Seder Nashim · Massechet Yevamot · Perek Guimel · Mishná 4 de 10

Três irmãos e a mãe com sua filha

שְׁלֹשָׁה אַחִין
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná estende o princípio da primeira mishná do perek a um cenário de três irmãos, e a outros pares de parentas proibidas além de duas irmãs — mãe e filha, ou avó e neta —, trazendo também a opinião isolada e rejeitada de Rabi Shimon.

Três irmãos, dois deles casados com duas irmãs, ou com uma mulher e sua filha, ou com uma mulher e a filha de sua filha, ou com uma mulher e a filha de seu filho — eis que estas fazem chalitzá e não fazem yibum. E Rabi Shimon isenta. Se uma delas era proibida a ele por proibição de ervah, ele fica proibido nela e permitido em sua irmã; proibição de mitzvá ou proibição de kedushá, fazem chalitzá e não fazem yibum.Aqui há três irmãos, e apenas dois deles — não os dois que restam — estavam casados com duas mulheres proibidas entre si: não somente duas irmãs, como no caso anterior, mas também outras combinações da mesma família de proibições da Torá — uma mulher e sua filha, ou uma mulher e sua neta por parte de filha ou de filho. Quando os dois maridos morrem, a viúva de cada um cai diante do terceiro irmão, que agora está vinculado por zika a ambas ao mesmo tempo — exatamente como no caso das quatro irmãs, mas aqui apenas um irmão sobrevive, e não dois. Por isso ambas fazem chalitzá e nenhuma faz yibum, pelo mesmo raciocínio da zika dupla. Rabi Shimon discorda e isenta ambas por completo, sem sequer exigir chalitzá — opinião que não foi aceita como halachá. A mishná fecha repetindo, para este novo cenário de três irmãos, a mesma distinção de graus de proibição já vista na mishná anterior: se uma das duas é ervah para o irmão sobrevivente, ele fica livre para desposar a irmã dela; se a proibição é apenas de mitzvá ou de kedushá, permanece preso a ambas, fazendo chalitzá sem yibum.

שְׁלֹשָׁה אַחִין, שְׁנַיִם מֵהֶן נְשׂוּאִין שְׁתֵּי אֲחָיוֹת, אוֹ אִשָּׁה וּבִתָּהּ, אוֹ אִשָּׁה וּבַת בִּתָּהּ, אוֹ אִשָּׁה וּבַת בְּנָהּ, הֲרֵי אֵלּוּ חוֹלְצוֹת וְלֹא מִתְיַבְּמוֹת. וְרַבִּי שִׁמְעוֹן פּוֹטֵר. הָיְתָה אַחַת מֵהֶן אֲסוּרָה עָלָיו אִסּוּר עֶרְוָה, אָסוּר בָּהּ וּמֻתָּר בַּאֲחוֹתָהּ. אִסּוּר מִצְוָה אוֹ אִסּוּר קְדֻשָּׁה, חוֹלְצוֹת וְלֹא מִתְיַבְּמוֹת:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Vayikra (Levítico) 18:18
וְאִשָּׁה אֶל אֲחֹתָהּ לֹא תִקָּח לִצְרֹר לְגַלּוֹת עֶרְוָתָהּ עָלֶיהָ בְּחַיֶּיהָ
E não tomarás uma mulher junto com sua irmã, para rivalizá-la, descobrindo sua nudez, além dela, enquanto ela viver.

Rabi Shimon lê este versículo de forma distinta dos demais Sábios, e é essa leitura que fundamenta sua opinião isolada de isentar por completo. Segundo Rambam e Bartenura, Rabi Shimon entende a expressão "para rivalizá-la" como referindo-se ao momento exato em que duas mulheres se tornam rivais uma da outra — e é justamente isso que ocorre aqui, quando as duas viúvas caem simultaneamente diante do irmão sobrevivente e passam, naquele instante, a ser rivais por zika. Para Rabi Shimon, a Torá já proíbe esse próprio ato de se tornarem rivais entre parentas proibidas, de modo que nenhuma delas nunca chega a ficar sujeita sequer à chalitzá — a proibição bíblica as isenta de imediato. Os demais Sábios discordam dessa leitura, e por isso a halachá segue a opinião da maioria: chalitzá sim, yibum não.

