Seder Nashim · Massechet Yevamot · Perek Tet-Vav · Mishná 8 de 10

A ordem das mortes: marido e filho em terra ultramarina

הָאִשָּׁה שֶׁהָלְכָה הִיא וּבַעְלָהּ וּבְנָהּ
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A oitava mishná introduz o princípio decisivo que vai reger o restante do perek: a mesma mulher pode ser confiável ou não confiável sobre exatamente os mesmos fatos, dependendo apenas da ordem em que ela os relata — o critério é sempre se a sequência que ela conta a livra ou não da obrigação de yibum.

A mulher que foi, ela e seu marido e seu filho, para terra ultramarina, e veio e disse 'meu marido morreu e depois meu filho morreu': ela é confiável. 'Meu filho morreu e depois meu marido morreu': ela não é confiável, e há preocupação com suas palavras, e ela faz chalitzá mas não faz yibum.Quando ela partiu já sabidamente com um filho, ela não estava, no momento da partida, vinculada à zika de yibum — pois um filho já isenta a mãe dessa obrigação. Se ela agora relata que o marido morreu primeiro e o filho depois, o resultado é que, no momento presente, ela continua sem vínculo de yibum (pois quando o marido morreu, ela ainda tinha o filho vivo, que a isentava), e por isso sua palavra é aceita sem suspeita — afinal, essa versão não lhe traz benefício especial em relação à obrigação de yibum. Mas se ela inverte a ordem, dizendo que o filho morreu primeiro e o marido depois, essa versão a libertaria de uma obrigação de yibum que, de outro modo, recairia sobre ela — e por isso a mishná desconfia que ela tenha construído essa ordem especificamente para se livrar do yibum, exigindo então que ela pelo menos faça a chalitzá, por precaução, sem poder contar com o yibum como solução plena.

הָאִשָּׁה שֶׁהָלְכָה הִיא וּבַעְלָהּ לִמְדִינַת הַיָּם וּבְנָהּ עִמָּהֶם, וּבָאָה וְאָמְרָה מֵת בַּעְלִי וְאַחַר כָּךְ מֵת בְּנִי, נֶאֱמֶנֶת. מֵת בְּנִי וְאַחַר כָּךְ מֵת בַּעְלִי, אֵינָהּ נֶאֱמֶנֶת, וְחוֹשְׁשִׁים לִדְבָרֶיהָ, וְחוֹלֶצֶת וְלֹא מִתְיַבֶּמֶת:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Devarim (Deuteronômio) 19:15
לֹא־יָקוּם עֵד אֶחָד בְּאִישׁ לְכָל־עָוֹן וּלְכָל־חַטָּאת בְּכָל־חֵטְא אֲשֶׁר יֶחֱטָא עַל־פִּי שְׁנֵי עֵדִים אוֹ עַל־פִּי שְׁלֹשָׁה־עֵדִים יָקוּם דָּבָר
Não se levantará testemunha única contra um homem, por qualquer iniquidade ou por qualquer pecado, dentre todo pecado que cometer; por depoimento de duas testemunhas, ou por depoimento de três testemunhas, se estabelecerá o caso.

A leniência dos Sábios de aceitar a palavra da mulher tem, no fundo, uma lógica de credibilidade circunstancial: ela é confiável precisamente quando sua declaração não lhe traz nenhuma vantagem especial em relação a uma obrigação que ela já teria de qualquer modo, mas passa a ser suspeita quando a ordem específica dos fatos que ela relata é exatamente aquela que a libertaria de uma obrigação da qual, de outro modo, não teria como escapar. Este é o princípio explícito que vai reger as próximas duas mishnayot.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam explica com precisão por que a mesma mulher, contando os mesmos dois fatos em ordem invertida, recebe tratamentos opostos de credibilidade.

Rambam · Perush HaMishná, Yevamot 15:8
לְפִי שֶׁאָנוּ יוֹדְעִין שֶׁיֵּשׁ לָהּ בֵּן וּמִשּׁוּם כָּךְ הִיא אֲסוּרָה לְיַבֵּם, לְכָךְ לֹא נַאֲמִין אוֹתָהּ כְּשֶׁהִיא אוֹמֶרֶת מֵת בְּנִי וְאַחַר כָּךְ מֵת בַּעְלִי כְּדֵי שֶׁתְּהֵא מֻתֶּרֶת לְיַבֵּם, לְפִי שֶׁהָאִישׁ שֶׁהוּא בָּרוּר אֶצְלֵנוּ שֶׁהִיא אֲסוּרָה עָלָיו בְּאֵיזֶה עִנְיָן שֶׁיִּהְיֶה, לֹא נַאֲמִין אוֹתָהּ שֶׁנִּסְתַּלֵּק הָאִסּוּר בְּדִבּוּרָהּ

Rambam explica o princípio geral por trás desta mishná: como sabemos com certeza que ela tinha um filho quando partiu, e por isso já estava presumivelmente isenta do yibum, não confiamos nela quando diz 'meu filho morreu e depois meu marido morreu' — pois essa é exatamente a ordem que a livraria da proibição de yibum que, de outro modo, sabemos com certeza que recairia sobre ela. Como já sabíamos com certeza da existência dessa proibição potencial antes mesmo dela falar, sua própria palavra não tem força suficiente para removê-la, e por isso continuamos cautelosos, exigindo pelo menos a chalitzá.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Bartenura confirma a mesma lógica em termos quase idênticos, contrastando-a com a leniência plena da mishná anterior.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Yevamot 15:8
מֵת בַּעְלִי וְאַחַר כָּךְ מֵת בְּנִי נֶאֱמֶנֶת, הוֹאִיל וְהָיָה לָהּ בֵּן וְלֹא הָיְתָה בְּחֶזְקַת זְקוּקָה לְיָבָם כְּשֶׁיָּצְאָה, הַשְׁתָּא נַמִּי כִּי אָמְרָה מֵת בַּעֲלִי וְאַחַר כָּךְ מֵת בְּנִי, שֶׁאֵין בָּהּ זִקַּת יָבָם, מְהֵימְנָא. אֲבָל כִּי אָמְרָה מֵת בְּנִי וְאַחַר כָּךְ מֵת בַּעֲלִי וְרוֹצָה לְהִתְיַבֵּם, לֹא מְהֵימְנָא, וְחוֹלֶצֶת וְלֹא מִתְיַבֶּמֶת

Bartenura resume o princípio com clareza: como ela partiu com um filho e por isso não estava, na origem, sob presunção de vínculo de yibum, sua declaração de que o marido morreu primeiro mantém essa mesma condição — ela continua sem vínculo de yibum tanto antes quanto depois de sua fala, e por isso é plenamente confiável. Mas quando ela inverte a ordem, buscando agora se casar por yibum — algo que a presunção original não permitiria —, sua palavra sozinha não basta para essa mudança de status, e ela deve fazer ao menos a chalitzá, por precaução, sem poder contar com o yibum.