Seder Nashim · Massechet Yevamot · Perek Tet-Zayin · Mishná 4 de 7

Quem cai na água: os casos de Rabi Meir e Rabi Yosei

נָפַל לְמַיִם
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A quarta mishná examina o caso em que ninguém presenciou a morte diretamente, apenas a queda numa massa de água — e discute, através de três relatos históricos concretos, até que ponto essa ausência de visão direta do corpo compromete a certeza da morte.

Quem caiu na água, seja em águas com limite visível, seja em águas sem limite visível, sua esposa fica proibida. Disse Rabi Meir: houve um caso de um homem que caiu num grande poço e saiu depois de três dias. Disse Rabi Yosei: houve um caso de um cego que desceu para se imergir numa caverna, e seu guia desceu atrás dele, e demoraram o suficiente para que suas almas saíssem, e casaram novamente suas esposas. E houve outro caso, em Asia, de um homem que desceram ao mar amarrado por corda, e só conseguiram trazer de volta sua perna; disseram os Sábios: do joelho para cima, ela se casa; do joelho para baixo, ela não se casa.Quando alguém cai numa massa de água sem que ninguém veja efetivamente sua morte, a regra geral proíbe a esposa de se casar novamente — pois sempre existe a possibilidade teórica de que ele tenha saído por outro ponto sem ser visto, mesmo em águas com limite visível dos quatro lados. Rabi Meir traz um precedente concreto para reforçar essa cautela: um homem sobreviveu três dias inteiros dentro de um poço, mostrando que a permanência prolongada na água não prova, por si só, a morte. Rabi Yosei, discordando dessa cautela extrema, relata dois casos em sentido oposto: quando se aguardou tempo suficiente para a certeza da morte por afogamento, e ninguém viu ninguém emergir, os Sábios permitiram o nãovo casamento das esposas; e, quanto ao caso do membro recuperado do mar, os Sábios estabeleceram um critério anatômico preciso — a perna recuperada acima do joelho (incluindo a coxa, órgão vital cuja perda é fatal) prova a morte; abaixo do joelho, a perda de uma parte não vital não constitui prova suficiente.

נָפַל לְמַיִם, בֵּין שֶׁיֵּשׁ לָהֶן סוֹף, בֵּין שֶׁאֵין לָהֶן סוֹף, אִשְׁתּוֹ אֲסוּרָה. אָמַר רַבִּי מֵאִיר, מַעֲשֶׂה בְאֶחָד שֶׁנָּפַל לְבוֹר הַגָּדוֹל, וְעָלָה לְאַחַר שְׁלֹשָׁה יָמִים. אָמַר רַבִּי יוֹסֵי, מַעֲשֶׂה בְסוּמָא שֶׁיָּרַד לִטְבֹּל בִּמְעָרָה, וְיָרַד מוֹשְׁכוֹ אַחֲרָיו, וְשָׁהוּ כְדֵי שֶׁתֵּצֵא נַפְשָׁם, וְהִשִּׂיאוּ נְשׁוֹתֵיהֶם. וְשׁוּב מַעֲשֶׂה בְעַסְיָא בְּאֶחָד שֶׁשִּׁלְשְׁלוּהוּ לַיָּם, וְלֹא עָלָה בְיָדָם אֶלָּא רַגְלוֹ, אָמְרוּ חֲכָמִים, מִן הָאַרְכֻּבָּה וּלְמַעְלָה, תִּנָּשֵׂא. מִן הָאַרְכֻּבָּה וּלְמַטָּה, לֹא תִנָּשֵׂא:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Devarim (Deuteronômio) 19:15
לֹא־יָקוּם עֵד אֶחָד בְּאִישׁ לְכָל־עָוֹן וּלְכָל־חַטָּאת בְּכָל־חֵטְא אֲשֶׁר יֶחֱטָא עַל־פִּי שְׁנֵי עֵדִים אוֹ עַל־פִּי שְׁלֹשָׁה־עֵדִים יָקוּם דָּבָר
Não se levantará testemunha única contra um homem, por qualquer iniquidade ou por qualquer pecado, dentre todo pecado que cometer; por depoimento de duas testemunhas, ou por depoimento de três testemunhas, se estabelecerá o caso.