Halachot · הֲלָכוֹת

Bartenura explica o fundamento textual da opinião de Rabi Shimon e confirma que a halachá não a acompanha.

Bartenura, Yevamot 3:4 (halachá final)
טַעֲמָא דְּרַבִּי שִׁמְעוֹן, דִּכְתִיב וְאִשָּׁה אֶל אֲחֹתָהּ לֹא תִקַּח לִצְרֹר, בְּשָׁעָה שֶׁנַּעֲשׂוּ צָרוֹת זוֹ לָזוֹ. וְאֵין הֲלָכָה כְּרַבִּי שִׁמְעוֹן.

Bartenura explica que Rabi Shimon fundamenta sua isenção total no versículo "não tomarás uma mulher junto com sua irmã, para rivalizá-la" — lido como proibindo o próprio momento em que duas parentas se tornam rivais, como ocorre aqui quando as viúvas caem juntas diante do irmão sobrevivente. Mas a halachá não segue Rabi Shimon: prevalece a opinião da maioria, que exige chalitzá.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rambam confirma que este caso de três irmãos aplica o mesmo princípio da zika dupla já visto na primeira mishná; Bartenura detalha a leitura de Rabi Shimon; Rashi, na Guemará, discute a extensão do caso a outras combinações proibidas.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Yevamot 3:4
שְׁלֹשָׁה אַחִים שְׁנַיִם נְשׂוּאִין שְׁתֵּי אֲחָיוֹת וְאֶחָד כוּ׳: מֻפְנֶה הוּא מִי שֶׁאֵין לוֹ אִשָּׁה.

Embora este comentário de Rambam pertença tecnicamente à mishná seguinte, ele confirma o pano de fundo comum a ambas: nesta mishná, o terceiro irmão está vinculado por zika às duas viúvas ao mesmo tempo, exatamente como no caso das quatro irmãs — apenas que aqui é um único irmão remanescente que enfrenta a dupla zika, em vez de dois.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Yevamot 3:4
וְרַבִּי שִׁמְעוֹן פּוֹטֵר. טַעֲמָא דְּרַבִּי שִׁמְעוֹן, דִּכְתִיב וְאִשָּׁה אֶל אֲחֹתָהּ לֹא תִקַּח לִצְרֹר לְגַלּוֹת עֶרְוָתָהּ עָלֶיהָ בְּחַיֶּיהָ, בְּשָׁעָה שֶׁנַּעֲשׂוּ צָרוֹת זוֹ לָזוֹ, כְּגוֹן הָכָא שֶׁשְּׁתֵּיהֶן זְקוּקוֹת לוֹ לְיִבּוּם, לֹא יְהֵא לְךָ לִקּוּחִין לֹא בָזוֹ וְלֹא בָזוֹ. וְאֵין הֲלָכָה כְּרַבִּי שִׁמְעוֹן.

Bartenura detalha a leitura de Rabi Shimon: o versículo "não tomarás uma mulher junto com sua irmã, para rivalizá-la" é entendido por ele como proibindo o próprio instante em que duas parentas se tornam rivais uma da outra — exatamente o que acontece aqui, quando ambas caem ao mesmo tempo diante do irmão sobrevivente por zika. Rabi Shimon conclui que a Torá já veda qualquer aquisição de ambas, seja por yibum, seja por chalitzá seguida de casamento com a outra. Mas a halachá segue a maioria dos Sábios, que exige chalitzá.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Yevamot 28b
אִסּוּר מִצְוָה — אִם הָיְתָה הָאַחַת אֲסוּרָה עַל הָאֶחָד אִסּוּר מִצְוָה, אֵינוֹ מֻתָּר בַּאֲחוֹתָהּ, הוֹאִיל וְהִיא מִדְּאוֹרַיְתָא רַמְיָא קַמֵּיהּ, הָוְיָא אִידָךְ אֲחוֹת זְקוּקָתוֹ.

Rashi, discutindo a Guemará sobre este trecho, explica por que a proibição de mitzvá — mais leve que ervah — ainda assim impede o yibum da irmã: como essa proibição "recai perante ele por força da Torá" no sentido de manter a zika ativa, a irmã se torna "irmã de sua vinculada" tanto quanto no caso de ervah propriamente dita, ainda que a proibição original seja apenas rabínica em sua origem técnica.