participou.

O que fazia? Dividia a língua de lã escarlate: metade amarrava na rocha, e metade amarrava entre os dois chifres [do bode], e o empurrava para trás, e ele rolava e descia, e não chegava à metade do monte antes de se fazer em pedaços e pedaços.Ao chegar ao ponto final, o condutor dividia em duas a fita de lã tingida de escarlate: uma metade ele fixava numa rocha do local, e a outra metade amarrava entre os chifres do próprio bode; então empurrava o animal para trás, em direção ao precipício, e o bode caía rolando montanha abaixo com tal violência que, antes mesmo de percorrer metade da distância até o sopé, seu corpo já se despedaçava em múltiplos pedaços.

Vinha e se sentava sob a última cabana até escurecer.Cumprida sua tarefa, o condutor não retornava imediatamente — permanecia sentado, esperando, sob a última das dez cabanas, até que a noite caísse, pois o esforço da jornada e o receio de permanecer sozinho no deserto justificavam essa pausa antes do retorno.

E a partir de quando contamina as roupas? A partir de quando sai para fora do muro de Jerusalém. Rabi Shimon diz: a partir do momento em que o empurra ao penhasco.A Torá determina que quem participa do envio do bode fica ritualmente impuro e deve lavar suas roupas; a mishná registra uma disputa sobre o momento exato em que essa impureza começa a se aplicar — a opinião anônima situa o início já na saída da cidade, enquanto Rabi Shimon o posterga até o instante concreto do empurrão final no penhasco.

מֶה הָיָה עוֹשֶׂה, חוֹלֵק לָשׁוֹן שֶׁל זְהוֹרִית, חֶצְיוֹ קָשַׁר בַּסֶּלַע וְחֶצְיוֹ קָשַׁר בֵּין שְׁתֵּי קַרְנָיו, וּדְחָפוֹ לַאֲחוֹרָיו, וְהוּא מִתְגַּלְגֵּל וְיוֹרֵד, וְלֹא הָיָה מַגִּיעַ לַחֲצִי הָהָר עַד שֶׁנַּעֲשָׂה אֵבָרִים אֵבָרִים. בָּא וְיָשַׁב לוֹ תַּחַת סֻכָּה אַחֲרוֹנָה עַד שֶׁתֶּחְשָׁךְ. וּמֵאֵימָתַי מְטַמֵּא בְגָדִים, מִשֶּׁיֵּצֵא חוּץ לְחוֹמַת יְרוּשָׁלַיִם. רַבִּי שִׁמְעוֹן אוֹמֵר, מִשְּׁעַת דְּחִיָּתוֹ לַצּוּק:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Vayikra 16:26
וְהַמְשַׁלֵּחַ אֶת הַשָּׂעִיר לַעֲזָאזֵל יְכַבֵּס בְּגָדָיו, וְרָחַץ אֶת בְּשָׂרוֹ בַּמָּיִם, וְאַחֲרֵי כֵן יָבוֹא אֶל הַמַּחֲנֶה.
E o que enviar o bode a Azazel lavará as suas roupas, e banhará seu corpo em água; e depois disso virá ao acampamento.

É o próprio verbo "o que envia" (hameshale'ach) que a mishná debate: a opinião anônima entende que o "envio" já se realiza no ato de conduzir o bode para fora da cidade, ao passo que Rabi Shimon entende que "enviar" só se completa no gesto concreto que o lança em direção ao precipício. Essa é a mesma raiz do verbo usado desde Vayikra 16:10, 16:21 e 16:22 para descrever toda a operação do bode — "enviá-lo ao deserto" — e a disputa reflete duas leituras possíveis de quando, dentro desse processo contínuo que começa na entrega das mãos do Cohen Gadol e termina no despenhamento, o gesto humano de "enviar" está de fato concluído para fins de contaminação das roupas.

Halachot · הֲלָכוֹת

O Rambam explica a razão de se dividir a língua de lã em duas metades, e decide contra Rabi Shimon.

Rambam · Perush HaMishná, Yoma 6:6
לֹא הָיָה קוֹשֵׁר הַלָּשׁוֹן כֻּלּוֹ בַּצּוּק, שֶׁמָּא יַלְבִּין קֹדֶם דְּחִיַּת הַשָּׂעִיר וְיַחְשְׁבוּ כִּי הָעֲוֹנוֹת מִתְכַּפְּרִין קֹדֶם שֶׁיִּדְחֶה הַשָּׂעִיר. וּמַה שֶּׁחִיֵּב שֶׁלֹּא יִקְשֹׁר אוֹתוֹ כֻּלּוֹ בֵּין קַרְנוֹתָיו, שֶׁמָּא בִּשְׁעַת דְּחִיָּתוֹ יִכֹּף רֹאשׁוֹ וְלֹא יֵרָאֶה לָשׁוֹן שֶׁל זְהוֹרִית אִם הִלְבִּינָה, וְתֶחֱלַשׁ דַּעְתָּן שֶׁיַּחְשְׁבוּ שֶׁהַכַּפָּרָה לֹא נִשְׁלְמָה. וְאֵין הֲלָכָה כְּרַבִּי שִׁמְעוֹן.