Mesmo dentro da leniência dos Sábios, a certeza da morte continua sendo o requisito absoluto e inegociável — o que muda de caso para caso é apenas a natureza da prova aceita como suficiente para estabelecer essa certeza. Um membro do corpo recuperado pode servir de prova quando pertence a um órgão cuja perda é necessariamente fatal, exatamente como o rosto identificado serve de prova quando visto por completo.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam explica a distinção técnica entre águas com e sem limite visível, e confirma que a halachá segue os Sábios (e Rabi Yosei) contra a posição mais cautelosa de Rabi Meir.

Rambam · Perush HaMishná, Yevamot 16:4
וּמַיִם שֶׁיֵּשׁ לָהֶם סוֹף, בּוֹר אוֹ מְעָרָה שֶׁל מַיִם, כְּשֶׁאָדָם עוֹמֵד עָלָיו אֶפְשָׁר לוֹ לָאָדָם לִרְאוֹת כָּל סְבִיבָיו. וּמַיִם שֶׁאֵין לָהֶם סוֹף, מַיִם שֶׁאִי אֶפְשָׁר לוֹ לָאָדָם לִרְאוֹת כָּל סְבִיבָיו... וַהֲלָכָה כַּחֲכָמִים בְּכָל הַדְּבָרִים

Rambam distingue as duas categorias de água: 'águas com limite' são um poço ou caverna cujas margens permitem que uma pessoa parada veja todo o perímetro ao redor; 'águas sem limite' são aquelas em que isso é impossível. Nas primeiras, se a pessoa permaneceu tempo suficiente para que fosse impossível sobreviver naquele período dentro da água, sua esposa fica permitida a se casar, pois teria sido vista caso tivesse emergido. Rambam confirma que a halachá segue os Sábios em todos os pontos desta mishná, incluindo o critério do joelho, e não a posição mais cautelosa de Rabi Meir, cujo precedente do poço é tratado como evento excepcional e não representativo.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Bartenura detalha por que o relato de Rabi Meir não invalida a regra geral, tratando-o como um caso miraculoso e não representativo.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Yevamot 16:4
וְעָלָה לְאַחַר שְׁלֹשָׁה יָמִים, דִּסְבִירָא לֵיהּ לְרַבִּי מֵאִיר אָדָם חַי בְּתוֹךְ הַמַּיִם יָמִים רַבִּים... וְרַבִּי יוֹסֵי פָּלֵיג עֲלֵיהּ. מִן הָאַרְכֻּבָּה וּלְמַטָּה, הוֹאִיל וְיָכוֹל לִחְיוֹת, לֹא תִנָּשֵׂא, שֶׁמָּא יָצָא וְלֹא רָאוּהוּ, דְּמַיִם שֶׁאֵין לָהֶם סוֹף הֵן

Bartenura explica que Rabi Meir, com base em seu precedente do poço, considerava que uma pessoa poderia sobreviver muitos dias dentro da água — e por isso, mesmo em águas com limite visível, temia que a pessoa pudesse ter saído depois de muitos dias sem ser vista. Rabi Yosei discorda, trazendo dois relatos que mostram que, quando se aguarda o tempo suficiente para a certeza da morte por afogamento (o tempo em que a alma sairia), pode-se confiar na ausência de sobrevivente. Quanto ao critério do joelho, Bartenura explica que a perda de uma perna abaixo do joelho não é necessariamente fatal — a pessoa poderia ter sobrevivido e saído da água sem ser vista, já que se trata, na prática, de uma água 'sem limite' quanto à possibilidade de observação —, mas a perda da coxa (acima do joelho) é fatal, provando a morte com certeza.