A filha de Israel que se casou com um kohen e trouxe para ele escravos, sejam escravos de usufruto, sejam escravos de garantia, eis que estes comem da trumá. E a filha do kohen que se casou com um israelita e trouxe para ele, sejam escravos de usufruto, sejam escravos de garantia, eis que estes não comem da trumá. — Depois de tratar do caso complexo da união proibida, em que apenas os escravos de garantia comiam trumá, a mishná apresenta agora os dois casos simples e opostos, em que a distinção entre os dois tipos de escravo deixa de importar. No primeiro caso — a filha de Israel casada legitimamente com um kohen —, tanto os escravos de usufruto quanto os de garantia comem da trumá, pois, sendo o casamento válido, a própria esposa passa a comer trumá por direito do casamento, e assim também comem os escravos que ela trouxe, de qualquer categoria que sejam: os de garantia por serem, tecnicamente, "kinyan kaspo" do kohen, e os de usufruto porque a Guemará explica, adiante, que a aquisição da própria esposa pelo kohen já basta para incluir os bens que ela trouxe consigo. No segundo caso — a filha do kohen casada com um israelita —, o resultado é o oposto: nenhum dos dois tipos de escravo come, pois a filha do kohen, ao se casar com um israelita, perde seu próprio direito de comer trumá da casa paterna enquanto durar esse casamento, e escravo algum pode comer trumá em nome de uma esposa que ela mesma não come.
A Guemará pergunta de onde se aprende que os próprios escravos que a esposa israelita traz ao casamento — não adquiridos diretamente pelo kohen — também se incluem em "kinyan kaspo". A resposta está na palavra aparentemente redundante "קִנְיַן" do verso: ela ensina que também se inclui o kohen que adquire uma esposa que, por sua vez, já possuía ou veio a possuir escravos — o próprio ato de "adquirir" a esposa basta para trazer para o âmbito de "kinyan kaspo" tudo o que ela traz consigo, distinguindo apenas quem responde financeiramente por esses bens, não quem os adquiriu primeiro.
Rambam, em Mishné Torá, codifica os dois casos da mishná como regra geral: o direito dos escravos de comer trumá depende do direito da própria esposa.
Rambam formula a regra geral por trás dos dois casos da mishná: quando o casamento é válido e a esposa mesma come trumá — a filha de Israel casada com o kohen —, todos os escravos que ela trouxe comem também, de qualquer categoria; e quando a própria esposa não come — a filha do kohen casada com o israelita, que perde seu direito ancestral enquanto durar esse casamento —, nenhum escravo dela come, pois o direito dos escravos deriva do direito da própria dona.
Bartenura explica por que, no casamento válido, mesmo os escravos de usufruto comem trumá; Rambam retoma o princípio de que o direito do escravo segue o da mulher; Rashi, na Guemará, detalha a exegese de "kinyan kaspo" que inclui os bens trazidos pela esposa.
Bartenura explica a lógica por trás de os escravos de usufruto comerem trumá quando o casamento é válido, mesmo continuando propriedade formal da esposa: como a esposa em si é "kinyan" do kohen — ele a adquiriu através do casamento —, e ela por sua vez adquiriu esses escravos, forma-se uma cadeia de aquisição, "kinyan de seu kinyan", que a palavra aparentemente supérflua "קִנְיַן" no verso vem justamente incluir: não apenas o que o kohen adquire diretamente, mas também o que sua própria aquisição — a esposa — adquire por sua vez.
Rambam extrai da mishná uma regra que se aplicará a inúmeros casos ao longo do restante do perek: o direito de os escravos comerem trumá é inteiramente derivado do direito da própria dona; sempre que a mulher em questão coma trumá por seu próprio status, seus escravos — de qualquer categoria — comem com ela, e sempre que ela não coma, tampouco seus escravos comem, independentemente de quem originalmente os tenha adquirido.
Rashi expõe a pergunta da Guemará por trás desta mishná: o verso claramente fala do kohen que adquire uma pessoa diretamente, mas de onde se aprende que também entram nessa categoria os escravos que a própria esposa adquiriu de seus bens de melog depois do casamento, ou mesmo os escravos que os próprios escravos do kohen vieram a adquirir? A resposta, explica Rashi, está na palavra redundante "קִנְיַן" do verso, cujo único propósito é ampliar a categoria para incluir essas aquisições indiretas — a cadeia de "kinyan" que se estende através da esposa e mesmo através de escravos que adquirem outros escravos.