Seder Nashim · Massechet Yevamot · Perek Hei · Mishná 3 de 6

Get seguido de maamar, de relação, ou de chalitzá

נָתַן גֵּט וְעָשָׂה מַאֲמָר
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná completa o quadro do caso simples — um único yavam e uma única yevamá — com as combinações que começam pelo get e pela chalitzá, e fecha anunciando que as mesmas regras valem também quando há duas yevamot vinculadas ao mesmo yavam, tema que ocupará a mishná seguinte.

Deu get e fez maamar, ela precisa de get e chalitzá. Deu get e teve relação, ela precisa de get e chalitzá. Deu get e fez chalitzá, não há nada depois da chalitzá. Fez chalitzá e fez maamar, deu get e teve relação — ou teve relação e fez maamar, deu get e fez chalitzá —, não há nada depois da chalitzá. Isso vale tanto para uma única yevamá a um único yavam quanto para duas yevamot a um único yavam.Deu get e fez maamar: como o get, segundo os sábios, dissolve apenas parcialmente o vínculo, resta ainda um resíduo sobre o qual o maamar pode incidir — por isso ela precisa de um get para esse maamar e de chalitzá para o resíduo da zika original. Deu get e teve relação: também aqui a relação incide sobre o resíduo deixado pelo get, tornando proibido ao yavam mantê-la como esposa desde o momento do get — precisa de get para essa relação e de chalitzá para a zika. Deu get e fez chalitzá: a mishná declara, segundo a opinião de Rabi Akiva — para quem não há kidushin em relações proibidas por um simples "não fará" —, que depois da chalitzá encerra-se todo o vínculo, sem exigência adicional; ela é como qualquer mulher divorciada comum. Já a chalitzá seguida de outro ato, ou a relação seguida de outro ato — em qualquer ordem —, sempre terminam com a mesma conclusão: nada resta depois da chalitzá, pois a chalitzá dissolve por completo a zika, e nenhum kidushin, get ou relação posterior tem efeito sobre uma mulher que já saiu do vínculo do yibum.

נָתַן גֵּט וְעָשָׂה מַאֲמָר, צְרִיכָה גֵט וַחֲלִיצָה. נָתַן גֵּט וּבָעַל, צְרִיכָה גֵט וַחֲלִיצָה. נָתַן גֵּט וְחָלַץ, אֵין אַחַר חֲלִיצָה כְלוּם. חָלַץ וְעָשָׂה מַאֲמָר, נָתַן גֵּט, וּבָעַל, אוֹ בָעַל וְעָשָׂה מַאֲמָר, נָתַן גֵּט וְחָלַץ, אֵין אַחַר חֲלִיצָה כְלוּם. אַחַת יְבָמָה אַחַת לְיָבָם אֶחָד, וְאַחַת שְׁתֵּי יְבָמוֹת לְיָבָם אֶחָד:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Devarim (Deuteronômio) 25:5
לֹא תִהְיֶה אֵשֶׁת הַמֵּת הַחוּצָה לְאִישׁ זָר, יְבָמָהּ יָבֹא עָלֶיהָ
A esposa do morto não se casará com homem estranho, fora da família; seu cunhado virá a ela.

É desta mesma expressão bíblica que a Guemará deriva o próprio conceito de chalitzá como ato que dissolve completamente a zika — pois a Torá, no versículo seguinte, descreve o ritual do descalçamento como aquilo que libera a mulher para "homem estranho". A discussão sobre se, depois da chalitzá, um novo kidushin do próprio yavam pode ou não valer, gira em torno de saber se a proibição do yavam de tornar a desposar sua chalutzá — decretada pelos sábios — é apenas um "lo taasê" comum, que não impede o kidushin de valer (opinião dos sábios), ou algo mais grave (opinião atribuída aqui a Rabi Akiva).

Halachot · הֲלָכוֹת

Bartenura alerta que a conclusão "não há nada depois da chalitzá" reflete a opinião de Rabi Akiva, e que a halachá não segue essa posição — segue os sábios, que reconhecem efeito a um novo kidushin depois da chalitzá.

Bartenura · Yevamot 5:3 (base halachica)
אֵין אַחַר חֲלִיצָה כְלוּם. הָא מַתְנִיתִין רַבִּי עֲקִיבָא הִיא דְּאָמַר אֵין קִדּוּשִׁין תּוֹפְסִין בְּחַיָּבֵי לָאוִין. וְאֵינָהּ הֲלָכָה, אֶלָּא הֲלָכָה כַּחֲכָמִים, שֶׁאוֹמְרִים יֵשׁ אַחַר חֲלִיצָה כְלוּם, וְאִם קִדְּשָׁהּ אַחַר חֲלִיצָה צְרִיכָה הֵימֶנּוּ גֵּט.

