Disse Rabi Yehoshua: ouvi que há saris que faz chalitzá, e fazem chalitzá para sua esposa, e há saris que não faz chalitzá, nem fazem chalitzá para sua esposa, e não sei explicar. Disse Rabi Akiva: eu explicarei. O saris adam faz chalitzá, e fazem chalitzá para sua esposa, porque ele teve momento de aptidão. O saris chamá não faz chalitzá, nem fazem chalitzá para sua esposa, porque ele não teve momento de aptidão. Disse Rabi Elazar: não é assim, mas o saris chamá faz chalitzá, e fazem chalitzá para sua esposa, porque ele tem cura; o saris adam não faz chalitzá, nem fazem chalitzá para sua esposa, porque ele não tem cura. Testemunhou Rabi Yehoshua ben Beteira sobre Ben Megusat, que havia em Jerusalém um saris adam, e fizeram yibum com sua esposa, para confirmar as palavras de Rabi Akiva. — A mishná registra uma tradição transmitida em três camadas geracionais. Primeiro, Rabi Yehoshua relata algo que ouviu de seus próprios mestres — que existem dois tipos de saris com status opostos quanto à chalitzá — mas admite não saber explicar o critério que os distingue. Depois, dois de seus alunos oferecem explicações contraditórias. Rabi Akiva propõe que o critério é temporal: o saris adam, que nasceu com capacidade normal e se tornou eunuco depois, por acidente ou intervenção humana, teve em algum momento de sua vida uma "hora de aptidão" para gerar filhos — e por isso permanece halachicamente ligado ao vínculo de yibum, fazendo chalitzá tanto ativamente (para a esposa de seu irmão) quanto passivamente (recebendo chalitzá de seus próprios irmãos para sua esposa). O saris chamá, eunuco de nascença, nunca teve essa hora de aptidão, e por isso está inteiramente fora do sistema de yibum e chalitzá. Rabi Elazar inverte completamente o critério: para ele, o que importa não é o passado, mas o futuro — se a condição tem cura médica ou não. O saris chamá, sendo uma condição natural, tem cura possível (segundo a medicina da época); o saris adam, geralmente resultado de mutilação irreversível, não tem cura — por isso Rabi Elazar atribui a capacidade de chalitzá exatamente ao contrário de Rabi Akiva. A mishná fecha com um testemunho histórico que decide a favor de Rabi Akiva: Rabi Yehoshua ben Beteira relata um caso real em Jerusalém, de um saris adam identificado como Ben Megusat, cuja esposa foi objeto de yibum efetivo por seu cunhado — provando na prática que o saris adam está sujeito ao sistema do yibum, como sustentava Rabi Akiva.
A finalidade declarada do yibum — "perpetuar o nome" do irmão falecido através de um filho — é a chave para entender por que o saris, incapaz de gerar filhos, ocupa um lugar tão especial nesta lei: se ele não pode gerar descendência de modo algum, o próprio objetivo do yibum torna-se inatingível através dele. É exatamente sobre essa base que se apoia o critério de Rabi Akiva: "שְׁעַת הַכֹּשֶׁר" — o fato de o saris adam já ter tido, em algum momento de sua vida, a capacidade real de "levantar o nome" de um irmão — mantém para ele um vínculo halachico ao sistema de yibum que o saris chamá, que nunca teve essa capacidade, jamais possuiu.
Rambam, em Mishné Torá, decide a halachá como Rabi Akiva, e detalha as diferentes categorias de irmãos e cunhadas quanto à aptidão para yibum e chalitzá.
Rambam decide a halachá exatamente como Rabi Akiva: o saris chamá — eunuco de nascença — não tem nenhum vínculo (זִקָּה) de yibum, pois nunca teve momento de aptidão para gerar; ele é agrupado, nesse sentido, com o androginos, cuja condição também é congênita. Já o saris adam — que se tornou eunuco depois de nascer, tendo tido "hora de aptidão" — se realizar yibum de fato (בָּעַל), o casamento se estabelece plenamente, pois seu vínculo halachico com a família permanece; porém, como ele é proibido por lei de entrar na assembleia (por ser tecnicamente pazua dacá ou kerut shafchá, segundo o caso), ele deve depois liberar a esposa com um get regular, além do próprio ato de yibum.
Bartenura detalha os sinais físicos do saris chamá segundo a tradição médica talmúdica; Rambam confirma a decisão halachica a favor de Rabi Akiva; Rashi, na Guemará, elucida o caso histórico de Ben Megusat.
Bartenura explica a diferença de origem entre os dois tipos de saris: o saris adam tornou-se eunuco depois de nascer, por qualquer causa; o saris chamá já nasceu assim, "nunca viu o sol" na condição plena de homem. Bartenura lista os sinais físicos tradicionais do saris chamá — ausência de barba, cabelo ralo, pele lisa, urina que não borbulha nem faz "cúpula" ao ser expelida (sinal de fraqueza do jato) —, todos usados para identificação prática do caso. E confirma explicitamente a halachá: segue-se Rabi Akiva, o saris adam faz chalitzá e recebe chalitzá para sua esposa, e até é possível fazer yibum com sua esposa (como o próprio caso de Ben Megusat demonstra); mas ele mesmo, como yavam, não pode realizar o yibum ativamente, pois — sendo tecnicamente pazua dacá ou similar — está proibido de entrar na assembleia, isto é, de se casar com uma israelita de nascença, incluindo a própria cunhada.
Rambam confirma que a halachá segue Rabi Akiva integralmente: o saris adam faz chalitzá, recebem chalitzá para sua esposa, e — pela mesma lógica — também é possível fazer yibum com sua esposa. Rambam observa uma nuance textual: quando Rabi Akiva diz apenas "חוֹלֵץ" (faz chalitzá), isso é uma resposta pontual a Rabi Yehoshua, que havia falado apenas de chalitzá, sem mencionar yibum; mas fica claro pela lógica geral que, embora sua esposa possa ser objeto de yibum por parte de um cunhado, o próprio saris adam não pode realizar o ato de yibum ativamente, pois está proibido de entrar na assembleia — isto é, de se casar com uma israelita.
Rashi identifica Ben Megusat simplesmente como o nome de uma pessoa histórica, um saris adam residente em Jerusalém cujo caso ficou conhecido o suficiente para servir de prova prática na disputa entre Rabi Akiva e Rabi Elazar. O ponto crucial que Rashi destaca é que foram os irmãos de Ben Megusat que realizaram o yibum com a esposa dele depois de sua morte — não ele mesmo fazendo yibum para outra pessoa —, precisamente porque, tendo Ben Megusat tido "hora de aptidão" antes de se tornar saris, o vínculo de ziká (a ligação halachica criada pelo casamento) que recaiu sobre sua esposa era um vínculo pleno e completo, permitindo o yibum regular por parte de seus irmãos — confirmando na prática exatamente o critério teórico proposto por Rabi Akiva.