Quatro irmãos: dois deles casados com duas irmãs, e morreram os que eram casados com as irmãs — eis que estas fazem chalitzá e não fazem yibum. E se os outros se anteciparam e as desposaram, devem separar-se delas. Rabi Eliezer diz: Bet Shamai dizem que devem mantê-las, e Bet Hilel dizem que devem separar-se delas. — De quatro irmãos, dois se casaram com duas irmãs, e foram justamente esses dois que morreram sem filhos. Restam os outros dois irmãos, e cada um deles está igualmente vinculado, pela zika do yibum, às duas viúvas — pois qualquer uma das duas poderia, em princípio, cair para qualquer um dos dois irmãos remanescentes. Se o primeiro deles fizer yibum com uma das viúvas, ela passa a ser, para ele, quase uma esposa; mas a outra viúva, ainda vinculada pela zika a esse mesmo irmão, torna-se então "irmã de sua vinculada" — e a Torá proíbe desposar a irmã de sua própria esposa. Por isso nenhuma das duas pode ser tomada em yibum: ambas fazem apenas chalitzá. E se, apesar disso, os irmãos se anteciparam e as desposaram antes que os sábios pudessem impedir, devem separar-se delas, pois o casamento foi contraído em violação dessa proibição rabínica. A mishná fecha com uma nota curiosa de Rabi Eliezer sobre a formulação exata da disputa entre as escolas: segundo ele, foi Bet Shamai quem disse que deviam mantê-las, e Bet Hilel quem disse que deviam separar-se — o inverso do que a maioria transmite, e por isso os comentadores discutem qual das duas versões é a correta.
Este versículo proíbe, na sua letra, apenas que um homem tome como esposas duas irmãs ao mesmo tempo. Mas os Sábios estenderam essa mesma proibição ao vínculo criado pela zika: quando um irmão está ligado pelo yibum a uma mulher, essa mulher já é tratada, para efeitos dessa proibição específica, como se fosse sua esposa em potencial — e por isso a irmã dela, que também caiu diante dele pela mesma zika, torna-se para ele uma "irmã de sua esposa" mesmo antes de qualquer casamento real ter ocorrido. É esse raciocínio, aplicado a um caso em que ambas as viúvas estão igualmente vinculadas aos dois irmãos remanescentes, que fecha a porta ao yibum nesta mishná, deixando aberta apenas a via da chalitzá.
Rambam, em seu comentário a esta mishná, resolve a dúvida sobre a versão correta da disputa entre Bet Shamai e Bet Hilel, e fixa a halachá.
Rambam explica: nosso princípio geral é que, quando encontramos na Mishná uma versão em que Bet Shamai aparece lenient e Bet Hilel rigoroso — o inverso do padrão conhecido de suas escolas —, deve-se suspeitar que o texto foi transmitido com erro, e que a posição pertence na verdade a Bet Shamai como rigoroso, salvo nos casos específicos e enumerados que são conhecidos exceções: as leniências de Bet Shamai e rigores de Bet Hilel. Como este caso das quatro irmãs não está entre essas exceções listadas, Rambam segue a leitura de Rabi Eliezer e fixa a halachá segundo "devem mantê-las" atribuído a Bet Hilel — ou seja, o casamento contraído antes da proibição pode ser mantido.
Rambam explica o mecanismo da zika dupla que fecha a porta ao yibum; Bartenura detalha por que a Guemará inverte a atribuição de opiniões entre as escolas; Rashi, na abertura do Perek Guimel na Guemará, confirma a mesma leitura.
Rambam apresenta este caso como um dos princípios fundamentais dos quais dependem muitas outras mishnayot do tratado: sempre que duas mulheres caem diante de um grupo de irmãos remanescentes de tal forma que qualquer uma delas seja apropriada para qualquer um dos irmãos, a zika de cada irmão recai sobre ambas ao mesmo tempo, e elas se tornam, umas em relação às outras, como rivais — mesmo sem nenhum casamento real ter ocorrido ainda. É exatamente essa condição — cada mulher sendo apropriada a mais de um irmão — que impede o yibum e deixa apenas a chalitzá como saída.
Bartenura confirma a razão de "fazem chalitzá e não fazem yibum": como as duas viúvas estão igualmente vinculadas aos dois irmãos, o primeiro que fizer yibum com uma delas esbarra na irmã de sua própria vinculada, que passa a ser tratada como sua esposa. Quanto à disputa entre as escolas, Bartenura observa que a Guemará inverte a versão da mishná: seria Bet Shamai quem exige a separação, e Bet Hilel quem permite manter o casamento — seguindo a regra geral de que Bet Shamai é sempre o mais rigoroso e Bet Hilel o mais lenient, salvo nos casos excepcionais e conhecidos em que ocorre o inverso.
Rashi abre o Perek Guimel identificando de imediato o fundamento da mishná: a razão pela qual as viúvas não podem ser tomadas em yibum é explicada na Guemará pelo conceito de zika — já que ambas estão vinculadas simultaneamente aos dois irmãos remanescentes, o primeiro que realizar o yibum esbarraria na irmã de sua própria vinculada, que a essa altura já é tratada, para efeitos dessa proibição, como sua esposa.