Seder Moed · Massechet Yoma · Perek Alef · Mishná 8 de 8 (última)

A retirada diária das cinzas do altar

בְּכָל יוֹם תּוֹרְמִין אֶת הַמִּזְבֵּחַ בִּקְרִיאַת הַגֶּבֶר
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Encerrando o perek dedicado à noite de vigília do Cohen Gadol, a última mishná chega ao amanhecer e descreve o primeiro ato do serviço diário do Templo — a retirada das cinzas do altar — comparando o horário comum ao horário especial de Yom Kipur e das festas.

Todo dia retiram as cinzas do altar ao canto do galo, ou perto dele, seja antes seja depois; em Yom Kipur, desde a meia-noite, e nas festas, desde a primeira vigília. — Em dias comuns, a retirada de parte das cinzas acumuladas sobre o altar — o primeiro ato do serviço matinal — acontecia por volta do canto do galo, com alguma margem de tempo antes ou depois. Em Yom Kipur, porém, por causa da sobrecarga de todo o serviço recair sobre um único cohen, essa retirada era antecipada para a meia-noite; e nas festas de peregrinação, por causa do grande volume de sacrifícios trazidos pelo povo, era antecipada ainda mais, para a primeira das três vigílias da noite.

E o canto do galo não chegava a soar nas festas antes que o átrio já estivesse cheio de gente de Israel. — Tamanha era a afluência de peregrinos nas festas, todos ansiosos por oferecer seus sacrifícios logo após o tamid da manhã, que o átrio do Templo já se enchia de multidões antes mesmo de o galo cantar — sinal do quanto a antecipação do horário de retirada das cinzas era necessária para dar conta do movimento.

בְּכָל יוֹם תּוֹרְמִין אֶת הַמִּזְבֵּחַ בִּקְרִיאַת הַגֶּבֶר אוֹ סָמוּךְ לוֹ, בֵּין לְפָנָיו בֵּין לְאַחֲרָיו. בְּיוֹם הַכִּפּוּרִים מֵחֲצוֹת, וּבָרְגָלִים מֵאַשְׁמוּרָה הָרִאשׁוֹנָה, וְלֹא הָיְתָה קְרִיאַת הַגֶּבֶר מַגַּעַת עַד שֶׁהָיְתָה עֲזָרָה מְלֵאָה מִיִּשְׂרָאֵל:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Vayicrá 6:3
וְלָבַשׁ הַכֹּהֵן מִדּוֹ בַד, וּמִכְנְסֵי בַד יִלְבַּשׁ עַל בְּשָׂרוֹ, וְהֵרִים אֶת הַדֶּשֶׁן אֲשֶׁר תֹּאכַל הָאֵשׁ אֶת הָעֹלָה עַל הַמִּזְבֵּחַ וְשָׂמוֹ אֵצֶל הַמִּזְבֵּחַ.
E vestirá o cohen sua túnica de linho, e vestirá calções de linho sobre sua carne, e levantará as cinzas que o fogo consumiu do holocausto sobre o altar, e as colocará junto ao altar.

É deste versículo que se deriva a mitsvá diária da terumat hadeshen — a retirada de uma porção das cinzas do altar, revestido com as vestes especiais de linho — que abre o serviço de cada manhã no Templo. A mishná fixa o horário comum dessa retirada no canto do galo, mas antecipa-o em Yom Kipur e nas festas, precisamente porque o volume e a gravidade do serviço desses dias exigiam que o Templo já estivesse pronto a postos muito antes do amanhecer comum.

Halachot · הֲלָכוֹת

O Rambam, no Perush HaMishná, identifica a terumat hadeshen como o próprio ato descrito nesta mishná.

Rambam · Perush HaMishná, Yoma 1:8
תְּרוּמַת הַמִּזְבֵּחַ הִיא הֲסָרַת הַדֶּשֶׁן מִן הַמִּזְבֵּחַ, וְנִקְרָא דִּשּׁוּן הַמִּזְבֵּחַ, כְּמוֹ לְדַשְּׁנוֹ.

"A retirada do altar" é a remoção das cinzas do altar, e é chamada de "dishun" (desenzamento) do altar, como em "para desenzá-lo".