Bartenura observa que a formulação "não há nada depois da chalitzá" reflete a posição de Rabi Akiva, para quem o kidushin nunca toma efeito em uma relação proibida por um simples "não fará" — como é a proibição de um homem desposar sua própria chalutzá. Mas essa não é a halachá: a halachá segue os sábios, que sustentam que há sim algo depois da chalitzá — se o yavam torna a desposar sua chalutzá depois da chalitzá, o kidushin toma efeito, e ela precisa de um get dele para se libertar novamente. É uma correção halachica importante em relação à leitura literal desta mishná.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Bartenura detalha cada uma das combinações da mishná, e Rambam confirma a estrutura geral do princípio.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Yevamot 5:3
נָתַן גֵּט וְעָשָׂה בָהּ מַאֲמָר צְרִיכָה גֵט וַחֲלִיצָה. דְּגֵט דָּחִי קְצָת וְשִׁיֵּר קְצָת, וּמַאֲמָר קָנִי שְׁיוּרָא דְּגֵט, הִלְכָּךְ צְרִיכָה גֵּט לְמַאֲמָרוֹ וַחֲלִיצָה לְזִקָּתוֹ. נָתַן גֵּט וּבָעַל. אָסוּר לְקַיְּמָהּ, שֶׁמִּשָּׁעָה שֶׁנָּתַן גֵּט קַיְמָא עֲלֵיהּ בְּלֹא יִבְנֶה, וּצְרִיכָה גֵּט לְבִיאָתוֹ וַחֲלִיצָה לְזִקָּתוֹ. אַחַת יְבָמָה אַחַת לְיָבָם אֶחָד וְאַחַת שְׁתֵּי יְבָמוֹת לְיָבָם אֶחָד. שָׁוִין הֵן שֶׁיֵּשׁ אַחַר גֵּט רִאשׁוֹן אוֹ אַחַר מַאֲמָר רִאשׁוֹן כְּלוּם וְאֵין אַחַר בִּיאָה שֶׁבַּתְּחִלָּה כְּלוּם וְאֵין אַחַר חֲלִיצָה כְלוּם.

Bartenura explica que o get "empurra" o vínculo apenas parcialmente, deixando um resíduo sobre o qual o maamar subsequente ainda consegue incidir — por isso, ela precisa de um get para dissolver esse maamar, e de chalitzá para dissolver o que restou da zika original. Quanto ao get seguido de relação: desde o momento em que o get é dado, o yavam já fica proibido de manter essa mulher como esposa — está sob a proibição de "não construirá" — e por isso a relação seguinte é considerada uma relação proibida, exigindo tanto get quanto chalitzá para libertá-la completamente. Por fim, Bartenura confirma que toda essa estrutura vale igualmente para o caso de duas yevamot vinculadas ao mesmo yavam, preparando a transição para a mishná seguinte: sempre há efeito depois do primeiro get e do primeiro maamar, mas nunca há efeito depois da relação inicial nem depois da chalitzá.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Yevamot 50a-50b
נָתַן גֵּט וְעָשָׂה מַאֲמָר — בְּאוֹתָהּ יְבָמָה עַצְמָהּ אֲפִלּוּ רַבָּן גַּמְלִיאֵל מוֹדֶה דְּיֵשׁ מַאֲמָר אַחַר הַגֵּט... חָלַץ וְעָשָׂה בָהּ מַאֲמָר — אוֹ נָתַן גֵּט אַחַר חֲלִיצָה אוֹ בָּעַל אַחַר חֲלִיצָה אֵינוֹ כְלוּם, כְּדִתְנֵי בְסֵיפָא אֵין אַחַר חֲלִיצָה כְלוּם, שֶׁאֵין מַאֲמָר וּבִיאָה תּוֹפְסִין בָּהּ אַחַר חֲלִיצָה כְּרַבִּי עֲקִיבָא.

Rashi esclarece que, mesmo Rabban Gamliel, que na mishná anterior negou que houvesse "maamar depois de maamar", concorda que há maamar depois do get na mesma yevamá — pois há dúvida se o get dissolve o vínculo por completo ou apenas em parte; se não dissolve por completo, o maamar posterior tem efeito real, e para os sábios, que já sustentam que o get dissolve só parcialmente, isso é ainda mais evidente. Sobre a chalitzá como primeiro ato: Rashi confirma que, segundo Rabi Akiva, nem o get, nem o maamar, nem a relação têm qualquer efeito depois dela, pois o kidushin não toma nas relações proibidas por simples "não fará" — sendo essa a base da conclusão "não há nada depois da chalitzá" que a mishná repete duas vezes.