Seder Nashim · Massechet Yevamot · Perek Zayin · Mishná 2 de 6

Todos os escravos comem no casamento válido; nenhum come no casamento reverso

בַּת יִשְׂרָאֵל שֶׁנִּסֵּת לְכֹהֵן
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Depois do caso da união proibida, a mishná passa ao casamento sacerdotal válido — a filha de Israel casada licitamente com um kohen — e ao seu espelho invertido, a filha do kohen casada com um israelita, mostrando que a distinção entre escravos de usufruto e de garantia desaparece quando a própria esposa já come, ou já não come, trumá por direito próprio.

A filha de Israel que se casou com um kohen e trouxe para ele escravos, sejam escravos de usufruto, sejam escravos de garantia, eis que estes comem da trumá. E a filha do kohen que se casou com um israelita e trouxe para ele, sejam escravos de usufruto, sejam escravos de garantia, eis que estes não comem da trumá.Depois de tratar do caso complexo da união proibida, em que apenas os escravos de garantia comiam trumá, a mishná apresenta agora os dois casos simples e opostos, em que a distinção entre os dois tipos de escravo deixa de importar. No primeiro caso — a filha de Israel casada legitimamente com um kohen —, tanto os escravos de usufruto quanto os de garantia comem da trumá, pois, sendo o casamento válido, a própria esposa passa a comer trumá por direito do casamento, e assim também comem os escravos que ela trouxe, de qualquer categoria que sejam: os de garantia por serem, tecnicamente, "kinyan kaspo" do kohen, e os de usufruto porque a Guemará explica, adiante, que a aquisição da própria esposa pelo kohen já basta para incluir os bens que ela trouxe consigo. No segundo caso — a filha do kohen casada com um israelita —, o resultado é o oposto: nenhum dos dois tipos de escravo come, pois a filha do kohen, ao se casar com um israelita, perde seu próprio direito de comer trumá da casa paterna enquanto durar esse casamento, e escravo algum pode comer trumá em nome de uma esposa que ela mesma não come.

בַּת יִשְׂרָאֵל שֶׁנִּסֵּת לְכֹהֵן וְהִכְנִיסָה לוֹ עֲבָדִים, בֵּין עַבְדֵי מְלוֹג, בֵּין עַבְדֵי צֹאן בַּרְזֶל, הֲרֵי אֵלּוּ יֹאכְלוּ בַתְּרוּמָה. וּבַת כֹּהֵן שֶׁנִּסֵּת לְיִשְׂרָאֵל, וְהִכְנִיסָה לוֹ, בֵּין עַבְדֵי מְלוֹג, בֵּין עַבְדֵי צֹאן בַּרְזֶל, הֲרֵי אֵלּוּ לֹא יֹאכְלוּ בַתְּרוּמָה:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Vayikra (Levítico) 22:11
וְכֹהֵן כִּי יִקְנֶה נֶפֶשׁ קִנְיַן כַּסְפּוֹ הוּא יֹאכַל בּוֹ, וִילִיד בֵּיתוֹ הֵם יֹאכְלוּ בְלַחְמוֹ
E o kohen, quando adquirir uma pessoa como bem adquirido por dinheiro, ele comerá dele; e o nascido em sua casa, eles comerão de seu pão.

A Guemará pergunta de onde se aprende que os próprios escravos que a esposa israelita traz ao casamento — não adquiridos diretamente pelo kohen — também se incluem em "kinyan kaspo". A resposta está na palavra aparentemente redundante "קִנְיַן" do verso: ela ensina que também se inclui o kohen que adquire uma esposa que, por sua vez, já possuía ou veio a possuir escravos — o próprio ato de "adquirir" a esposa basta para trazer para o âmbito de "kinyan kaspo" tudo o que ela traz consigo, distinguindo apenas quem responde financeiramente por esses bens, não quem os adquiriu primeiro.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam, em Mishné Torá, codifica os dois casos da mishná como regra geral: o direito dos escravos de comer trumá depende do direito da própria esposa.

Rambam · Mishné Torá, Hilchot Terumot 6:4
בַּת יִשְׂרָאֵל שֶׁנִּשֵּׂאת לְכֹהֵן וְהִכְנִיסָה לוֹ עֲבָדִים, בֵּין עַבְדֵי מְלוֹג בֵּין עַבְדֵי צֹאן בַּרְזֶל, הֲרֵי אֵלּוּ אוֹכְלִין. וּבַת כֹּהֵן שֶׁנִּשֵּׂאת לְיִשְׂרָאֵל וְהִכְנִיסָה לוֹ עֲבָדִים מִשְּׁנֵי הַמִּינִים, הֲרֵי אֵלּוּ לֹא יֹאכְלוּ, שֶׁהֲרֵי הִיא עַצְמָהּ אֵינָהּ אוֹכֶלֶת.