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Bartenura descreve com precisão o procedimento e explica a razão da antecipação de horário em Yom Kipur e nas festas; Rashi, na Guemará, confirma os mesmos detalhes ao introduzir a mishná no fólio, encerrando o primeiro perek.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Yoma 1:8
תּוֹרְמִין אֶת הַמִּזְבֵּחַ. תְּרוּמַת הַדֶּשֶׁן, שֶׁהוּא חוֹתֶה מִן הַדֶּשֶׁן בְּמַחְתָּה בֵּין רַב בֵּין מְעַט, וְנוֹתְנוֹ בְּמִזְרָחוֹ שֶׁל כֶּבֶשׁ וְנִבְלָע שָׁם בִּמְקוֹמוֹ, וְהִיא הָיְתָה תְּחִלַּת הָעֲבוֹדָה בְּשַׁחֲרִית. אוֹ סָמוּךְ לוֹ. סָמוּךְ לִקְרִיאַת הַגֶּבֶר, אוֹ מִלְּפָנֶיהָ אוֹ מִלְּאַחֲרֶיהָ. בְּיוֹם הַכִּפּוּרִים תּוֹרֵם מֵחֲצוֹת. מִשּׁוּם חֻלְשָׁא דְּכֹהֵן גָּדוֹל, שֶׁעָלָיו לְבַדּוֹ מֻטָּל הַכֹּל, צָרִיךְ לְהַשְׁכִּים יוֹתֵר. וּבָרְגָלִים. דִּנְפִישֵׁי יִשְׂרָאֵל וּנְפִישֵׁי קָרְבָּנוֹת וְרַב הַדֶּשֶׁן בִּמְקוֹם הַמַּעֲרָכָה, וְצָרִיךְ לְהַעֲלוֹת הַדֶּשֶׁן מִן הַמַּעֲרָכָה לַמָּקוֹם שֶׁבְּאֶמְצַע הַמִּזְבֵּחַ שֶׁשְּׁמוֹ תַּפּוּחַ, הָיוּ צְרִיכִים לְהַשְׁכִּים יוֹתֵר, וְהָיוּ מַשְׁכִּימִין מִן הָאַשְׁמֹרֶת הָרִאשׁוֹנָה שֶׁהִיא שְׁלִישׁ הַלַּיְלָה.

"Retiram as cinzas do altar" — a retirada do dishun, que consiste em recolher das cinzas com uma pá, seja muito seja pouco, e colocá-las a leste da rampa, onde se dissipam em seu lugar; e essa era a primeira parte do serviço da manhã. "Ou perto dele" — perto do canto do galo, seja antes seja depois dele.

"Em Yom Kipur retira desde a meia-noite" — por causa do esforço do Cohen Gadol, sobre quem recai tudo sozinho, ele precisa se antecipar mais cedo. "E nas festas" — porque há mais pessoas em Israel e mais sacrifícios, e há muita cinza no lugar da fogueira, e é preciso transportar a cinza da fogueira para o lugar no meio do altar chamado tapuach, precisavam se antecipar ainda mais, e se antecipavam desde a primeira vigília, que é um terço da noite.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Yoma 20a
מַתְנִי' תּוֹרְמִין אֶת הַמִּזְבֵּחַ. הַדֶּשֶׁן שֶׁהוּא חוֹתֶה מִן הַדֶּשֶׁן בְּמַחְתָּה, פַּעַם אַחַת, בֵּין רַב בֵּין מְעַט, וּבִלְבַד שֶׁלֹּא יִפְחֹת מִמְּלֹא קֹמֶץ, וְנוֹתְנוֹ בְּמִזְרָחוֹ שֶׁל כֶּבֶשׁ וְנִבְלָע בִּמְקוֹמוֹ, שֶׁנֶּאֱמַר וְהֵרִים אֶת הַדֶּשֶׁן וְגוֹ' וְשָׂמוֹ אֵצֶל הַמִּזְבֵּחַ, וְהִיא הָיְתָה תְּחִלַּת עֲבוֹדַת שַׁחֲרִית בְּהַשְׁכָּמָה. סָמוּךְ לוֹ. סָמוּךְ לִקְרִיאַת הַגֶּבֶר, לִפְנֵי קְרִיאָתוֹ אוֹ לְאַחֲרֶיהָ. בְּיוֹם הַכִּפּוּרִים. תּוֹרֵם מֵחֲצוֹת. וּבָרְגָלִים מֵאַשְׁמוּרָה הָרִאשׁוֹנָה. שֶׁהִיא בַשְּׁלִישִׁית הַלַּיְלָה, כְּדַאֲמַר בְּמַסֶּכֶת בְּרָכוֹת, שָׁלֹשׁ מִשְׁמָרוֹת הֲוֵי הַלַּיְלָה. וְלֹא הָיְתָה קְרִיאַת הַגֶּבֶר מַגַּעַת. בָּרְגָלִים, עַד שֶׁהָיְתָה עֲזָרָה מְלֵאָה מִיִּשְׂרָאֵל הַמְּבִיאִין קָרְבְּנוֹתֵיהֶן לִהְיוֹת מְזֻמָּנִים לְהַקְרִיבָם מִיָּד אַחַר הַתָּמִיד.

"Mishná: retiram as cinzas do altar" — a cinza que ele recolhe com a pá, uma única vez, seja muita seja pouca, contanto que não seja menos que um punhado cheio, e a coloca a leste da rampa e ela se dissipa em seu lugar, como está dito: "e levantará as cinzas... e as colocará junto ao altar"; e essa era a primeira parte do serviço da manhã, em madrugada. "Ou perto dele" — perto do canto do galo, antes ou depois de seu canto.

"Em Yom Kipur, retira desde a meia-noite; e nas festas, desde a primeira vigília" — que é o terço da noite, como se diz no tratado Berachot: a noite tem três vigílias. "E o canto do galo não chegava" — nas festas, "até que o átrio já estivesse cheio de gente de Israel" que trazia seus sacrifícios para estarem prontos a oferecê-los logo após o tamid.