Aconteceu que ambos estavam empatados, e corriam e subiam pela rampa, e um deles empurrou seu companheiro, e ele caiu e quebrou a perna. — Em certa ocasião, dois cohanim corriam emparelhados pela rampa, sem que nenhum conseguisse se adiantar; no calor da disputa, um empurrou o outro, que caiu e fraturou a perna.
E quando o tribunal viu que chegavam a uma situação de perigo, instituíram que não retirassem as cinzas do altar senão por sorteio. Quatro sorteios havia ali, e este é o primeiro sorteio. — Diante do risco que a corrida representava, o tribunal aboliu esse método e estabeleceu que a retirada das cinzas fosse sempre decidida por sorteio, sem disputa física. Ao todo, quatro sorteios distintos passaram a organizar o serviço diário, e o que determinava quem retirava as cinzas era o primeiro deles.
Deste versículo os sábios extraem o dever de afastar todo perigo à vida e à integridade do corpo, e foi precisamente esse princípio que moveu o tribunal a agir assim que percebeu o risco embutido na corrida pela rampa. Embora a competição original não tivesse por objetivo causar dano algum, bastou constatar que ela podia — e de fato levou — a um ferimento real para que se instituísse de imediato um método seguro, o sorteio, em seu lugar. A urgência da resposta ilustra como o cuidado com a vida humana prevalece mesmo sobre um costume já consagrado no serviço do Templo.
A Guemará, ao abrir a discussão desta mishná, pergunta por que razão os sábios não haviam instituído o sorteio desde o início — já que o serviço de retirada das cinzas é o único, entre os do dia, que pode ser realizado ainda de noite.
E por que razão, de início, os sábios não haviam instituído para ele o sorteio? De início pensaram: já que é serviço que também pode ser feito de noite, os cohanim não chegariam a correr com pressa e não incorreriam em perigo. Quando viram que de fato chegavam a uma situação de perigo, os sábios instituíram para ele o sorteio.
Rashi esclarece por que a Guemará considerava este serviço menos sujeito a risco antes do incidente; Bartenura descreve a nova rotina de quatro sorteios diários que a instituição do pais trouxe consigo.
"De início" — antes de acontecer o incidente na corrida deles. "Por que razão não instituíram para ele o sorteio" — como para todos os demais serviços da mishná, que ensinamos que todos, desde o início, se faziam por sorteio. "De início pensaram" — o tribunal. "Já que é serviço noturno" — por ser válido também de noite, não era tão valorizado pelos cohanim, e não vinham a disputar por ele.
"Senão por sorteio" — este que explicamos. "Quatro sorteios havia ali" — quatro vezes ao dia se reuniam para sortear. E não sorteavam tudo numa única reunião, para que se fizesse ouvir por quatro vezes que há muito povo no pátio do Templo, o que é a honra devida a um rei, como está dito: "à casa de Elohim caminharemos em multidão."