Seder Nashim · Massechet Yevamot · Perek Tet-Vav · Mishná 7 de 10

A cadeia de mortes e a disputa entre Rabi Tarfon e Rabi Akiva

אָמְרָה מֵת בַּעְלִי וְאַחַר כָּךְ מֵת חָמִי
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A sétima mishná estende o princípio da mishná anterior a um novo cenário — a ordem em que marido e sogro morreram — e depois generaliza inteiramente a disputa entre Rabi Tarfon e Rabi Akiva para dois casos célebres de incerteza múltipla, sem qualquer relação com viuvez: o noivo que não sabe com qual de cinco mulheres se casou, e o ladrão que não sabe de qual de cinco pessoas roubou.

Ela disse 'meu marido morreu' e depois 'meu sogro morreu': ela se casa e recebe sua ketubá, e sua sogra fica proibida. Se ela era filha de Israel casada a um kohen, coma da trumá — palavras de Rabi Tarfon. Rabi Akiva diz: este não é o caminho que a retira da transgressão, a menos que fique proibida de se casar e proibida de comer da trumá. Desposou uma de cinco mulheres e não sabe qual desposou, e cada uma diz 'a mim ele desposou': ele dá um get para cada uma, e deixa a ketubá entre elas e se retira — palavras de Rabi Tarfon. Rabi Akiva diz: este não é o caminho que o retira da transgressão, a menos que dê get e ketubá para cada uma. Roubou de um de cinco e não sabe de qual roubou, e cada um diz 'a mim ele roubou': ele deixa o roubado entre eles e se retira — palavras de Rabi Tarfon. Rabi Akiva diz: este não é o caminho que o retira da transgressão, a menos que pague o roubado a cada um.No primeiro caso, a ordem cronológica importa: como ela já é presumivelmente livre para se casar antes mesmo de mencionar o sogro, sua palavra sobre a sogra vem tarde demais para vinculá-la — a nora não pode testemunhar sobre a própria sogra, por suspeita estrutural de rivalidade, e a sogra permanece proibida de fazer yibum com base nessa mesma incerteza. Nos dois casos seguintes, a disputa generaliza-se para qualquer incerteza múltipla, mesmo sem relação com morte: Rabi Tarfon propõe uma solução prática de compromisso — cumprir a obrigação apenas uma vez, deixando o valor disponível para quem provar ter razão —, enquanto Rabi Akiva insiste que a verdadeira saída da transgressão exige cumprir integralmente a obrigação perante cada uma das partes possíveis, por mais oneroso que seja, já que a incerteza sobre qual delas é a correta não isenta de responsabilidade para com todas.

אָמְרָה מֵת בַּעְלִי וְאַחַר כָּךְ מֵת חָמִי, תִּנָּשֵׂא וְתִטֹּל כְּתֻבָּתָהּ, וַחֲמוֹתָהּ אֲסוּרָה. הָיְתָה בַת יִשְׂרָאֵל לְכֹהֵן, תֹּאכַל בַּתְּרוּמָה, דִּבְרֵי רַבִּי טַרְפוֹן. רַבִּי עֲקִיבָא אוֹמֵר, אֵין זוֹ דֶרֶךְ מוֹצִיאַתָּה מִידֵי עֲבֵרָה, עַד שֶׁתְּהֵא אֲסוּרָה לִנָּשֵׂא, וַאֲסוּרָה לֶאֱכֹל בַּתְּרוּמָה. קִדֵּשׁ אַחַת מֵחָמֵשׁ נָשִׁים וְאֵינוֹ יוֹדֵעַ אֵיזוֹ קִדֵּשׁ, כָּל אַחַת אוֹמֶרֶת אוֹתִי קִדֵּשׁ, נוֹתֵן גֵּט לְכָל אַחַת וְאֶחָת, וּמַנִּיחַ כְּתֻבָּה בֵּינֵיהֶן וּמִסְתַּלֵּק, דִּבְרֵי רַבִּי טַרְפוֹן. רַבִּי עֲקִיבָא אוֹמֵר, אֵין זוֹ דֶרֶךְ מוֹצִיאַתּוּ מִידֵי עֲבֵרָה, עַד שֶׁיִּתֵּן גֵּט וּכְתֻבָּה לְכָל אַחַת וְאֶחָת. גָּזַל אֶחָד מֵחֲמִשָּׁה וְאֵין יוֹדֵעַ מֵאֵיזֶה גָזַל, כָּל אֶחָד אוֹמֵר אוֹתִי גָזַל, מַנִּיחַ גְּזֵלָה בֵּינֵיהֶן וּמִסְתַּלֵּק, דִּבְרֵי רַבִּי טַרְפוֹן. רַבִּי עֲקִיבָא אוֹמֵר, אֵין זוֹ דֶרֶךְ מוֹצִיאַתּוּ מִידֵי עֲבֵרָה, עַד שֶׁיְּשַׁלֵּם גְּזֵלָה לְכָל אֶחָד וְאֶחָד:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Devarim (Deuteronômio) 19:15
לֹא־יָקוּם עֵד אֶחָד בְּאִישׁ לְכָל־עָוֹן וּלְכָל־חַטָּאת בְּכָל־חֵטְא אֲשֶׁר יֶחֱטָא עַל־פִּי שְׁנֵי עֵדִים אוֹ עַל־פִּי שְׁלֹשָׁה־עֵדִים יָקוּם דָּבָר
Não se levantará testemunha única contra um homem, por qualquer iniquidade ou por qualquer pecado, dentre todo pecado que cometer; por depoimento de duas testemunhas, ou por depoimento de três testemunhas, se estabelecerá o caso.

