Bet Hilel dizem: não ouvimos [a leniência] senão sobre a que vem da colheita, e na mesma província, e como o caso que ocorreu. Disseram-lhes Bet Shamai: tanto a que vem da colheita, quanto a que vem da colheita de azeitonas, quanto a que vem da vindima, quanto a que vem de uma província para outra. Os Sábios não falaram da colheita senão porque era o caso comum. Bet Hilel voltou atrás para ensinar como Bet Shamai. — Bet Hilel, tomando ao pé da letra o precedente histórico específico que deu origem à leniência da mishná anterior — um caso ocorrido durante a colheita de trigo, dentro da mesma província —, limitava a regra apenas a essas circunstâncias exatas. Bet Shamai argumenta que essa restrição é infundada: os Sábios simplesmente descreveram o caso concreto que de fato ocorreu (הוֹוֶה) para ilustrar a regra, sem pretender que ela se aplicasse apenas àquela situação específica. A mesma leniência vale igualmente para qualquer época de trabalho sazonal — azeitonas, vindima — e mesmo quando a mulher vem de uma província diferente daquela onde o marido desapareceu. Diante desse argumento, Bet Hilel recua de sua posição original.
Toda leniência que os Sábios instituem além da letra estrita da Torá — como a aceitação da palavra de uma única mulher — precisa ter seu alcance exato delimitado com precisão: aplica-se ela apenas ao precedente histórico específico que a originou, ou à razão mais ampla por trás dele? Esta mishná resolve a favor da segunda leitura: o precedente descrito (a colheita) era apenas ilustrativo do caso comum, e a regra vale igualmente para qualquer trabalho sazonal e qualquer combinação de províncias.
Rambam explica a razão prática por trás da leniência mais ampla, ligando-a ao próprio texto padrão da ketubá.
Rambam liga a extensão da leniência ao próprio texto da ketubá: como o marido, ao redigir o documento, já concedeu à esposa a permissão explícita de que, caso venha a se casar com outro, ela receberá o valor nele escrito, essa cláusula por si só demonstra que a intenção da leniência sempre foi ampla — abrangendo qualquer circunstância em que ela viesse a declarar-se viúva, e não apenas o precedente específico da colheita de trigo.
Bartenura relata o precedente histórico exato que originou a mishná anterior, e por que os Sábios trataram esse caso apenas como exemplo do comum, sem restringir a regra a ele.
Bartenura conta o episódio concreto por trás da leniência: um grupo de pessoas foi colher trigo, uma cobra mordeu um deles e ele morreu; sua esposa veio e avisou o tribunal, que enviou mensageiros e confirmou suas palavras. Bet Hilel, tomando esse relato ao pé da letra, inicialmente pensava que a leniência só se aplicava quando as circunstâncias fossem próximas o bastante — mesma região, mesma estação. Mas a expressão final da mishná, 'os Sábios não falaram [da colheita] senão porque era o caso comum', esclarece que o episódio foi citado apenas como ilustração típica, e a mesma regra vale igualmente para qualquer outro lugar e qualquer outra época do ano.