Seder Nashim · Massechet Yevamot · Perek Tet-Vav · Mishná 2 de 10

Bet Hilel muda de posição sobre o alcance da leniência

בֵּית הִלֵּל אוֹמְרִים לֹא שָׁמַעְנוּ
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A segunda mishná documenta uma rara reviravolta halachica: Bet Hilel, que inicialmente restringia a leniência da mishná anterior a um único precedente histórico muito específico, recua diante do argumento de Bet Shamai e passa a ensinar a regra em sua forma mais ampla e geral.

Bet Hilel dizem: não ouvimos [a leniência] senão sobre a que vem da colheita, e na mesma província, e como o caso que ocorreu. Disseram-lhes Bet Shamai: tanto a que vem da colheita, quanto a que vem da colheita de azeitonas, quanto a que vem da vindima, quanto a que vem de uma província para outra. Os Sábios não falaram da colheita senão porque era o caso comum. Bet Hilel voltou atrás para ensinar como Bet Shamai.Bet Hilel, tomando ao pé da letra o precedente histórico específico que deu origem à leniência da mishná anterior — um caso ocorrido durante a colheita de trigo, dentro da mesma província —, limitava a regra apenas a essas circunstâncias exatas. Bet Shamai argumenta que essa restrição é infundada: os Sábios simplesmente descreveram o caso concreto que de fato ocorreu (הוֹוֶה) para ilustrar a regra, sem pretender que ela se aplicasse apenas àquela situação específica. A mesma leniência vale igualmente para qualquer época de trabalho sazonal — azeitonas, vindima — e mesmo quando a mulher vem de uma província diferente daquela onde o marido desapareceu. Diante desse argumento, Bet Hilel recua de sua posição original.

בֵּית הִלֵּל אוֹמְרִים, לֹא שָׁמַעְנוּ אֶלָּא בְּבָאָה מִן הַקָּצִיר, וּבְאוֹתָהּ מְדִינָה, וּכְמַעֲשֶׂה שֶׁהָיָה. אָמְרוּ לָהֶן בֵּית שַׁמַּאי, אַחַת הַבָּאָה מִן הַקָּצִיר, וְאַחַת הַבָּאָה מִן הַזֵּיתִים, וְאַחַת הַבָּאָה מִן הַבָּצִיר, וְאַחַת הַבָּאָה מִמְּדִינָה לִמְדִינָה. לֹא דִבְּרוּ חֲכָמִים בַּקָּצִיר אֶלָּא בַהֹוֶה. חָזְרוּ בֵית הִלֵּל לְהוֹרוֹת כְּבֵית שַׁמָּאי:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Devarim (Deuteronômio) 19:15
לֹא־יָקוּם עֵד אֶחָד בְּאִישׁ לְכָל־עָוֹן וּלְכָל־חַטָּאת בְּכָל־חֵטְא אֲשֶׁר יֶחֱטָא עַל־פִּי שְׁנֵי עֵדִים אוֹ עַל־פִּי שְׁלֹשָׁה־עֵדִים יָקוּם דָּבָר
Não se levantará testemunha única contra um homem, por qualquer iniquidade ou por qualquer pecado, dentre todo pecado que cometer; por depoimento de duas testemunhas, ou por depoimento de três testemunhas, se estabelecerá o caso.

Toda leniência que os Sábios instituem além da letra estrita da Torá — como a aceitação da palavra de uma única mulher — precisa ter seu alcance exato delimitado com precisão: aplica-se ela apenas ao precedente histórico específico que a originou, ou à razão mais ampla por trás dele? Esta mishná resolve a favor da segunda leitura: o precedente descrito (a colheita) era apenas ilustrativo do caso comum, e a regra vale igualmente para qualquer trabalho sazonal e qualquer combinação de províncias.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam explica a razão prática por trás da leniência mais ampla, ligando-a ao próprio texto padrão da ketubá.

Rambam · Perush HaMishná, Yevamot 15:2
זֶה מְבֹאָר, לְפִי שֶׁהוּא נָתַן לָהּ רְשׁוּת, כְּשֶׁתִּנָּשֵׂא תִּטֹּל כְּתֻבָּתָהּ, לְפִי שֶׁמִּתְּנָאֵי הַכְּתֻבָּה: כְּשֶׁתִּנָּשְׂאִי לְאַחֵר תִּטְּלִי מַה שֶּׁכָּתוּב לִיכִי

Rambam liga a extensão da leniência ao próprio texto da ketubá: como o marido, ao redigir o documento, já concedeu à esposa a permissão explícita de que, caso venha a se casar com outro, ela receberá o valor nele escrito, essa cláusula por si só demonstra que a intenção da leniência sempre foi ampla — abrangendo qualquer circunstância em que ela viesse a declarar-se viúva, e não apenas o precedente específico da colheita de trigo.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Bartenura relata o precedente histórico exato que originou a mishná anterior, e por que os Sábios trataram esse caso apenas como exemplo do comum, sem restringir a regra a ele.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Yevamot 15:2
בְּבָאָה מִן הַקָּצִיר, כְּמַעֲשֶׂה שֶׁהָיָה שֶׁהָלְכוּ בְּנֵי אָדָם לִקְצֹר חִטִּין וּנְשָׁכוֹ נָחָשׁ לְאֶחָד מֵהֶם וָמֵת, וּבָאָה וְהוֹדִיעָה בְּבֵית דִּין וְשָׁלְחוּ וּמָצְאוּ כִּדְבָרֶיהָ. וְלֹא הִתִּירוּ חֲכָמִים אֶלָּא דֻּגְמָתוֹ, שֶׁיְּהֵא הַדָּבָר קָרוֹב. אֶלָּא בַהֹוֶה, מַעֲשֶׂה שֶׁהָיָה כָּךְ הָיָה, וְהוּא הַדִּין לִשְׁאָר מְקוֹמוֹת

Bartenura conta o episódio concreto por trás da leniência: um grupo de pessoas foi colher trigo, uma cobra mordeu um deles e ele morreu; sua esposa veio e avisou o tribunal, que enviou mensageiros e confirmou suas palavras. Bet Hilel, tomando esse relato ao pé da letra, inicialmente pensava que a leniência só se aplicava quando as circunstâncias fossem próximas o bastante — mesma região, mesma estação. Mas a expressão final da mishná, 'os Sábios não falaram [da colheita] senão porque era o caso comum', esclarece que o episódio foi citado apenas como ilustração típica, e a mesma regra vale igualmente para qualquer outro lugar e qualquer outra época do ano.