Rambam formula a regra geral por trás dos dois casos da mishná: quando o casamento é válido e a esposa mesma come trumá — a filha de Israel casada com o kohen —, todos os escravos que ela trouxe comem também, de qualquer categoria; e quando a própria esposa não come — a filha do kohen casada com o israelita, que perde seu direito ancestral enquanto durar esse casamento —, nenhum escravo dela come, pois o direito dos escravos deriva do direito da própria dona.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Bartenura explica por que, no casamento válido, mesmo os escravos de usufruto comem trumá; Rambam retoma o princípio de que o direito do escravo segue o da mulher; Rashi, na Guemará, detalha a exegese de "kinyan kaspo" que inclui os bens trazidos pela esposa.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Yevamot 7:2
בַּת יִשְׂרָאֵל שֶׁנִּשֵּׂאת לְכֹהֵן. אֲפִלּוּ עַבְדֵי מְלוֹג יֹאכְלוּ, מִשּׁוּם דַּהֲוֵי קִנְיָן כֹּהֵן שֶׁקָּנָה קִנְיָן, כְּלוֹמַר הָאִשָּׁה שֶׁהִיא קִנְיָנוֹ שֶׁל כֹּהֵן קָנְתָה אֵלּוּ הָעֲבָדִים, וּכְתִיב וְכֹהֵן כִּי יִקְנֶה נֶפֶשׁ קִנְיַן כַּסְפּוֹ, שֶׁאֵין תַּלְמוּד לוֹמַר קִנְיַן אֶלָּא לְרַבּוֹת קִנְיַן קִנְיָנוֹ.

Bartenura explica a lógica por trás de os escravos de usufruto comerem trumá quando o casamento é válido, mesmo continuando propriedade formal da esposa: como a esposa em si é "kinyan" do kohen — ele a adquiriu através do casamento —, e ela por sua vez adquiriu esses escravos, forma-se uma cadeia de aquisição, "kinyan de seu kinyan", que a palavra aparentemente supérflua "קִנְיַן" no verso vem justamente incluir: não apenas o que o kohen adquire diretamente, mas também o que sua própria aquisição — a esposa — adquire por sua vez.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Yevamot 7:2
בַּת יִשְׂרָאֵל שֶׁנִּסֵּת לְכֹהֵן וְהִכְנִיסָה לוֹ עֲבָדִים כוּ׳. וְהוּא הַדִּין לְכָל מִי שֶׁתְּנָאוֹ כִּתְנַאי הָאִשָּׁה הַזֹּאת, שֶׁכָּל שֶׁתְּהֵא הִיא אוֹכֶלֶת בִּתְרוּמָה עֲבָדֶיהָ אוֹכְלִים, וְכָל שֶׁלֹּא תְּהֵא הִיא אוֹכֶלֶת אֵין עֲבָדֶיהָ אוֹכְלִים.

Rambam extrai da mishná uma regra que se aplicará a inúmeros casos ao longo do restante do perek: o direito de os escravos comerem trumá é inteiramente derivado do direito da própria dona; sempre que a mulher em questão coma trumá por seu próprio status, seus escravos — de qualquer categoria — comem com ela, e sempre que ela não coma, tampouco seus escravos comem, independentemente de quem originalmente os tenha adquirido.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Yevamot 66a
גְּמָ׳ שֶׁנָּשָׂא אִשָּׁה וְקָנָה עֲבָדִים — אוֹ קָנָה עֲבָדִים. וּמִנַּיִן לְאִשָּׁה בַּת יִשְׂרָאֵל לְכֹהֵן שֶׁקָּנְתָה עֲבָדִים מִנִּכְסֵי מְלוֹג שֶׁלָּהּ, אוֹ עֲבָדָיו שֶׁל כֹּהֵן שֶׁקָּנוּ עֲבָדִים. וְכֹהֵן כִּי יִקְנֶה נֶפֶשׁ קִנְיַן כַּסְפּוֹ — קִנְיַן כַּסְפּוֹ קְרָא יְתֵירָא, וְדָרְשִׁינַן דְּלְהָכִי אֲתָא.

Rashi expõe a pergunta da Guemará por trás desta mishná: o verso claramente fala do kohen que adquire uma pessoa diretamente, mas de onde se aprende que também entram nessa categoria os escravos que a própria esposa adquiriu de seus bens de melog depois do casamento, ou mesmo os escravos que os próprios escravos do kohen vieram a adquirir? A resposta, explica Rashi, está na palavra redundante "קִנְיַן" do verso, cujo único propósito é ampliar a categoria para incluir essas aquisições indiretas — a cadeia de "kinyan" que se estende através da esposa e mesmo através de escravos que adquirem outros escravos.