Nos dois casos finais desta mishná, a Torá exige, respectivamente, a entrega de um documento formal de divórcio a quem foi legitimamente desposada e a devolução integral do que foi roubado a seu dono verdadeiro — e a incerteza sobre a identidade exata da pessoa não anula essas obrigações, apenas as multiplica diante de cada candidata possível, segundo a posição de Rabi Akiva.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam decide a favor de Rabi Akiva nos dois casos finais — kiddushin duvidoso e roubo duvidoso —, embora a halachá do início da mishná (sobre a sogra e a trumá) continue seguindo Rabi Tarfon como na mishná anterior.

Rambam · Perush HaMishná, Yevamot 15:7
וְהֲלָכָה כְּרַבִּי עֲקִיבָא. וּבְמִשְׁנָה הָרִאשׁוֹנָה, לְפִי שֶׁאָנוּ יוֹדְעִין שֶׁיֵּשׁ לָהּ בֵּן וּמִשּׁוּם כָּךְ הִיא אֲסוּרָה לְיַבֵּם, לְכָךְ לֹא נַאֲמִין אוֹתָהּ כְּשֶׁהִיא אוֹמֶרֶת מֵת בְּנִי וְאַחַר כָּךְ מֵת בַּעְלִי כְּדֵי שֶׁתְּהֵא מֻתֶּרֶת לְיַבֵּם, לְפִי שֶׁהָאִישׁ שֶׁהוּא בָּרוּר אֶצְלֵנוּ שֶׁהִיא אֲסוּרָה עָלָיו בְּאֵיזֶה עִנְיָן שֶׁיִּהְיֶה, לֹא נַאֲמִין אוֹתָהּ שֶׁנִּסְתַּלֵּק הָאִסּוּר בְּדִבּוּרָהּ, וּלְכָךְ חוֹשְׁשִׁין לִדְבָרֶיהָ

Rambam decide que, quanto ao noivo que desposou uma de cinco mulheres sem saber qual, e ao ladrão que roubou de um de cinco sem saber de quem, a halachá segue Rabi Akiva: a única forma genuína de sair completamente da transgressão é cumprir a obrigação integralmente perante cada uma das partes possíveis — entregando get e ketubá a cada mulher, e pagando o valor roubado a cada possível vítima —, mesmo que isso signifique um custo multiplicado. Rambam explica ainda o princípio geral por trás de casos como o da sogra: quando já sabemos com certeza que uma proibição existe (como a de uma mulher com filho vivo, vinculada à zika de yibum), sua própria palavra não basta para removê-la dessa proibição já estabelecida — por isso continuamos cautelosos com suas declarações nesses casos.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Bartenura explica por que a nora não pode testemunhar sobre a própria sogra, e confirma que a halachá segue Rabi Tarfon apenas na primeira parte da mishná, mas Rabi Akiva nos dois casos finais.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Yevamot 15:7
אָמְרָה מֵת בַּעְלִי וְאַחַר כָּךְ מֵת חָמִי, חֲמוֹתָהּ אֲסוּרָה, שֶׁאֵין כַּלָּה מְעִידָה עַל חֲמוֹתָהּ. וְאַף עַל גַּב דְּאָמְרָה בְּרֵישָׁא מֵת בַּעְלִי דְּתוּ אֵינָהּ כַּלָּתָהּ וַהֲוַאי נָכְרִית, אֲפִלּוּ הָכִי לֹא מְהֵימְנָא. הָיְתָה בַת יִשְׂרָאֵל לְכֹהֵן תֹּאכַל בַּתְּרוּמָה, וּבְהָא נַמִּי הֲלָכָה כְּרַבִּי טַרְפוֹן. אֲבָל בְּקִדֵּשׁ אַחַת מֵחָמֵשׁ נָשִׁים... וְכֵן גָּזַל אֶחָד מֵחֲמִשָּׁה... בְּתַרְוַיְהוּ הֲלָכָה כְּרַבִּי עֲקִיבָא

Bartenura explica que, mesmo depois de declarar a morte do marido — o que tecnicamente a tornaria uma 'estranha' sem relação de nora com a sogra —, sua palavra sobre a morte do sogro ainda não é aceita, porque a mishná trata da suspeita estrutural de que a nora, por definição, tem interesse pessoal nessa declaração (mesmo que tecnicamente já não seja mais chamada de nora no momento em que fala). Confirma que a halachá segue Rabi Tarfon apenas quanto à trumá desta mishná (repetindo a decisão da anterior), mas segue Rabi Akiva nos dois casos finais, exigindo cumprimento integral perante cada parte possível.