Não amarrava toda a língua no penhasco, para que não branqueasse antes do empurrão do bode, fazendo-os pensar que os pecados já haviam sido expiados antes de o bode ser empurrado. E o que obrigou a não amarrá-la toda entre seus chifres é que, no momento do empurrão, ele poderia curvar a cabeça e a língua de lã não seria vista mesmo que branqueasse, e o ânimo do povo enfraqueceria, pensando que a expiação não se completou. E a halachá não é como Rabi Shimon.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Bartenura e Rashi explicam por que a língua era dividida entre a rocha e os chifres, e a razão de o condutor esperar até escurecer antes de voltar.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Yoma 6:6
חֶצְיוֹ קָשַׁר בַּסֶּלַע וְחֶצְיוֹ קָשַׁר בֵּין קַרְנָיו. לֹא הָיָה קוֹשֵׁר כָּל הַלָּשׁוֹן שֶׁל זְהוֹרִית בַּסֶּלַע, שֶׁמָּא תַּלְבִּין מִיָּד קֹדֶם דְּחִיפַת הַשָּׂעִיר... לְפִיכָךְ קָשַׁר חֶצְיָהּ בַּסֶּלַע, וְהִיא לֹא תַּלְבִּין לַחֲצָאִין עַד שֶׁתִּגְמֹר מְלֶאכֶת כֻּלָּהּ: בָּא וְיָשַׁב לוֹ. חוֹזֵר עַד סֻכָּה אַחֲרוֹנָה, וְאַף עַל פִּי שֶׁהַיּוֹצֵא חוּץ לַתְּחוּם אֲפִלּוּ בִּרְשׁוּת חֲכָמִים אֵין לוֹ אֶלָּא אַלְפַּיִם אַמָּה, לָזֶה הִתִּירוּ, לְפִי שֶׁיָּרֵא לַעֲמֹד בַּמִּדְבָּר מִשֶּׁתֶּחְשַׁךְ.

"Metade amarrava na rocha e metade entre seus chifres" — não amarrava toda a língua de lã escarlate na rocha, para que não branqueasse imediatamente antes do empurrão do bode [...]. Por isso amarrava metade na rocha, e ela não branqueia pela metade até que se complete toda a obra. "Vinha e se sentava" — voltava até a última cabana; e ainda que quem sai para fora do limite, mesmo com permissão dos sábios, só tenha [permissão de avançar] dois mil côvados, a ele permitiram isso, porque temia permanecer no deserto depois de escurecer.

Rashi · רַשִׁ״י
Talmud Bavli, Yoma 67a-67b
חוֹלֵק לָשׁוֹן שֶׁל זְהוֹרִית. בַּגְּמָרָא מְפָרֵשׁ טַעְמָא: כֵּיוָן דְּמִצְוָה בַּשָּׂעִיר לְדָחְפוֹ לַאֲחוֹרָיו... לְפִיכָךְ קוֹשֵׁר בָּאַחֲרוֹנָה חֶצְיָהּ בֵּין קַרְנָיו, וְעֵינָיו תְּלוּיִן בּוֹ, וּמֵאַחַר שֶׁהוּא עָסוּק בּוֹ בָּאַחֲרוֹנָה לֹא יַנִּיחַ מִלְּדָחְפוֹ: בָּא וְיָשַׁב לוֹ. חוֹזֵר עַד סֻכָּה הָאַחֲרוֹנָה, אַף עַל פִּי שֶׁהַיּוֹצֵא חוּץ לַתְּחוּם אֲפִלּוּ בִּרְשׁוּת אֵין לוֹ אֶלָּא אַלְפַּיִם אַמָּה, לָזֶה הִתִּירוּ, לְפִי שֶׁהוּא מְעֻנֶּה וְחָלֵשׁ, וְעוֹד שֶׁיָּרֵא לַעֲמֹד יְחִידִי בַּמִּדְבָּר מִשֶּׁתֶּחְשָׁךְ: מֵאֵימָתַי מְטַמֵּא בְגָדִים. דִּכְתִיב וְהַמְשַׁלֵּחַ אֶת הַשָּׂעִיר יְכַבֵּס בְּגָדָיו.

"Dividia a língua de lã escarlate" — na Guemará se explica a razão: como há um preceito quanto ao bode de empurrá-lo para trás [...] por isso, ao final, amarra a metade entre seus chifres, com os olhos fixos nele, e, por estar ocupado com ele até o fim, não deixará de empurrá-lo. "Vinha e se sentava" — voltava até a última cabana; e ainda que quem sai para fora do limite, mesmo com permissão, só tenha [direito a] dois mil côvados, a ele permitiram isso, pois está exausto e fraco, e também teme permanecer sozinho no deserto depois de escurecer. "A partir de quando contamina as roupas" — pois está escrito: "e o que enviar o bode lavará as suas roupas".